Guilty Pleasure
23 Capítulo 21 - What if this is all the love you ever get?
Notas iniciais
Woah, what if this is all the love you ever get?
Woah, you'd do a couple things so differently, I bet
Woah, what if this is all the love I ever know
Woah, I'd say the words that were so hard to say: don't go
So you've fallen in love
So you've fallen apart
What if it hurts like hell
Then it'll hurt like hell
Come on over, come on over here
I'm in the ruins too
I know the wreckage so well
Come on over, come on over here
(What if this is all the love I ever get? – Snow patrol)
♥
Felicity Smoak
Um sopro suave roçou minha nuca, lembrando-me de que logo o outono chegaria. Soltei um suspiro cansado, eu deveria me certificar de que tinha trazido todos os meus suéteres, o que significava finalmente arrumar as malas que eu ainda não havia desfeito, e que estavam entulhadas no canto do meu quarto há quase um mês.
No meu atual estado não seria inteligente brincar com a sorte.
E considerando a maré de azar em que eu estava... Vamos dizer que era melhor eu arrumar logo um casaco antes de ficar resfriada.
O vento veio mais forte dessa segunda vez, agitando meu rabo de cavalo e trazendo consigo uma sensação estranhamente conhecida por meu corpo. Não o habitual arrepio de frio que nos faz encolher e agitar nossas mãos contra os braços tentando aquecer pela fricção, não, era o oposto. Fazia um calor líquido correr por minhas veias, aquecendo meu coração tão frio, que repentinamente havia se lembrado de como voltar a bater. Batidas afoitas de uma saudade que ele não deveria sentir. O ignorei, concentrando-me em minha conversa com Curtis que falava apressadamente sobre um dos projetos que apresentaríamos dali algumas semanas, forcei meu cérebro a ouvir suas palavras apressadas, disposta a não deixar minha mente normalmente sonhadora vacilar mais uma vez.
Mas o vento continuava a soprar, confundindo minha mente ao trazer aromas conhecidos.
E quando o vento trouxe algo além de cheiros, quando uma voz, hesitante e conhecida, flutuou até meus ouvidos fazendo meu coração tolo se comportar mal, eu cogitei estar com sérios problemas mentais. Por que eu estava ouvindo esta voz, em um lugar tão diferente dos meus sonhos?
— Felicity. – Ignorei o chamado, e comecei a assentir para que Curtis continuasse a falar, esperando que seu tagarelar pudesse se sobrepor a minha loucura. – Felicity, por favor. — A voz profunda e insistente continuou, tão perto que eu podia sentir resquícios do calor daquela súplica aquecendo o ar frio atrás de mim. Mas não era real. Ele não estava aqui de verdade, era apenas minha mente cansada projetando suas vontades.
Eu deveria procurar um psiquiatra, agora?
— Eu acho que esse cara quer falar com você. – Curtis inclinou a cabeça, apontando para algo atrás de mim.
— Você também está escutando? – perguntei, ainda incerta de que minha mente não estivesse pregando peças, meu coração batendo ainda mais forte, assimilando o que meu cérebro cético demais ainda não tinha compreendido.
— E vendo. – completou. — Ele é quente. – moveu os lábios formando a frase sem que nenhum som saísse, a compreensão sendo apenas para mim. Me fazendo ter certeza de que ele realmente estava vendo quem eu achava que ele estava vendo.
Não. Não. Não.
Pressionei meus olhos bem fechados, assumindo que a escuridão era melhor do que encarar o que me esperava. Lembrei-me de puxar todo o ar enquanto girei meus pés o mais lentamente que consegui, antes de estar de frente a pessoa que estava li.
Eu não precisava vê-lo para sentir a imponência de sua presença.
Como diabos ele estava ali?
Engoli em seco, pressionando os livros que trazia comigo contra a barriga, esperando que funcionassem como uma barreira de proteção.
— Pode, pelo menos abrir os olhos? – não tinha notado que meu medo os mantinha fechado, mas notei perfeitamente o tom esmagadoramente triste de sua voz. Como se minha recusa em vê-lo, o magoasse.
Bom.
Não era nem perto do quanto ele havia me destruído, mas era um começo.
Enviei o comando para abrir meus olhos, dizendo a mim mesma que vê-lo mais uma vez seria bom. Uma conclusão limpa, uma chance de dizer na cara de Oliver Queen tudo o que estava entalado dentro de mim, e um pouco mais.
Mas as pálpebras não reagiram.
A verdade é que eu não queria abrir meus olhos.
Não queria tornar a vê-lo, e sentir tudo aquilo novamente.
Não queria me iludir com os motivos de sua tão inesperada visita.
E acima de tudo, não queria olhar para ele, e perceber, que apesar de toda a dor que ele me causara, eu ainda o amava, como a menina tola que eu era. E embora fizesse quase um par de meses, eu não era mais aquela Felicity, e se eu quisesse continuar com minha vida e encontrar meu lugar no mundo, em algum momento eu deveria encontrar minha coragem também.
Abri meus olhos ficando muda por um longo momento.
Eu estava certa.
Vê-lo doía.
Mas eu também estava errada.
Vê-lo era uma benção.
Trazia uma estranha tranquilidade para meu coração inquieto, era o mais perto da sensação de estar em casa. Parte de mim sentia apenas alívio, enquanto a outra parte, a mais racional de mim, era pura cautela.
Foi estúpido prender o ar, uma vez que sua visão sempre tivera o dom de me tirar o fôlego.
E dessa vez não foi diferente.
Ele trajava seu habitual terno escuro com gravata azul marinho que fazia seus olhos sobressaírem. Embora o paletó não estivesse presente, o nó da gravata folgado demais e as mangas da camisa branca amarrotada que usava, estivessem dobradas até o alto de seus cotovelos. Tinha um aspecto um pouco cansado, como se tivesse passado a noite anterior em claro.
Eu nunca o tinha visto assim, desalinhado.
Oliver sempre fora a epítome da mais perfeita ordem.
Me obriguei a parar minha análise e focar no principal.
— Oliver. – Nunca mais tinha dito seu nome em voz alta. Eu pensava nele, mais do que deveria, porém sempre tive o cuidado de manter o nome seguramente longe dos meus lábios. Mesmo que não conseguisse fazer o mesmo com o meu coração. – O que faz aqui? – me esforcei para soar indiferente, mas tudo o que consegui foi que minha voz saísse um pouco estridente e instável.
Estranhamente Oliver, com seu jeito sempre analítico e perceptivo, pareceu não perceber.
— Podemos conversar? – a voz era instável. A incerteza não combinava com ele. — Sozinhos. – ele ergueu um olhar mais sério e intimidante na direção Curtis que engasgou uma risada.
— Sutil. – parabenizou Oliver, ganhando seu olhar confuso, mas ainda assim afiado — Eu vou para a biblioteca trabalhar naquele projeto, vejo você na classe. – sua frase terminava em tom de incerteza.
— Sim, te vejo lá. – Eu não sabia como seria a minha conversa com Oliver, haviam muitos sentimentos em mim, e graças aos meus hormônios loucos eu temia que as coisas pudessem ficar feias muito rapidamente. Era bom poder me apegar em algo tão normal quanto algoritmos como escape.
Oliver observou Curtis se afastar, com um olhar triste e cheio de perguntas.
Perguntas que ele não tinha o direito de fazer.
Pressionei mais meus livros contra meu corpo, garantindo que minhas mãos não iriam para nenhum lugar idiota. E me forcei a erguer o queixo para ele, apresentando a casca de uma Felicity forte, e que estava pronta para ter essa conversa.
Mas minha casca era feita de vidro, e bastaria Oliver tocá-la para que ela se desfizesse.
Para minha sorte Oliver não fez menção de me tocar, guardando suas mãos em seus bolsos. Com um leve menear de cabeça indicou um banco de madeira mais a frente, debaixo de uma árvore frondosa. Num primeiro momento nenhum de nós se atreveu a preencher o silêncio com palavras enquanto caminhávamos lado a lado, porém mais distantes que os polos da terra.
— Você e o garoto? – Oliver perguntou finalmente a voz rouca revelando algo que ia além de simples curiosidade. Fiquei contente por seus olhos não estarem em mim, mas seguirem distantes olhando para frente, para o nosso destino.
— Não. – contei-lhe a verdade — Mas poderia ser. – óbvio que não, já que Curtis era mais gay do que a pantera cor de rosa, mas Oliver não sabia disso. E não era da conta dele. – E mesmo que não seja Curtis, um dia vai haver um Brandon ou um Matthew, e isso não é problema seu, já que você tem uma noiva. – Oliver parou abruptamente olhando para mim com tristeza, me fazendo desejar tomar de volta as palavras raivosas.
Pensei que me sentiria melhor jogando-as nele, mas não.
Palavras não abrandaram minha dor, apenas causaram mais a outra pessoa.
Sentimentos são confusos.
— Não tenho mais. – sua voz não foi além de um sorriso.
— Como? – Meu coração falhou uma batida, enquanto eu me perguntava se havia entendido errado.
— Eu terminei com Laurel. – palavras que pelos dois últimos meses eu sonhei ouvir, mas agora que as escutava me perguntava se tinham chegado tarde demais. Oliver ainda me olhava, com seus olhos cheios de perguntas, com suas mãos agitadas que deixaram seus bolsos e moviam nervosamente em seu cabelo um pouco maior do que me recordava e ajeitavam o nó da gravata de seu terno amassado como se ele o sufocasse.
— Eu sinto muito. – consegui dizer, e um som doloroso saiu da garganta de Oliver.
— Por favor, não diga isso. – ele apertou os olhos, meneando a cabeça.
— O que quer que eu diga? – ataquei-o covardemente. — Vocês dois estavam juntos desde sempre, planejavam se casar em pouco tempo. Claramente Laurel é a mulher da sua vida. – ele abriu os olhos no instante em que terminei de jogar minhas palavras duras. Eu não estava pronta para seus olhos azuis, que pareciam ainda maiores e mais escuros por causa da pequena película de lágrima que havia ali.
