Guria do céu!
1 Capítulo Único
Notas iniciais
A brisa que vinha da janela não era suficiente para amenizar o calor na sala. Para piorar, haviam dois gatos em cima da poltrona e um no meu colo. Eu bebia chá gelado, e não tinha nenhuma ideia para continuar a minha história. Esse era o quarto bloqueio criativo da semana.
Será que minha vida inteira vai ser assim?
Suspirei profundamente, tomando um gole de chá. Minhas esperanças de alguma inspiração vieram assim que lembrei que não era qualquer dia, mas sim, 24 de dezembro. Véspera de um dos dias mais esperados no ano. Provavelmente, me traria alguma ideia.
— Quando as primas do Rio vão chegar mesmo? — perguntei olhando para a cozinha, enquanto alisava o brilhante pelo da gata branca, Teresa.
— O frango assou, a bebida na geladeira... por que eu sinto que tô esquecendo alguma coisa...? — murmurou a dona de casa, Carolina. E também, minha mãe por 22 anos seguidos — o que representa um recorde na família, aparentemente. Meu pai e a família dele não vinham nem para o natal, e grande parte da minha família materna se encontrava dividida.
— Responder à minha pergunta...?
— Ai, ai, Larissa! Você já fez essa pergunta umas dez vezes! — Ela agitou as mãos, agitada, e jogou um pano de prato em cima de mim. Melissa pulou do meu colo, arranhando de leve minhas pernas descobertas. Ai. — Lembrei o que está faltando! Vai lá no seu Chico buscar ameixa em calda. Para o manjar dos deuses.
— Anjos. Manjar dos anjos. — sussurrei, me pondo de pé. Depois de deixar o pano em seu respectivo gancho, passei a mão no shorts, a fim de tirar os pelos brancos de cima dele e parecer mais decente. Peguei cinco reais e fui em minha aventura — cujo destino era a rua da frente. Fechei a porta atrás de mim e peguei o celular para ver se havia mensagens novas. Tinha, sim, alguns ''feliz natal'', mas depois disso... fim. Pisquei, balançando a cabeça. O que eu estava esperando?
Todo mundo estaria se divertindo com a família. Meus parentes do Rio de Janeiro viriam, o que totalizaria... cinco pessoas, na verdade. Eu sei, é triste. Principalmente porque nem sempre foi assim. Pelo menos, não quando eu tinha doze anos. As coisas eram diferentes...
Deixando minha melancolia de festa de fim de ano de lado, olhei os dois lados da rua e atravessei, indo direto para a loja. Quando cheguei, o velho sininho soltou um plim ao ser tocado pela mão do atendente, seu Chico.
— O que sua mãe esqueceu dessa vez? — perguntou, erguendo uma sobrancelha. Ele conhecia bem ela. Ri de leve, pegando um pacotinho de ameixas secas.
— Basicamente a segunda parte mais importante do manjar. — falei, colocando a nota sobre o balcão. — Como vai a Selma?
— Vai bem, vai bem! Ah... — Ele se inclinou, apoiando os braços na mesa. — dona Carolina te contou que o Lipe vai no natal de vocês, né? Ela estava de papo com a Jurema esses dias... a Selma que disse, aliás. Não sou eu quem fica esticando o ouvido no assunto dos outros...
Meu queixo caiu. Minha mãe fez O QUÊ?
Ele era... meu amigo de infância. Era, porque bem... para resumir, Lipe era um babaca. E pior ainda: um babaca dissimulado.
Fiquei pálida. Peguei as moedas do troco. Mil coisas passaram pela minha mente.
De todas as pessoas que ela podia chamar, por que ele?
Eu sabia que já fazia dez anos desde ''O Incidente'', mas... ah. Quem era eu para discutir? Tentei deixar para lá. Ninguém ia me impedir de passar a melhor noite do ano com as minhas primas, que nunca iam para minha cidade, e cantar bêbada no karaokê — não tão bêbada. Moderadamente bêbada. Só a ponto de cantar Beautiful Liar dançando a coreografia original do clipe com a Karen.
