Gypsy
5 Comédias Românticas.
Notas iniciais
POV Rachel
Quando finalmente sai do apartamento de Finn foi como se estivesse saindo de uma prisão claustrofóbica! Não que estivesse sendo tão ruim assim. Tirando o fato que ele era a pessoa mais irritante, prepotente e mimada que eu conhecia e eu, infelizmente, também já tinha feito o favor de ir pra cama com ele, fazendo a pressão de ficar com ele no mesmo cômodo aumentar em mais de mil atmosferas, aquilo até que poderia ser uma boa experiência. Eu definitivamente iria passar a selecionar melhor as pessoas que me fazem companhia na cama, meus futuros filhos, talvez não existentes, me agradeceriam por isso. Mas na parte profissional aquilo seria um fiasco, não iria me orgulhar disso nunca, tenho total certeza.
Mesmo com todos os contras eu me desloquei até o supermercado mais próximo que, para minha surpresa, era o mesmo pequeno supermercado que eu fazia minhas comprinhas semanais. Senti Nova York tornando-se um ovo ao perceber que minha casa não ficava a mais que três ruas de distância da casa de Finn e o sentimento de enganação me preencheu. O taxista havia me cobrado o suficiente para fazer umas mil viagens até o central park na manhã que saí da casa de Finn. Entrei supermercado adentro furiosa por ter sido traída por mais um nova iorquino oportunista, será que ninguém naquela cidade tinha coração? Tiram proveito de qualquer mulher fazendo sua caminhada da vergonha depois de uma noite de sexo muito louco, isso deveria virar lei. Me encarregaria disso quando fosse a médica do presidente, no momento tudo que eu podia fazer era as benditas compras para o marrento.
Minha escolha por esse pequeno mercadinho não foi aleatória, era exatamente o que eu procurava. Vejam bem, esse era quase um negócio de família, de maneira que eu podia ir lá, compras todas as verduras, frutas, legumes e cereais importantes para dieta de Finn, além de umas besteirinhas para mim, já que eu passaria a ser uma frequentadora assídua do seu apartamento, e no final por todo o valor na conta dele. Porque eu sou médica, não Madre Teresa de Calcutá para ficar fazendo obras de caridade. Muito menos para gente podre de rica feito Finn.
Depois de estar abarrotada de sacolas com comida suficiente para três meses de diante, cheguei ao prédio e o porteiro simpático me perguntou:
– Quer ajuda com as sacolas, senhorita?
– Não, obrigada… — eu parei por um segundo, lendo o nome que havia bordado em seu uniforme. — Jesse. Só o que eu quero é a chave reserva do apartamento do senhor Hudson, por favor. — Disse com o maior sorriso simpático e agradável que eu consegui dar. Coitado do senhor Jesse, deu pra ver que ele ficou entre a cruz e a espada, pois apesar de ele parecer ser muito bonzinho, sabia que era errado entregar a chave reserva dos apartamentos dos moradores a terceiros. Mas, por outro lado, eu era uma pessoa tão boa e inofensiva, não faria nada mal com o apartamento do senhor Hudson. Só que ainda assim, não era ético. Eu quase podia ver todas essas ponderações passando pela cabeça do pobre porteiro e resolvi ajudá-lo a se decidir.
– O senhor Hudson, esteve no hospital, não sei se soube… Eu sou a médica dele, Rachel Berry. Eu cheguei a pouco com ele de táxi, o senhor provavelmente nos viu entrando. — Jesse concordou com um sorriso e um aceno de cabeça, apesar de ainda ter uma expressão indecisa. — Então, eu vou ter que acompanhar de perto a recuperação do Finn — disse citando o seu nome, para mostrar um pouco mais de intimidade — e terei que vir constantemente até o seu apartamento. Ele está precisando de repouso e ficará muito complicado para atender a porta todas as vezes que eu tiver que entrar! Eu entendo sua hesitação, o senhor pode interfonar para ele. Mas tente mais de uma vez, ele provavelmente vai demorar para atender.
– Oh, não! — exclamou o senhor Jesse. — Longe de mim atrapalhar o senhor Hudson, aqui está. — Ele me deu a chave, exatamente como eu planejará. Meu Deus, até o porteiro tem medo desse homem, eu também deveria sair correndo dali. No entanto, eu sempre gostei de desafios e de viver perigosamente, então aqui estou eu novamente na cozinha da casa de Finn, despejando todas as sacolas sobre o balcão e fazendo bastante ruído para deixar claro que eu estava de volta para o cara lá no quarto.
