Guilty Pleasure
28 Epílogo
Notas iniciais
There's a million things I can't control
But there is one thing that I know
Tides will change
The sea can't help it
Nothing is forever
When it feels like I'm in constant motion
You're my anchor in the ocean
(Anchor – A.G.)
Felicity Smoak Queen
5 anos depois
Caminhei apressadamente pela grama alta e úmida sentindo os saltos dos meus sapatos se afundarem na terra a cada novo passo. Eu deveria estar com algo mais confortável, mas não houve tempo. Eu tive um compromisso pela manhã e não queria me atrasar por causa de algo tão tolo quanto trocar os sapatos.
E se eu o fizesse, eu perderia meu tempo com ele.
Ignorei meus sapatos sujos e fiz o caminho já conhecido entre as lápides do cemitério de Starling City. Afastei com a mão a pequena lágrima que desceu pelas bochechas quando me aproximei do lugar dele. A pressão no peito, entretanto, não era assim tão fácil de afastar. Quanto mais eu me aproximava do túmulo, maior ela ficava.
Por um longo tempo sempre que eu pensava na morte, ela vinha acompanhada de um sentimento de raiva. No quão injusto é perder alguém que se ama, em tudo o que poderíamos – e deveríamos – ter vivido juntos. A culpa e o arrependimento também eram companheiras permanentes, quase irmãs. Eu sempre pensava no que poderia ter feito diferente para mudar o destino, ou ainda, quando não encontrava soluções para o inevitável, em como eu deveria ter aproveitado mais meu tempo com aquela pessoa especial.
Todos os dias eu ainda sentia raiva da morte, pelo o que ela tão injustamente tinha roubado de mim. Mas a culpa já me abandonara, eu entendi e aceitei que não poderia controlar o tempo que teria com cada pessoa, ninguém é para sempre. Mas o que eu poderia fazer era garantir que cada tempo que eu tivesse com as pessoas que eu amava, fosse especial, e assim, quando elas me deixassem eu poderia sempre revisitar nossas lembranças. Talvez eu não me sentisse como se a morte roubasse algo de mim, se ainda mantivesse comigo memórias do amor que compartilhamos.
— Oi. – Raspei a garganta ao perceber minha voz estava rouca.
Anos haviam se passado desde que ele me deixara, mas a pressão no peito nunca ia embora. Engraçado como nos acostumamos até mesmo com a dor, não? Eu não apenas me acostumei com ela, alimentei-me dela por muito tempo como se a dor fosse a única prova de que ele era real. A única forma de não esquecê-lo, e de mantê-lo sempre comigo.
Eu estava tão, mas tão errada.
A dor não era a resposta.
Isso era tão óbvio.
Mas é aí que entra a raiva e te impede de enxergar com o coração.
Me agachei na grama tentando ficar mais confortável para o que seria uma longa conversa. Soltei o ar que inconscientemente prendia, me sentindo instantaneamente mais leve, ainda que meu coração pesasse um pouco.
— Desculpe por não vir mais cedo, Thea me prendeu em um monte de preparativos para o casamento dela e... – Meus olhos piscaram e meu coração se aqueceu ao reparar em algo diferente acima da lápide. – Girassóis. – Toquei as pétalas macias das flores que estavam sobre um luxuoso vaso. — Então seu pai esteve aqui antes de mim. – Constatei, balançando a cabeça.
Desde que trouxemos Jonas para Starling City, Oliver passara a reservar um tempo para ele. As vezes eu o acompanhava e observava de longe suas longas conversas com o filho que nunca conheceu, eu sabia que isto poderia não ser exatamente saudável. Se prender à alguém que já não estava aqui, mas eu também reconhecia que Oliver e eu estávamos em estágios diferentes do luto.
E que ele precisava disto.
Precisava de tempo para aprender a aceitar a morte.
