Gypsy
21 Palácio Hudson.
Notas iniciais
– Você tem medo de avião?
– Não.
– Mas eu tenho, você vai ter que segurar minha mão.
– Já que você insiste... – segurei a mão dele feliz.
Seguraria ele por inteiro se não fosse aquela regrinha chata de cintos de segurança apertados na hora da decolagem.
Estamos nos comportando como um casal apaixonado desde o beijo no banheiro. Exceto por não sermos um casal, e também pela minha falta de certeza em relação a paixão dele. Mas ah... eu não estava ligando para isso nesse momento. Não enquanto Finn sussurrava em meu ouvido.
– Não verdade, eu não tenho medo coisa nenhuma, só gosto de arrumar desculpas para encostar em você todo o tempo.
Deixo escapar um suspiro e ele uma risada rouca antes de morder levemente minha orelha. Verdade seja dita, ele parecia tão apaixonado quanto eu. Pelo menos era isso que ele demonstrava em seus beijos, quando sua mão escorregava na minha nuca e puxava um pouco meu cabelo enquanto seu polegar traçava círculos numa área sensível do meu pescoço.
– Hum-uhn – alguém pigarreia – Por favor, apertem seus cintos de segurança – diz a aeromoça – vamos aterrissar em poucos minutos.
As despedidas foram igualmente apaixonadas, e apesar ficarmos separados por somente três dias eu me senti no direito de fazer uma ceninha.
– Estou preocupada com sua saúde, é claro – me justifiquei depois de ter pedido para ele: a) nunca parar de me abraçar, b) não ir embora, c) me ligar todos os dias d) ir comigo para a casa da minha mãe.
Pois é, eu também fiquei pasma quando essa última opção saiu pela minha boca. Pasmei mais ainda quando percebi que esse convite era totalmente verdadeiro.
– Bem que eu queria. Assim eu não ia precisar me preocupar em secar meu cabelo depois do banho, porque você faria isso para mim, agora que virou uma expert, não é? Mas eu já prometi aos meus pais e graças essa promessa é que você pode vir para cá, então é melhor a gente não rompê-la. Está bem? – ele perguntou antes de estalar um ultimo beijo sobre a minha boca. Eu assenti antes de entrar no táxi, afinal, três dias passavam rápido...
Mamãe. Que saudade!
Era a única coisa que eu conseguia pensar desde a hora em que a encontrei na varanda de casa batendo o pé no chão, impaciente para a minha chegada. Ah, como eu amava essa casa! Tudo nela me remetia a minha infância, que apesar de não ter a melhor do mundo, pela perda do meu pai e tudo mais, foi muito agradável, porque minha mãe se esforçou ao máximo para que assim fosse.
– O que vamos ter de janta? – perguntei ao largar minhas malas na sala e correr até a cozinha.
– O que mais poderia ser? Lasanha à bolonhesa!
– “Não há lasanha melhor que essa nem na Itália!” – falei, repetindo as exatas mesmas palavras que papai dizia cada vez que esse prato era servido.
– Estava com saudade de você minha filha – ela diz me puxando para mais um abraço – o que aconteceu com você? Está diferente!
– Hmm, nada. Quer dizer, nada além do que eu já tinha te contado, aquele novo estágio na parte de ortopedia e tudo mais... Devo estar parecendo cansada.
– Não... Você nunca esteve tão bonita. Diria até que está radiante.
– Deve ser o sol da Califórnia já me iluminando, ou então a alegria de te ver! — Ela me lançou um olhar daqueles que pretendem revirar minha alma de cabeça para baixo. E esse não era o melhor momento do mundo para minha alma ser revirada.
– Vamos comer logo de uma vez!
Jantamos vendo Casablanca, o filme preferido do meu pai. E como sempre, choramos no final, não pelo final em si e sim pela falta que papai nos faz, que é muita. Mamãe nunca conseguiu arranjar outro namorado, e eu nunca consegui descansar até saber que sou uma médica boa o suficiente para salvar vidas, ou seja, até hoje não descansei. Não até eu conseguir me formar de verdade e salvar mesmo a vida de alguém.
No dia seguinte acordamos mais animadas, animadas o suficiente para regar as flores no jardim, fazer um bom almoço (hambúrgueres de churrasco, também preferência do papai) e ir a praia a tarde, caminhar e ver o por do sol. São momentos simples assim que te enchem de alegria e dá vontade de viver. São momentos pequenos assim que me fazem pensar em Finn, quando na verdade eu deveria estar aproveitando a brisa pacífica batendo no meu rosto, a risada da minha mãe ao meu lado e as ondas geladas lavando meus pés. De vez em quando eu sentia uns olhares desconfiados da minha mãe, será que ela estava me escondendo alguma coisa? Mas sempre que eu perguntava no que ela estava pensando, ela me respondia:
– Nada, nada querida, vamos aproveitar o nosso tempo juntas. — E aproveitamos! As horas voaram e quando eu menos esperava já era manhã de 4 de julho e eu e minha mãe estávamos preparando um banquete, mesmo que só nós duas fossemos comer. Pelo menos eu pensava que ia ser só nós duas. Até meu celular tocar.
– O convite para passar o feriado com você ainda está de pé?
– Finn? O que aconteceu? Você está bem? Me diz que está!
– Calma, calma, não aconteceu nada! – ele me tranqüilizou – Nada de grave, quero dizer. Mas e aquele contive, o que você tem a me dizer sobre ele?
– Está de pé, é claro – eu disse indo para a sala.
Na verdade eu já não tinha tanta certeza assim. Minha mãe não sabe nada sobre ele, nada além de seu estado de saúde, quero dizer. Para ela, ele é somente meu paciente. Um paciente que estava quase recuperado.
