Gunslinger
5 Burning Files.
Notas iniciais
De manhã cedo Travis despertou. Levantou-se e foi até o banheiro. Encarou a pessoa que estava na frente do espelho, com leves olheiras arroxeadas.
Preciso dormir mais, foi a primeira coisa que ele pensou.
Ligou o chuveiro, e o deixou numa temperatura agradável. Ele pensou em primeiro passar na casa de sua mãe para tomar o café dela, e depois ir à biblioteca pública, se encontrar com Daniel e depois que pegasse os relatórios voltar para falar com Emilly. Mas caso visse algo suspeito nos relatórios.
***
Após sair do banho encarou a pilha de malas que estavam jogadas no canto do quarto.
Abriu uma delas e pegou uma calça jeans, em seguida procurou uma blusa de gola v branca. Achando-a, colocou a calça e pegou o celular.
Em torno de dez minutos, desceu com a blusa apoiada no ombro. Emilly já estava acordada, pondo a mesa para o café. Provavelmente para ele, quer dizer eles. Até porque se ela estivesse sozinha não faria isso.
— Bom dia, Travis — disse Emilly, sem desgrudar os olhos da mesa que ela estava arrumando.
— Bom dia, Emilly. — Nesse momento ela desviou os olhos, e lançou-os para Travis. Emilly sentiu o rosto atingir uma cor diferente, e logo tornou olhar a mesa.
Travis percebeu.
— Me desculpa — murmurou, colocando a blusa.
Emilly tinha se surpreendido com os músculos definidos e bem alinhados de Travis. Afinal de contas não é todos os dias que há um estranho na sua casa, sem blusa ainda por cima.
Ele deliberou que não tomaria café na casa da mãe. Não gostaria de fazer essa desfeita para essa mulher.
Travis se juntou à mesa, esperando-a.
— Os pães estão frescos, comprei esta manhã — ela comentou.
Travis sorriu, e eles se encararam por um tempo. Logo ela o deu um sorriso.
— Como foi a sua noite? — Emilly perguntou, querendo quebrar o gelo.
Travis ponderou a noite passada.
— Foi boa sim. — Ele se lembrara dos pesadelos. — O quarto é muito aconchegante e confortável. — Ela sorriu, parecendo aliviada. — E como foi a sua noite? — perguntou-a, enquanto pegava o pote de geleia de morango.
Ela avaliou um pouco.
— Tive alguns pesadelos. — Ela se limitou a responder só isso.
Travis ergueu as duas sobrancelhas de vez, dando uma mordida em seu pão.
A maioria de seus sonhos envolvera Harry, sempre de uma forma esquisita.
— Podemos dizer que tive o mesmo tipo de noite.
Emilly assentiu sem saber o que dizer.
— Lá é muito ruim, não é? — ela o perguntou. — Digo, nesses lugares para onde vocês são enviados.
— Não é muito agradável. Às vezes é um inferno. — Ele fez uma pausa. — Quando digo às vezes, digo sempre.
— Você vai se encontrar com o Daniel que horas? — Emilly perguntou-o em seguida.
— Meio dia. Mas antes eu ainda pretendo passar na casa da minha mãe.
***
Depois de passar na casa de Emma, Travis se dirigiu para o centro.
Um pouco mais de meio dia ele chegou à Biblioteca. Procurou Daniel por toda a calçada em frente à Biblioteca. Na esquina da avenida, encontrou-o.
— Boa tarde, Travis — disse Daniel com total desanimo.
— Cadê o resultado da autópsia? — Travis já estendeu a mão para receber a papelada.
— Calma, está aqui. — Daniel estendeu a mão com os papéis.
Quando Travis abriu a capa, as pupilas de Daniel dilataram. Seus olhos castanhos estavam profundos e pensativos.
Isso pode custar a sua vida, ele se lembrara do dia em que disse isso a Harry.
Ele se lembrara também do último dia que vira Singleton. Um dia antes de sua morte.
Eles discutiram, foi uma discussão muito feia. Uma das piores que já tiveram.
— Eu não vou largar tudo o que construí nessa merda. Eu não vou deixar de fazer o que faço. Não irei largar as minhas condecorações, nada do que ganhei. Nada! — Harry esclarecera.
— Você deveria fazer isso.
— Isso, é ridículo. — Harry batera a palma de sua mão contra a mesa.
Ele dera as costas para Thompson, e quando colocara a mão na maçaneta, se virou novamente.