E eu precisava estar ao lado dele, para lembrá-lo de que não estava sozinho. E que aquele lugar feio e escuro no coração da gente ainda poderia ser preenchido de luz e coisas belas.
Peguei o cartão que acompanhava as flores. Vacilei por alguns segundos antes de ler, debatendo se não estaria invadindo a privacidade, mas então me lembrei que não haveria nada escrito ali que Oliver não me diria.
“Filho,
Eu sei que não tivemos tempo, e que merecíamos muito mais do que a vida nos ofereceu. Mas se há algo que aprendi é que nada é para sempre, nem mesmo a morte. As pessoas que amamos sempre vivem em nossos corações.
E eu o amo e sempre o manterei vivo em meu coração.
E um dia, eu sei que nos encontraremos.
Feliz aniversário.
Com amor,
Papai.”
Oliver nunca fora uma pessoa religiosa ou com crenças, tão pouco eu era. Mas há algo em perder alguém que nos leva a questionar toda a nossa existência e o porquê de estarmos vivos.
A acreditar que existe um propósito maior para tudo.
Aquela fé inabalável de que o amor é maior do que tudo, até mesmo a morte. E talvez seja, talvez haja mais para a nossa família. Nós não poderíamos viver aquela dor para sempre.
— Seu pai deixou a competição difícil. — Ri, secando as lágrimas nos olhos. — Feliz aniversário, filho. – Hoje Jonas faria dez anos. Deixei meu presente sobre seu túmulo, um pequeno ursinho com chapéu de marinheiro. Eu não sei porque o escolhi, apenas passei em frente à uma loja e o vi. E foi como se ele falasse comigo. – Eu sei que você provavelmente está velho para ursinhos de pelúcia, mas imaginei que você amaria navegar com seu pai. – Já não pesava tanto pensar na família que poderia termos sido. – Para ser honesta, tudo o que eu gostaria de dá-lo hoje era um abraço bem apertado. Mas infelizmente não posso, então eu abracei esse ursinho com todo o meu amor, espero que ele leve meus abraços para você.
Balancei minha cabeça, já não estava sendo coerente.
— Seu pai disse que tem uma surpresa para nós dois hoje. Mas aposto que ele te contou o que é. – comentei, ainda apertando o ursinho em meus braços como se fosse meu filho perdido.
— É claro que contei. – Olhei para trás assim que escutei sua voz. Oliver estava ali, provavelmente há um bom tempo. — Ele amou e disse que meu presente é incrível.
— Você sabe que não é uma competição. – adverti.
— Claro que não. – respondeu com um pequeno sorriso, senti sua mão sobre meu ombro – É hora de irmos, amor.
— Adeus, meu pequeno. – Dei um último beijo sobre o ursinho na ilusão de que ele pudesse chegar até Jonas, e coloquei meu singelo presente sobre seu pequeno túmulo e ao lado das flores. – Espero que esteja feliz e saiba que é amado, aonde quer que esteja.
Dei a mão a Oliver, entrelaçando meus dedos nos seus e segurando firme a ele. Perder quem amamos também nos faz segurar ainda mais firme naqueles que ainda temos.
***
Oliver me pediu para fechar meus olhos durante o caminho.
Eu poderia ter protestado e dito o quanto isso era uma bobagem, mas anos se passaram e eu aprendi a me habituar com suas surpresas e até mesmo a esperar ansiosamente por elas, mesmo que nem todas tenham tido o melhor desfecho. Eu o amava e confiava nele. E claro, eu sempre poderia trapacear... Eu conhecia a melhor maneira de descobrir todas as suas surpresas. E isso incluía uma pequena conversadeira que não conseguia esconder nada de mim.
Não é por menos que Oliver garantiu que ela estivesse longe durante o dia de hoje...
Quando desci do carro, suas mãos se colocaram sobre meus olhos garantindo que eu não olharia antes da hora. Eu ri para seu gesto tolo, mas apreciei o conforto quente de suas mãos. Senti também um cheiro conhecido de frescor no ar, não pude analisá-lo por muito tempo, logo havia a pressão de pequenos e conhecidos bracinhos me apertando forte em um abraço.