Depois de guardar tudo em seu devido lugar, cheguei a conclusão que aquele homem não tinha nenhuma rotina para se alimentar adequadamente, e isso estava bem claro, já que ele estava me pedindo comida no meio da tarde. A não ser que ele tivesse fazendo aquilo só para demonstrar o poder que tinha sobre mim por eu ser sua médica. Por ambos os motivos, eu teria que ensinar ele não só a comer direito, mas também na hora certa. Eu não tinha moral para falar, já que eu comia entre os meus plantões, ou seja, uma vez na vida e outra quase na morte, mas ele não precisava saber disso. Remexi nas compras e peguei uma barra de cereal, seria o suficiente até a hora do jantar. Voltei para o quarto e coloquei a barra de cereal na frente dele, que me olhou com cara de poucos amigos.
– Tá brincando comigo, não é?! Eu só vou poder comer isso?
– Agora no meio da tarde, sim! — Enquanto eu falava ele puxou a barrinha de cereal e a comeu. Na verdade devorou, ele deveria estar mesmo com fome. Me senti um pouco culpada por estar sendo tão carrasca, mas me mantive firme na minha posição. Fiquei de pé na beira da enorme cama dele, encarando os lençóis brancos e pensando da última vez que estive ali, até ele chamar minha atenção.
– Porque não se senta? Fique a vontade… Não é como se você nunca tivesse estado por aqui. — Ele disse com um sorriso malicioso.
– Eu não sei do que você está falando. — Eu disse dando uma olhar bastante significativo para ele, tentando lembrá-lo que eu não queria que esse assunto viesse a tona. — E eu já estou a vontade.
– Ah, pode até estar, mas confortável, eu garanto que não. — Olhei em volta, checando toda aquela imensidão de cama implorando por mim, e eu implorando por uma cama… — Acho que quanto mais cedo você começar a sentir em casa, melhor pra você! Você vai passar um bom tempo por aqui, cuidando de mim… — Ele só podia estar fazendo isso pra me atormentar. Afinal, qual era a necessidade de dizer aquilo com aquele olhar de cachorro na cara? Controlei meus impulsos de socar o nariz dele, porque eu era sua médica encarregada, pegaria um pouco mal. Cedendo, eu me sentei na cama de uma maneira mais ou menos confortável, mas fazendo o possível para ficar do lado mais oposto a ele. Ficamos em silêncio pelos próximos vinte minutos, somente assistindo televisão.
E, pelo menos nisso, a gente se entendia. Ele estava vendo HBO, e não posso negar que isso me fez até sentir uma simpatia maior pelo sujeito. Eu já estava ficando realmente confortável quando Finn resolveu voltar a falar.
– Rachel, você pode pegar minha maleta de documentos na sala? — Eu levantei meu olhar para ele, torcendo o nariz.
– Escute aqui, Senhor Hudson — falei séria — sou sua médica. Posso até, devido as circunstâncias, ser sua enfermeira — ele deu um sorriso disfarçado, mas eu ignorei — mas, certamente, eu não sou sua empregada!
– Por favor? — Ele disse, claramente não muito confortável de pedir com educação por alguma coisa. Então eu fui, afinal eu não podia fazer mais nada, já que não era como seu eu pudesse obrigá-lo a andar, nem nada do tipo. Mas eu fui nem um pouco contente. Vendo que meu trabalho ali seria tão maçante e cansativo — psicologicamente e fisicamente — quanto o da emergência do hospital, senti que minhas férias forjadas não seriam tão relaxantes assim. Já comecei a fazer notas mentais de como matar Blaine quando o visse novamente no hospital. Quando finalmente achei a pasta, eu bufei. Ela não era só horrorosa e típica dos homens de negócios como Finn, também pesava umas mil toneladas. Comecei a me perguntar se ele guardava pedras ali.
– Pode abrir pra mim? — Finn perguntou assim que entrei no quarto arrastando o que supostamente era uma pasta. — Por favor! — Ele acrescentou diante da minha carranca mal humorada. Ao abrir e descobrir que aquele peso todo era apenas uma tonelada de papéis.
– Esses papéis não podem ser normais, eles normalmente não tem esse peso todo.
– São papéis de importância vitais, por isso todo o peso.
– Nunca vi ninguém morrendo por causa de papel, e já vi alguns casos em todos os meus anos de faculdade… — Eu disse com descaso.
– Se você não me entregar esses papeis agora, verá com seus próprios olhos uma morte por causa deles. — Assustada com a intensidade que ele falava daqueles trecos, entreguei para ele. Logo voltei para o meu lugarzinho na cama e deixei Finn com seus amantes, voltando a assistir TV. Quando ri de alguma bobagem de uma comédia romântica que passava na televisão e Finn me acompanhou, percebi que ele lia tudo aquilo e, ao mesmo tempo, prestava atenção no que se passava na televisão.
