Guilty Pleasure
2 Capítulo 1 - In the dark
Notas iniciais
In the dark
And I’m right on the middle mark
I’m just in the tier of everything that rides below the surface
And I watch from a distance seventeen
And I’m short of the others dreams of being golden and on top
It’s not what you painted in my head
There’s so much there instead of all the colors that I saw
We all are living in a dream
But life ain’t what it seems
Oh, everything’s a mess
And all these sorrows I have seen
They lead me to believe
That everything’s a mess
(Dream — Imagine Dragons)
♥
Oliver Queen
— Eu posso entrar? — ela pediu ao notar minha ausência de reação.
Eu ainda me sentia entorpecido demais por sua presença, tão confuso com as emoções conflitantes que se agitavam dentro de mim. Desde um crescente calor no peito, em clara euforia por vê-la novamente, à culpa por ter agido como um canalha com ela na última vez que a vi, tornando ainda mais difícil raciocinar com clareza. E eu odiava isso. Odiava o quanto a simples presença dela ainda me afetava e me tirava do meu habitual autocontrole.
— Claro. — Dei um passo para trás permitindo que ela passasse para dentro da casa. Fechei a porta com um estrondo alto, e pisquei olhando para ela ainda incrédulo. Talvez eu tenha cochilado em minha mesa enquanto lia o relatório do meu último caso, e isso fosse algum tipo estranho de sonho.
Não. Impossível.
Como sempre meu lado racional assumiu o controle. Eu estava bem acordado e lúcido o suficiente para reconhecer o perfume doce de Felicity, que em cinco anos não havia se dissipado da minha memória. Eu ainda estava desperto o suficiente para me sentir inebriado por ele, e por todas as lembranças que esse simples cheiro despertava. Era apenas toda a incoerência daquela situação que não fazia sentido algum dentro da minha cabeça.
O que ela fazia aqui depois de cinco anos? Depois de como eu acabei tudo entre nós? E ainda mais, coberta em sangue?
— Eu não viria aqui se tivesse outra opção. — ela disse num tom altivo de quem se vê obrigada a pedir desculpas, como se secretamente soubesse das perguntas que se passavam por minha mente, e ao mesmo tempo, também não gostasse nenhum pouco dessa situação. Desci meus olhos novamente para as mãos e camiseta sujas de sangue dela, aquela era uma imagem que eu jamais imaginaria ver. Me perturbava. — Será que eu posso me limpar? — ela pediu erguendo as mãos trêmulas.
— Você está machucada? — Me vi ser tomado por uma estranha onda de preocupação. Eu não gostava do que eu via a minha frente. Era muito sangue, manchando toda a roupa dela. A inspecionei mais minuciosamente em busca de algum ferimento aparente que justificasse.
— Não é meu sangue, Oliver.
Demorei alguns segundos para assimilar aquela declaração, percebi que o sangue se acumulava em partes determinadas dela: nas mãos e tronco, e também havia manchas avermelhadas nas pontas de seu cabelo, como se ela tivesse se debruçado sobre o corpo de alguém que sangrava. Somando isso a informação de que ela precisaria de um advogado, fez algo se esfriar dentro de mim, e passei a olhá-la com outros olhos. Com os olhos que eu reservava para o tipo de pessoa que geralmente me procurava para tirar-lhes das piores situações.
Eu sempre me orgulhei de ser um advogado capaz de ver a verdade escondida no olhar das pessoas. Essa capacidade de lê-las tão facilmente, de perceber a falsidade por trás de um sorriso perfeito, ou o sutil ardil escondido em lágrimas meticulosamente controladas para passar a impressão de vulnerabilidade. É isso o que me permitiu ser tão bom no meu trabalho.
Eu vejo além da casca polida onde as pessoas escondem quem são de verdade.
Mas eu encarava a garota loira a minha frente. O sangue escorria de suas mãos pingando no piso de madeira da minha casa, seus belos olhos azuis cintilando pelo brilho das lágrimas me fitavam parecendo muito maiores e assustados, eu senti uma vontade irracional de trazê-la para meus braços. Porém eu controlei meus instintos, porque havia nela uma determinação que me intimidava e ao mesmo tempo me surpreendia.
Eu não era capaz de ver além da sua casca.