Me abaixei para ficar da sua altura.
É claro que ela faria parte da surpresa.
— Mamãe! — A familiar voz infantil aqueceu meu coração, como sempre fazia quando eu escutava aquela palavra. Apenas duas sílabas. Duas pequenas sílabas que mudaram todo o meu mundo. — Cadê seus olhos? — perguntou dentro de um riso. Suas mãos foram imediatamente para as mãos do pai que me impediam de vê-la, puxando-as dali e enchendo minha visão com pura luz.
Sua luz.
— Olá, minha pequena. — a ergui em meu colo e a apertei um pouco mais, tomando um tempo para inspirar seu cheiro e guardando naquele lugar especial junto ao cheiro do meu outro bebê, suspirando no fim. Nunca era o suficiente. Não importa quantos abraços apertados eu desse, quantas vezes eu a segurasse firme contra meu peito sentindo o ritmo acelerado e vivo do seu coração. Eu nunca tinha o bastante da incrível e assustadora sensação que era segurar meu mundo inteiro nos braços. — Como foi seu dia longe da mamãe? Brincou muito com o tio, Roy? — Dei um aceno para Roy que parecia afobado depois de correr atrás da minha filha, e agora recuperava o fôlego encostado ao carro, ou talvez apenas estivesse nos dando um pouco de privacidade.
— Papai e eu compramos um barco! — foi a primeira coisa que me disse — Depois eu fiquei brincando de esconde-esconde com o tio Roy, e depois brincamos de....
— Espere... O quê? — exclamei assim que registrei o que nossa filha me dizia — Oliver! Você comprou um barco?!
— Faith! Sua tagarela! — Oliver bagunçou os cabelos da nossa filha. Seus olhos desviaram dos meus, mas eu via aquela pequena centelha de culpa enquanto ele direcionava sua atenção para ela. — O que conversamos sobre guardar segredos?
— Você falou que eu não sei guardar segredos, papai. — respondeu impaciente, revirando os olhos — Podemos ir brincar no barco agora que mamãe chegou? Eu quero mostrar a ela o desenho que fiz.
— Eu disse que você deveria tentar guardar os segredos. — explicou com calma.
— Mas eu já disse que não quero! — reclamou, como se o simples fato de não querer resolvesse toda a questão. — Não é divertido esconder as coisas da mamãe. É melhor contar e fazer ela feliz logo. — Devolveu — Você está feliz, mamãe? — Perguntou, com seus grandes cheios de animação.
Mordi meus lábios, antes que me traíssem. Eu estava feliz?
Era um barco no final de contas, coisas boas e coisas ruins aconteceram em um barco alguns anos atrás. Oliver e eu nos reencontramos e nos perdoamos na nossa antiga Suíça, ficamos noivos, fizemos amor... Mas ainda assim nosso precioso lugar tinha naufragado com todas as pessoas que amávamos nele. Por mais distante que estas memórias fossem, era difícil esquecer aqueles momentos de pânico.
Depois disso eu nunca mais tinha pisado em um novamente. Tão pouco Oliver. Nós não falávamos sobre isso, agradecíamos por todos termos saídos bem e vivos daquela tragédia, mas não falar era um acordo não dito entre nós.
Eu gostava de pensar que havíamos aprendido a apreciar a dádiva que era estamos juntos e vivos, e que estes momentos – unicamente marcados pelo ódio de alguém que graças a Deus estava longe de nossas vidas — não mereciam ser revisitados. Jamais daríamos à Slade, o prazer de mais uma vez, tentar nos arruinar.
Por isso eu estava mais surpresa com esta decisão de Oliver que abria tantas portas antigas, do que com a surpresa em si.
Olhei para Oliver, que me analisava ansioso pela minha resposta.