— Nunca foi ela, Felicity. – suas mãos vieram tentando me tocar, mas me afastei, apertando ainda mais os livros contra meu corpo. Oliver apenas assentiu, resignado com minha distância, mas apesar disso, suas palavras fizeram seu caminho até mim. — Não vê? Não enxerga porque estou aqui completamente desesperado e sem rumo? – eu não me atrevia a sonhar, não outra vez, por isso mantive minha boca fechada e meu coração ainda preso e seguro em minhas mãos. — Tudo bem, eu não fui muito elusivo, para ser honesto isso nunca me aconteceu antes, e eu não sei bem o que estou fazendo, exceto seguindo o meu maldito e tolo coração. – pisquei, notando a mudança do tom de urgente para tão doce e suave que era impossível não me deixar envolver — Eu sei que não tenho nenhum direito de vir aqui e impor minha presença a você ou pedir perdão. – Minha cabeça ainda girava. Eu entendia suas palavras, mas não sabia o que fazer com elas. — Não depois de tudo o que fiz. – Oliver abaixou a cabeça encarando os próprios pés, parecendo mais um menino envergonhado do que o homem seguro de si que eu conheci. — Você merecia mais de mim.
Mais uma vez seus olhos chegaram até mim, ameaçando romper minha barreira de vidro e me seduzir, como o canto de uma maldita sereia, até que me tivesse para si, me afogando em suas duas lagoas azuis e profundas.
— Você disse que éramos um erro. – Toda a mágoa saiu de mim, talvez eu não estivesse jogando limpo. Talvez eu estivesse agindo como uma menina imatura. Oliver queria dar suas desculpas, e eu deveria apenas aceita-las e seguir em frente. Mas eu não conseguia não revirar aquela noite, não quando ela ainda estava tão presente entre nós.
— Não foi um erro! – ele praticamente gritou, atraindo olhares dos estudantes que matavam aula deitados no gramado, há alguns metros de nós. — Eu lamento tanto ter dito isso. Eu estava frustrado, com raiva de mim. De como levei as coisas com você. Eu errei com você naquela noite. – Aí estava o homem confiante que eu conhecia tão bem. Odiei que voltasse ao controle. Porque este homem sabia o que queria e estava decidido, este homem não tinha dúvidas. Este homem fez minhas pernas tremerem diante de sua determinação, porque eu não sabia se conseguia lidar com a versão honesta e desnuda dele, sem perder meu coração outra vez. — No instante em que nos beijamos e que aquela ânsia de fazê-la minha surgiu em meu peito, eu deveria ter parado um minuto apenas para entender o sentimento que me dominava, e então ter feito o que era certo para nós.
— Certo como em me mandar embora do seu quarto? – minha voz tremulou, assim como meu coração quando Olive assentiu.
— Sim! – Estremeci, porque havia certeza em seu tom, mas uma suavidade doce demais em seus olhos para ser ignorada. — Mas com a promessa de que um dia você voltaria lá, quando fosse o tempo certo para fazê-la minha.
— Eu não te entendo. – Ele me queria, mas não queria agora?
— Nem mesmo eu me entendo. – Oliver riu para si mesmo — Era você, Felicity. – Eu?- Sempre foi você, com suas piadas bobas, com seu sorriso pequeno e tímido que sempre me fazia querer sorrir de volta. Eu gostava de conversar com você sempre que Thea não estava por perto, mentia para mim que era apenas para fazer companhia a você, mas não, eu gostava, ansiava até por pequenos momentos roubados, porque eu poderia perguntar sobre sua vida e ouvi-la tagarelar. E ainda assim, era de você que eu desesperadamente tentava desviar o olhar porque me causava aquela agitação no meu estômago. Eu apenas me neguei a aceitar antes porque... – Ele suspirou, todas as emoções confusas aparecendo em seu rosto — Porque a vida para mim sempre foi preto no branco, até que você me mostrou todas as outras cores e eu não fui mais capaz de enxergar um mundo sem querer alcançar o arco-íris. – seu tom era quase reverente, como se me agradecesse por isso. — Você está certa em um ponto. Eu sempre pensei que Laurel era a mulher certa para a minha vida, ela se encaixava no plano geral, as coisas eram fáceis com ela, mas...
— Mas? – mordi o lábio, segurando tarde demais minha ansiedade. Oliver não perdeu isso, parecendo até mesmo encorajado.
— Ela nunca foi a mulher da minha vida. – ele sorriu, para mim.
E o mundo que eu pensei conhecer começou a girar ao redor de mim.
Deixei meu corpo cair no banco, joguei meus cadernos e livros para o lado e me segurei fortemente na borda de madeira. Precisava me estabilizar.
— E veio aqui me dizer que sou ela? Depois de apenas uma noite eu me tornei ela? – usei o deboche como arma.
— Não. – negou de pronto ignorando minha ofensa — Estou dizendo que sempre foi você. Estou dizendo que eu era alguém que tinha um coração, mas não sabia que ele tinha uma função além de bombear meu sangue, não sabia que...
— Você pode parar? – consegui dizer, sem me atrever a olhá-lo.
— Eu não posso! – negou, e embora eu mantivesse meus olhos seguramente fechados, meu corpo era ciente do de Oliver o suficiente para perceber o instante em que ele sentou ao meu lado. Seus joelhos roçando os meus dedos que ainda seguiam-se segurando fortemente ao banco, tão leves quanto a carícia de uma brisa, mais marcantes o suficiente para me lembrar de que ele estava ali.
— Por favor, pare apenas um momento de dizer todas as coisas certas, todas as coisas que eu passei os últimos quarenta e seis dias sonhando que você diria, mas que agora... – Eu o olhei, mesmo sabendo que não deveria, mesmo sabendo que ele veria todos meus sentimentos estampados em meu rosto, eu ergui meu olhar para o de Oliver. Para o belo rosto que sempre permeou meus sonhos platônicos de menina, mas que depois daquela única noite, arruinou todos os sonhos de uma mulher.
— Mas que agora não fazem mais diferença, você não me quer. – ele completou, com pragmatismo — Eu a magoei, eu destruí seu amor por mim, antes mesmo de ter a chance de amá-la de volta... – Ele havia feito isso? Tornado irremediável aquele buraco em meu coração?
— Oliver... – chamei, apenas testando o gosto amargo de seu nome em meus lábios.
— Isso não anula nada do que eu disse, eu espero que algum dia você possa me perdoar, e me aceitar, mesmo que seja como seu amigo. – As palavras pareciam lhe doer, e pelo modo que desviou o olhar para o chão, não era exatamente isso o que Oliver espera, mas se negava a ter nada.
Eu não podia dar isso a Oliver, não quando...
— Não podemos ser amigos. – me adiantei, ganhando seu olhar assustado.
— Por quê? – Eram lágrimas em seus olhos? — Nunca será capaz de me perdoar? A ideia de me ter em sua vida, é assim, tão repulsiva?
Perdão não era o problema, por mais que meu coração estivesse magoado. Por mais que talvez eu demorasse um pouco mais de tempo para confiar no amor novamente, e até mesmo em Oliver. Eu poderia perdoar Oliver, mesmo que isso não desfizesse nenhuma das feridas que ele me causara, eu poderia perdoá-lo porque ele estava aqui, sendo honesto comigo, e pedindo por isso.
O problema era eu.
Coloquei minhas mãos sobre meu colo apertando os dedos com força o suficiente para que os nós ficassem esbranquiçados, girei um pouco meu corpo para ficar de frente para ele. Ignorei nossos joelhos que se esbarraram, ignorei que o braço de Oliver estava sobre o encosto do banco e que meu movimento fazia meu ombro roçar nele, e ignorei o quão próximo ele parecia e o que seus olhos, lindamente tristes me faziam sentir.
— Você está aqui, pedindo o meu perdão e eu não posso perdoá-lo, não quando eu... – Travei, desejando que meus olhos pudessem dizer as palavras que eu tanto temia. Surpreendentemente, a mão de Oliver se atreveu a vir até a mim, fazendo meus dedos que ainda se apertavam, relaxar.
Eu estava certa.
Bastou um toque e minha frágil casca de vidro se quebrou, aceitando o seu calor, ansiando por ele até.
— Quando o quê, Felicity? – me incentivou.
— Quando eu não fui honesta com você em primeiro lugar.
— Seja agora. – Oliver se agarrou as minhas mãos, com a mesma força e intensidade que seus olhos se agarraram os meus — O que quer que seja, eu quero que me conte. – pediu, fazendo meu coração palpitar com seu tom terno — Se existe uma ínfima chance de um nós, em algum dia ainda que muito longe de hoje, eu quero ter a certeza de que nada foi deixado não dito.
Me segurei em sua mão também.
Prendendo-o para que não fugisse de mim.
— Promete não me odiar? – eu sabia que minha pergunta era quase infantil, mas eu não conseguia conter esse medo, ainda mais quando seus olhos seguiam desnudando os meus.
— Essa é uma pergunta boba. – Oliver me deu um pequeno sorriso, apertando sua mão sobre a minha, mas eu não fui capaz de retribuir ou reagir ao seu gesto. O temor era real, uma vez que eu dissesse o que tinha para dizer eu não poderia tomar as palavras de volta, tudo mudaria. — Eu prometo. – Senti o peso de sua promessa aliviando, apenas um pouco. — Nada nesse mundo me faria odiá-la, Felicity.
Um sorriso triste tomou conta de mim.
Eu não tinha certeza disso.
Respirei fundo, e dessa vez, deixei minha mão segurar a sua, procurando apoio ao mesmo tempo em que o segurava a mim, lembrando-o de sua promessa.
— Me desculpe. — um suspiro trêmulo deixou meus lábios, seus olhos estavam em cada parte do meu rosto, preocupados com as lágrimas quentes que cobriam minhas bochechas e eu sequer tinha notado que caíam. – Eu não imaginei que isto aconteceria, nós tomamos precauções...
— Você está me assustando, Felicity.
— Eu estou assustada também. – permiti assumir pela primeira vez que eu não era tão forte quanto fingia.
— Me conte. – sua voz era doce e terna, olhos confiáveis e leais. Seu toque era tão confortável e seguro quanto o cobertor que toda criança se enrola quando está com medo, me fazia apenas desejar estar embrulhada em seus braços. Eu ainda receberia isso quando contasse o que eu escondia? Não sei. Mas se havia algo do qual eu tinha certeza agora, era que Oliver tinha o direito de saber.
Mais do que isso, ele merecia.
