Gypsy
32 Como Você Pretende Me Laçar?
Resignada entro na parte de trás da ambulância e me acomodo no banquinho do lado da maca. Tentando parecer muito entretida com minhas unhas para evitar qualquer tipo de assunto com o paciente. Mas ele parecia ter uma ideia diferente.
– Não sei por que, mas acho que eu já vi essa cena antes – ele comenta bem humorado enquanto olha ao redor da ambulância com um sorrisinho brincalhão nos lábios. Finjo não parecer tão abalada com o sorrisinho dele enquanto respondo:
– É, mas essa história teve um final triste. — Minha frase saiu um tanto amargurada, no momento seguinte me arrependo de ter falado, apesar de saber que é a pura verdade.
– Ela ainda não terminou, Rach – Finn discorda e tenta com o braço bom alcançar a minha mão. Tendo em mente que nós nunca poderíamos dar certo eu me afasto. Não posso me derreter com gestos carinhosos porque sei que eles logo acabarão, assim que o telefone celular fizer algum barulho.
– Não foi por causa do trabalho que eu me atrasei, – e quando ele vê meu olhar cínico ele acrescenta: – eu juro.
– Foi o que então? O trânsito? – pergunto cheia de ironia.
– Você logo vai saber. Mas antes, tenho que perguntar, você está tendo um caso com Sam?
– Não que isso seja da sua conta, nem que eu tenha que te dar explicações, mas... Não.
– Então aquele beijo na sua festa de formatura foi pura vingança? — Encolhi os ombros em resposta. Eu não queria falar sobre esse assunto. Eu não queria discutir relação dentro de uma ambulância, principalmente se essa tal relação nem sequer existisse.
– Você não sabe o alivio que me dá saber que você é vingativa, caso o contrário eu estaria perdido. – ele diz sorridente antes de prosseguir – Rach... a verdade é o seguinte, nesses quatro meses que ficamos separados percebi que eu nunca fui tão feliz em toda a minha vida como eu fui com você. Como eu sou com você. – dessa vez ele consegue alcançar a minha mão e apertá-la na dele – Não importa muito se eu estou rico ou estou pobre se eu não tiver alguém do meu lado para dividir. E com alguém estou querendo dizer você.
– Ouvi falar que você estava muito bem dividindo coisas com aquela Marley – digo de uma vez só, sem muito tempo para pensar na compostura.
– Nem tudo que se ver ou ouve falar é necessariamente verdade, por isso perguntei a você sobre Sam. Porque apesar de tudo indicar um relacionamento entre vocês, eu resolvi não acreditar. Em parte porque não consigo aceitar que nós terminamos, além disso, sei que bem lá no fundo você não deixaria de me amar assim de uma hora pra outra.
Inevitavelmente ele está certo. Mas bem que eu queria deixar de amá-lo de uma hora para outra. Seria o melhor. Para mim, para nós dois eu acho.
– Fica fácil aceitar que nós terminamos quando você e sua namoradinha saem semanalmente nas colunas sociais. — Tento tirar minha mão da dele, só que é impossível porque ele a aperta bem forte.
– Ah, então você anda lendo a coluna social – ele conclui, sorrindo – então deve saber que em nenhum momento eu me referi a ela como namorada, muito menos como namoradinha. E você sabe por quê? — Eu queria saber, deixando de lado todas as minhas teorias de que não daríamos certo juntos.
É muito difícil estar apaixonada por alguém tão complexo como Finn. Uma hora ele está amabilíssimo me dizendo coisas doces como:
– Porque a minha única namorada foi você. Talvez porque eu sempre estive muito envolvido no trabalho ou talvez porque você foi a única capaz de chamar minha atenção e despertar o melhor de mim.
E no momento seguinte, com um simples apito do celular ele volta a ser tudo aquilo que eu abomino. Espia o que aparece na tela brilhante e parece satisfeito com o que vê, logo em seguida começa a digitar furiosamente, cheio de pratica no teclado do aparelhinho. Depois disso guarda o celular e volta a olhar para mim, como se nada tivesse acontecido. Mas já é tarde demais, eu já me lembrei as razões pelas quais nós nunca funcionaríamos.