— Estou com você e com o papai, como posso não estar feliz? — A respondi, recebendo um franzir de cenho de Oliver. Essa não era a resposta que ele esperava e tampouco era a resposta que, se eu analisasse todos os meus pensamentos e sentimentos, eu deveria dar. Mas decidi que aquele momento não era o momento para me analisar, era o momento de seguir a maré, e ver até onde ela me levaria.
— E com o Jonas também. – sorri para minha pequena.
— E com o Jonas também. – repeti, me emocionando com sua adição – Contanto que a gente o guarde em nossos corações, ele sempre vai estar conosco.
— Eu sei, mamãe. Mas agora o Jonas vai poder viajar com a gente e procurar sereias. — tagarelou — Papai mandou escrever o nome do meu irmão mais grande nele, mamãe. — Pisquei. Ainda não tinha me atrevido a olhar para o amontoado de metal sobre a água, isso o tornaria real demais. Mas Faith estava impaciente, suas pequenas mãos se colocaram ao redor do meu rosto, movendo-o para a direção do barco. — Bem ali ó.
— Jonas Smoak Queen. — Como sempre acontecia, meu coração apertou ao falar seu nome — Para sempre em nossos corações – li a frase apenas sentindo-a.
Foi instantâneo.
— São lágrimas de felicidade, mamãe? — Faith perguntou, preocupada.
— Claro que são! – Meu sorriso se alargou e minha filha cuidadosamente secou as minhas lágrimas. Simples assim. Um toque terno e até mesmo um leve resquício de dor se transformava em amor.
Meu olhar desviou rapidamente para o de Oliver, bem ali ao meu lado. Seus olhos eram observadores como sempre, eu podia ouvir as perguntas que eles faziam quando prescrutavam meu rosto em busca das respostas.
Aproveitei que Faith queria descer para desviar o olhar. Havia muito em minha mente, eu mesma ainda não estava certa sobre como me sentia, e não queria que Oliver interpretasse tudo errado.
— Agora a gente vai poder levar o meu irmão na nossa viagem pelo mundo! – Nossa filha ficou entre nós segurando as mãos, e tagarelando enquanto saltitava em direção ao barco — Papai me deu o quepe dele e disse que eu sou a capitã do barco, acredita mamãe?! Mas tá com o tio Roy porque eu quase deixei cair na água. Aí eu fiquei desenhando na cabine porque ele disse que eu sou uma menina muito empulheta...
— Espoleta. — Corrigi.
— Tio Roy também falou que vai ficar muitas vezes aqui no barco porque a tia Thea é uma noivazilla que deixa ele louco.
— Você não vai falar isso para sua tia, não é? – Eu ri ao escutar medo real na voz de Roy.
— Por que não? Eu quero ser uma noivazilla também. – decidiu — Ráhh – rugiu e soltou nossas mãos interpretando a sua própria maneira um monstro com garras e perseguiu Roy pela marina, indo em direção ao barco.
— Nada de ser uma noiva antes dos quarenta. – Oliver gritou com tanta seriedade que me fez gargalhar.
Nós dois paramos na entrada do barco, seu olhar era sério e intenso. Lia-me. Estávamos casados há quase cinco anos e eu ainda sucumbia a este mesmo olhar, capaz de ler a minha alma.
— Você não vai conseguir segurá-la por tanto tempo. – Oliver apenas suspirou passando os dedos entre os cabelos enquanto observava nossa pequena filha correndo e rosnando pelo barco.
Sorri para a imagem.
Seu corte de cabelo havia mudado um pouco se tornando mais rente. Pequenas rugas haviam surgido nas extremidades dos olhos e ao redor dos lábios. E ali, debaixo da luz perfeita de um dia de verão sem nuvens, eu tinha a certeza de ver alguns fios brancos se misturando aos dourados. Mas a postura preocupada de quem temia estar perdendo algo precioso ainda era a mesma.
