Gênese: A Saga da Rosa - Temporada I
37 Hora Certa
“No fundo de um buraco ou de um poço, acontece descobrir-se as estrelas.”
— Aristóteles
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SCORPIUS
Eu não me recordava de nada do que havia acontecido na noite anterior.
Tudo do qual eu me lembrava era de ter partido com Rose em direção à Casa de Veraneio Heaven, e de termos entrado numa estranha redoma de pedra.
Daquele momento em diante, as lembranças ficavam borradas, e eram engolidas pela escuridão. Como se alguém tivesse cortado fora uma sequência do rolo de um filme.
Estava ansioso para indagar à Rose o que havia acontecido.
Mas vê-la na maca da Ala Hospitalar, tão abatida e trêmula, me indicou que não era a melhor hora de incomodá-la com perguntas. Então decidi ficar calado de início.
Uma pena que Alvo e Hugo não pensavam da mesma forma, e praticamente nutriam minha ânsia desenfreada de obter respostas.
— Eu morri de preocupação com vocês dois – grunhiu Alvo, parecendo se refrear para não socar a prima e a mim – o que diabos aconteceu naquela mansão? E você – embora soubesse que merecia, enrijeci quando ele socou meu braço – custava me pedir a droga da capa emprestada, Scorpius? Por que esconder as coisas do seu melhor amigo?
— Quer calar a boca, Al? — Hugo fechou a cara – deve haver um bom motivo para eles terem feito isso sem nos contar nada – seu cenho relaxou, mudando para uma careta interrogatória – e qual seria?
Eu e Rose nos entreolhamos.
Droga. O que eu diria à eles?
— Bem… — mordi o lábio – nós tentamos retornar ao casarão… para buscarmos mais respostas. Não quisemos envolver vocês – admiti, vincando a testa de remorso – achamos que já tinham feito muito por nós.
— Por mim – corrigiu Rose, numa tosse seca.
Estreitei o olhar para ela, reprimindo a vontade de revirar as órbitas. O altruísmo de Rose para tentar assumir a culpa era previsível – ainda que de uma maneira tocante.
— Por nós – repeti, ignorando quando ela fechou a cara – nós… descobrimos um tipo de redoma… nos fundos da propriedade. Tentamos entrar lá dentro… ver se havia alguma coisa… que pudesse nos ajudar….
Massageei a cabeça, voltando a tentar lembrar do que havia acontecido depois. Mas nada se revelou em minha mente.
— Não conseguimos – ouvi Rose me cortar repentinamente – entramos lá… não havia nada. E então… eu e Scorpius desmaiamos.
Sua voz estava trêmula e baixa, como se ela mesma não confiasse nas próprias palavras.
— Tem certeza disso, Rosie? — perguntei – por que teríamos desmaiado? Eu não me lembro de nada – confessei, intrigado – mas não acho que simplesmente… não havia nada ali.
Eu tinha certeza de que havíamos encontrado alguma coisa no interior da redoma. Mas era exatamente ali que as memórias me deixavam na mão.
— É sério, Scorpius. Não encontramos nada – reafirmou minha amiga, esganiçada.
Havia alguma coisa errada. Seus olhos se encontravam agitados, e eu jurava ver, em seu rosto, uma expressão de contida melancolia.
Sim… Rose havia encontrado algo lá.
E o que havia visto a deixou absolutamente perturbada.
De qualquer forma, era fato que ela não estava disposta a me contar. Pelo menos, não agora. E eu não a forçaria, sendo que estava tão fragilizada e tensa. Jamais a obrigaria a revelar a verdade contra sua vontade.
— Mas Rosie… — começou Alvo.
— Sério, Alvo. Só pare – exortei-o, sério – Rose precisa descansar. Não vamos perturbá-la com isso agora.
Notei que Rose ofegou alto, aparentando um inesperado laivo de arrependimento.
— Eu… estou bem – disse, embora sem convicção – fico feliz… que estejam aqui.
— Eu fiquei com medo, Rosie – Alvo a abraçou, preocupado – vocês sumiram do nada. Ficamos horas sem notícias.
— Sinto muito – Rose se desculpou – prometo que não farei mais isso. Sempre vou avisar vocês – deu uma risada fraca – quando for fazer burrada de novo.
Finalmente, quebrando aquela atmosfera tensa, nós quatro rimos em conjunto.
— Mas é estranho… o que a tia Hermione está fazendo aqui? — Alvo titubeou – ela falou alguma coisa com você?
Apenas eu pareci notar que Rose empalideceu.