– Como voce consegue fazer duas coisas ao mesmo tempo? Homens em geral não conseguem.
– Quem te disse que eu sou um homem comum? — Ele disse com um ar superior, que me fez suspirar entediada com a pose dele.
– O que te levar a crer que não é?
– Bom, como voce mesmo já disse, consigo fazer duas coisas ao mesmo tempo. E isso é só uma das minhas habilidades.
– Um tanto convencido, não? O que mais você classifica como habilidade? — Falei descrente que fosse algo tão magnifico.
– Eu posso ver uma comédia romântica como essa e gostar, sem sentir minha masculinidade abalada por isso.
– Ah, grande coisa… — Eu ri baixo, e ele me olhou curioso. — Na verdade todos os homens gostam desses filmes, só não tem coragem de admitir.
– Mas eu admito — Ele disse com um sorriso enorme.
– Tudo bem… — Eu disse semicerrando os olhos pra ele. Será que ele era louco também? — Mas isso meio que não valeu. Diga-me mais.
– Hm… Eu não tenho problemas em ser fiel a uma mulher. — Ele disse com descaso, mas eu despertei da minha calmaria na hora. Aquilo estava ficando bem interessante.
– Desculpe, mas nessa eu não vou acreditar. — Eu disse com descaso. — E por experiência própria.
– Olha, alguém já tá começando a ter flashs da nossa noite. — Ele disse irônico. — E você não pode dizer nada, quem saiu correndo como se a casa tivesse pegando fogo foi você.
– Como se fosse o contrário e eu tivesse resolvido ficar, você não fosse me botar pra correr. — Eu disse com um certo rancor, mas ele não disse nada, o que confirmou minhas palavras. Afobada, voltei a prestar atenção na TV.
– Independente disso que nunca aconteceu entre a gente… — Ele recomeçou a falar. — O que eu disse é a mais pura verdade. Mas é claro, partindo do preceito de que a mulher em questão faça valer tal fidelidade.
– O que você quer dizer com isto? — Perguntei meio curiosa e meio irada por aquilo ser algum tipo de ironia, enquanto ele analisava uma folha de papel.
– Você sabe… uma mulher que não me deixe tempo para pensar em nenhuma outra. — Ele respondeu entre virar uma folha para outra.
– Mas em que sentindo você quer dizer isso? — eu já estava impaciente por ele estar sendo tão vago.
– Em todos os sentidos. — Ele disse sem nem ao menos retirar os olhos das folhas, parecia que estava respondendo tudo no automático.
– Mas especificamente em qual? Botando em… sei lá, uma escala. — Sugeri — Qual o sentindo mais importante nesse seu conceito louco? — Estava tão desesperada por informações que me assustei quando ele largou as folhas e me encarou com um olhar estressado.
– Primeiro, meus conceitos não são loucos. Segundo, eu consigo fazer duas coisas ao mesmo tempo, mas não três! E quando a terceira é você me interrogando, com certeza não dá pra ser feito nada.
Ele mal terminou de dizer isso e voltou a atenção para os seus benditos papeis, e eu fiquei lá encarando ele boquiaberta. Por essa eu não esperava! A gente estava lá, tendo uma conversa normal e que estava fluindo super bem, aí ele vem com essa grosseria toda. Tenho que admitir que fiquei meio que sem palavras.
– Seu… grosseiro! — Eu disse depois de alguns segundos de indignação. — Bronco, mal educado!
Depois de dizer os xingamentos que a situação permitia, voltei a me acomodar na cama e prestar atenção na televisão, afinal era esse meu real interesse de estar ali com aquele estúpido. Porque, francamente, quem liga para o que Finn tinha para dizer sobre si mesmo e sobre como ele era especial? Eu sabia que ele não era. Exceto por sua chatice e maus modos, ele era igual a todos os homens: cheios de si e arrogantes!
Desviei totalmente minha atenção de Finn e foquei no filme, que por sinal era bem divertido. Aos poucos borrei totalmente a presença do desnecessário naquele quarto e me ajeitei melhor na cama, afinal tinha espaço de sobra, ele nem perceberia que eu me estiquei mais, pois ainda assim eu ficaria a uma distância segura. Comecei a me sentir realmente confortável, aquela cama tinha feito PHD em conforto desde a ultima vez que eu estive por aqui, eu estava totalmente relaxada. Na hora que o mocinho beijou a mocinha sem querer e todo o drama meloso começou a rolar, eu fechei meus olhos, só um pouquinho! Afinal tinha sido uma semana tão corrida, eu merecia descansar só um pouquinho. E isso foi a última coisa que eu pensei, e por um bom tempo eu não pensei em mais absolutamente nada.
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