Sempre analisando demais.
– Não se preocupe, amor. – falei, enroscando meu braço junto ao seu e encostando a cabeça em seu ombro. – Temos tempo. Todo o tempo do mundo para você brincar com ela e vê-la crescer, para ensinar a tabuada e ameaçar o primeiro namorado citando todas as leis que ele não pode quebrar e até mesmo inventar algumas. Tempo para muitos bailes e danças. Aniversários. Para ajudá-la com a redação para a faculdade e também com a mudança. Para consolá-la quando estiver com o coração partido, e para tirar satisfação com o bastardo que se atrever a quebra-lo. — Oliver suspirou novamente — E um dia, quando o coração dela estiver pronto, quem sabe leva-la até o altar e entrega-la a alguém que irá fazê-la tão feliz quanto você me faz? – ergui meus olhos para Oliver, observando a briga de sentimentos neles. – Mas por hora, que tal deixarmos as preocupações de lado, e apenas nos concentrarmos em viver o agora?
— Papai o tio Roy... – o grito ficou perdido em meio às risadas, ao longe eu via Roy girar Faith no ar. –... Alguém me salva!
— Melhor irmos? – Oliver perguntou. – Viver o agora, certo? – Sua mão apertou a minha mais forte, e eu apertei a dele de volta dando a resposta sem precisar verbaliza-la. E juntos demos um passo para o nosso novo lugar.
O Jonas S. Queen.
***
Com o coração acelerado num misto de medo e ansiedade eu fiquei ao lado de Oliver enquanto ele navegava com o Jonas S. Queen pelo mar calmo da Baía de Starling City, junto com nossa filha que ostentava seu antigo quepe na cabeça, tinhas suas mãos apertadas sobre o leme e ouvia atentamente cada palavra do pai, absorvendo cada ensinamento.
Foi neste momento que todo resquício de dúvida se foi, e eu soube que esta tinha sido a decisão certa.
Eu pude ver num futuro não tão distante, cada momento especial que a nossa família passaria aqui. Era tolice permitir que os medos do passado, ainda tivessem tanto poder sobre o nosso futuro. Por isso eu apenas respirei fundo e fiz como as ondas do mar: me deixei levar.
Oliver ancorou o barco no finalzinho da tarde, virado para a direção do pôr do sol. A cidade nada mais era do que um borrão no horizonte, ao nosso redor apenas a imensidão do azul do mar e do céu se fundiam deixando tudo para trás. Ali, naquele lugar, nosso novo lugar, não havia espaços para pensamentos ruins e medos do passado. Se a nossa antiga suíça começou como um lugar para nos despirmos de nossas armaduras, para atacar menos e tentar nos livrar de antigos ressentimentos, o Jonas S. Queen era o lugar onde para apenas respirar e agradecer e planejar nosso futuro. Nós sobrevivemos. Não havia mais monstros ou sentimentos enterrados dos quais fugíamos, não havia mais corações quebrados.
Eu gostava de pensar que este novo lugar seria mais sobre corações curados.
Fizemos um piquenique e aproveitamos o máximo que pudemos daquele tempo em família. Oliver, eu e Faith. E em meu coração eu gostava de pensar que Jonas estava ali também, não apenas no barco que levava o seu nome. Eu o sentia na leve brisa que soprava em meus cabelos, no som da risada de Faith ou no toque quente e conhecido de Oliver ao segurar a minha mão.
Eu o sentia em cada momento feliz, por menor que fosse. Porque cada um desses momentos era feito de amor, e Jonas também.
—... Papai também disse que vai me ensinar a pescar, e que vamos dar a volta ao mundo procurando sereias! Não vai ser legal? – Faith comentou colocando um pedaço de bolo na boca. – E eu vou poder nadar com os golfinhos! – falou com a boca cheia, mas não me importei em corrigi-la.
