Gêmeas
49 Eu avisei
Notas iniciais
Nico abriu os olhos levemente, sendo ofuscado pela luz que entrava da janela sem cortina. Ele piscou repetidamente tentando fazer seus olhos voltarem ao foco. Ao fazer, seus olhos foram direto para as costas da garota que estava sentada na ponta do colchão, encolhida e de cabeça baixa, fazendo-o franzir o cenho em dúvida do que estava acontecendo ali.
— Thals? – Chamou baixinho, escutando um respirar mais alto vindo dela, que virou a cabeça lentamente, o olhando por cima do ombro.
— Hum? – A morena emitiu tão baixo que quase Nico não ouviu.
— O que foi? – Questionou levantando o tronco da cama e começando a se aproximar.
— Nada. – Respondeu e deu de ombros logo em seguida.
— Você nunca acordaria primeiro que eu, convenhamos que tem algo errado. – O moreno a avaliou, vendo que ela estava com uma blusa dele e uma calcinha.
— Não tem nada errado, Nico. – Thalia sorriu e selou seus lábios por alguns segundos, para logo após se levantar e ir em direção ao banheiro. – Vou tomar um banho.
Por mais que o moreno tenha estranhado o máximo o jeito da pequena, não quis discutir nem forçar ela a falar algo que claramente ela não queria proferir, então apenas se levantou sem falar mais nenhuma palavra e vestiu uma calça de moletom negra, descendo para o outro andar e indo para a cozinha, tendo certeza que apenas uma coisa poderia anima-la naquele momento: comida.
Thalia, por sua vez, quando saiu mais relaxada do banho, colocou uma roupa descente e desceu para o andar onde Nico se encontrava, estando mais animadinha até ver o garoto cozinhando coisas que julgou ser para ela, sentindo seu peito apertar no mesmo instante, dando as costas para a cena e fazendo um bico, começando a seguir para fora de casa, mesmo tendo ouvido o garoto a chamar mais de uma vez.
Assim que saiu da casa, o tempo nublado não prejudicou a ida da menina para o píer que havia ali, se sentando na ponta da ponte e deixando suas pernas a mercê do vento, penduradas ali, estando levemente encolhida por conta do frio que castigava a falta de uma blusa.
Nico chegou por trás da menina, colocando um casaco em seu ombro sem ser notado até tal ato, fazendo-a ter um sobressalto e olhar para cima, mesmo tendo quase certeza que ele iria atrás de si, assim como sempre fazia quando pequenos.
— O que houve, princesa?
A morena não respondeu, apenas se encolheu mais contra o grosso pano do casaco, observando a água ir de um lado para o outro, tendo seu corpo ali, porém sua mente e seus pensamentos em um lugar distinto.
— Thals? – Nico insistiu, vendo que a garota realmente estava em um estado preocupante, inebriada demais, coisa que Thalia Grace nunca fora.
— Eu não consigo, Nico. – Ela murmurou quase inaudível, fazendo o Di Ângelo sentir algo se apertar dentro de si, tendo quase certeza de onde a conversa iria parar com apenas tal frase proferida.
— Não consegue o que, Thalia? – Mesmo sabendo que não deveria questionar, também sabia que se não questionasse a resposta poderia vir depois, o quebrando mais uma vez.
Sem nem ao menos perceber, lágrimas rolavam pelo rosto pálido da menina, que não teve o esforço para conte-las; ela apenas se deixou chorar, se deixou desabar ali, na frente dele.
— Eu juro que eu tentei, me esforcei o máximo, mas eu não consigo simplesmente apagar tudo o que aconteceu no passado, eu não tenho forças para isso, Nico!
O moreno apenas comprimiu os lábios de uma forma sentida, sentindo seus olhos marejarem de um jeito tão rápido que fez seu coração apertar novamente, como se algo estivesse o ferindo de uma forma tão intensa que ele não saberia dissertar o que exatamente estava sentindo no momento.
— Eu simplesmente tentei por tanto tempo ignorar que eu te amava, até namorei o Luke por quatro anos e achei que esse seria um modo que eu conseguisse me livrar dos fortes sentimentos que eu sempre tive por você, falhando miseravelmente. Então você simplesmente voltou para minha vida jogando todos os meus esforços fora tão rápido quanto eu me apaixonei por você, acabando com minha ilusão de que eu poderia viver longe, mas eu não sabia que quando eu aceitei deixar que meus sentimentos voltassem, eles voltariam de uma forma muito mais intensa e dolorosa. Eu nunca pensei que ficar perto de você fosse mais difícil do que ficar longe, cada palavra, cada olhar, cada toque, cada beijo, só me trazem a lembrança que por muito tempo eu tentei superar e eu definitivamente não aguento mais.