— Só não faça nada com a minha família — Harry dissera com a voz um pouco arrastada, ele havia tomado anteriormente um calmante e já estava sentindo o seu efeito. Ele não estava dormindo há dias.
— Eles não perdoam ninguém. — Fora a última coisa que Thompson lhe dissera.
***
Por volta das três da tarde ele voltou para casa de Emilly. A porta estava aberta. Emilly estava lendo a revista Vogue, sentada na poltrona que ela sempre costuma sentar. Ela tirou os olhos rapidamente do que estava lendo, e logo perguntou:
— Como foi lá?
— Ele estava meio assustado.
— O que aconteceu?
— Ele ficou falando algumas coisas sem sentido, pedindo perdão por ter brigado com Harry.
— Você acha que ele poderia ter impedido a morte dele?
Travis ponderou a pergunta de Emilly.
— Não sei. Talvez. Eu vou analisar o resultado da autópsia primeiro, antes de tirar qualquer tipo de conclusão.
— Tudo bem. — Ela voltou a ler à Vogue.
Travis subiu até seu quarto, abriu o blindex e recostou-se na grande cadeira de vime bege com a parte acolchoada bege de um tom mais claro, acompanhada de duas almofadas; uma bege da mesma cor da cadeira, e outra branca.
Confortável o suficiente, iniciou a leitura.
***
O final de todo o resultado era o mais importante.
Overdose em conjunto de abuso de calmantes (diazepam).
Overdose!?, Travis se perguntou. Como overdose? Ele não utilizava drogas. Isso só poderia estar errado, difícil saber se essa autópsia estava certa. Travis apoiou o cotovelo sobre sua perna e colocou a mão sobre a cabeça. Logo ele deixou os papéis de lado e massageou levemente as têmporas.
Como ele contaria isso à Emilly?
O marido dela morreu de overdose e por abuso de calmantes? Isso não havia lógica.
Primeiro: Harry não tinha histórico de dependência química. Segundo: A mulher dele está grávida, ele não se suicidaria. Isso é uma burrice!
Harry ouviu Emilly bater de leve na porta de seu quarto.
— Travis?
Ele escondeu os papéis atrás das almofadas e correu para abrir a porta.
— Oi, oi — ele disse e passou a mão na cabeça.
Emilly olhou por sobre seus ombros.
— Está tudo bem?
— Tudo sim — respondeu-a de bate-pronto.
— Ahñ. — Ela fez uma pausa para pensar no que perguntar. — Conseguiu descobrir alguma coisa?
Travis pensou, pensou e pensou. Pensou que ela poderia cair dura ali, ou chorar tanto a ponto de inundar a casa. Resolveu mentir, mais tarde contaria para ela.
— Ainda não descobri nada de significativo.
Emilly franziu os lábios, sem acreditar muito, e logo retrucou:
— Então, quando descobrir algo significativo, me avise.
— Certamente — Travis respondeu-a.
Emilly deu meia volta e tornou para seu quarto.
E só então Travis parou para pensar: será por isso que estão prendendo o corpo de Harry? Já tinham 4 dias e nada de notícias sobre nada isso. Nada de enterro, nada de nada.
Na última folha, tinha uma espécie de “contrato”, já assinado. Travis leu e releu a folha inteira — até as menores letras — e não acreditara quando percebeu que a autorização era para que ele fosse cremado. Cremado?! Não haverá velório, ele não o verá pela última vez.
Travis sentiu um severo aperto no coração.
E só Daniel poderia lhe explicar essa situação.
Então o que restava-lhe era ligar para Daniel.
O celular dele deu cinco toques, em seguida a Helena, esposa dele, atendeu.
— Alô? — Sua voz parecia um pouco embargada e sonolenta ao mesmo tempo.
— Helena? — Travis perguntou-a.
— Eu. Travis o que você quer? — ela perguntou rudemente.
— Eu gostaria de falar com o Daniel. Só isso.
Ela ficou um pouco em silêncio, e fungou.
— Você só pode estar de brincadeira comigo, não é?
— Não, eu quero falar com ele urgentemente — disse Travis.
— Você é uma pessoa muito inconveniente, sabia?
— Não. Por que eu seria inconveniente? Aconteceu alguma coisa?
Ele arregalou os olhos, imaginando o que deveria ter sido.
Helena transformou sua voz rude em uma voz de choro.
— Daniel morreu.
Na mesma hora Travis deixou o celular deslizar por sua mão.
— Não pode ser — ele sussurrou para si mesmo.
Fale com o autor