Então, movida por uma coragem que desconhecia, finalmente disse as palavras que não poderiam ser tomadas uma vez que eu as dissesse.
— Eu estou grávida.
Eu não estava preparada para o que vi em seus olhos que se moveram para a minha barriga, ainda plana. Para nossas mãos unidas tão próximo de onde agora crescia um bebê.
Seu olhar tomou algum tempo ali.
Eu tentei lê-lo, mas não consegui.
Senti nossas mãos unidas se pressionarem contra meu ventre, e quando os olhos de Oliver voltaram para os meus, entre todas as emoções que tremulavam em suas íris, eu fui capaz de perceber apenas uma: determinação.
— Nós vamos nos casar.
Suas palavras flutuavam no longínquo, como em um sonho, que um dia me atrevi sonhar, mas agora que era real, não me parecia certo.
— Eu sinto muito, Oliver. – as palavras finalmente conseguiram vencer o aperto quase intransponível em minha garganta, mas o que sufocava meu coração ainda estava lá. Opressivo e doloroso. — Eu não posso me casar com você. – Soltei nossas mãos e me ergui do banco, precisando delas longe de mim para voltar a erguer minha frágil barreira quebrada de vidro.
— Eu entendo. – lamentou-se ao olhar para mim, suas mãos haviam voltado para os bolsos. E em seu rosto estava a expressão mais triste e sombria que já vi ali um dia.
— Não, você não entende. – Nem mesmo eu o fazia, só entendia que precisava estar longe dele. — E nesse momento, eu estou atrasada para a aula.
Dei-lhe as costas apressando o passo para longe e deixando meus cadernos para trás, eu não poderia voltar, não quando havia percebido algo mortal.
Eu ergui minhas fracas barreiras de vidro, e elas já não eram as mesmas, eles estavam quebrados e pontiagudos, prontos para fazerem sangrar qualquer um que se aproximasse.
***
Oliver Queen
Eu seria pai.
E a mãe do meu filho seguia caminhando para longe de mim.
Acompanhei sua silhueta até que desaparecesse no prédio de tijolos vermelhos, há bons metros de mim. Não fui capaz de me mover nenhum centímetro, segui olhando naquela direção, esperando pelo momento em que ela sairia daquela porta e poderíamos continuar aquela conversa.
Eu sempre me imaginei como pai um dia, embora, com meus vinte e oito anos, eu esperava que isso acontecesse mais tarde na vida, depois de estar casado e estabilizado o suficiente em minha carreira para saber que teria tempo para uma ou duas crianças. Este era apenas um daqueles sonhos distantes nos quais não pensamos ou planejamos muito, eu o deixava sempre para um dia do futuro. O que não fazia muito sentido, uma vez que eu tive uma noiva, era suposto que falássemos desse assunto.
Mas não.
Laurel, assim como eu, gostava de planejar a vida e filhos não pareciam fazer parte do quadro geral tão cedo. Forcei minha mente a imaginar meu futuro com ela, que antes de Felicity tinha sido milimetricamente planejado. E meu coração apertou em protesto.
Não havia emoção nisso.
Mas quando eu pensava em Felicity carregando meu bebê...
Minhas mãos suavam e o coração parecia pronto para sair pela boca. Eu queria me levantar desse maldito banco e irromper em sua sala de aula. Dizer-lhe todas as coisas confusas, porém tão belas e verdadeiras que se passavam comigo.
Mas ela iria ouvir?
Depois de um momento de lucidez na noite passada – com um pouco, ou talvez muito álcool envolvido, eu me vi em meu carro e dirigindo durante a noite inteira até chegar aqui. Até chegar nela. Eu não tinha um plano e isso não combinava comigo, mas eu nunca tinha um quando o assunto era Felicity. Ela era parte do meu eu inconstante, movido unicamente por suas emoções. Eu sequer sabia o que esperava ao procurar por Felicity. Parte de mim só queria acalmar meu coração saudoso ao vê-la, saber se estava bem e feliz, e que eu não tinha a arruinado.
A outra parte queria seu perdão e implorar por um lugar em sua vida, embora não soubesse como alguém como eu, poderia me encaixar nela.
Eu vi o sol nascer por trás daqueles prédios, ainda sentado dentro do meu carro me questionando se eu estava fazendo o que era certo, a lucidez já estava voltando. Ela era uma garota de dezoito anos, e eu um homem já feito, estávamos em fases diferentes de nossas vidas. Tínhamos sonhos e planos diferentes.
Eu estava pronto para dar meia volta e deixar Felicity viver sua vida sem mim, era a coisa nobre a se fazer.
Até que a vi.
O cabelo preso ao alto de um rabo de cavalo, graciosamente balançando de um lado para o outro enquanto ela andava, parecendo animada com a conversa com o rapaz da sua idade, completamente inconsciente da minha presença aqui.
Eu vi claramente como a vida de Felicity deveria ser.
Ela estava no primeiro ano da faculdade, e ela era incrivelmente linda e inteligente, logo iria fazer novos amigos, ir a festas e se divertir. Ela teria filas de garotos querendo um pouquinho da sua atenção e um pedaço ainda que ínfimo do seu coração. Ela namoraria. Se apaixonaria. Ganharia mais experiência. Alguém como ela não ficaria solteira por muito tempo.
Eu não tinha o direito sobre ela.
Eu não seria aquele cara bastardo que reivindica algo para si, apenas para que outros não pudessem ter.
Por mais que doesse, eu quase fui embora e a deixei aqui, seguindo com sua vida sem minha interrupção. Eu não tinha o direito de ser egoísta e agir apenas porque sentia ciúmes. Felicity não era minha para reivindicar e eu já havia modificado demais sua vida.
Eu não tinha o direito.
Mas ainda assim, como em todas as outras vezes, algo nela me chamava e me vi caminhando em sua direção.
— Você ainda está aqui. – Pisquei, acordando-me para a vida no instante em que escutei sua voz.
— Para onde mais eu iria? – Soltei as mãos que caíram pesadas sobre minhas coxas. Será que Felicity era consciente do quanto havia modificado meu mundo para sempre? — Você está aqui. – expliquei ao ver a confusão em seus olhos. — Vocês dois estão aqui. – Olhei para sua barriga ainda lisa. Felicity franziu os lábios em uma careta, ela se sentou no banco ao meu lado, mas dessa vez seus livros, anteriormente esquecidos ali, agiam como uma barreira física entre nós.
Ela não me olhou.
Não falou.
Nem mesmo se mexeu.
Mas sua respiração seguia pesada ao meu lado, lembrando-me do quanto as coisas ainda estavam tensas entre nós.
— Desculpe-me, o pedido de casamento foi estúpido. – Seu rosto girou imediatamente em minha direção. O notei lívido. O único sinal de cor era em seus olhos, onde até mesmo o tom de azul sempre tão vivaz, parecia mais opaco do que eu me recordava.
— Sim. – ela balbuciou, voltando seus olhos para as mãos que se torciam nervosamente sobre seu colo.
— Suas aulas acabaram por hoje? – optei por uma conversa menos carregada.
— Sim. – Vi seus lábios se moverem para formar a palavra, mas o restante do seu corpo permanecia rígido.
— Você está com fome? — Tentei novamente. Era meio do dia, ela tinha passado a manhã inteira entre aulas. Ela deveria estar faminta, ainda mais agora que comia por dois.
— Não. – rechaçou sem explicação.
— Quer dar uma volta? – Ou olhar para mim?
— Não.
Segurei minha vontade de bufar em frustração.
Eu nunca estive nessa posição antes. Claro que eu era um advogado, e sim, muitas vezes eu precisava pressionar e escavar bem fundo para que as pessoas me dessem a verdade no tribunal. Eu precisava ter pulso firme, e deixar minha compaixão do lado de fora.
Mas Felicity não era uma dessas pessoas.
Eu não sabia o que dizer ou falar, eu temia fazer tudo errado e a magoá-la outra vez. Também não fazia ideia do que Felicity esperava de mim, mas se fosse ficar aqui enquanto ela me afastava de todas as maneiras possíveis...
Ela iria se decepcionar.
Muito.
— Quer tentar dialogar, me dando mais do que uma palavra monossilábica? – reclamei emburrado. Vi um vislumbre de um quase sorriso em seus lábios, antes deles se movimentarem para me responder.
— Talvez.
Suas duas sílabas me fizeram sorrir.
Atrevida.
Gostei disso. Da sua provocação ainda que pequena, de como ela teve o poder de sobrepor a minha frustração, e de me dar esperanças. Disse a mim mesmo que deveria continuar conversando com ela, se sorri com duas silabas, o que ela não faria comigo quando me desse uma frase completa?
Acalmei meu coração.
Felicity e eu tínhamos começado da maneira errada, eu não cometeria esse erro novamente.
— Eu imagino que as coisas não estão sendo fáceis para você aqui. – Comecei cauteloso – Sozinha e grávida. – ela apertou os olhos a menção da última palavra, mas isso não me desencorajou. – Entendo que não esperava me ver. Entendo que precise de um tempo para se acalmar antes de... De resolvermos as coisas. – Eu mesmo franzi meu cenho, pensando em como diabos “resolveríamos as coisas” eu tinha uma solução muito simples, mas Felicity a rechaçou. Duas vezes. Eu não estava pronto para apostar o que sobrou do meu orgulho numa terceira. Ainda não.— Mas espero que entenda que você não é a única cuja a vida está mudando com a chegada desse bebê.
— Eu sei. – Duas palavras, eu estava progredindo.
— Eu não estou indo a lugar algum, Felicity. – reafirmei — Eu vou estar aqui, mesmo que não queira falar agora, mesmo que me dê respostas monossilábicas ou me ignore. Eu vou continuar aqui, esperando.
— Esperando pelo o quê?
Por você.
— Você sabe. – Felicity inspirou fundo, aqueles olhos grandes e curiosos em mim. Eu não tinha um espelho para dizer o que Felicity via quando olhava em mim, mas pela sua reação, eu diria que isso, ao mesmo tempo a assustava, mas também a tentava.
— Não acha que é perda de tempo? – Perda de tempo perseguir, pela primeira vez, meu coração? – E sua vida em Starling?
— Não. – A convicção de minhas palavras até mesmo me surpreendia. — Eu te disse, não há outro lugar em que eu deveria estar.
