Gêmeas
70 Insegurança
Thalia sorriu minimamente para Nico quando ele sentou ao lado dela na aula de química, o cumprimentando com um aceno mínimo de cabeça e virando-se para frente. Seu sono tinha se esvaído, afinal depois de muito tempo ela estava tendo boas noites de sono, já que não tinha nenhum motivo para estender a noite.
Seu celular sem bateria e nenhuma criatividade para desenho a fizeram fitar o professor que dava aula. Qual o nome desse velho? Se perguntou franzindo o cenho, tinha quase certeza que ele dava aula para ela a um tempo.
— A quanto tempo ele é nosso professor? — perguntou baixo, não achava o homem estranho.
— Quatro anos — Nico respondeu, subindo as sobrancelhas surpreso.
— Ah! Entendi...qual o nome dele? — ela perguntou curiosa, o fazendo rir.
— Tá no quadro, Thalia! — ele apontou para o topo da lousa, aonde tinha escrito em letras gordas e desgrenhadas Sr. Batata?
— Batata? — questionou o fazendo rir alto e abaixar a cabeça descrente.
Todos olharam para o garoto que arregalou os olhos pigarreando, pedindo desculpa e tentando focar no seu caderno.
— Brian, Thalia! Brian! — Nico respondeu depois que as pessoas tiraram a atenção dele, a fazendo arregalando os olhos.
— Ali tá escrito Batata! — ela apontou pra o quadro, vendo-o negar em reprovação.
— Não... — ele levantou o olhar — e tá mesmo!
— Viu! — ela retorquiu animada alto demais.
— Algum problema Senhorita Grace e Senhor Di Ângelo? — o professor Batata questionou olhando os dois com uma carranca emburrada.
— Não, Senhor...! — os dois responderam em uníssono rindo no final e puxando o ar para não o fazerem alto.
— Parece que tá nascendo brotinhos na cara dele, sabe, pequenas batatinhas, raminhos — Thalia comentou, nunca tinha reparado isso, mas a barba falhada branca do homem na pele bronzeada dele aparentava.
— É e esse sobretudo da mesma cor que a pele, a blusa e a calça e o sapato, tudo faz ele lembrar muito uma batata, gente faz muito sentido! — Nico contrapôs assentindo em concordância, virando a cabeça de lado para analisar o homem que escrevia no quadro.
— Gente eu to com medo, será que ele tem filhos batatas fritas? — Thalia brincou arrancando outra risada de Nico que negou em reprovação.
— SENHOR DI ÂNGELO E SENHORITA GRACE! — o professor virou irritado batendo a mão contra a mesa, vendo os dois cessarem a risada e arregalarem os outros. — Qual o motivo de tanta graça?
— Alguém escreveu que seu nome é senhor Batata no quadro — Thalia respondeu, apontando pra lousa o vendo arregalar os olhos.
O homem se virou e começou a tentar apagar o nome escrito, sendo puxado a risada de todos os alunos ao constatarem que estava escrito com caneta permanente.
— OS DOIS, PARA FORA! — o professor gritou apontando para a porta. — E SE VOCÊS CONTINUAREM A RIR VÃO SE JUNTAR A ELES.
Todos se calaram, vendo Thalia e Nico rirem e pegarem seus materiais, indo para o lado de fora da sala.
— Ele não mandou a gente ir pra diretoria nem nada do tipo — Nico comentou assim que a porta fechou.
— Não mesmo — ela assentiu sorrindo travessa. — Então... quer ir no parque da pracinha aqui perto?
— Parece uma ótima ideia — o Di Ângelo sorriu, se apressando a correr ao lado dela até ambos estarem na pracinha.
— Seu olho deve tá uma desgraça pra você estar usando esse tapa olho de pirata — ela apontou para o objeto o fazendo crispar os lábios e assentir.
— É, Percy tem um bom gancho — concordou, a fazendo rir.
— Você mereceu, ele também teria merecido um soco, mas é... — deu de ombros abrindo a cerca colorida que dava para o pequeno cantinho de areia aonde haviam alguns brinquedos infantis.
— Eu to todo quebrado, pular por cima de uma mesa é contraindicado para colunas, fica a dica — ele sorriu notando que os brinquedos eram pequenos demais para eles.
— Obrigada, vou anotar em meu caderninho quando chegar em casa — ela retorquiu colocando a mão nos bolsos e se sentando em um balanço, indo para frente e para trás de leve.
Nico sentou ao lado dela inspirando com calma, olhando o céu claro e a tranquilidade que aquela pracinha tinha.
— Por que vocês brigaram? Sabe... o que ele disse pra chegar ao ponto de irem um pra cima do outro que nem idiotas? — a Grace questionou segurando as correntes e pegando um pouco mais de impulso no balanço.
— É... bom... o Percy estava defendendo seu ponto de vista e o dele, né? E eu...eu estava em uma crise de ciúmes idiota por algo bobo como o que você fez da sua vida antes de mim — ele respondeu sincero, abaixando a cabeça, fitando os pés que mexiam com a areia rala dos pés das crianças tanto baterem no local. — Desculpa de novo por isso, não era da minha conta e eu sei o quanto o Percy significa pra você.
— Tudo bem — ela deu de ombros, balançando — Já notou que é sempre a sua insegurança que estraga tudo? — ela indagou o vendo levantar a sobrancelha.
— Jura? Assim? Na cara? — questionou arrancando uma risada dela. — É, já notei, eu tinha tanto medo de te perder e sempre esse medo fez com que isso acontecesse.
— Você ainda não me perdeu, Nico! — ela respondeu sorrindo minimamente.
O garoto sorriu, assentindo e baixando a cabeça novamente.
— Então... se eu fingir que perco pra você em quem balança mais alto eu ganho pontinhos? — ele perguntou levantando o rosto com um sorriso sapeca que a fez boquiabrir-se.
— Eu acabo com você, Di Ângelo, antes mesmo de você pensar em fingir — retorquiu desafiadora, vendo-o dar de ombros.
— Vamos ver! — ele pegou impulso no balanço, levando seu corpo mais para trás possível e soltando, segurando nas correntes para não ir com tudo pra trás.
O brinquedo rangeu em protesto, principalmente quando Thalia se juntou a competição de quem conseguia ir mais alto naquele balanço velho. Entretanto a Grace acabou se embolando e girando com o balanço, voando e por pouco foi pega por Nico que foi com tudo pro chão fazendo os dois caírem na areia, ela em cima dele, a risada tomando conta do ambiente silencioso.
Os olhos se fitaram, o azul no negro, as risadas sessaram e o clima surgiu, a tensão entre eles era quase palpável. O Di Ângelo se aproximou, encurtando mais a distância entre seus rostos, mas ela se afastou.
— Nico, não. — pediu e ele jogou a cabeça para trás olhando o céu novamente e a soltando para que ela pudesse se sentar, sem nenhuma careta, nenhum protesto ou provocações típicas.
E ao sentar estando de costas pra ele, Thalia sorriu, mordendo o lábio inferior. Ele tinha mesmo notado? Tinha percebido a cadeia de problemas que o relacionamento deles tinha? Ele estava disposto dessa vez realmente a fazer mais do que um simples pedido de desculpas?
— Que tal um sorvete? — O Di Ângelo questionou chamando a atenção total da garota para ele, a tirando de seus devaneios.
— Adoraria.
Fale com o autor