Gypsy

30 Somewhere In The Crowd There's You.


Notas iniciais
oi queridinhos, como vai vocês? Sou amiga da escritora da fic, e ela pediu mil perdões, mas não aconteceu umas coisas (bem bad mesmo, confiem) e ela, infelizmente, tá sumida por tempo indeterminado, sem previsão pra continuação das fics que estão em aberto aqui. Mas... como esta fic está no final e faltava muito pouco pra postar, ela me pediu pra postar logo pra vocês, tudinho de uma vez! Então aqui está, perdão de novo por ela!

Escolho um vestido bem bonito, com o maior cuidado, afinal de contas estou indo pra Broadway, não para um espetáculo qualquer, e tenho que ficar apresentável. Como meu cabelo raramente tem jeito quando preciso que ele fique bonito passo a chapinha – antes liso do que armado, afinal.

Fico pronta exatamente na hora que ele chega ao prédio. Eu devia exercitar mais essa arte da pontualidade, reflito, arte que aprende só depois do diploma, é claro. Sam está elegantíssimo no terno

– Nossa, você está... – me olha da cabeça aos pés – linda.

– Obrigada. Eu quase fico vermelha

– Acho que vai gostar do restaurante – abre a porta

– Tenho certeza de que sim. — Eu entro no carro e ele fecha a porta.

Vamos pelo caminho conversando sobre nossos pacientes em comum. Rimos ao lembrar de um ou dois fatos que ocorrem no hospital. O restaurante, eu vejo, tem cinco estrelas. Sam queria mesmo me agradar, tenho até medo de ver os preços da comida. Nossa mesa, no canto do restaurante, está reservada e logo o garçom nos leva até lá.

Mal me sento e então sinto aquele famoso perfume no ar antes da porta se abrir. Estremeço porque no segundo seguinte Finn entra e fala com o mesmo garçom. Ele lhe sorri e depois sorri para a mulher ao lado dele. Diferente de Sam e eu, que passamos por todo o restaurante sem sermos notados, os dois fizeram o restaurante parar o que estavam fazendo para observá-los. Ele parece não notar, parece estar acostumado em ser observado. Então tiro o olho dele para ver quem era a tal mulher, Marley, provavelmente.

E levo um choque que me faz perder o ar. Ela era tudo ao contrário do que havia imaginado. Está dentro de um terninho preto, básico e simples, embora certamente fosse caro. Sim, desses que apesar de não ser magnífico em detalhes fazem valer a pena o preço estipulado. Tem os cabelos na altura dos ombros, lisos, e um rosto... sem graça. Veja bem, não era ciúme, ela era realmente sem graça. Não chegava a ser feia. Tinha traços bonitos. Mas era como se faltasse algo nela. Algo que fizesse as pessoas a olharem uma vez mais, se é que me entende.

Sua elegância sobre o salto fino denuncia: era rica. Com certeza. Rica o bastante para ter tido aulas sobre etiqueta. Finn puxa a cadeira para ela e ela se senta graciosamente na cadeira. Quando ele volta a colocar a cadeira no lugar resolve olhar para o restaurante, ciente, é claro, que todos voltaram a fazer o que faziam antes, e nossos olhares se cruzaram. Ele parece tão assustado quanto eu por termos nos encontrado, mas se recupera rápido e se senta como se eu não estivesse ali.

Eu não consigo voltar a normalidade tão rápido, nem tirar os olhos daquela mesa a duas de distancia da minha. Tento adivinhar sobre o que eles falam. No primeiro momento, fica claro, é sobre o que pediriam. Finn aceita o que ela sugere com um aceno leve e entrega a carta ao metre. Depois que ele sai a mulher se inclina para frente, mas ele não a imita, o que me anima um pouco: eles não estão falando de amor. Ou, se estão, ele não está nem um pouco interessado.

– Rachel! – Sam me chama e tenho a impressão de que não é a primeira vez

– Você acaba de concordar em pedir ravióli.