— Nada demais – pigarreou – ela ficou preocupada… quando Alvo mandou a carta, veio correndo para a escola me ver…
Alvo baixou a cabeça, desanimado.
— Desculpa, Rosie… é que fiquei tão desesperado… e achei que titia merecia saber o que estava acontecendo. Se algo de ruim acontecesse com vocês… eu… — suspirou – não sabia a quem recorrer. Entrei em desespero!
— Tudo bem, Al – Rose lhe afagou o ombro – você só fez o que achou melhor – seu leve sorriso desapareceu – e a visita dela… realmente veio a calhar.
— Você contou pra ela? — Hugo comentou – sobre o que estávamos procurando?
Rose se retraiu.
— Eu… contei sim – inspirou profundamente, aparentando uma nítida insegurança – achei que ela deveria saber sobre tudo.
— E o que decidiram? — foi minha vez de perguntar – o que ela te disse?
As mãos dela se fecharam em punhos por cima do lençol.
— Não vou mais correr atrás de respostas – declarou – eu… vou esperar… — sacudiu a cabeça, como se tentasse espantar um gira-gira irritante – ela não me culpou… — havia uma inconsistência gritante em seu tom de voz – só pediu… que eu ficasse longe de encrenca…
Agora eu tinha certeza. Ela estava mesmo escondendo alguma coisa;
— Ok – me rendi, exasperado. Minha anterior empatia tinha desaparecido, me fazendo reagir de forma rude – você precisa descansar, Rosie. Nós conversamos com mais calma depois – lancei um olhar enfático á Alvo – melhor irmos andando… McGonagall com certeza vai querer falar com a gente depois dessa confusão…
Por mais que soubesse que Rose estava abalada, me sentia traído. Era para sermos melhores amigos, e confiarmos um no outro.
Saber que estava ocultando algo importante de mim, depois de tudo que eu havia feito para ajudá-la, me causou uma imensa mágoa.
Ela ofegou. Parecia desolada.
— Scorpius…
— A gente se vê mais tarde, Rosie – cortei-a, dando as costas para os três, me encaminhando rapidamente para fora da Ala Hospitalar.
Antes que eu conseguisse contornar o corredor, Alvo me alcançou.
— Scorpius!
Virei na direção dele, amarrando a cara.
— O que foi?
— Eu é que pergunto – grasnou, ofegante – o que deu em você?
Meus ombros desabaram.
— Você não viu, Alvo? — ralhei, irritado – Rose sabe de alguma coisa… e não quer nos contar. Seja lá o que sua tia disse para ela… — balancei a cabeça, irritado – não acha isso estranho? Do nada, ela resolver se comportar de maneira estranha… evasiva… evitando responder nossas perguntas?
— Talvez seja o choque… — supôs ele, sem graça – todos nós tivemos uma noite agitada, Scorpius… dê um tempo pra ela se recuperar. Tenho certeza que… quando estiver pronta… Rosie vai se abrir com a gente. Vamos esperar um pouco.
— É – concordei mecanicamente – talvez…
Embora ainda me sentisse chateado, assumi que Alvo poderia ter razão. Dependendo do que havia acontecido, Rose podia ter lá suas razões para não nos contar tudo agora.
Então era o jeito. Eu teria que ser paciente… e esperar.
Só não sabia, ainda, que a espera seria tão longa.
A partir dali, o restante do ano escolar passou-se ridiculamente rápido.
Tentando não tocar mais no assunto sobre o que havia ocorrido na Casa de Veraneio Heaven, resolvi me dedicar exclusivamente ao término de meus estudos do segundo ano.
Havia decidido manter uma trégua com Rose sobre os acontecimentos anteriores, não insistindo mais naquela questão. Porém, aquilo parecia ter esfriado consideravelmente nossa antiga cordialidade, ao ponto de que já não conversávamos nem nos encontrávamos mais com tanta frequência.
Alvo fazia o possível para voltarmos a uma convivência digna, mas eu ainda estava muito magoado por ficar naquela escuridão.
Por fim, no último dia de aula, fiz uma última tentativa de tirar aquilo a limpo.
Já estávamos guardando nossas bagagens, indo para o nosso último café da manhã no castelo, quando a encontrei no corredor. Parecia ter deixado cair uma de suas maletas menores, e estava ajoelhada no chão, repondo todos os pertences de volta ao seu lugar.
— Deixa que eu te ajudo – falei, me abaixando e começando a apanhar seu material.