Ele, por sua vez, não sabia o que fazer, não sabia o que falar, as vezes a tristeza supera os demais sentimentos, tanto que você não sente mais nada, apenas um vazio bem lá no fundo, que você sabe que incomoda, mas não tem como mudar. Mais uma vez levantou o olhar, encarando os olhos azuis elétricos que não paravam de derramar lágrimas e mostravam o quão sua alma estava machucada, o quão quebrada ela estava, tanto por fora, quanto por dentro. Ali, ele viu o quão difícil deveria ser para garota fingir os sentimentos para agrada-lo ou algo do tipo, o que fazia sua dor se intensificar mais ainda, o nó em sua garganta crescer cada vez mais.
— Então tudo que um dia tivemos acaba aqui.
Sem nem mesmo deixar a garota reagir, Nico se levantou e começou a se afastar dela, sendo inebriado pelos soluços altos que a garota deixava escapar, fazendo-o ter certeza que iria se sentir mal mais tarde por deixa-la chorando. Mas não era hora para se preocupar com ela, já que o que mais temia havia acontecido: seu coração havia quebrado, e não havia nada para reconstruí-lo, já que a única coisa que poderia realizar tal, era justamente a causa que o havia feito despedaçar.
Ele se guiou até a floresta, parando estático na frente de uma árvore qualquer, observando seu tronco poucos segundos antes de começar a soca-la desesperadamente, querendo extravasar tudo o que estava sentindo, se ele conseguisse faze-lo. Quanto mais fortes os socos ficavam, mais dor ele sentia se esvaindo junto com as lágrimas que iriam deslizando por seu rosto, porém uma explosão de sentimentos voltava à tona sempre que lembrava das palavras proferidas pelos lábios que tanto amava, que tanto amou, que ainda ama.
Bianca correu em direção ao irmão, puxando-o pelos ombros, vendo o quão cego ele estava, envolvendo seus braços de um modo protetor, automaticamente sentindo a dor que ele estava sentindo, ao ver aquela imensa escuridão sem vida alguma, sem nenhum brilho.
— Acalme-se, você vai acabar se machucando...mais do que ela já machucou.
Com essa simples frase, os joelhos do Di Ângelo cederam e, ambos abraçados, foram ao chão, com ele desabando a chorar nos ombros da irmã, que sussurrava que tudo iria ficar bem, tomando a dor que ele sentia para si.
Ali perto uma cena não muito diferente acontecia. O corpo dela continuava a ser violentamente sacudido por seus soluços sem fim, suas lágrimas pareciam estar contidas desde a primeira vontade que teve de falar tudo para o moreno, porém segurou tudo em sua garganta. Tudo porque amava ele. Tudo porque ainda ama ele.
Reuniu forças e se levantou, tentando enxugar as lágrimas para poder ver o que faria, para onde iria, mas não conseguiu identificar nada, apenas focou em uma figura a sua frente, que tinha uma careta sentida e os braços abertos, pronto para consolar sua pequena irmãzinha, que sempre fizera de tudo para proteger.
Ela não hesitou em correr em sua direção, pulando dentro de seu abraço e sendo praticamente esmagada contra seu peitoral, mas dessa vez ela não ligou, ela precisava de algo que mantivesse sua sanidade, e tinha certeza que Jason era isso, afinal ele que a ajudara na primeira vez.
— Eu te avisei. – Ele tentou forçar um tom brincalhão, pelo menos uma tentativa de animar sua irmã.
— Ele foi meu primeiro e único amor, eu tinha que tentar.
— Eu queria ter te protegido disso, eu queria te proteger disso, mas eu falhei novamente, e aqui está você, sofrendo com algo que nunca deveria sentir: a dor de um coração partido. A dor de estar em ruínas. – O loiro a apertou mais ainda, sentindo-se próprio fraquejar diante do estado emocional dela, diante do que ela estava passando, sabendo que seu psicológico iria ficar acabado.
— Eu o destruí, e eu nunca quis que ele sentisse o que eu senti da primeira vez.
— Você se destruiu, Lia. – Jason murmurou, comprimindo os lábios.
— Eu já estou destruída a muito tempo, porém eu consegui me manter forte até agora.
— Eu te amo, ok?
— Não me faça juras de amor agora, por favor. – Thalia sussurrou, sua voz saindo fraca devido ao choro constante.
— Eu sinto muito.
E foi com essa frase, que Jason observou sua irmã cair no sono lentamente em seus braços, totalmente frágil, algo que ele odiava ver, desde a primeira vez que isso acontecera.