— Mas...
— Mas? – desafiei, sabendo que ela reagiria a isto.
— E seu trabalho?
— Você é mais importante. – Ela meneou a cabeça, ainda sem aceitar o que tão elusivamente eu lhe dava.
— Eu não entendo. – Felicity parecia frustrada — Eu não estou exigindo nada de você. — Não gostei do rumo daquela conversa — Você pode voltar para sua casa, para sua vida como se nada tivesse mudado.
— Mas mudou! – reagi com mais furor do que pretendia. – Estamos inegavelmente ligados um ao outro.
— É um bebê, Oliver. – Não gostei do tom exasperado de sua voz – Não são algemas.
— Eu não falava do bebê. – pelo modo como piscou, olhando para mim e absorvendo com surpresa minhas palavras ela ainda não compreendera — Tão pouco falava sobre estarmos presos um ao outro assim por causa dele. – Não era o bebê que nos unia, embora ele fosse consequência disso. — Você pode negar, mas no fundo também sabe que aquela noite mudou tudo para nós. – A olhei temendo estar errado, mas quando vi seus olhos suavizarem com um sentimento mais terno e saudoso e sua cabeça assentiu com o mínimo movimento afirmativo, eu continue, aliviado em saber que por mais que Felicity estivesse na defensiva comigo, ao menos, ela não mentiria sobre seus sentimentos. — Me permitir estar com você, mesmo quando meu bom senso dizia que eu não era certo, mesmo quando no fundo eu sabia que não poderia ter mais do que aquela noite de você. Eu cedi, pensei estar cedendo apenas aos desejos..., mas no instante em que a toquei, Felicity, eu senti, bem aqui – levei a mão ao meu coração, que apenas de estar perto dela já batia diferente — algo fundamental se assentar. Me atingiu tão forte e tão inesperado, que eu me assustei. Eu nunca fui bom em confrontar o desconhecido, e eu nunca conseguirei dizer o quanto eu sinto muito por tê-la afastado, quando eu deveria ter seguido meu coração e a abraçado, enquanto você me ensinava a – amar — ...sentir.
— Deveria ter feito isso.
— Lamento. – Era tudo o que eu podia dar.
— Eu também. – Felicity me deu um pequeno sorriso triste, me surpreendendo – Mas talvez tenha sido o certo. — Onde magoá-la tinha sido certo? — Olhe para mim, Oliver. – Pediu, eu sequer havia notado que meus olhos estavam cravados em minhas mãos que se apertavam fortemente. Os movi para ela, porque depois de tanto tempo sem vê-la, era um sacrilégio não olhá-la. – Aquela noite foi especial para mim também. – Amei o modo como seus olhos brilharam com emoção, e suas bochechas coraram um pouco – Eu sei que pode parecer que eu era apenas a amiga da sua irmã que tinha uma queda por você e...
— Não. – a atropelei, minhas mãos colocando-se por cima das dela, Felicity prendeu a respiração, mas não as moveu. – Você sabe que sempre foi mais do que isso para mim, não menospreze sua importância.
— Ainda assim. – ela puxou suas mãos — Nossas vidas seguem por caminhos diferentes, você me mostrou isso.
E era isto.
Ambos lamentávamos que a vida tivesse nos jogado um nos braços do outro no momento errado, e nada poderia ser feito.
— Eu posso mudar meu caminho. – Eu ainda não tinha analisado meus pensamentos quando saíram, mas uma vez que estavam em minha boca, pareceram certos.
— Como?
— Eu posso seguir o mesmo caminho que o seu. – Era isso.
— Não seja tolo, sua vida é em Starling. – Mulher teimosa.
— Você tem dezoito anos, está em uma cidade completamente sozinha e ainda está estudando. – Ela ergueu o queixo naquela postura altiva — Por mais que eu ache corajoso que você pense em criar esse bebê sem abrir mão de seus sonhos, ao mesmo tempo é estupido. – Eu não pretendia jogar duro com ela, mas Felicity continuava a se esquivar. — Que tipo de homem eu seria se a abandonasse grávida? – perguntei.
— Do tipo comum? – revidou mordaz, e tão rapidamente que me fez pensar se esta resposta já não estava pronta na ponta da sua língua há um tempo, apenas aguardando.
— Pensou mesmo que eu seria assim? – rangi meus dentes ao falar, não segurando meu orgulho ferido.
— Prefiro não falar o que eu pensei. – Odiei tudo em sua resposta. Desde a forma como ela escondia seus pensamentos de mim e a distância que colocava entre nós, mas principalmente, odiei que seus olhos tenham seguido para outro lugar, como se seus pensamentos sobre mim fossem tão ruins que ela não se atrevesse a sequer me olhar.
Por que fazíamos isso? Em um momento estávamos conversando e parecíamos até mesmo progredir, e então começamos a nos machucar. Havia tanta mágoa assim entre nós, que tornava impossível qualquer aproximação?
Eu não conseguiria mudar isso com uma conversa.
Talvez tudo isso fosse um pouco cedo demais, eu não estava pronto para ser pai... E Felicity? Ela tinha apenas dezoito e toda uma vida pela frente que eu não queria que ela perdesse. Tudo estava mudando rápido demais. Nossas vidas jamais seriam as mesmas depois do bebê, e por mais que eu compreendesse que, nesse momento nós dois não estávamos prontos, isso não era apenas sobre Felicity e eu, havia uma terceira pessoa, um inocente que precisava que estivéssemos prontos.
Em poucos meses teríamos um pequeno ser precisando de nós dois, não poderíamos estar assim quando ele ou ela chegasse. Guardar mágoas não fazia bem, não para si mesmo, e muito menos para as pessoas a sua volta.
Eu vim até Felicity hoje buscando por seu perdão e, sonhadoramente uma chance de recomeçarmos. Talvez eu não pudesse ter os dois. Mas eu não sairia do seu lado até que pudesse consertar o que quebrei.
E eu só conhecia duas formas capazes de curar um coração ferido.
Tempo e amor.
Por sorte, eu tinha muito dos dois.
— Você mora por perto? – sondei.
— Sim... – deu-me a resposta um pouco desconfiada.
— Como está seu cronograma para o final de semana? – Eu estava agradecido por hoje ser sexta-feira, assim eu teria o final de semana inteiro livre para tentar resolver as coisas junto com Felicity. Ainda que superficialmente. Eu trabalharia o resto com o tempo.
— Limpo. – Contei mentalmente até dez ao perceber que voltávamos as poucas palavras.
— Temos que ir a Starling City. – informei, tamborilando meus dedos por cima dos seus livros. Era o mais perto que me atrevia a chegar. — Falar com meus pais e com os seus, esclarecer as coisas e explicar que faremos isso. – Felicity finalmente olhou para mim, a delicada sobrancelha erguida, perguntando-me como afinal faríamos isto. Sorri ao lhe responder. — Juntos.
— Oliver, eu disse que não vou me casar com você, não tem porque colocar nossos pais no meio.
— Uau. — falei sem humor — Eu não precisei nem mesmo perguntar para ganhar minha terceira recusa. – Ela ainda me olhava, duramente dessa vez, como um animal acuado pronto para atacar.
Eu sempre fui bom em ler as pessoas, ossos do ofício, imagino. Mas com Felicity era diferente, sempre foi. Talvez por isso eu sempre me controlei ao olha-la, temia perder a mim mesmo. Porque diferente das outras pessoas nas quais eu olhava e lia em seus rostos quais eram suas verdadeiras intenções, tudo o que eu via quando olhava para Felicity eram sentimentos e emoções, puros e indomáveis.
Tive medo de lê-los.
Medo de que eles me mandariam embora de vez.
— Eu entendi que não quer ser minha esposa. – Se me recusar era sua ideia de me punir por meus erros, Felicity estava fazendo um excelente trabalho. — Eu não me sinto bem escondendo nada das pessoas que são importantes para mim, meus pais merecem saber que serão avós. – Ela abriu e fechou a boca, sua pele assumindo um tom pálido. — Eu assumo que seus pais sabem.
— Sim. – Esperei por mais, mas ela não me deu.
— Por favor, me diga que eles te apoiaram.
Essa parte não estava muito clara para mim, talvez soubessem que a filha estava grávida, mas não queria que ela perdesse a chance de cursar a faculdade, eu sabia que ela havia conseguido uma bolsa completa. Por isso ela estava aqui, mas quando desse à luz... – meu coração se agitou, fazendo com que eu me sentisse nervoso e ansioso com essa ideia. – Quando o bebê nascesse, ela provavelmente voltaria para casa e trancaria a faculdade por um tempo, ou talvez eles viessem até ela para ajudá-la.
— Nem toda família é perfeita como a sua. – Desconversou, frustrando todas as minhas opções.
— Isso não responde minha pergunta. – insisti.
— Se você pensar um pouco, responde sim. – Era evidente que Felicity não queria falar sobre isso, o que me provava apenas que eu precisava saber.
— Eu preciso que me dê um pouco mais.
— Por quê? – virou-se para mim, irritada, embora o fogo tremulando por detrás de suas íris sugerisse algo mais — Por que sempre quer mais de mim do que estou disposta a te dar?
— Eu não... – Imediatamente comecei a negar, mas a firmeza em suas palavras me fez me sentir nauseado. — Eu tomei algo de você, Felicity? – Temi sua resposta. Temi que eu tenha entendido tudo errado. Repassei mentalmente a nossa noite, suas reações, suas palavras, seus toques, em busca de um sinal de que eu tinha ultrapassado um limite...
— Desculpe. — Seu toque foi suave e passageiro sobre meu ombro, mas pelo tempo que durou, teve o poder de tirar um pouco daquele peso em meu coração. — Eu não consigo fazer isso, eu não consigo sentar e conversar normalmente com você debaixo de uma árvore. – Deu-me um triste sorriso de me desculpe — Tudo ainda está girando na minha mente. Eu estou nervosa. E não estou sendo coerente ou justa. – explicou — Posso culpar os hormônios? – ela riu nervosamente, seus olhos buscando entendimento nos meus.
— Acredito que sim. – Hormônios da gravidez, repeti pensando no quanto eu teria que lidar nos próximos meses.