Eu mal reconheço a doce menina que foi praticamente criada comigo. Eu não sei dizer se ela é culpada ou inocente daquele crime. Mas pela primeira vez na minha vida, eu não me importo. Seu olhar ainda me chama até ela e eu sei que estarei indo em sua direção.
Pare! Escutei o comando gritando em minha mente e me interrompi antes que eu desse mais um passo à frente, envolvendo-a em meus braços. Eu queria tanto abraçá-la, acalmá-la e tirar o medo que havia em seus olhos. Mas eu precisava ser racional. Ela talvez não fosse a garota que eu costumava conhecer. Aquela Felicity Smoak, que corava sempre que eu olhava para ela, ou cujo sorriso costumava ter o poder de me enlouquecer. A menina mulher que me entregou tudo de si numa única noite, e logo depois derramou lágrimas quando eu quebrei o seu coração, poderia não mais existir.
Pensar nisso trouxe uma estranha pontada de dor em meu peito.
Sim, eu tinha muitas lembranças dela.
Todas elas mostrariam uma garota doce e sensível, com um sorriso cálido e incapaz de machucar alguém.
Mas eu não podia deixar que minhas emoções nublassem a verdade. E a verdade é que a garota doce que eu conheci, pode ter ficado perdida em algum lugar nesses cinco anos. Eu precisava me forçar a entender que a mulher que tinha em minha frente era uma completa desconhecida, e eu devia tratá-la como tal, ainda que tudo em mim fosse contrário a isso. Eu sabia que a máxima no direito é que todos são inocentes até que se provem o contrário.
Mas eu nunca pensei assim.
Eu já tinha visto o suficiente desse mundo para saber que as pessoas mentem e fingem com destreza quando a liberdade delas está em jogo. Eu estava há muito tempo nesse ramo para ver até onde o ser humano era capaz de ir, movido pelo medo e pela autopreservação. Tempo o suficiente para decidir que a inocência, na verdade, precisava ser provada.
— Então, eu acredito que não, você não pode se limpar. — falei frio, enquanto segurava seu braço impedindo que ela se afastasse para o banheiro.
Felicity ergueu os olhos para mim, me encarando em choque e um pouco de rebeldia. Malditos olhos azuis que eu jamais esqueci! Mas eles não eram tão puros como antes, eu vi um relampejo de medo e mágoa passar por eles, e também vi uma obstinação que eu nunca tinha visto antes nela, e que de certa forma me incomodava.
— Solte-me. — exigiu, sua intenção era que o tom saísse duro, mas havia uma vulnerabilidade que me lembrava da antiga garota, e me fez soltar o braço dela de uma única vez.
— Isso é evidência, Felicity. Você não pode destruí-la. — expliquei, tentando soar menos agressivo com ela. Eu precisava encontrar um ponto de equilíbrio, porque eu não sabia o que estava acontecendo, tudo o que eu tinha certeza é de que ela estava em apuros e mesmo depois de cinco anos, mesmo depois de como eu a afastei e quebrei sem piedade seu jovem coração, ela ainda veio até mim em busca de ajuda. — O que aconteceu? — perguntei diretamente, tentando não demonstrar o quanto tudo aquilo me perturbava.
A boca dela se abriu, mas nenhum som saiu. Ela tentou novamente, e nada aconteceu. Eu permaneci a encarando, ainda esperando que seus malditos olhos que outrora eram tão fáceis de ler, me contassem a verdade. E como se soubesse disso, quando as palavras finalmente saíram da boca dela, os olhos se fecharam me impedindo de ver mais além.
— Eu acho que matei alguém. — Sua voz não foi mais do que um sussurro.
— Você acha? — Busquei pela confirmação.
— Sim — confirmou com um aceno de cabeça enquanto a palavra saía quebrada de seus lábios — Não há como alguém continuar vivo por muito tempo depois de receber um tiro no peito. — disse e eu vi naquelas palavras a esperança de que eu discordasse dela, mas ela estava certa.
Eu tomei uma respiração profunda depois dessa revelação e apenas a observei, tentando retirar dela mais do que estava me contando. Porque eu sabia que havia mais, sempre havia e meu instinto me alertava que algo não estava certo.