— Sim, princesa vai ser uma aventura incrível! – acariciei seus cabelos — Está ansiosa?
— Sim! – se ergueu jogando migalhas de bolo por todo o lado. — Eu esqueci de mostrar o meu desenho, mamãe!
— Você pode me mostrar em casa. – a assegurei.
— Não, tem que ser agora. Esse desenho é especial. Mais do que todos os outros desenhos do mundo! – respondeu mais determinada do que nunca — Já volto! Aí você vai ver como a nossa aventura vai ser legal.
Me ergui para observar Faith ir até a cabine buscar o tal desenho. Eu sabia que era um caminho curto e que ela estava de colete salva-vidas e no meu campo de visão. Nada de ruim iria acontecer a ela, mas ainda era difícil deixar minha garotinha ser tão independente.
— Calma mamãe ursa. – relaxei assim que senti seus braços ao redor do meu corpo me abraçando por trás. Sempre tinha sido assim com Oliver. Bastava um toque, e todo o meu ser que mais pareciam um mar agitado em meio a uma tempestade se tornava calmo e tranquilo.
— Eu sou a mamãe ursa? – devolvi num riso — E você que prometeu dar a volta ao mundo e procurar sereias?
— Você sabe que eu não sei dizer não a ela. – Nenhum de nós conseguia. Faith era para nós uma representação do seu próprio nome. Fé. Tudo o que no passado precisávamos era um pouquinho de fé. Em nós mesmos, no nosso amor. Mas só percebemos isso muito tempo depois.
Antes da vinda de Faith, Oliver e eu conversamos muito sobre filhos, éramos conscientes de que Jonas sempre seria uma ferida aberta. E decidimos tentar apenas quando tivéssemos certeza de que estávamos emocionalmente e psicologicamente preparados para termos um segundo filho. Isso nos levou muito tempo de terapia, muitas lágrimas e visitas ao túmulo de Jonas. E uma gravidez extremamente cuidadosa.
Mas na vida tudo tem seu tempo.
Nenhuma ferida se cura da noite para o dia, nenhum medo simplesmente desaparece de você. Fazem parte de nós de quem somos. E tudo o que podemos fazer é ter fé. Fé de que um dia você estará desfrutando de um por do sol perfeito, com o amor da sua vida te abraçando enquanto vocês observam a filha que fizeram com tanto amor sorrir para vocês.
E então perceberá o quanto você é sortudo.
Por estar vivo e feliz junto das pessoas que ama.
Mesmo que seu coração não esteja completo, mesmo que aquele espaço nunca seja preenchido, está tudo bem. Há muitos espaços vazios que podem ser preenchidos e lapidados com amor todos os dias.
Basta se permitir.
Basta ter fé.
Observei com um sorriso no rosto nossa garotinha espalhar um monte de papeis no chão, enquanto procurava o tal desenho especial.
Acomodei-me mais no abraço de Oliver.
— Por que agora, Oliver? – Eu não precisei dizer mais nada, Oliver sabia exatamente o que eu estava perguntando.
— Eu sei. — encostou na balaústra me levando consigo para manter-me presa em seu abraço. Sua voz estava ansiosa, e eu podia sentir seu coração acelerando contra o meu corpo antes dele respirar fundo e falar novamente. – Eu pensei nisso por um longo tempo, parte de mim se ressentia dele ter tirado algo que nos era tão especial. Eu estive com raiva por muito tempo, e acho que também um pouco traumatizado. Eu nunca pensei que poderia pisar num barco outra vez, porque isso me lembrava como quase perdi você. – Senti seu corpo estremecer levemente com aquela lembrança. Não aguentei, virei-me em seu abraço e perdi meus olhos nos seus.
— Mas eu estou aqui, ninguém me tirou de você. – Oliver ergueu a mão acariciando o meu rosto.