Aquele dia deveria ficar conhecido como dia da discórdia, não só pelos acontecimentos, mas sim pelas dores que iriam ficar marcadas para todo sempre ali. Naquela viagem. Naquele recinto.
Em seus pulmões não havia mais ar, o choro era silencioso e ninguém havia notado até então que Thayla estava aos prantos, porém sabia muito bem esconder isso, isso era algo que a irmã não tinha, ela sabia ser discreta em quase tudo que fazia, até mesmo quando se tratava de sofrer em silêncio.
Ela se encolheu mais contra seu corpo, deixando escapar um soluço que saíra um pouco alto demais, tampando a boca logo em seguida.
— Thayla...- Connor entrou no quarto a procura da garota, mas parou ao perceber que ela chorava. – O que houve?
A gêmea negou quase em desespero, virando-se novamente para a janela e esperando que o Stoll fosse embora e a deixasse em paz. Porém ela sentiu braços fortes rodearem sua cintura, a afastando da janela e a virando para si, a envolvendo em um abraço que, por mais que Thayla não admitisse, ela estava precisando mais do que tudo.
— Eu sou um monstro, algo abominável, Connor. – Murmurou em um fio de voz. – Eu tenho certeza que se eu fosse de encontro a minha irmã, ajuda-la, consola-la, ela me mandaria ir embora e preferia ficar sozinha. Eu não sou nada. Minha irmã gêmea não confia em mim, Connor. Ninguém confia em mim.
— Prazer, ninguém!
Por mais dor que ela sentisse, ele conseguiu arrancar um leve suspiro e um sorriso de canto, mesmo tal sumindo tão rápido quanto surgiu.
— Thayla, você não é um monstro, você esteve longe de sua irmã durante sua vida quase inteira, o que esperava? Vocês não ficariam tão próximas assim quanto Jason e ela, que sempre vivem se batendo por aí. Mas agora você está, você está para ela, deixa ela saber disso, mesmo ela não aceitando de cara, você ainda é irmã dela.
A irmã assentiu levemente, sentindo um beijo ser depositado em sua testa.
— Vem, vamos descer, eles estão vindo.
Enquanto ambos desciam, ali fora no frio do dia, Thalia estava sendo carregada por seu irmão que lamentava e por parte se culpava por não ter protegido sua irmãzinha.
Assim que eles começaram a sair do píer, Jason avistou Bianca e Nico caminhando de volta para o chalé, o que fez o loiro se assustar levemente por conta do sangue que saia das mãos do moreno, tendo certeza que ele poderia ter feito alguma besteira. Mas por seu estado, estando encostado na irmã, ele pode ver que de todo não estava tão ruim.
Nico, por sua vez, cometeu o erro de levantar sua cabeça e mirar a cena a sua frente, olhando diretamente para o rosto vermelho e inchado da garota adormecida, que tinha uma leve careta de dor como se tudo não passasse de um pesadelo.
— Eu a fiz chorar até dormir...- Murmurou meio perdido, fazendo Bianca engolir em seco a apertar mais o braço do irmão, tendo medo que ele desabasse novamente.
— Não foi você, foi ela mesma. – Jason, que estava perto o suficiente para ouvi-lo, murmurou e o encarou tristemente. – Ela se auto destruiu e levou você com ela.
O loiro apenas os deixou para trás, caminhando em direção ao seu chalé tendo a certeza que o clima ficaria péssimo, adentrando na varanda e tendo a porta aberta por Thayla, que parecia ter chorado a não pouco tempo, já que seus olhos estavam inchados.
— Vem comigo. – Pediu então, passando por ela e subindo as escadas em direção ao próprio quarto, que dividia com Piper.
Assim que entrou, Thayla entrou atrás e encostou a porta atrás de si, vendo o irmão se debruçar na cama e depositar Thalia com todo o cuidado ali, que assim que foi posta por inteiro ali, abriu os olhos azuis elétricos sem vida alguma.
A gêmea mais nova caminhou cautelosamente até a irmã, tendo noção que seus movimentos eram muito bem analisados por ela, mas não hesitou ao abraça-la e a apertar contra seu corpo.
Não muito tempo depois, o abraço fora retribuído na mesma intensidade, fazendo Thayla fraquejar diante da situação e acabar por fungar, não querendo chorar ali.
Jason sorriu tristemente, caminhando até a cama e se deitando ali, fazendo algo que eles não faziam a muito tempo. O loiro ficou no meio e cada irmã de um lado, ambos abraçados, até que todos ali adormeceram juntos.
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