— Obrigada. – Ela se recompôs, apertando as mãos sobre seu colo, e frustrando-me, pois, eu as queria em mim, tocando-me de alguma forma. Queria sentir que estávamos juntos nisso. — Onde estávamos?
— Você iria me falar sobre seus pais. – Ela suspirou, seus ombros se enrijecendo enquanto todo o seu corpo se tornava tenso, e seu rosto impassível. Escondendo emoções, deduzi.
— Eles não ficaram exultantes em saber que a filha que sempre se orgulhavam de dizer que era inteligente e havia conseguido bolsa no M.I.T., havia estragado tudo ficando grávida aos dezoito. – Havia desgosto e mágoa em cada uma das palavras que saíram. — As coisas não foram bonitas depois. – esperei que ela me explicasse mais, porém a essa altura eu já deveria ter me acostumado com o quanto Felicity me frustrava — Mas não se preocupe, eu não disse quem era o pai.
Endureci, enxergando vermelho a minha frente. Ela achava que isso era bom?
— Nós vamos resolver isso. – determinei.
— Não precisamos.
— Felicity. – Contive minha fúria. Eu teria que ir até o inferno e voltar, apenas para provar a ela que eu queria isso? Estava até mesmo ansioso e segurando muitos dos meus sentimentos porque percebi que precisávamos lidar com os dela primeiro? A verdade era que eu estava completamente apaixonado pela ideia de ser pai de um filho com ela, mesmo nas atuais circunstâncias. Eu estava pronto para me jogar nesse futuro que envolvia uma grande casa no subúrbio e a mulher que eu possivelmente amava com nosso filho no colo me esperando retornar do trabalho. Mas eu não podia me permitir sonhar, não quando precisava conhecer os sonhos de Felicity antes, quem sabe encontrar um meio termo para nós dois. – Por favor, não me teste.
— Eu fugi de casa, Oliver, meus pais não me queriam com um bebê. – Eu não soube o que dizer ou fazer, apenas mantive meus olhos dela, na forma que seus próprios braços rodearam seu corpo. Deveria ser eu a confortá-la, ela não estava mais sozinha. — Tecnicamente não é fugir já que eu era maior de idade e... – parou seu tagarelar – A questão é, se eu quisesse o apoio deles, o bebê teria que ir embora. – Ela não estava dizendo... Não precisei perguntar, seus olhos soletraram a palavra feia que nenhum de nós se atreveu a dizer. — Entendeu agora porque tive que sair? Eu não tinha ninguém.
— Você tinha a mim. – a lembrei, mas segurei a pergunta óbvia.
— Você estava com Laurel. – ela acusou, os olhos marejando com lágrimas furiosas.
— Eu não estou mais. – Você me tem.
— Excelente. – Ela se ergueu do banco agitando nervosamente os braços para todos os lados, e agora lágrimas e um riso seco se misturavam em seu rosto corado. — Então voltamos para Starling City e anunciamos que estou grávida de você, nem será preciso fazer as contas. – Cruzou os braços enquanto olhava diretamente para mim — Todos vão achar que eu sou uma vadia que engravidou de propósito e separou o casal perfeito.
— Nunca mais fale isso. – protestei com afinco, me colocando de pé também e tentando me aproximar. – Você é a mulher que...
— Não se atreva a completar essa frase. – Ela protestou efusivamente dando um passo para trás. Atendi seu pedido, palavras ditas ou não, não mudavam meus sentimentos.
— Venha comigo para Starling e eu prometo não te incomodar com meus sentimentos, ou dizer que você é a mulher que fez meu coração bater mais forte, e mudou completamente a minha vida. – Se eu estava fazendo essa maldita promessa, eu tinha o direito de dizer uma última vez.
Felicity suspirou, fechando seus olhos.
— Tudo bem. – Concedeu. Eu ganhei a pequena batalha, mas a que preço?
— Precisa passar na sua casa e fazer as malas? Ou podemos ir para Starling agora? Tenho certeza que deixou algumas roupas com Thea, e será apenas pelo fim de semana. – Me adiantei. Eu não queria esperar que ela mudasse de ideia, mas vi seu rosto se tornar mais pálido, e temi estar indo rápido demais. — O que há de errado?
— Thea. – suspirou o nome, parecendo nervosa e amedrontada ao mesmo tempo — Ela vai me matar quando descobrir que-e... – Começou a gaguejar — que você e eu... – fez um gesto de mim para ela — Você sabe, que nós...
— Que nós...? – fiz-me de desentendido, apreciando seu rosto corar enquanto ela evitava dizer a palavra. Adorável. Como era suposto que eu conseguisse conter meus sentimentos perto dela?
— Você sabe o que nós dois fizemos! – perdeu a paciência.
— Esclareça-me. – pedi.
— Um bebê!
— Ah...
— Ah? Somente isso? – Felicity estava possessa com minha reação, mas em contra partida eu estava amando vê-la assim, falante, com uma reação menos pesada e mais normal. Tão normal quanto era ter medo de uma coisinha inofensiva como minha irmã.— Sabe como bebês são feitos, Oliver? – balancei a cabeça em negativa — Bem deixe-me te explicar: tem um monte de sexo envolvido! – Quase a corrigi, dizendo que para este bebê, o nosso, nós fizemos apenas uma vez, mas que estava disposto a fazer mais vezes, apenas para que sua colocação estivesse correta.
Eu estava pronto para provoca-la, mas estranhamente me vi agindo diferente.
— Eu te protejo da minha irmã. – Ofereci-lhe a mão. Felicity a olhou um tanto desconfiada, eu estava quase me arrependendo do gesto e recolhendo minha mão, aceitando que não estávamos ainda prontos, quando fui surpreendido por seu toque suave e um pouco hesitante sobre a minha palma.
Nossos dedos se entrelaçaram, sem que nenhum comando consciente fosse feito.
A segurei firme e caminhamos até meu carro.
Ambos, dando passos de bebês.
***
Thea não cometeu nenhum assassinato.
Ela abraçou a melhor amiga e as duas conversaram, muito. Surpreendendo Felicity não houve nenhum julgamento da parte da minha irmã sobre o “rápido relacionamento” que resultou no bebê, embora eu tenha certeza que Thea guardou suas perguntas para mais tarde quando eu não estivesse por perto. Ela aceitou muito alegremente a ideia de ser tia e principalmente que Felicity fosse a mãe — acontece, que Thea sabia da gravidez de Felicity, embora não soubesse que o bebê era meu. Eu tentei disfarçar, mas uma parte irracional de mim sentia-se traído por Felicity não ter me procurado assim que soube, mas ter dividido esse segredo com minha irmã.
Disfarcei meu mal humor com cansaço, o que não estava longe da verdade, uma vez que eu não tinha dormido a noite anterior porque dirigia até Felicity, e mesmo que eu tenha optado fazer o caminho de volta para Starling pegando um voo, poltronas desconfortáveis e pensamentos ainda mais desconfortáveis sobre a mulher que dormia ao meu lado, com a cabeça encostada em meu ombro, que carregava meu filho e parecia dizer meu nome em seu sono, me fizeram alerta.
Me afastei das duas e me dirigi ao quarto – onde as lembranças de Felicity pareciam ainda mais potentes agora que eu sabia que ela estava tão perto. Tomei um banho frio e dormi por um par de horas, acordando insatisfeito por meu sono vazio de sonhos e minha cama vazia de um corpo quente. Quando retornei, eu parecia mais com um homem controlado e com a cabeça no lugar que sempre me orgulhei de ser.
Apenas parecia.
Apenas olhar para Felicity me fazia vacilar.
Esperamos até o jantar para dar a notícia aos meus pais.
Moira e Robert Queen por outro lado ouviram a notícia com evidente surpresa e recebi de ambos um olhar questionador e até mesmo um pouco duro, balancei minha cabeça como quem diz mais tarde, e a atenção deles se voltou para a mulher ao meu lado, pálida de medo que segurava a respiração. Eles a conheciam desde menina e por um longo tempo ela tinha sido apenas a melhor amiga de Thea, eu entendia que talvez fosse estranho para eles imaginarem como Felicity seria a mãe do seu primeiro neto. Ainda assim eles engoliram todos seus questionamentos e julgamentos e a abraçaram e a aceitaram como seus próprios pais não fizeram. Prometeram que estariam aqui para o que ela e o bebê precisassem. Depois disso o jantar fluiu levemente, por vezes meu olhar foi até o dela que estava temeroso, ainda tentando se ajustar a mudança que era ter uma sorridente Moira Queen fazendo-lhe perguntas corriqueiras sobre para que mês seria o bebê, e se ela estava enjoando muito.
Peguei sua mão por baixo da mesa e a mantive junto da minha por todo o tempo. O polegar desenhando pequenos círculos na parte interna do seu pulso que corria rápido, mas que aos poucos parecia se acalmar com meu toque.
Após o jantar, meu pai, muito discretamente se afastou comigo para o jardim, enquanto deixávamos Felicity com minha mãe e Thea conversando na sala. Eu havia evitado encará-lo o tempo todo, porque o conhecia bem demais para saber o que se passava em sua mente.
Assim que as vozes femininas se tornaram longínquas o suficiente, meu pai começou a falar.
Eu ouvi seu sermão, calado como um bom filho, porém sem desviar o olhar do seu rosto, pois já era um homem.
Ele começou o assunto sobre Laurel, dizendo que não havia me criado para não respeitar uma mulher, e que no instante em que eu descobri que não a amava e que queria outra pessoa, eu deveria tê-la deixado livre ao invés de traí-la. Essa foi a parte em que ele pegou leve. Mas quando falou sobre Felicity... Meu coração foi ao chão e o ouvi sabendo que merecia cada uma de suas palavras.
Eu mesmo já as tinha dito para mim.
Ela era muito jovem.
Eu deveria ter sido mais responsável.
Deveria ter terminado com Laurel antes e me aproximado de Felicity aos poucos, oferecendo o relacionamento que ela merecia de mim. Sem pular etapas.
— Eu sinto tanto desapontá-lo, pai. – Disfarçadamente limpei a lágrima que havia no canto dos meus olhos, mas ainda assim meu pai as viu.