– Não era nada sobre trabalho – ele diz na defensiva enquanto eu me encolho no banco na tentativa de me afastar ao máximo dele – pouca coisa na minha vida tem a ver com o trabalho ultimamente. Ou acaso você não ouviu que eu ando perdendo cada vez mais e mais do meu patrimônio?
– Só não entendo como um empresário tão experiente como você deixou isso acontecer.
– Minhas prioridades mudaram – ele diz olhando para mim, sorrindo.
– Porque você está tão sorridente?
Essa é uma questão que me intriga muito. Pois enquanto eu estou aqui nervosa, tentando lidar com a vontade de abraçá-lo e a necessidade de esquecê-lo, ele está ali deitado, sorrindo como se não tivesse sofrido um acidente, como se nós não tivéssemos nos separado.
– Eu já disse – ele responde ainda sorrindo – você me faz feliz. Mesmo quando estamos tendo uma discussão de relação.
– Nós não temos uma... — Queria enfatizar a nossa não-relação. Mais para mim do que para qualquer pessoa, pois presa a aquele olhar firme de Finn que nunca deixava meus olhos era muito difícil de lembrar que existem problemas entre a gente. Nos olhos dele exista a promessa de que tudo iria ficar bem. Mas era só uma promessa, eu me lembrava uma e outra vez. A certeza eu só tive quando fui parar nos seus braços. E se tratando de mim isso não aconteceu da forma mais graciosa.
Antes de eu terminar minha frase de efeito em que eu repetia, mais uma vez, que nossa relação não existia, a ambulância deu uma guinada inesperada. Inesperada pelo menos para mim, que fui forçada a interromper meu discurso para sair do meu banquinho em queda livre. Diretinho na maca de Finn. Mais precisamente em cima dele.
– Acho que essa cena também não me é estranha – ele diz logo abaixo de mim enquanto eu tento me recuperar do choque tanto da queda como do contato físico repentino com ele. Quando finalmente faço o primeiro movimento para me levantar, um dos braços dele me enlaçam pela cintura e me forçam a ficar onde estou.
– Você continua querendo se distanciar de mim cada vez que surge um problema – ele me diz ao pé do ouvido me fazendo arrepiar da cabeça aos pés. Não só de desejo, também de saudade e é claro, de indignação.
– O problema é que esse “um problema” que você diz é sempre o mesmo, seu trabalho.
– De quantas formas eu preciso te dizer que eu mudei? Não basta eu ter finalmente enfrentado o meu pai e assumido que não é isso que eu quero pra mim? Não basta eu ter perdido grande parte do que eu tinha por simples descuido e desinteresse? Não basta eu ter deixado a imprensa saber de tudo isso e estampar nas páginas do jornal para que assim você, de alguma maneira, ficasse sabendo que eu já não trabalho como antes?!
Fico paralisada por uns instantes tentando entender a dimensão de tudo aquilo que ele me disse.
– Eu... – tento começar uma frase – Bem, eu… Não sabia que você tinha feito tudo isso por mim. — Mas esse era só o inicio da minha dúvida. Pois foi nesse momento que eu comecei a questionar os argumentos que eu havia criado para me manter longe dele. E uma série de perguntas começou a se formar na minha cabeça.
E se ele realmente tivesse mudado? E se ele me amasse o suficiente para deixar o trabalho um pouco de lado? Será que não era egoísmo da minha parte querer que ele deixe o trabalho de lado para ficar comigo? E se ele não puder sustentar essa abstinência de trabalho por muito tempo? Será que era melhor aceitar a proposta dele ou viver com a dúvida de como poderia ter sido se ele realmente tivesse mudado? Eu estaria disposta a assumir esse risco?