Mas Felicity não era fácil de ser lida, e enquanto eu a observava, ela me observava de volta como se tentasse me ler também. Esse era um estranho jogo que eu nunca tinha jogado antes. Enquanto eu a analisava, ela me analisava de volta. Enquanto eu tentava entendê-la, ela fazia o mesmo comigo. Quando eu percebi frustrado que aquilo não nos levaria a lugar algum, eu deixei que novamente minha razão fizesse o que era certo, porque quando eu estava com Felicity, eu temia não ser capaz de confiar nos meus instintos. Retirei o celular do meu bolso e disquei um número conhecido.
Felicity largou o corpo no sofá da sala soltando um longo suspiro, ela não parecia com uma pessoa que havia matado alguém a sangue frio, mas eu não podia negar que algo havia acontecido. A tensão no corpo dela, o olhar longínquo e agitado, as mãos trêmulas e o nervosismo me mostravam que algo estava muito errado com ela.
— Eu gostaria de falar com o Capitão Lance, por favor. — disse ao telefone, ainda mantendo os meus olhos em Felicity, ainda tentando ler seus sinais contraditórios, e ainda falhando — Eu posso ter uma suspeita de assassinato sob a minha custódia. — respondi a pergunta da mulher ao telefone, e os olhos de Felicity se arregalaram na minha direção — Sim, eu posso esperar.
— O que você está fazendo? — ela questionou se erguendo e parando a minha frente parecendo ainda mais nervosa.
— Não é óbvio? Estou ligando para a polícia. — respondi enquanto ainda aguardava que minha ligação fosse transferida.
— Eu vim aqui porque preciso da sua ajuda para não ser presa e você vai me entregar? — devolveu ultrajada.
— Meu trabalho como advogado criminal é honesto. — Fui duro, eu estava incomodado apenas em pensar que Felicity esperava que eu ajudasse a encobrir um crime. Definitivamente, algo estava errado e ela não era mais aquela menina encantadora que eu conheci, e quanto mais rápido eu me livrasse dessa imagem dela, seria mais fácil tentar lidar com isso de um jeito racional. — Mas me deixe adiantar que fugir de uma cena de crime não é algo que eu vejo como honestidade. Se ainda me quiser como seu advogado, eu vou precisar que seja honesta comigo também, Felicity. Só assim eu irei ajudá-la. — Deixei o ultimato no ar.
Felicity voltou para o sofá se afundando ainda mais nele, ela puxou as pernas para cima abraçando-as com as mãos enquanto encostava a cabeça sobre os joelhos mantendo o rosto escondido por trás da cascata que seus cabelos formavam. Ela se balançava ligeiramente para frente e para trás, perdendo-se nos próprios pensamentos. Senti uma pontada de culpa por pressioná-la daquela forma, ela acabara de passar por algo traumático, eu não sabia das circunstâncias do ocorrido e eu estava ali lhe dando ultimatos. Eu apenas não a encarei novamente, fugi da vulnerabilidade dela que me fazia querer sentar ao seu lado e abraçá-la forte contra mim, mantive-me ao telefone com detetive Lance, e lhe dei o tempo que ela precisava para pensar antes de tomar uma decisão definitiva.
Desliguei o celular e olhei para ela. Tão vulnerável, mas ao mesmo tempo aparentando ter uma força desconhecida por mim. Eu me lembrava da garota com semblante inocente, bochechas coradas e sorriso risonho, ela tinha uma alegria de viver única, mas que parecia impossível encontrá-la na Felicity de agora. O que aconteceu com ela em cinco anos? Eu gostaria de saber, talvez assim fosse mais fácil para mim, fosse mais fácil olhar para ela e entender para onde foi a minha garota. Balancei minha cabeça me repreendendo por aquele pensamento tolo, Felicity não era minha garota. Eu a tive uma vez, ela foi minha por apenas aquela noite e mesmo ansiando por mais, eu abdiquei do direito no instante em que quebrei o coração dela.
Tentei limpar minha mente daqueles pensamentos quando me sentei ao lado dela, e me forcei a não puxá-la para mim, me contentando em apenas estar próximo.
— Eles estarão aqui em meia hora, comece a contar a história ou vá embora e se esconda. — com qualquer outra pessoa, eu teria dito essas palavras num tom rude, eu até mesmo tentei, mas me surpreendi com uma suavidade que nem mesmo eu sabia que era capaz. Ela ergueu os olhos para mim, e merda! Me senti vacilar sobre aquele olhar, foi preciso fechar meus olhos e respirar fundo para recobrar o controle novamente — Qual vai ser a sua escolha?