Pensei em como aquele acidente tinha afetado cada um de nós de forma diferente. Tommy e Sara se casaram dois dias depois, ele havia a tirado da água ainda inconsciente e dissera que a amava até que ela acordara, chamando-o de idiota e ele simplesmente a pedira em casamento.
— Eu sei, mas ainda assim eu me via todos os dias observando você antes de acordar, apenas para ter certeza de que você está comigo. Que estou casado com você e que temos uma linda filha. – Uma breve memória de nosso casamento passou em minha mente, não tinha sido na Suíça como Thea planejou, mas talvez um dia pudéssemos renovar nossos votos aqui no Jonas S. Queen... — Eu não quero mais que coisas ruins aconteçam, e eu sei que elas não vão mais acontecer, que aquela é uma lembrança antiga e que todo mundo ficou bem no fim. – Tinha sido um verdadeiro milagre ninguém ter se machucado apesar dos esforços de Slade. – Mas meus sentimentos são como um barco descontrolado e sem rumo. E eu preciso de você comigo para acalmá-los. Você é minha âncora, Felicity. É o que me faz parar de deixar que o passado assuma o controle e viver o aqui e o agora. Eu comprei este barco para nós exatamente para isto, para que pudéssemos seguir em frente, mas tendo a certeza de que sempre que estivermos perdidos ou sem rumo, um possa ser a âncora do outro.
Suspirei e inclinei-me para Oliver beijando-o.
Eu não conseguia colocar em palavras o que ele me fazia sentir, um eu te amo não bastava, então simplesmente deixei que meus lábios lhe dissessem de outra forma.
— Então... Você gostou? – perguntou, erguendo uma das sobrancelhas daquele jeito fofo e levemente inseguro que eu raramente eu via em Oliver.
— E isso realmente importa? – devolvi.
— Eu quero fazer você feliz. – Sua sinceridade partiu meu coração.
— Você me faz feliz todos os dias. E não importa, amor. Não importa se estou com você em nossa casa ou nesse barco incrível desbravando o mundo enquanto procuramos sereias. – ele sorriu — Tudo o que importa para mim é que estamos juntos. Como a família que sempre quisemos ser. – Ergui minha mão apertando a dele, que ainda estava em meu rosto. – E que possamos ser a âncora um do outro quando a tempestade vier.
Oliver iria dizer algo, mas foi interrompido pelo exultante gritinho infantil de nossa filha.
— Achei! — Nossa pequena Faith veio correndo em nossa direção erguendo, vitoriosa uma folha de papel. – Olhem aqui.
Oliver pegou Faith no colo enquanto ela mostrava o desenho para nós dois.
— Eu, você e papai no barco. – Apontou para seu desenho, muito bem feito para uma criança de apenas quatro anos. — E meu irmão Jonas, bem aqui no céu porque ele é um anjinho. – Meus olhos se encheram de lágrimas ao ver as asinhas e auréola — E ele está com o ursinho que você deu a ele de aniversário, mamãe. Ele amou, mas ano que vem ele vai querer um videogame. – Oliver riu, mas eu não consegui algo estava errado ou talvez certo, eu apenas não conseguia assimilar. — Nós vamos velejar o mundo todo procurando sereias! Todos juntos!
— O que foi? – Oliver sussurrou para mim ao perceber que eu não estava embarcando no que Faith dizia.
— Como Faith saber do ursinho? Eu o comprei hoje quando estava indo visitá-lo. – Oliver apenas olhou para nossa filha e para mim, com os olhos marejados. Eu não sabia dizer o que ele estava pensando, mas seus sentimentos eram cristalinos.
Fé.
Nada mais.
Parte de mim gostaria de pensar e entender como aquilo era possível, mas a outra parte, a parte que aprendeu a aceitar as coisas boas sem questionar, bem, esta parte apenas se permitiu sentir.
Ergui meus olhos para a imensidão azul do céu que se fundia ao mar.
Feliz por saber que nossa família estava completa.
“I can brave the great unknown
'Cause with you, I'm always home”
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