Botei um sorriso no rosto, mas acho que foi cedo demais.
Lipe estava em frente à casa, minha casa, todo sorrisos...
... com a causa da nossa discórdia.
Também conhecida como Collie, a Pit Bull que me deu um trauma de cachorros aos doze anos.
Um suor frio descia pela minha nuca. Meu corpo todo começou a tremer. A adrenalina corria pelas veias, preparando uma fuga.
Permaneci hipnotizada pela visão do animal, mas logo que começou a latir, descongelei. Soltei um gritinho.
Quando ele se virou para olhar ''quem diabos era a baderneira'', arregalei os olhos e saí fugida com as ameixas na mão.
Eu é que não vou ficar nem mais um segundo nesse quintal!
Eu não ia passar meu natal com aquele dissimulado não! Nem a pau. Não iria se fosse paga, e nem mesmo se me oferecessem um contrato editorial de cinquenta mil pilas. Eu estava ferrada.
Só parei quando me vi na rua XV de Novembro, um tanto afobada por causa da corrida. Me abanei, tentando retomar o fôlego. Olhei para cima.
Arcos enormes, enfeitados por fileiras e mais fileiras de luzes douradas cercavam o local. Eu me perguntei se ainda estava em Curitiba. Me aproximei de uma grande placa negra, que dizia: ''Galeria de Luz''. Várias pessoas andavam por dentro deles, como se fosse um túnel luminoso. Quando a adrenalina se esvaiu, pensei: E agora, Larissa? Pus as mãos nos quadris. Constatei que minha mãe havia definitivamente arruinado meu Natal. Ótimo...
Todavia, aquela bela construção me fez sentir o Natal se aproximar. Em outras palavras, eu estava admirada demais para poder pensar nisso. Caminhei pela passarela, ouvindo uma música ficar mais alta à medida que eu me aproximava da multidão. Um palco se elevava à frente, revelando, acima de todos, a sincronia de uma apresentação de dança. Memórias me levaram para uma cena distante, de anos atrás.
Mentira, foi a primeira vez que eu vi aquela apresentação. Mas que era bonito, era.
Frustrada, me arrastei até um dos bancos de madeira fora da galeria e respirei fundo. Minha cabeça girava... e eu não sabia o que fazer.
Uma fala surgiu na minha cabeça. A voz de River, meu protagonista high society — e espião do Estado nas horas vagas — dizia uma de suas mais célebres frases:
'' — Levanta essa bunda da cadeira a mostra para ele quem você é. Ele conheceu a Rose que não sabia argumentar. A Rose que ficou com medo. Mas a Rose que está diante dos meus olhos não é mais essa. Mostre a ele.''
Pulei do assento, com os punhos cerrados na altura dos ombros.
— Eu vou mostrar que foi ele quem saiu perdendo e que eu sou muito bem resolvida! É isso ai! — bradei, levantando um punho no ar.
Eram sete horas da noite, e as poucas pessoas que cambaleavam por ali estavam meio ''altas'', então algumas até aplaudiram. Outras encorajaram. Saí como um raio, ignorando qualquer pensamento contrário à minha motivação, e voltei correndo para casa.
Entrei pela porta dos fundos.
Eu tinha que mostrar minha superioridade naquela hora, e não ia alcançar esse objetivo usando short jeans e regata. Não, eu ia colocar meu ''longo'', reservado para essa ocasião, e escolhi meu melhor salto alto. Prendi meu cabelo em um coque e deixei alguns cachos soltos. Depois de ter certeza de que estava deslumbrante, servi a confiança numa bandeja de prata e desci a escadaria do sobrado como se estivesse atravessando uma passarela.
Ouvi assobios, e ri um pouco.