– Ravióli parece bom.

– Acontece, Rach, que estamos num restaurante japonês. — Percebo que ele começa a se irritar então abro o menu tentando me concentrar em não olhar para aquela maldita mesa. Mas fala sério, com tanto restaurante bom em Nova York ele tinha que vir justo aqui?

Não ajuda muito ao sentir que Finn também me olha, discretamente. Sam suspira e faz o pedido ao garçom, tirando o menu da minha mão.

– Quer ir embora?

– Por que eu iria? — Ele cerra os olhos.

– Não, chegamos aqui primeiro – forço um sorriso – Só fiquei surpresa. Mas o choque já passou.

– Tem certeza?

– Tenho. — Ele então sorri e começa a contar um caso. Paro de pensar na segunda frase, quando vejo Finn pegar o celular, pedir licença e se levantar. Sinto pena de Marley, sinceramente. Ele continua o mesmo.

– O que acha dela? — Sam suspira e olha pra garota.

– Você quer minha opinião como amigo ou como homem?

– Quero uma opinião sincera. — Ele não se demora muito para avaliá-la.

– Ela é bonita. Quer dizer, comum, mas bonita.

– Tenho a impressão de que a conheço.

– Claro que conhece. Ela está sempre nas revistas. É filha de um dos casais mais ricos dos EUA. Se não me engano a mãe dela foi modelo de uma dessas marcas famosas que vocês, mulheres, adoram.

– Hm... — Finn volta sem pedir desculpas e guarda o lugar.

– Não fique tão preocupada. Não é nada sério. É uma jogada empresarial. Finn quer trazer o pai dela para investir na firma dele. É claro que eu acho que ele deveria trata-la melhor, na verdade, ele deveria tratar todas as mulheres melhor, mas ela parece aceitar. Deve ser o cara mais interessante com quem saiu – deu de ombros – Ela não chama muita atenção. — Pisco, foi o maior discurso que eu já o vi dar.

– Como soube tudo isso?

– Santana me contou.

– Espera aí – levanto a mão – Desde quando você conversa com Santana?

– Graças a você, Rachel, ela trabalha na minha seção.

– Não! Você está escondendo algo. Ela falou coisas que não se fala para um colega apenas de trabalho.

– Droga – suspirou – Eu sempre acabo por falar de mais com você.

– Eu não acredito! – rio –Você não a suportava!

– Ah, bem, ainda há algo que não gosto nela... Acho que ela é voluptuosa de mais. Mas concluí que não é exatamente culpa dela. Ela é bem legal por trás disso.

– Meu Deus! Vocês estão saindo?

– Não.

– Não? – insisto. Ele suspira afundando as mãos no cabelo.

– Deus, Rachel, você é o pior tipo de mulher que existe! — Dou um sorriso e espero.

– Nós saímos algumas vezes, ok? Duas ou três. Mas não aconteceu nada disso que está pensando... Ela é minha amiga.

– Sei. E a sua... amiga... sabe que você está me levando pra Broadway? — Ele agradeceu quando nossas comidas chegaram.

– Eu comprei esse par de convites pensando nela. Satisfeita? Ela havia comentado que sonhava em conhecer a Broadway, mas não tinha condição de pagar. Estava tudo acertado pra hoje, mas...

– O que houve?

– Santana é uma ótima enfermeira, muito empenhada. Daria uma ótima médica Estava faltando uma plantonista e ela aceitou cobrir, pra ficar livre no Natal. Eu estava prestes a vender quando ela sugeriu que eu te trouxesse, que você parecia meio triste e ia gostar.

– Mas ela sabe que a gente já se beijou, não sabe?

– Ela viu na formatura, Rach – rolou os olhos – Estava na nossa frente.

– Depois disso.

– Sabe. Acha que sou o que? Um cafajeste que sai com duas mulheres ao mesmo tempo? Mas ela te admira de mais para sentir ciúmes.

– Por que raios ela admira alguém como eu?