– Na verdade eu não fiz só por você, eu fiz por mim também. Por nós dois – ele esclarece e eu chego a suspirar de alivio. A minha resposta era sim, pelo menos para a ultima pergunta.
– Você não tem medo de ficar pobre? – pergunto, pois aquele era um ponto muito importante para uma pessoa acostumada a todo o tipo de luxo como ele.
– Com a família que eu tenho?! Não acho que vou ficar tão pobre... Além disso não é como se eu fosse deixar de trabalhar completamente, só vou reduzir minha carga horária... E mudar de ramo.
– Como assim mudar de ramo?
– Depois eu explico… – ele disse evasivo – Antes que quero te avisar uma coisa, se você tentar se afastar de mim novamente eu vou te prender com um laço bem forte.
Ele diz me isso com um olhar misterioso que vai se aproximando de mim cada vez mais. Quando dou por mim vejo que eu também estou inconscientemente chegando perto dele. Ou conscientemente talvez, porque agora todo meu corpo, cérebro e coração gritam que é com ele que eu devo ficar. Que é só ele que me pode fazer feliz. Que todo mundo erra e que muitos erros ainda vão acontecer, mas que o maior erro de todos seria me negar à possibilidade de errar com ele. De errarmos juntos.
Por isso e por todo o amor que eu sinto por Finn, eu fui a primeira a ter a iniciativa de começar um beijo. E logo depois pude sentir ele ajeitando meu corpo sobre o dele e voltando a me abraçar pela cintura.
Aí eu lembrei.
– Como você pretende me laçar?
– Por hora estou satisfeito em te laçar pela cintura – ele diz apertando seu braço em volta de mim – Por hora. Mais tarde eu te explico o resto. — E voltou a me beijar um beijo de saudade, amor e alegria. Que eu fiz questão retribuir com todo o entusiasmo. Entusiasmo demais para o que aconteceu logo em seguida.
Um ruído de limpar a garganta me despertou do sétimo céu que era ter a boca colada na de Finn. Em seguida viro para trás e vejo os dois para médicos parados na porta traseira da ambulância.
– Doutora, desculpe interromper seu... hm, exame, mas temos que levar o paciente.
Eu mais do que depressa me levanto para sair, mas Finn me impede que eu vá muito longe porque continua segurando minha mão.
– Eu disse que eu não ia deixar você se distanciar de mim – ele argumenta ao mesmo tempo em que os paramédicos puxam a maca dele para fora da ambulância e começam a correr em direção à entrada do hospital.
Finn não me soltava. Não que eu não estivesse gostando, mas aquele era meu local de trabalho. Sendo assim, eu deveria ser profissional. E ser profissional era conseguir trata-lo como qualquer paciente e isso não estava funcionando com ele me beijando a cada minuto.
– Finn!
– O que? – apertou minha cintura
– Esse é meu local de trabalho.
– Não está gostando?
– A questão não é essa. Droga. Estou tentando fazer meu trabalho. Por favor. — Ele me solta, resignado.
Quase cambaleio sem a pressão dele no meu corpo. Ele da um sorriso e eu me foco no braço dele, tendo plena consciência de que ele não tira os olhos de mim.
– Você disse... – tento achar um assunto seguro –que mudou de ramo.
– Sim, já tem um tempo. Na verdade, poucas semanas depois de sua formatura.
– Por que?
– Porque eu não era feliz. Tinha dinheiro, sucesso, acho que teve até algumas mulheres, mas não era feliz. E você me ensinou muitas coisas no tempo que ficamos juntos, e principalmente no tempo que ficamos separados.
– Eu ensinei?
– Quem mais poderia me fazer ver que o dinheiro não tão importante? Que minha obsessão era doentia e insuportável? Que era abominante o modo pelo qual eu te trocava pelos papeis?
– Olha, não era assim...
– Não? Então por que beijou Sam na sua festa?
– Eu estava bêbada. E irritada. –suspirei
– Eu sei. Se você soubesse...