– Eu vou ter que aceitá-lo – Finn me diz do outro lado da linha – pensei que dava para encarar um feriado com meus pais, mas é impossível. Como sempre. Mais que sempre! Qual é o endereço daí, eu já estou indo. Posso ir? — Ele parecia desesperado.
– Não! – exclamei as pressas – Eu vou aí te buscar, não acho que seja uma boa ideia você ficar dirigindo por aí.
Ele me deu o endereço dos seus pais. Eu anotei na mão, às pressas. Era relativamente perto, mais ou menos uma hora e meia o caminho entre minha singela casa em San Diego até os palacetes de Laguna Beach. Falei para mamãe que surgiu uma emergência e ela entendeu, até ficou orgulhosa de mim, me achando “uma médica tão responsável” ao invés de “uma filha tão ausente”. Mamãe era mesmo uma fofura. Ainda por cima me emprestou o carro.
Na estrada, eu ia quase como na velocidade da luz, o mais rápido possível. E logo eu estava em Orange County, sentia como se tivesse entrado no seriado The OC, as casas bonitas, ruas calmas, bem, só faltavam as pessoas legais. Não entendi muito bem o porquê, mas as pessoas aqui não são das mais receptivas, principalmente quando percebem que eu vou pedi-las alguma informação. O que há de errado com essas pessoas? Eu só quero saber onde é a casa dos Hudson, não vou assaltar ninguém... Será que eu tenho cara de que vou assaltar alguém?! Bem, com certeza o carro de mamãe não é dos mais confiáveis, mas tampouco é para tanto... Com base nos seriados que eu via sobre esse lugar, achei que a vizinhança fosse um pouco mais hospitaleira. Me enganei feio.
E esse engano me rendeu um atraso de alguns minutos na busca da Mansão Hudson, que na verdade deveria se chamar Palácio Hudson, de tão grande e suntuoso que era. Ela tinha grandes vidraças que contrastavam com torres de pedras ainda maiores, toda circundada por decks de madeira e eu tinha quase certeza que os fundos tinham vista para o mar. Em suma: um paraíso.
Mas Finn não parecia estar aproveitando sua estadia por lá. Estava me esperando na porta e parecia impaciente, quando estacionei o carro e ele veio abrir a porta para mim vi que mais que impaciente ele estava transtornado.
– Até que enfim você chegou!
– É que foi um pouco difícil pedir infor... – tentei explicar. Tentei, porque fui interrompida.
– Finn! Onde você se meteu? O almoço já está servido.
– Aqui, mamãe! – ele exclamou em um tom enfadonho. E eu prendi a respiração ao ver a mãe passando pelas vidraças da sala e vindo em nossa direção. Era a imagem da perfeição. Alta, esguia, alva, com cabelos ruivos esvoaçantes (tingidos, Finn alerta), luminosos olhos castanhos e um vestido de festa simplesmente maravilhoso, muito embora ela estivesse em casa... Talvez eles estivessem dando uma festa... penso com os meus botões. Seria legal se Finn tivesse me avisado. Começo a me arrepender de não ter passado nenhuma maquiagem.
– E não vai me apresentar sua amiga? – ela pergunta, sorridente, ao se aproximar de nós.
– Ahn, é... Eu sou Rachel, – falo desajeitada – médica do Finn.
– Médica?!?! – ela pergunta muito espantada.
– O que ela quis dizer – interveio Finn – é que ela, além de minha amiga, é médica. E que se algo de ruim me acontecer, ela vai cuidar de mim.
– Ah sim, que amável... – ela diz ao me olhar de cima abaixo avaliando meus jeans surrados e minha t-shirt da Madonna – Eu sou Elizabeth, mãe desse garotão aqui – fala enquanto dá uns tapinhas no ombro de Finn – e gostaria de te convidar para o almoço. Eu não estava esperando por isso.
– É muita gentileza, Senhora Hudson, mas realmente não precisa...
– Realmente, não precisa – reforça Finn logo em seguida.
– Não seja tão descortês com sua amiga, Finn – a Senhora Hudson o repreende com um olhar furibundo – E eu não aceito um não como resposta, portanto... Vamos! – ela diz virando as costas e caminhando de volta para a sala envidraçada.
Nem ao menos olha para trás para ver se a seguimos. Tem certeza que não vamos desacatar sua ordem.
– Quer dizer que eu sou sua amiga não sua médica? – indaguei.
– Você é mesmo minha amiga! – ele afirma contundente – E até um pouco mais que isso. Não... muito mais que isso – e abriu um sorriso encantador. Que logicamente me encantou, no entanto, não me fez perder o foco real da questão.
– Porque você não contou que eu sou sua médica?
– Ah... Meros detalhes... – ele diz abanando a mão no ar.
– Finn, é uma doença, é sua saúde, não é um detalhe – falei séria enquanto ele desviava o olhar do meu.
– Se você quer saber, eles nem sequer notaram – ele falou sorrindo, mas seu sorriso não chegava aos olhos – e agora vamos logo, mamãe não gosta que demorem para as refeições diz que a comida fica fria e intragável.
Mal deu tempo de eu avisar a mamãe que nosso almoço ia virar jantar. Ele me puxou pela mão, me arrastando para dentro de seu palacete, onde tinha um banquete sendo servido. E digo um banquete de verdade, com tampas de prata cobrindo os pratos principais. Não um montão de comida, como mamãe e eu havíamos feito e apelidado de banquete. Acho que tinha comidas de todas as nacionalidades dispostas ali. Muitas delas eu nunca tinha ouvido falar ou então, não sabia pronunciar o nome. Quando vi a quantidade de talheres ao lado de cada prato, percebi o tamanho da encrenca que eu tinha me metido.
Fale com o autor