– Do mesmo jeito que ela admira aquele lá. Vocês foram atrás dos seus sonhos e conseguiram. Ela vê em você a médica que poderia ter sido se tivesse tido mais apoio. E ele foi a oportunidade da vida dela.

– Vejo que o que pensa dele continua igual.

– Ele está sempre no caminho. Não foi uma nem duas vezes que ela se atrasou no encontro porque ele precisava conversar.

– Ele é mesmo um bebê chorão.

– É, mas ele gosta de você.

– Você também. – faço um muxoxo

– Ele gosta, Rach, ele mal consegue se concentrar no que a mulher fala porque está preocupado no que te faz rir tanto nessa mesa.

– Um dos motivos pra eu ficar mais próxima de você é que você jamais dizia que ele gostava de mim. Não estrague tudo só porque está saindo com a ex enfermeira dele, ok?

– Pare com isso. É a primeira pessoa que sabe desse fato, se contenha no hospital.

– Tento entender o porque de tanto mistério.

– Pergunte a ela. – rolou os olhos – Satisfeita? Podemos jantar?

– Não. Agora preciso de um par para o Rockfeller. — Ele me olhou confuso.

– Ela não te convidou porque esperava que eu chamasse. E ia. Mas agora você vai com ela. E eu preciso de um par para não sobrar na véspera de Natal.

– Lá é cheio de turistas. Acharemos um pra você.

– Idiota. — Ele riu.

Apesar de tudo, de Finn estar jantando a duas mesas de distância, aquele jantar foi um dos melhores da minha vida, porque eu me diverti mesmo. O fato de saber que Sam não era mais encantado por mim ajudava muito a me deixar descontraída. Eu ficava feliz por ele. Mesmo. O único problema era que agora não poderia mais chamá-lo pra ir ao cinema quando a carência batesse. Era bom eu aproveitar esse espetáculo, porque talvez eu não tenha mais chances de um programinha assim por um bom tempo.

A propósito, Sam nunca chegou a me falar qual era o espetáculo que nós íamos assistir, só descobri quando chegamos lá. Que para minha completa surpresa era Mamma Mia. E eu amava esse filme! Imagina agora ver ao vivo... Durante a duração do musical me permiti colocar todos os meus problemas de lado e me concentrar somente no via a minha frente, um espetáculo de luzes, cores, vozes e ritmos. Tudo aquilo me empolgava, me empolgava tanto que...

– Rachel, é um musical não uma boate – Sam diz ao meu ouvido – Aqui os atores fazem a coreografia, você só assiste.

Mas quem é que agüenta ver uma apresentação de Dancing Queen na Broadway parado? Eu que não! E daí que eu executei a maioria dos passos da coreografia sentada na cadeira? Quem se importa? O importante é que fui feliz.

Tão feliz que depois da apresentação eu ainda cantarolava todo o repertório do Abba. E no meio do caminho convenci Sam de se juntar a mim. E sendo assim chegamos em casa e subimos no elevador fazendo uma performance calorosa de Super Trouper.

Só que quando estávamos no auge, cantando a parte de “Somewhere in the crowd there’s yoooooooooou” a porta do elevador abre na garagem. E até aí tudo bem, o esperado era mesmo ela abrir, caso contrário estaríamos presos no elevador. O que não se esperava, de maneira nenhuma era que Finn estivesse do outro lado da porta. E com Marley a tira-colo. Pera lá, dois encontros desses no mesmo dia? O destino só podia estar de gozação com a minha cara.

– Boa noite a todos – disse Sam. Ele também parece estar de gozação com a minha cara.

– Só se for pra você – Finn fala quase rosnando. Mas não me permito ficar contente porque ele está bravo. A mão dele está em torno da cintura da tal Marley. Em um determinado momento nossos olhares se cruzam, mas o olhar dele não me diz nada. Está vazio. E eu me sinto cheia. Cheia de tristeza, quero dizer. Por sorte Sam tem uma reação mais interessante que a minha, ele me enlaça pela cintura e sai me rebocando pelo corredor até em casa. Chegando lá, ele diz:

– Pronto. Agora sim você pode começar a chorar. — E é exatamente o que eu faço. E uso o ombro de Sam como apoio.