— Feliz natal! — exclamei, levantando os braços. — Ah é, a ameixa. — falei, discretamente passando o pobre saquinho das frutas secas para minha mãe — que não estava com uma cara muito feliz — e voltei com a minha pose. — Meninas!
Corri para abraçar ''As Três Fluminenses'', matando as saudades que as redes sociais não cobriam. Olhei de relance para o rapaz sentado na cadeira da sala de jantar, ele tinha um sorriso de canto, e...
Ooopa.
Ele não era... O Lipe. Não Aquele Lipe do Pit Bull que mordeu a Larissa.
Hã?!
E também não havia nenhum sinal do Pit Bull. Só de uma gata cinza, que havia subido na mesa, por sinal. Karen a tirou dali antes da patinha alcançar o peixe assado, dando bronca.
Esse Lipe tinha um braço sobre a cadeira. Me olhava como se estivesse esse tempo todo apenas esperando eu chegar...
— Você... Lipe? — perdi a fala. Ele riu. E estendeu a mão.
— Prazer, Felipe. E você é a filha da dona Carolina? Larissa, né?— Assenti, apertando sua mão com força. A sacudi para cima e para baixo, com um sorriso firme.
Como fui trocar as bolas? O amigo de infância: filho da dona Inês. Esse cara: não sei de onde saiu, mas já está difícil de tirar os olhos dele, hein...
— Ai, não sei por que aquela Inês mandou o filho dela vir aqui. Trouxe um panetone. Mas faz anos que a gente não se fala, vai entender essa gente da Batel... — resmungou minha mãe. Então ela não era uma traidora que trouxe o Lipe-Dissimulado para o melhor natal de todos? E eu ainda atrasei o manjar? Na cozinha, expliquei tudo enquanto fazia a calda da sobremesa.
— Desculpa, mãe... eu vi o Felipe e surtei, achando que ele ia passar o natal com a gente. E o seu Chico disse que um ''Lipe'' ia vir... troquei alhos por bugalhos e confundi os dois.
Ela riu, franzindo as sobrancelhas.
— Claro que não! Eu lembro daqueles três pontos que você tomou como se fosse ontem. Credo, também não sou vira-casaca, né Larissa?
— TRÊS PONTOS? Ninguém me disse que eu tomei três pontos! — exclamei. Eu estava chocada. Ela deu de ombros.
— Você estava grogue da anestesia.
Balancei a cabeça, e fomos logo colocar o resto da ceia na mesa.
Colocamos a conversa em dia, bebemos um gole ou outro de champanhe — ''Vocês são terríveis quando bebem vinho'', disse minha mãe — e cantamos muito. Até deu para puxar um assunto ou outro com o ''Felipe de Floripa'', que foi como apelidamos. Segundo a dona Carolina, ele costumava passar o natal em Florianópolis, mas por causa do trânsito, havia ficado sem carona para voltar, o coitado.
Aquela noite foi um marco...
E é claro, não faltou o especial do Roberto Carlos e nem a contagem regressiva.
'' — Esse é o melhor Natal de todos: brega, com poucas pessoas e ameixas suspeitas no manjar, mas perfeito para mim.
— Diz a garota que nasceu no campo. — retrucou River, virando-se para ela. O espião tinha um sorriso discreto nos lábios. Levou uma taça de vinho a Lorraine, e manteve uma para si. Os dois brindaram suas taças, fazendo ressoar um delicado tilintar dos cristais. — Ao nosso Natal chique e sem-graça, que definitivamente não se compara a um jantar da família Beauvoir.
Ela riu e levou o líquido bordô à boca.
— Você sabe que não foi o que eu quis dizer, Vic...
Os dedos finos de 'River' puxaram suavemente o queixo de Lorraine, e seus lábios selaram os dela antes que ela pudesse terminar de dizer seu nome.'' digitei no laptop.
Estiquei os braços para cima, alongando-os, e cliquei na opção de salvar o arquivo.
Eu não disse que o Natal trazia ideias?
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