***
Felicity apoiou o queixo sobre os joelhos, virou o rosto na minha direção e ergueu os olhos avermelhados de lágrimas para cima, olhando diretamente para mim. Eu me quebrei por um momento, novamente eu queria abraçá-la, puxá-la para mim, acariciar seus cabelos e dizer que tudo ficaria bem. Ela era apenas uma jovem assustada que passou por algo traumático, e certamente pressioná-la da forma que eu estava pressionando não ajudava em nada.
— Eu estou aqui, Felicity, eu vou ajudá-la no que for preciso. Mas eu preciso que me conte a sua história. — pedi deixando que a palma da minha mão se colocasse em suas costas acariciando, e imediatamente seus olhos se suavizaram enquanto ela olhava para mim e assentia. Me senti um babaca, eu deveria ter começado a coisa toda assim, eu deveria ter sido gentil e oferecido ajuda, não a encurralado contra a parede.
— Eu fui a esta festa esta noite. — começou com a voz trêmula e fazendo longas pausas para respirar e não perder o controle voltando a chorar — Eu voltei para a cidade depois de cinco anos, e pensei... Por que não rever alguns amigos? Um... — ela hesitou por um segundo — Um amigo me convidou, e eu apenas fui. O que poderia dar errado? — disse com ressentimento — Eu já estava lá há algumas horas, eu me perdi dele. Eu o procurei pela casa, e acabei nesse quarto que tinha um cara. Eu me desculpei, perguntei se ele havia visto meu amigo. Ele disse não, mas que se eu quisesse ele poderia ser meu amigo novo. — eu comecei a entender aonde aquilo ia chegar e não me sentia nenhum pouco bem com o rumo que a história de Felicity estava tomando, tencionei meu maxilar e rangi os dentes evitando que um palavrão saísse da minha boca. — Ele queria algo mais, eu não. — Ela confirmou minhas suspeitas, e eu apenas deslizei minhas mãos por suas costas lhe oferecendo um olhar mais cálido, esperando que o pouco que oferecia fosse capaz de confortá-la — Mas ele tinha uma arma, e eu usava salto alto. Eu tentei correr, mas foi inútil. — Ela parou, fechando os olhos e meneando a cabeça como se a mera lembrança fosse demais.
— Está tudo bem, está tudo bem. — falei suavemente, eu tentei me aproximar, mas eu recuei a tempo. Ela tinha passado por algo traumático, era provável que não quisesse o toque de nenhum homem no momento.
— Posso ter um copo de água? — Pediu, seus olhos marejando com lágrimas que ela se esforçava para conter. Havia algo nas suas lágrimas não caídas que quebrava alguma coisa dentro de mim, eu me levantei e assenti indo pegar o copo de água ao mesmo tempo em que tentava manter meu olhar nela, eu estava preocupado.
— Aqui. — Voltei a sala lhe entregando o copo que Felicity bebeu quase que de uma única vez. A observei novamente, seu nervosismo, as mãos trêmulas, era óbvio que ela estava em choque.
— Obrigada. — disse, devolvendo o copo que eu depositei sobre a mesa de centro.
— Pode me contar o resto da história? — pedi com o tom mais leve, sentando-me novamente ao seu lado, e tentando manter uma distância profissional dela. Eu sabia que não era boa a forma como eu me deixava levar tão facilmente, depois de tantos anos, ela ainda tinha o poder de me cativar.
— Eu não me lembro direito, foi tudo tão rápido e estava escuro. Num momento eu estava indo para a porta e no seguinte ele me puxava pela blusa. Eu caí no chão enquanto ele vinha para cima de mim. — Meu corpo todo se tencionou, eu não tinha certeza se conseguiria ouvir o resto da história sem me sentir mal e querer arrebentar a cara do sujeito — Eu me debati, eu lutei e então nós rolamos pelo chão. Quando e eu senti algo gelado e metálico próximo de mim eu... eu apenas peguei, me desvencilhei dele e quando ele tentou vir mais uma vez eu... Eu atirei. — confessou e eu me senti aliviado em ouvir aquilo. Talvez porque apesar de Felicity ter cometido um crime, ela tinha evitado que algo muito ruim acontecesse com ela. Era estranho, eu não era acostumado a ter esse tipo de empatia com um simples cliente, eu normalmente conseguia manter minha imparcialidade e fazer meu trabalho, mas Felicity...