Esse, felizmente, foi o ultimo dia que vi Finn pelas redondezas. Só que isso não me impediu de pensar de pensar nele durante todos esses dias. Infelizmente, esquecer um grande amor é mais difícil do que parece. Gostaria que minha vida fosse um filme onde as páginas do calendário saiam voando para longe e em questão de segundos muitos dias já tinham passado. Mas não era assim, e isso era uma pena.

Eu torcia para que o Natal chegasse logo para eu ter duas semanas de folga. Só assim eu ia poder descansar dos plantões exaustivos que eu ando dando para não ter que pensar na minha vida. E eu tanto esperei que um dia ele chegou, mas antes dele chegou a confraternização de Santana no Rockfeller. Uma ocasião que no mínimo pode ser considerada inesperada.

Quando cheguei lá no horário marcado, mas ainda não tinha ninguém. Só muitos turistas. Estranho. Checo o relógio para ver se cheguei na hora certa, depois procuro a mensagem que Santana me mandou confirmando a hora e o lugar da confraternização. Está tudo certinho, só faltaram as pessoas. É muito deselegante para Santana e Sam, casal criador do evento, chegarem atrasados assim dessa maneira. Cruzo e descruzo meus braços diversas vezes até decidir checar o relógio novamente. Já se passaram cinco minutos e nada de ninguém aparecer.

Instantes depois da checagem do relógio vejo se aproximando uma silueta. Na verdade, sendo o Rockfeller Center, vejo se aproximando dezenas de siluetas, mas uma em especial é conhecida. E se você levar em conta o atraso fica fácil de descobrir quem é. Isso mesmo. Finn.

Mas o que ele está fazendo aqui?! Não há tempo para esse tipo de indagação, é um momento de desespero. Mais do que ligeiro, furo a fila das pessoas que querem entrar no rinque de patinação, coloco uns patins rapidamente eu vou para o gelo. Espero sinceramente que no meio da multidão de patinadores ele não me veja.

Ele não vai me ver aqui, penso com meus botões, tentando me tranqüilizar. O lugar está cheio e agora ele tem uma Marley, não há motivos para seus olhos vagarem em minha direção. Esse pensamento me desequilibra. Literalmente, quero dizer, eu quase caio de cara no gelo quando relembro da cena dele a segurando pela cintura na entrada do elevador. Seguro numa barra de ferro e me recomponho. Preciso manter a calma, caso o contrário vou ser descoberta. E eu não quero que isso aconteça, outro encontro desastroso com Finn é a ultima coisa que eu necessito no momento.

O que de verdade eu necessito é esquecê-lo e apagá-lo da minha vida. E para isso eu já tinha um plano. Não era tão rápido e instantâneo como arrumar uma Marley, mas ia funcionar. Tinha que funcionar. Assim que eu for liberada para as festas do final de ano, volto para San Diego e passo duas boas e longas semanas por lá. Se no final delas eu conseguir algum trabalho de médica que me satisfaça, é por lá mesmo que eu vou ficar. Não é que eu esteja desistindo do meu sonho, apenas o mudei de lugar. Para evitar maiores complicações, sabem como é...

E por falar em complicações dou uma olhada ao redor do grupo de pessoas que assiste os patinadores. Nenhum sinal de Finn por lá. Estico um pouco mais o pescoço procurando nos cantos mais longínquos, e ainda assim nada. Ufa! Posso voltar a pensar no meu plano em paz. Mentalmente estou fazendo uma lista de hospitais que vou contatar quando chegar a San Diego. Ou até antes. Posso chegar em casa e ir mandando e-mails para cada...

– Rachel! – a pista de gelo grita – precisamos conversar.