– Rachel? – Blaine para na porta –Não devia estar no Rockfeller.
– Você não devia estar no Rockfeller?
– Oi, Finn. — ele entra – Acabei de sair da sala de cirurgia. A neve provocou um engavetamento ao leste. Operei três pessoas seguidas.
– Estão todos bem?
– Sim. Só um estava em risco. O que houve?
– Ele caiu na pista.
– Ele caiu ou você derrubou? — Os dois riram.
– Ei!
– Desculpe. O braço? Já tirou um raio-x?
– Iria fazer isso agora.
– Sei... – ele sorriu – É a sua folga, Rachel, deixe que eu faça isso. Assim não levará um puxão de orelha porque está namorando em seu local de trabalho.
Eu coro, mas Finn ignora e volta a por os braços na minha cintura.
–Posso? – Blaine aponta o braço de Finn
–Claro – me afasto e deixo que meu ex supervisor examine Finn
–É aqui que doi? — Finn se encolhe.
– Vou preparar a sala de raio-x . Mas não deve ser nada. Só o impacto mesmo. Juízo. Eu volto já. –saiu
– Ai, que vergonha!
– Eu to orgulhoso – fez carinho no meu rosto – Senti tanto sua falta.
– Com Marley do lado?
– Negocio.
– Você sabia que isso é inescrupuloso?
– Sabia. Não estava feliz. Acredite. Mas... meu pai estava no meu pé por causa do meu descuido com os negócios. E eu já havia anunciado minha mudança de ramo. Não queria irritar mais.
– Eu ouvi bem? Como assim? — Ele riu.
– Dei uma palestra la logo depois de sua formatura. Foi legal. Então me convidaram para dar uma aula. Ah, Rach! Sabe quando você finalmente se encontra?
– Eu nunca ia imaginar!
– Nem eu – ele riu
– E sua empresa?
– Ah, ela vai continuar sendo minha, mas designei dois para comandarem. Algum problema pra você?
– Por que?
– Ah, bem, professor não é bem a profissão mais interessante do mundo.
– E que tipo de namorada você acha que sou? — Ele me puxa, grudando nossos corpos.
– Finn!
– A mais gostosa – sussurra no meu ouvido – E linda – morde minha orelha – E deliciosa. E cheirosa – cheira meu pescoço
– Finn... – dou um risinho
– E a mais desastrada também, é claro. — Dou um soco no ombro dele.
– Ai!
– Ops, quem manda?
– Vamos, Finn, desgrudar de Rachel dois segundos? – Blaine volta. Finn faz uma careta, mas o segue. Ele me puxa antes que eu me manifeste. Ele falava sério quando disse que não desgrudaria de mim.
– Finn... – sussurro
– Sim?
– Aquele dia no elevador... que acabamos por descer juntos... Você pareceu nem me notar...
– Eu podia ser ator, não é? Eu tinha que controlar minha vontade de travar aquela porta, te jogar na parede e te mostrar minha saudade. – ele abaixou o tom – A mesma vontade que tenho agora. Foram os piores e mais agoniantes segundos da minha vida.
– Mas e o apenas uma vizinha? Tem noção do quanto me doeu?
– Tem noção do quanto doeu te ver aos beijos com aquele imbecil na sua festa de formatura?
– Você deu o troco.
– Não. Eu apenas não conseguiria dizer “minha ex namorada” porque não conseguia admitir nem para mim.
– Rachel – Blaine fala – fique do lado de fora. Ele é bem grandinho para encarar esse exame sozinho. — Finn selou os lábios no meu.
– Não vá tao longe.
– Ficarei aqui.