— Você não me desapontou filho. – declarou, ambas as mãos sobre meus ombros. — Essa é sua vida, são suas escolhas, erros e acertos, não tenho direito de julgá-lo. – continuou — Eu não conheço a sua história com Felicity, não sei se foi algo de uma noite só – protestei veemente, embora soubesse que muitos poderiam ver assim — Mas eu o conheço bem, e pelo modo que o vi olhar para ela, segurar sua mão quando a garota estava nervosa e assustada com o tagarelar sem fim da sua mãe. Eu notei que ela é importante para você.
— Ela é. – confirmei – Eu sei que parece que apressamos as coisas, mas dentro de mim, elas já cresciam há algum tempo. – confessei — Eu já me sentia assim por Felicity há um longo tempo, apenas não consegui admitir, pensei que era errado.
— Só é errado quando não é verdadeiro. — Suas palavras me atingiram profundamente.
— Era verdadeiro. – ouvi um som de uma risada alta e conhecida, meu corpo inteiro se moveu naquela direção observando pela janela Felicity rir de algo que minha mãe lhe mostrava. — Ainda é. – falei com convicção, meu pai sorriu, seu braço se colocou ao redor dos meus ombros e ambos começamos a caminhar de volta para casa.
— Bom, então faça as coisas da forma certa agora, filho. – ele disse assim que estávamos de volta, deixando dois tampinhas encorajadores em meu ombro, observei meu pai caminhar indo até minha mãe e dar-lhe um beijo terno em sua bochecha, depois de tantos anos o gesto corriqueiro ainda assim lhe fez corar.
Movi meus olhos para os de Felicity desejando um dia ter isto com ela.
E quando nossos olhos se encontraram, eu fiz uma promessa respondendo as últimas palavras do meu pai.
— Eu irei.
***
O final de semana passou mais rapidamente do que eu gostaria.
E embora inicialmente eu tenha planejado essa pequena viagem para começar a acertar as coisas entre mim e Felicity, eu não o fiz. Pela primeira vez ao meu redor ela parecia feliz ao invés de tensa com a gravidez. E eu gostava muito disso. Então apenas fiquei ali, apreciando-a vê-la ao lado da minha irmã que queria discutir nomes, e minha mãe que lhe dava dicas sobre como lidar com os enjoos matinais. E até mesmo de meu pai, que parecia feliz com a ideia de ser avó e sorria amavelmente para ela a todo o momento.
Me limitei a ser um observador silencioso.
A mover meu olhar para ela a cada palavra dita, a sorrir quando via seu sorriso iluminar o ambiente, e a sentir meu coração bater mais rápido quando eu a tocava e ela não se afastava.
Eu era ciente de que tão logo deixássemos a casa dos meus pais, a realidade se assentaria, e quando fosse apenas Felicity e eu, suas barreiras se ergueriam novamente. Então, me limitei a aproveitar o que me era dado, ainda que por pouco tempo.
Quando o domingo chegou, levei uma silenciosa Felicity de volta para Boston. Ela dormiu durante o voo, e eu também não comecei nenhuma conversa importante. Tive medo.
Medo de trazer de volta sua mágoa justa.
Medo de que ela erguesse novamente seus escudos e me frustrasse todas as vezes em que eu tentava me aproximar. Medo de fazer algo errado novamente, e sem querer romper a tênue tranquilidade que havíamos construído.
Então deixei que o medo me calasse.
Permiti que o medo me fizesse contentar em apenas dividir um táxi, enquanto eu levava Felicity de volta para sua casa, tentando fingir que eu não teria que deixa-la sozinha enquanto eu passaria a noite em um hotel próximo, até o dia seguinte quando pegaria meu carro e faria meu caminho de volta para Starling.
Para longe dela e do bebê.
Esfreguei meus olhos cansados, eu não ainda não tinha uma solução para este impasse. As palavras do meu pai continuavam rondando em minha mente “...Então faça as coisas da forma certa.”, mas eu ainda não sabia como.
— Eu vi seu olhar. – Felicity rompeu o silêncio, e varri meus pensamentos para longe enquanto me concentrava nela. Seu corpo estava próximo ao meu, embora estivéssemos no banco de trás do carro e houvesse muito espaço para ocupar. Ela havia se aconchegado em mim e deixado seu corpo descansar no meu, nada muito íntimo, apenas o suficiente para que eu sentisse o calor do seu corpo. Exceto pelo seu braço, que de alguma forma, havia se enroscado ao meu. Tentei não parecer um idiota convencido, mas era difícil, me fazia pensar se, esse tempo de tranquilidade não amenizara um pouco sua raiva de mim, fazendo com que aqueles outros sentimentos voltassem a agir puramente por instinto.
— Como disse? – eu havia me perdido nela tão profundamente, que me esquecera o que ela falara.
— Eu disse que vi seu olhar com Thea, quando ela disse que já sabia da minha gravidez. – Continuei mudo, o medo ainda me segurando. – Você usou uma desculpa qualquer e se afastou. – seu olhar me fez mais perguntas, e novamente me vi acuado. Eu deveria dizer a verdade e arriscar a pequena paz conquistada?
O medo dizia-me para calar-me. Mas outra parte de mim, dizia que se eu quisesse ter algo verdadeiro e duradouro com Felicity em um futuro próximo ou distante, isso incluía não omitir sentimentos. Nem mesmos os ruins.
— Você iria me contar? – verbalizei, o que desde o início martelava em minha cabeça – Iria me falar sobre o nosso bebê, se eu não tivesse te procurado?
— Eu não sei. – falou após um longo silêncio — Eu ainda estava me ajustando e assimilando as coisas, era recente para mim também e eu estava tão cheia de mágoa. – assenti mecanicamente — Eu sinto muito, eu não sei o que eu faria em alguns meses, a mágoa talvez tivesse passado e o bom senso retornado, mas a verdade é que eu não sei, e infelizmente é tudo o que posso te oferecer. – Eu não estava feliz com sua resposta, conscientemente eu sabia que não deveria culpa-la, eu já havia aprendido que não cabia a mim julgar as pessoas. Mas ainda assim... Eu também não poderia fingir que sua resposta não me feria.
— Você ainda quer continuar na faculdade? – ela franziu o cenho -Quando o bebê vier? – estrategicamente fugi do tópico.
— Claro. – confirmou. O táxi parou nesse exato instante e perdi seu calor quando Felicity deslizou se afastando e abrindo a porta. Havíamos chegado em seu prédio. Como o tempo tinha passado assim tão rápido? Eu solicitei ao motorista que fosse devagar, não queria que ela enjoasse no caminho. Além disso, eu não estava pronto para me despedir, num movimento mais instintivo que racional segurei sua mão, impedindo-a de ir. — Eu sei que vai ser difícil com um bebê, eu terei que perder algumas aulas e me formarei mais tarde. – ela sorriu confiante — Eu posso fazer isso, Oliver. – franzi o cenho, pensando lentamente em sua frase, tão lento que perdi o instante que Felicity soltou minha mão e deixou o carro.
A segui para fora.
Eu sabia que ela poderia fazer isso, mas...
— Nós podemos fazer isso. – a corrigi, fazendo-a se virar para mim — Eu vou ajuda-la, sabe que estarei presente e que não fará nada sozinha. – ela assentiu.
— Eu preciso entrar. – Anunciou olhando para baixo, onde a minha mão segurava a dela, apenas as pontas dos dedos se agarravam. Não sei precisar quando fiz isso, era apenas natural para mim, meu corpo buscar pelo o conforto que apenas o dela poderia me oferecer.
— Eu preciso de você mais um pouco. – admiti minha fraqueza – Preciso saber que não vai desaparecer. – os cantos de seus lábios se elevaram em um pequeno sorriso doce.
— Eu vou ficar bem, Oliver. – eu não poderia ter certeza disso, não quando estaria longe. — Obrigada por me acalmar quando eu estava surtando. – ela apertou minha mão, e deu um passo a frente diminuindo nossa distância, meus olhos caíram para os dela — E por me convencer a ir para Starling, seus pais foram maravilhosos, sua mãe especialmente. E estou feliz que sua irmã não quis me matar, embora seria inteligente se você ficasse fora do radar dela – eu assenti, me tornando ainda mais consciente de sua proximidade quando Felicity me surpreendeu com um abraço. A apertei contra mim, inspirando profundamente seu perfume, me concentrando nas batidas do seu coração... Sorri ao pensar que enquanto eu abraçava Felicity, eu abraçava também nosso filho, ele estava no meio de nós bem agora. Crescendo. — Eu ligo para falar sobre o bebê. — ela sussurrou em meu ouvido deixando um pequeno beijo em minha bochecha e então se afastou. Permaneci ali, petrificado. — Informarei sobre os ultrassons para que possa estar presente e... – Eu já não a escutava, eu voltei ao carro puxando minha pequena maleta de lá e dispensei o taxista que era suposto de me levar para o hotel mais próximo.
Felicity me encarou passando sério a sua frente.
— O que está fazendo? – perguntou ao me ver colocar a mão na maçaneta.
— O que acha? – empurrei a porta do seu prédio — Você me disse que estamos em caminhos diferentes da vida, eu decidi que já é hora de mudar a minha direção.
***
Felicity Smoak
Nós não estávamos morando juntos.
De jeito nenhum.
Até parece.
Claro que não estávamos
Eu repeti isso mentalmente na primeira vez em que Oliver apareceu em uma manhã chuvosa cozinhando meu café na pequena cozinha do novo apartamento que eu alugara, eu não disse nada apenas porque eu estava faminta aquela manhã e com preguiça de ir a padaria mais próxima na chuva, e seja lá o que ele cozinhava o cheiro era maravilhoso. O apartamento novo era mais perto da faculdade, e muito maior do que eu morava anteriormente junto com outros estudantes. Oliver me “convencera” de que era melhor eu ter um espaço apenas para mim e o bebê, e parecia razoável até que ele começou a selecionar os apartamentos certos. Repeti de novo quando ele me ajudou com a mudança, e de tão cansado acabara dormindo no sofá, mesmo que seu próprio apartamento ficasse estrategicamente em frente ao meu.
Viu só o que ele fez?
Por trás daqueles olhos de anjo e sorriso encantador, havia um homem manipulador.
Mas ainda assim, ele mudou toda sua vida por mim.
Deixou o escritório que batalhou tantos anos para construir.
Deixou sua cidade natal, e também sua família.