— Obrigada – Rose sussurrou, guardando seus pergaminhos de volta na pasta, com desnecessária violência.
Ficamos alguns segundos em silêncio.
— Animada para voltar pra casa? — falei de repente.
Rose parou de ajeitar suas penas tinteiro, erguendo o olhar.
— Scorpius… — suspirou – eu sei que você ainda quer saber o que houve naquela noite…
— Não, não quero – menti, sibilando em tom baixo.
— Claro que quer – ela bufou – eu… só não sei como te explicar. E não… consigo te contar. Eu quero… — baixou de novo o queixo, lançando um olhar perdido para suas roupas na maleta – mas não posso. Não agora… — mordeu o lábio – não estou pronta… para isso.
— Você sabe que pode me contar qualquer coisa, Rosie – disse, aborrecido – você que está fazendo jogo duro… e guardando segredos de mim!
— Não faço isso por que quero – sua voz também tomou um timbre mais duro – você é meu melhor amigo, Scorpius. Se eu pudesse, te contaria tudo agora mesmo.
— Então faça isso – grunhi – que droga, Rosie! Era para podermos contar um com o outro! Do que você tem tanto medo?
Rose tomou minha mão na dela repentinamente.
Perplexo, senti um formigamento estranho surgir em minha palma. Algo vibrante e profundo, que causou arrepios em minha espinha.
Os olhos de Rose me sondaram.
Íris da cor do âmbar.
— Do desconhecido – sussurrou – eu tenho medo… do desconhecido.
Enrijeci, aturdido.
Rose piscou, e seus olhos retornaram à cor azul.
— O que… foi isso? — ofeguei, paralisado.
Minha amiga suspirou.
— É exatamente o tipo de coisa que eu queria… mas não posso… — enfatizou – contar agora.
Assenti, ainda perplexo. Aquilo havia sido bizarro.
E se tinha alguma associação com o que Rose estava escondendo, talvez houvesse mesmo a necessidade de aguardar sua confissão voluntária.
— Está bem – ergui as mãos em gesto de rendição – mas… se uma hora estiver pronta… promete que vai me contar tudo?
— Scorpy…
— Me promete, Rosie?
Ela revirou o olhar, soltando um suspiro pesado.
— Prometo, Scorpius. Quando chegar a hora – jurou – irei lhe contar tudo – ergueu a mão – ainda somos melhores amigos, não é?
Soltei um muxoxo.
Rose exclamou, surpresa, quando peguei sua mão, puxando-a para um abraço.
— Sempre seremos melhores amigos, Rosie – ofeguei, sacudindo a cabeça — e nada nem ninguém vai poder mudar isso.
Ouvi-a rir baixinho, retribuindo o abraço, deitando a cabeça em meu ombro.
— Ahhhhh… que bonitinho!
Nos separamos, assustados, quando Michael Stark e Surya Patil surgiram no corredor, parecendo achar graça na cena.
Rose fechou a maleta com um estrépido, colocando a maleta de pé. Também me levantei, estreitando o olhar para os dois corvinos.
— Oi, Surya… Michael – ela os cumprimentou, corada.
— Ahhh… mamãe vai surtar – Michael sorriu – ela apostou dois galeões em vocês.
— Espera. Apostou o quê? — grasnou Rose.
— Ahn, nada – riu nervosamente – ela vive dizendo pra todo mundo do gabinete da Juíza Weasley que vocês dois ainda vão ser um casal.
— A sua mãe? — Surya ergueu uma sobrancelha – mas não era você que estava gritando no Salão Comunal que queria ver os dois juntos?
Michael guinchou.
— Talvez….? ROSIE, ABAIXA ESSA VARINHA!
Caí na risada quando Rose soltou o malão, se jogando feito uma pantera em cima de Stark, que começou a fugir desesperadamente corredor afora.
Surya também gargalhou, socando a parede de tanto rir, enquanto eu assistia minha amiga perseguindo o pobre garoto ao longo do castelo.
Cruzei os braços, baixando o olhar, tamborilando distraidamente meus dedos sobre a maleta recém-abandonada de Rose.
Então estava feito. Quando estivesse pronta, Rose se abriria comigo. Não valia mais a pena continuar encucado sobre aquilo.
Ainda assim, algo me aprecia muito errado naquela história toda.
Minha amiga estava temerosa.
E algo que Rose Weasley temia não era exatamente o tipo de coisa que devia ser ignorada.
Em breve – num futuro não muito distante – eu descobriria que tudo era bem mais complexo do que eu havia imaginado.
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