Os dois entram e eu me encosto na parede. Aquela era a primeira vez que eu realmente me sinto culpada por ter beijado Sam. Durante todos aqueles meses alimentei a minha raiva e não pude pensar nas hipóteses: e se Finn realmente tivesse um bom motivo pelo atraso? Se não fosse o trabalho? Afinal, ele chegou a tempo. E toda aquela neura por trabalho não era realmente sua culpa. Quer dizer, ele havia sido criado para ser assim: louco por dinheiro. Tudo era culpa de seu pai, aquele homem frio e calculista que só lhe sabia cobrar. Finn não era assim. Não. Ou ele nunca teria largado todo o seu império e ido aventurar-se na carreira de professor. Eu havia sido imatura, e, principalmente, injusta.
Estou pensando nisso quando avisto o causador de tudo. Mas olha, que cara de pau, vindo em minha direção.
– Onde está meu filho?
– O que está fazendo aqui?
– Quero saber onde está meu filho!
– Mas, ora, seu filho teve um problema grave de saúde e você nem se dignou a ligar. E agora vem dar uma de papai preocupado?
– Quem você pensa que é? Sabe com quem está falando?
– Com um idiota que acha que as pessoas vivem para o trabalho. E respondendo a sua primeira pergunta eu sou a pessoa que quer a felicidade de seu filho.
– Eu jurava que havia sido você quem fez meu filho quebrar os ossos, se afastar dos negócios. E depois beijar um colega de trabalho e fazer meu filho perder metade do seu patrimônio só para te chamar atenção.
– Olha aqui...
– Rachel! – Finn abriu a porta assustado, seguido de um Blaine bem irritado porque estava falando alto num hospital – O que está fazendo?
– Não estou fazendo nada. Mas ou. Esse seu pai precisa escutar algumas verdades pra ver se ele se toca!
– Qual o problema dessa mulher, Finn?
– O meu problema? Eu vou te dizer o meu problema. O meu problema é que acho idiota essa mania de sonho americano. Ninguém nunca te disse que dinheiro não é tudo? Que você é mais frio que um ice-berg e não é capaz de demonstrar uma palavra de carinho pra um filho que a vida toda só fez as coisas pra te agradar? Você sabia que ele entrou na UCLA por sua causa? E que escolheu essa profissão por sua causa? E que se arriscou a dirigir a firma aqui em Nova York só para que você sentisse orgulho? — Finn suspira, enquanto seu pai o olha.
– Claro que não sabia! Você nem deve saber que a cor preferida de seu filho é vermelha. Que ele come MC Donalds só para guardar as lembrancinhas pro afilhado. Que ele adora Bob Esponja. E que teve um grave problema nos ossos porque vivia de Coca-Cola e fast-food, mal tendo tempo para comer, porque você só sabia dizer que na idade dele tinha o dobro de seu patrimônio! E agora você vem querendo saber onde está seu filho, como se realmente estivesse preocupado com o bem estar dele enquanto está sentado na sua mansão vitoriana e seus moveis europeus esperando que ele multiplique sua fortuna!
– Já chega! – ele fala alto – Eu não sou obrigado a escutar isso dela. Eu só vim aqui para trazer a aliança que meu filho pediu e que eu devia ter jogado da ponte pelo bem da nossa família.
Eu olho pra Finn, tentando entender. Ele não parece bravo, tem um sorriso divertido no rosto enquanto me olha encantado – e orgulhoso, diga-se de passagem.
– Francamente, Finn, se quer mesmo entrar com essa mulher na igreja ensine bons modos!
– Do que...
– A aliança, pai – ele estende a mão, sem tirar os olhos de mim. Eu também não conseguia parar de olhá-lo.
– Lembra-se do dia da formatura? – ele pergunta
– Tem como esquecer?
– Lembra-se que pedi para me escutar? Que eu tinha uma explicação? — Balanço a cabeça.
– Bem... Você tinha comentado que estava praticamente morando em minha casa. E eu havia dito que deveríamos oficializar isso. No dia da formatura não marquei nada, porque sabia que era um dia importante pra você. E queria fazer parte. Fui na empresa só para assinar uns papeis.
– Então por que se atrasou?
– Eu devia ter saído mais cedo da empresa, mas não achei que era tão difícil achar uma aliança. Quando consegui achar uma que fosse sua cara... eu já estava atrasado.