Embora o contato com os Queens fosse ainda mais constante agora do que antes, Moira e Thea estavam sempre nos ligando para saber como estavam indo as coisas, sem contar que as duas compraram meio mundo para um bebê que era pouco mais que uma sementinha de feijão.
Às vezes seus amigos apareciam, e embora sempre houvesse uma e outra situação estranha, com Tommy que amava provocar Oliver e me usar para isso parecia ser seu prazer, no geral eu gostava da companhia deles. Até mesmo do sério e observador Sr. Diggle, que da última vez que viera trouxera biscoitos de gengibre dizendo que seriam bons para meus enjoos.
Quando minha barriga começou a mostrar, nós dois já havíamos criado uma rotina.
Oliver estava aqui em todas as manhãs fazendo o meu café, e me buscava na faculdade quando minhas aulas chegavam ao fim. Também ficava até tarde comigo, dizendo que não era bom eu ficar sozinha “no meu estado”. O que era tolice, já que ambos sabíamos que se eu precisasse de Oliver bastava dar três passos e eu estaria na porta do apartamento dele. Eu lhe disse isso com um revirar de olhos, mas tudo o que recebi de volta foi aquela expressão séria e determinada, que não era uma boa ideia contrariar.
Nós brigamos quando Oliver sugeriu que eu largasse o meu emprego de meio período servindo mesas no big belly burguer, e eu joguei na sua cara que não era sua mulher e não esperava que ele me “bancasse”.
No final, acabei cedendo ao ver seu rostinho de filhote de cachorro ferido, e também Oliver jogara sujo quando colocara meu médico na equação dizendo que ele estava certo, não faria bem ao bebê ou para mim, eu ter uma rotina extenuante de trabalho e estudos. Eu precisava desacelerar.
Eliminei algumas matérias da minha grade, e coloquei o máximo das que poderiam ser feitas a distância.
Oliver começou a trabalhar para uma associação próxima. Mas seus horários eram flexíveis, e ele se assegurava de estar em casa no mesmo horário que eu. E por casa, eu falo do meu apartamento, já que ele apenas usava o dele para dormir, as vezes nem mesmo isso, porque meu sofá havia se tornado praticamente sua cama, impossível não sentar lá e não ser intoxicada por seu cheiro.
Nós criamos uma rotina, na qual Oliver estava sempre presente.
Nas noites em que eu estudava até mais tarde, ele estava lá, no meu sofá lendo um livro ou concentrado estudando um dos seus casos, ou ainda assistindo tv, que ele sempre colocava no mudo para não me atrapalhar. Por mais estranho que parecesse, eu não me incomodava, Oliver era silencioso e o mais importante: sempre trazia comida.
Eu dizia a mim mesma para não me apegar, para não me iludir que isto poderia ser mais do que apenas Oliver preocupado com nosso filho e não querendo perder nada. Ele nunca mais verbalizou seus sentimentos para mim, nunca tomou qualquer atitude nessa direção, mas ainda assim...
Eu senti seus toques suaves e hesitantes tornarem-se mais confiantes e confortáveis com o tempo. Era normal eu ter sua mão as minhas costas apenas para me direcionar, ou sua mão na minha para me confortar quando eu estava ansiosa ou nervosa. Embora mais raros, as vezes eu recebia seus beijos em minha testa, ou um cafuné em meus cabelos, geralmente quando Oliver se levantava do sofá e dava seu basta em minhas horas de estudos, me obrigando a ir para cama. Não preciso dizer quantas vezes eu permaneci estudando até mais tarde apenas para ter isso...
Ainda assim em algumas noites eu via seu olhar desviar de seus livros e vir até mim, sem motivo aparente, mas eu quase podia sentir seus pensamentos contidos.
Até que não se contiveram.
Até o dia em que tudo mudou.
Eu estava sentada a mesa, frustrada com uma questão estúpida que não conseguia resolver, quando o senti.
— Oh, Deus. – a caneta caiu de minha mão, e antes mesmo dela tocar o chão, Oliver estava ajoelhado minha frente, observando tenso e assustado minhas duas mãos que se pressionavam protetoramente em minha barriga.
— O que há de errado? – Seu semblante era puro sofrimento.
— Eu... – não consegui falar, senti novamente e uma pequena lágrima que desceu por meu rosto, assustando ainda mais o pobre Oliver.
— Dói? – perguntou-me, mas eu ainda não tinha palavras, mesmo sem querer eu estava o torturando. — Felicity? Fale comigo.
Eu não conseguia falar.
Então agi.
Busquei por sua mão, colocando-a por sobre minha barriga bem naquele pontinho em que há pouco segundos havia o sentido.
— Isso foi? – concordei, rindo junto com Oliver. Não havia mais qualquer vestígio de medo em seu rosto, apenas um amor tão gigante que até mesmo seu amplo sorriso era pequeno demais para demonstrar. – Oh, meu Deus, ele fez de novo. – Exclamou, maravilhado. Seu rosto se aproximou de minha barriga encostando-o ali, e não resisti a imagem terna, acariciei seus cabelos enquanto ele conversava com nosso bebê. — Ei pequeno, eu sou seu pai.
Eu ri.
— Sabe que o seu pequeno, pode ser pequena. – o lembrei, mas isso não mudou o brilho em seus olhos.
— E eu irei amar do mesmo modo. – O sorriso nos lábios de Oliver aos poucos diminuiu se tornando diferente, especial. Meu.— Obrigada. – Eu não soube o que dizer, eu compreendia sua emoção, eu mesma partilhava dela.
— Qualquer mulher poderia carregar seu filho, Oliver, não precisa me agradecer por isso. – respondi sem jeito, mas seu olhar continuava em mim. Intenso.
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!— Eu não queria qualquer outra mulher. – balancei minha cabeça, mas isso não impediu as palavras de fazerem seu caminho até aquela parte do meu coração reservada unicamente para Oliver. — Tinha que ser você, apenas você.
— Você me prometeu que não diria nada sobre como se sente... – O lembrei. Por vezes eu repassei essa promessa estúpida na minha mente, disse a mim mesma que era importante manter os sentimentos separados, para que não confundíssemos nada.
— Eu posso calar minha boca se assim quiser, querida. – ele ergueu sua mão até meu rosto, o polegar fazendo um carinho suave em minha bochecha. — Mas não meu coração.
Eu estava cansada disso.
De desviar meu olhar do dele.
De me controlar ao seu redor e fingir que seus poucos toques me eram suficientes. Ou que eu não era consciente do quanto minha – nossa – vida não estava entrelaçada uma na outra. Cansada de fingir que meu coração não se comportava mal apenas de tê-lo ali comigo, de que meus dias não eram mais tristes quando ele não era a primeira pessoa que eu via pela manhã.
Oliver se ergueu apenas um pouco do chão, suas mãos atraíram meu rosto para o seu, me dando tempo para recusá-lo, se assim eu desejasse.
Mas eu queria esse beijo.
Tanto que doía.
Então eu o tive.
Tive muito mais do que lábios se tocando.
Eu não sei como era possível, mas corações foram entregues naquele beijo e destinos selados. E depois dele fomos uma confusão de sentimentos, toques desesperados e ao mesmo tempo calmos, beijos suaves e de roubar o fôlego.
Oliver não dormiu no sofá naquela noite.
Ele não coube perfeitamente na minha cama pequena, mas nenhum de nós se incomodou. Nós dormimos bem, eu especialmente, com o corpo de Oliver atrás do meu, suas mãos pousadas sobre minha barriga, adormeci sentindo o sopro quente e ritmado da respiração dele em meu pescoço.
— Casa comigo? – sua voz não foi mais do que um sussurro preenchendo o silêncio da noite;
— Sim. – respondi sonolenta, sentindo seu sorriso crescendo contra minha nuca, eu mesma sorri quando sua mão segurou mais firme ainda em minha barriga fazendo movimentos deliciosos e tranquilizantes. Tudo em mim gritava que essa noite era apenas um sonho, eu acordaria e Oliver estaria mais uma vez no meu sofá. Mas na manhã seguinte, assim que acordei havia um anel no meu dedo.
Nós fizemos planos.
Para a nossa família.
E oficialmente conseguimos um lugar para chamar realmente de nosso onde Oliver passou dias se ocupando em deixar o quarto do nosso bebê perfeito. E as noites se ocupando em me fazer feliz.
E tudo estava perfeito.
Até que não estava.
***
Nosso bebê nasceu em uma ensolarada manhã.
Eu acordei sentindo algumas dores e Oliver achou melhor me levar para o hospital, nada dramático ou desesperador, foi apenas simples. Ele permaneceu ao meu lado segurando minha mão durante todo o tempo, me dando seu apoio e amor incondicional.
Oliver chorou ao segurá-lo pela primeira vez, assim como eu.
E chorou novamente, quando eu lhe disse o nome que gostaria de lhe dar.
Jonas Smoak Queen tocou nossos corações e os tomou para si naquela manhã.
Mas o levou embora, quando naquela noite tempestuosa, simplesmente nos deixou.
Os médicos disseram que seu pequeno coração não estava bem, nos disseram muitas outras coisas que não entendi, termos médicos estranhos e falaram até mesmo de doação, mas no fim, disseram que era melhor nos despedirmos porque ele não tinha uma chance. E mesmo comigo e Oliver ao lado do nosso pequeno por todo o tempo, mesmo que estivéssemos dispostos a dar nosso coração para que nosso filho tivesse essa chance, nada disso foi o suficiente.
Ele se foi.
Eu passei os dias seguintes sentindo sua falta.
As vezes eu caminhava no meio da noite até seu bercinho, queria ver se estava bem ou apenas pegá-lo para niná-lo.
Mas não havia nenhum bebê ali.
Nunca havia um bebê ali.
E eu me permitia deitar ao chão, esperando ouvir seu choro fraco que me acordaria daquele pesadelo, mas eu nunca o escutava. Eventualmente, Oliver aparecia e me recolhia do chão. Ele nunca dizia nada, ele tentou algumas vezes, mas nunca acabava bem, então ele simplesmente parou de tentar. Apenas me colocava de volta na cama e me abraçava até que eu voltasse a dormir. Como se eu não fosse mais do que pedaços de algo quebrado que ele precisava tirar do caminho para que ninguém se machucasse ao pisar sobre os cacos.
