Gypsy
33 Epílogo.
Nada disso estaria acontecendo se não fosse aquela droga de discussão, reclamo com os meus botões. Eu e Finn estamos casados há quase um ano. E sim, nós continuamos brigando.
Cada casal tem uma forma especial de se relacionar, acho que essa é a nossa. Não é tão ruim assim, quero dizer, nós não ficamos brigados por muito tempo, criamos uma regra que diz que é proibido dormir sem fazer as pazes. E as reconciliações... Bem, elas são maravilhosas. Então, não tenho muito do que reclamar...
Pensando bem, na verdade, tenho sim, posso reclamar por estar aqui sozinha fingindo ver televisão enquanto penso sobre o assunto. Ah, sim, o assunto! Um assunto muito importante, de extrema seriedade, que eu não pensei que ia surgir tão rápido.
– Amor, às vezes você não acha essa casa um pouco vazia demais? – ele perguntou hoje de manhã enquanto tomávamos café na cama.
– Você quer comprar móveis novos? Eu acho que esses estão bons...
– Algo um pouco mais vivo... – ele sugeriu.
– Um cachorro? Finn, eu não sei se nesse prédio...
– Algo um pouco mais parecido com a gente... – ele disse, como quem não quer nada, passando manteiga no pão – Um bebê, por exemplo.
E eu me engasguei com o suco de laranja.
– Bebê?? – digo em meio a um acesso de tosse – Não está um pouco cedo demais para isso?!
– Nunca é cedo ou tarde demais para fazer as coisas com você, Rachel... — Que gracinha, eu pensei, mas ainda assim...
– Nós só estamos casados há onze meses!...
– Onze meses e meio – ele corrigiu.
– Já? – perguntei um pouco surpresa – Parece que foi semana passada que terminamos a mudança do meu apartamento para o seu.
– Já passamos por muita coisa juntos, Rach – ele disse segurando minha mão embaixo das cobertas – E acho que está na hora de passarmos por mais essa.
– Pensei que você ia querer curtir essa fase só nós dois por mais um tempo...
– Uma coisa não impede a outra. Caramba Rach, é um bebê não uma camisa de força.
– Um bebê é uma decisão muito importante Finn...
– Tudo bem – ele disse jogando as cobertas para o lado, saindo da cama – se você não quer um bebê, eu não toco mais no assunto.
E saiu do quarto batendo o pé. Meu marido é um nervosinho e tanto! Durante a hora seguinte ele não deu as caras no quarto e eu não me atrevi a sair. Tinha muito o que pensar... Entendam, não é que eu não queira um bebê. É que eu só não tinha considerado essa possibilidade. Não para agora pelo menos. Eu achei que ainda estávamos na fase de ajustes. Eu com o apartamento dele, ele com o emprego novo e por aí vai...
Acontece que Finn resolveu trabalhar como professor em tempo integral. O pai dele está tomando conta da empresa, e ficou muito feliz com esse convite, afinal, essa é a razão de vida dele, ganhar dinheiro. Ele ainda não me perdoou totalmente pelas coisas que eu disse no hospital aquele dia que Finn me pediu em casamento, mas eu também não o perdoei totalmente de ter cobrado tanto. Pouco a pouco vamos superar nossas diferenças, Finn sempre diz, e eu não duvido. Em parte porque existe outra regra que nós criamos que não me permite duvidar dele. Em hipótese nenhuma. E também, porque até hoje, ele nunca mentiu pra mim.
O que me leva de volta a questão inicial... Se Finn acha que já estamos prontos para ter um bebê, talvez seja verdade. Mas só talvez. Bebês são uma grande responsabilidade. Se você tratar eles mal pode até ser presa! E acho que Finn está se esquecendo, mas no fundo, no fundo eu continuo sendo uma pessoa muito estabanada.
Coloco a televisão no mudo, apuro os ouvidos, tento escutar algum barulho lá fora. Nada. Nem pés arrastando, nem batidas com a porta da geladeira, que são as reações normais dele quando está bravo. Agora tudo é só silêncio. A coisa pode ser séria. Saio pela porta na pontinha do pé e caminho até ele sem fazer barulho. Ele está sentado na mesa, numa postura ereta e intimidadora. Intimidadora para mim, quero dizer. Ao chegar perto dele estendo minhas mãos para fazer uma massagem relaxante nos ombros dele. Tentei. Ele continuava rígido, tenso. Concentrado na folha a sua frente. Sempre os malditos papéis! Mas pelo menos agora eles faziam sentido, eram provas de alunos.
Mas se realmente eu quisesse resolver nossa questão, eu tinha que partir para uma tática mais agressiva. Portanto sento no colo dele sem me importar em tampar sua visão, meus braços se enrolam no pescoço dele e eu o abraço forte.
– Pensei que você ia me fazer sofrer por mais uma hora – ele disse afastando os cabelos do meu pescoço para me dar um beijo ali.
– Você não teve tanta sorte – digo ao deitar a cabeça no seu ombro.
– Ah, eu tive sim – ele me olha e aperta o meu nariz.
– Nem tanto, você casou com uma mulher desastrada, que é ainda por cima medrosa – confesso por fim a real razão da minha resistência ao assunto dos bebês.
– É medo que você tem, meu amor? — Eu só encolho os ombros. Não há muito o que dizer, não há como lutar contra a força da natureza. E Finn mais do que ninguém sabe como meus desastres podem ser perigosos. Afinal ele já foi vítima dele. Mais de uma vez.
– Rach, não precisa ter medo, vamos fazer isso juntos e eu vou sempre estar aqui para segurar sua mão. E segurar o bebê também, caso você tropece. — Esse comentário espirituoso me faz rir e ele sorri para mim, levanta meu rosto do ombro dele e o aproxima do seu.
– Eu te amo, Rach. E quero muito ter um filho seu. Logo. Será que pode ser?
– É uma possibilidade... – confirmo em tom misterioso enquanto faço um biquinho para beijá-lo.
Ele me beija e dá uma mordidinha no meu lábio, o que me faz rir. Então ele beija meu sorriso e eu o beijo novamente dessa vez com mais intensidade. Quando o beijo estava indo de vento em popa, simplesmente do nada, de supetão Finn se levanta da cadeira, me levando junto. Por sorte eu estava agarrada ao seu pescoço, caso o contrário eu teria caído.
– O que é isso? – pergunto interrompendo o beijo, um tanto assustada.
– É uma tentativa – ele diz voltando a me beijar.
A tentativa deu certo, comprovamos nove meses mais tarde.
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