– Finn, eu...
– Estou tendo a chance de consertar as coisas – ele abriu a caixinha, a aliança brilhou lá dentro – Sei que não sou perfeito. Que sou chato, reclamão, viciado em trabalho e, às vezes, um bebe chorão. Mas eu te amo. — Ah, não! -Casa comigo.
De repente, Nova York gira, treme, eu sinto que está desmoronando sobre mim. Sinto que vou desmaiar, surtar, entrar em pânico, tudo ao mesmo tempo. De repente, eu me sinto ainda mais culpada por toda a minha imaturidade. A aliança não justifica o atraso, mas explica. Uma explicação que eu deveria ter ouvido, mas cega como estava, me achando a certa, não consegui ver.
Por que cobrava a perfeição de Finn se eu não era perfeita? Se eu ainda precisava parar de ser idiota, insegura, e, principalmente, egoísta? A gente, como eu havia dito, ainda erraria muito. Mas nos amávamos. Não era isso que importa?
– Rachel... – ele tenta manter a calma – você prefere que eu ajoelhe?
– Não. Eu... eu... eu não sei o que responder. Nunca fui pedida em casamento antes.
– Ainda bem – ele ri, nervoso – Só diga.. sim. Ou não. Mas diga algo. Porque eu também nunca pedi ninguém em casamento. — Dou um sorriso, os lábios tremendo.
Finn estende a mão e eu me deixo ser puxada contra seu corpo.
– Diga sim –sussurra
– Sim – digo quase que para mim mesma
– Sim – ele falou firme
– Sim – sai mais forte
– Rach, sim! — Eu dou uma risada e o agarro.
–SIM! Ah, meu Deus, sim. Claro que sim!
Ele ri, me beijando. Ignoro que seu pai está olhando, que Blaine está olhando, que eu estou no meu local de trabalho. Eu só queria demonstrar o que sentia. E naquele caso tudo o que sentia era amor.
– Posso? – ele tira a aliança da caixinha
– Tenho algumas condições. É claro.
– É claro –ele sorri
– São só cinco – dou um sorriso – Primeiro, você vai jogar aquela maleta ridícula fora. Você agora dará aulas na faculdade e eu não quero meu marido sendo zoado pelos alunos.
– Jogo a maleta no lixo assim que chegar em casa.
– Não quero um casamento pomposo, e, principalmente, não vou sair do nosso prédio.
– Ok, mas você v ai vir morar no meu apartamento.
– O lado esquerdo da cama é meu. — Ele riu.
– E eu sou a responsável pelo controle de sua maravilhosa tv. É claro.
– Casada comigo, amor – ele sussurra no meu ouvido, em tom de promessa – a última coisa que vai querer ligar é a tv. — Eu coro.
– Qual a última condição?
– Sou a dona dos melhores horários do dia. Está ouvindo?
– Condições mais do que aceitas. Agora me de sua mão.
Estendo. Ele pega meu dedo anular e lentamente coloca a aliança ali. Minha mão treme, a dele também, nós rimos. Quando a aliança enfim chega ao lugar certo nós apertamos um a mão do outro, na certeza de que aquilo era o que queríamos.
– Você não tem condições? — pergunto emocionada
– Só preciso que me ame.
– Eu te amo. — Ele sorri.
Me separo dele, sem me desgrudar, e preparo um discurso de desculpas ao meu sogro – afinal, aquela não tinha sido a melhor maneira de ingressar numa família de classe como a de Finn – Mas ele já não está mais no corredor. Nem Blaine.
– Ninguém nunca disse a ele o que você disse. Ninguém nunca me defendeu como você. Isso só me faz crer que fiz a escolha certa. Obrigado.
–Ele está me odiando.
– Sim. Ele não perdoa fácil.
– Obrigada – resmungo
–Não se preocupe, você terá muito tempo para ganhar a simpatia dele. Uma vida toda, se depender de mim.
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