E os dias se tornaram semanas.
E as semanas meses.
Até que uma noite eu acordei, e caminhei para o seu quarto e não havia nada ali. Eu gritei, eu quase desabei, mas Oliver estava ali, sempre perto o suficiente, sempre solicito, sempre pronto para me segurar em seus braços e juntar meus pedaços.
Não sei dizer por quanto tempo ficamos um nos braços do outro naquela noite.
Por quanto tempo choramos.
Mas não foi o suficiente.
Nunca era.
Um dia Oliver e eu formamos um inteiro, mas agora éramos apenas duas pessoas arruinadas demais pelo amor. Quebradas em tantas partes que já não nos encaixávamos, ao contrário, quando tentávamos juntar essas partes, elas apenas machucavam mais.
Eu acordei na manhã seguinte, mais autoconsciente do que deveria fazer.
Do que era melhor para mim, e para Oliver.
Ele correu até mim, quando me viu arrastando a mala para fora da casa.
— O que está fazendo? – Ele estava afobado, seus lindos olhos azuis que tantas vezes me fizeram perder a coerência, já não eram mais tão lindo, faltava-lhe aquele brilho charmoso tão especial. E agora havia uma tristeza permanente, que, se eu não estivesse tão concentrada em mim mesma, na minha dor, talvez eu tivesse notado antes.
Mas agora era tarde.
Tarde para nós.
— Se lembra quando eu te disse que nossas vidas seguiam por estradas diferentes? – o lembrei, minha voz soou estranha, presa na garganta junto com tantas outras coisas.
— Eu respondi que não me importava, eu mudaria meu caminho por você. – Seus olhos estavam nos meus, os lendo com perfeição. Ele sabia o que eu estava fazendo. — Eu mudei.
— Sim. — Eu sorri, e embora o sorriso fosse verdadeiro, ainda assim foi doloroso. — Você sempre diz as coisas certas. – meu coração concordou — Por isso é tão difícil.
— O que é tão difícil? – Perguntou, sua mão procurou a minha, segurando as alças da mala que eu agarrava tão firmemente. Ele sabia o que eu estava fazendo, sua pergunta era retórica, Oliver apenas ganhava tempo para me convencer a não fazer.
— Seguir por outra estrada. Minha estrada.
— Eu posso ir com você. — propôs — Já o fiz uma vez.
— Não pode, querido. – Elevei minha outra mão, me permitindo tocar uma última vez seu rosto. Eu iria sentir falta de vê-lo todas as manhãs, por isso tomei meu tempo gravando-o. Talvez chegasse o dia em que vê-lo não doeria, não me lembraria da tristeza que coloquei em seus olhos, e quando esse dia chegasse, eu evocaria sua imagem e seu rosto seria meu consolo, aquele raio de sol por trás das nuvens pesadas. — Você tem sua própria estrada para seguir, você precisa segui-la.
A dor precisava ser sentida.
— Eu não quero que você vá. – tentou fracamente.
— Mas também não quer que eu fique. – eu respondi, sem sentir dor ao dizer.
— Eu não disse isso. – Ele não precisava dizer, não quando seu olhar era mais eloquente que palavras. E ali, naquele mar azul cheio de amor, e tristezas, e medos e paixões, onde me afoguei tantas e tantas vezes, onde vi refletido os meus sonhos, eu também vi nosso fim.
— Está tudo bem, Oliver. – a lágrima caiu de seus olhos quando ele abaixou a cabeça reconhecendo nossa derrota, reconhecendo que a dor havia vencido, e neste momento exigia seu preço. — Está bem não saber mais o que fazer. – eu disse — Eu acho que... Nós ficamos juntos por causa do nosso bebê. – Oliver negou enfaticamente com a cabeça, eu sabia o que ele sentia, eu afinal, eu sentia o mesmo. — Eu sei que nos amamos, que foi verdadeiro pelo tempo em que estivemos juntos. – ele olhou para mim, realmente olhou e quase vacilei nessa hora. — Mas sei também que Jonas era uma parte de nós, e agora que ele se foi, não conseguimos mais ser um nós.— Me afastei dando passos até a porta, em busca do meu caminho. Eu pensei já ter chorado demais pela morte do nosso filho, por isso quando as lágrimas caíram de mim, elas me surpreenderam.
Não eram lágrimas por apenas Jonas.
Eram por todo o amor perdido.
O amor que tivemos e foi consumido pela dor.
O amor que poderia ter sido tanto, mas no fim, jamais seria.
— Talvez esse seja todo o amor que podemos ter.
***
Eu era grata pelo vento frio e úmido daquela manhã. Pelo jeito violento que ele batia em meu rosto deixando a pele gelada e fazia meus cabelos voarem em todas as direções.
Isto aqui era a vida real.
Fechei meus olhos e inspirei fundo, dizendo a mim mesma que eu não estava mais naquele estranho e longo sonho. Eu nem mesmo tinha certeza se poderia chama-lo disso, mas não me importei com nomes. Eu estava segura na nossa pequena Suíça, com minha vida ainda de ponta a cabeça, com um julgamento próximo e que definiria se eu teria um futuro, mas pelo menos eu não era aquela garota quebrada.
Tão pouco Oliver era aquele homem de olhos tristes.
Tivemos nossas lutas e problemas, passamos por muito antes de finalmente nos reencontrarmos. Mas pelo menos não tinha sido daquela outra forma. Nosso amor não havia nos arruinado, ao contrário, ele tinha sido nossa salvação.
Tínhamos um ao outro.
No amor e na dor.
— Você não estava na cama. – A voz rouca me pegou desprevenida, bem como seus braços se enroscando ao redor de mim. Gostei do seu abraço, do modo como seu corpo quente espantou o frio do meu e me fez sorrir. Oliver era muito mais efetivo do que a brisa fria para me fazer sentir viva.
— Havia muitas coisas aqui. – apontei para a minha cabeça, meu olhar preso no infinito do mar, ainda pensando.
— O que está rondando sua mente? – a pergunta era leve, tão diferente dos meus pensamentos — Divida comigo, amor. – Pediu, fazendo-me ficar cautelosa.
Eu não queria falar sobre aquilo, não queria esmiuçar aquele sonho estranho em uma realidade alternativa, no qual fizemos as escolhas que achávamos serem as certas, mas que no fim, eram apenas escolhas comuns.
Que nos levavam a um futuro diferente, mas não isento de dor.
Um futuro em que ela nos destruiu.
— Apenas algo que ficou em mim depois da nossa conversa de ontem a noite, e parece não ter ido embora... – Minha voz tremeu e movi meu corpo um pouco mais para trás, focando-me no que eu sentia agora. Oliver beijou a junção do meu pescoço e ombros, e de alguma forma isso foi o suficiente para me dar forças. Girei meu corpo entre seus braços, ficando de frente para ele. Estava feliz por ver seus olhos brilhantes e felizes ao contrário daqueles tão opacos e tristes. Elevei ambas as mãos para que ficassem na base do seu pescoço, espalhando as pontas dos dedos em seus cabelos e apreciando a visão que era Oliver Queen sob a luz fraca de um sol nascente. — Sobre todos os nossos arrependimentos, como gostamos de pensar que tudo seria diferente, e até mesmo melhor, se nós dois tivéssemos tomado decisões diferentes no passado.
Oliver franziu o cenho, acompanhando meu raciocínio com cautela.
— E o que concluiu? – havia algo mais em sua pergunta, quase como se ele precisasse dessa resposta tanto quanto eu.
— Que não há garantias de um final feliz em nenhuma escolha. — respondi — Este é o caminho que escolhemos percorrer, só porque ele nos levou a momentos difíceis, não significa que o outro caminho nos levaria a lugares mais fáceis... Talvez não fosse assim, talvez fosse muito pior. – respondi sombria.
— Eu sei. – seu olhar se tornou triste por um momento, fugaz apenas, mas ainda assim reconheci aquela tristeza, reconheci que ela não pertencia a este momento. — Eu ainda mudaria meu caminho por você. – Eu o encarei reconhecendo aquela frase, fazendo-lhe perguntas silenciosas. Oliver suspirou e balançou a cabeça, apenas dizendo que não valia pena. E a verdade é que não valia mesmo. Aquele “E se” era apenas isso, um talvez que nunca teríamos que confrontar, porque escolhemos outros caminhos — Mas estou feliz de que, apesar de tudo o que nos manteve separados, nossos caminhos se encontraram, e estamos tendo a chance de percorrê-los juntos.
— Eu também.
— O que mais esta cabecinha linda está pensando, amor? – Não era incrível como Oliver tinha o dom de simplesmente varrer aquele capítulo inexistente de nossa história, apenas me chamando de amor? Isto me atentou para outra coisa.
— No amor. – falei honestamente — É tão complicado. – pensei em nossa história, a verdadeira dessa vez, nos desencontros, nas mágoas e no quanto nos ferimos. Demoramos para admitir essa pequena palavra, parte de mim ainda temia que mais uma vez, nossos caminhamos seguissem em direções opostas e que esse sentimento tão belo acabasse se perdendo.
Eu não queria ser pessimista, mas eu sabia que havia uma boa chance de em alguns dias eu ser condenada por um crime que não cometi. Nosso amor resistiria a mais isto?
— O amor não é simples ou fácil, Felicity. Ele se apresenta de maneiras inesperadas e domina seu coração e emoções. Seu modo de ver a vida muda. Seus sonhos mudam. Porque você está tão cheio desse sentimento, e ele te faz tão feliz e completo que você faria tudo, qualquer coisa, apenas para mantê-lo com você. Tem razão, o amor é complicado. – pausou, olhando diretamente em meus olhos — Mas é lindo. – Não conseguia deixar de sorrir quando o lado poeta de Oliver dava as cartas. Senti seu polegar escovando a covinha que meu sorriso formou. — Por que afinal, acha que gosto tanto de te chamar assim? – meu coração transbordou de amor.
— Desde que sou seu amor, acho que eu deveria te chamar de algo. – Seus olhos faiscaram, parecendo apreciar minha proposta.
— O que lhe agrada, amor? – a lembrança daquele quase felizes para sempre que teríamos vivido, mas que terminou da maneira que terminou, me fez segurá-lo mais forte.
— Meu. – Declarei — Vou chama-lo de meu.
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