Ela bagunçava tudo.
Ela nunca seria uma simples cliente. Minha mente zombou de mim, dizendo a verdade que eu tão teimosamente me negava a encarar.
— Fique calma, foi legítima defesa. — falei por fim, quando vi seus olhos arregalados para mim cheios de apreensão.
— Eu tentei ajudá-lo. — Ela se apressou em dizer e aquilo me surpreendeu. Que vítima ainda tentaria salvar seu quase estuprador? — Eu fiz massagem cardíaca, eu chequei o pulso e por fim eu liguei para o resgate antes de pegar o carro e vir para cá o mais rápido que consegui, ele ainda estava vivo quando escutei o som das sirenes, mas tinha muito sangue e eu não acho que... — Felicity respirou profundamente — Eu sinto muito, eu estava assustada, eu estava com medo, eu só precisava correr em direção a algo que eu conhecia. — Ela olhou para mim rapidamente e então desviou os olhos — Me desculpe, eu não queria envolvê-lo nisso, mas eu não tive alternativa. E agora que ele está morto... Eu vou para cadeia de todo o jeito.
— Não vai. — eu garanti, não apenas tentando acalmá-la, mas porque eu sabia que naquela situação era improvável que Felicity ficasse presa — Você quer que eu chame alguém? Seus pais? — perguntei.
Felicity precisava do apoio de alguém próximo, alguém com quem ela pudesse desabafar e se apoiar nesse momento. Família era sempre a melhor opção. Mas ao ouvir a minha proposta ela não concordou e se acalmou como eu esperava, ao contrário, ela pareceu muito mais tensa, como se a ideia de falar com os pais fosse ruim.
— Meu pai não pode ajudar e eu não falo com minha mãe há muito tempo, eu não acho que reaparecer agora e jogar tudo isso em cima deles seja uma boa ideia. — Determinou categórica, mas ao mesmo tempo sendo evasiva, sua atitude me confundindo. Eu me lembrava muito pouco dos pais dela, nada muito além de um cumprimento cordial e uma conversa rápida e educada, quando um deles vinha buscar Felicity na mansão, mas ela nunca pareceu ter problemas com eles que justificasse ela não querer a presença deles agora.
— Ok, sem pais então. Mas tem certeza que vai passar por isso sozinha? — questionei não gostando daquilo. Ainda que houvesse uma alegação de legítima defesa, todo processo criminal era mentalmente desgastante.
— Sim. — respondeu, erguendo o queixo de uma forma petulante, como se me dissesse que estava pronta para enfrentar o que viesse.
Eu não me lembrava dela assim.
Eu desconhecia esse seu senso de independência e até certo ponto eu não gostava dele. Porque parecia o tipo de maturidade que adquirimos porque a vida nos obrigou a isso e não porque seguimos o ciclo natural de crescermos e nos tornamos adultos. O que aconteceu com ela?
— Temos que continuar? — Ela lançou os olhos avermelhados na minha direção quando fez a pergunta, vi uma tristeza real neles que me incomodou tanto que tive que desviar os olhos para me concentrar.
— Sim. — Pigarreei — Eu vou precisar que me dê alguns nomes, tudo bem? — pedi, não querendo pressioná-la cedo demais, mas o tempo estava passando e eu precisava de algumas informações para pensar melhor em como seguiria com a defesa dela.
— Tudo bem.
— Você conhecia o homem que te atacou? Sabe o nome dele ou algum apelido? — Ela negou enfaticamente com a cabeça. — E com quem você foi a essa festa? — Perguntei, e Felicity pareceu hesitar, meu cenho franziu. Eu não gostava de hesitações, sempre havia algo escondido por trás delas. — Felicity? — insisti num tom de reprimenda.
— Meu amigo... O nome dele é Roy. — falou sem muita convicção.
— E o sobrenome? — pressionei, sabendo que havia algo ali.
— Harper?
— Você está me perguntando? — Devolvi ao perceber que ela não parecia ter muita certeza do que estava falando.
— Me desculpe, é Roy Harper. — confirmou, forçando-se a parecer mais crível — Eu estou muito nervosa, e isso vai me ferrar. — Ela fechou os olhos como se repreendesse a si mesma por fazer tudo errado enquanto ao mesmo tempo buscava se acalmar. Mas isso não aconteceu, muito pelo contrário foi nesse momento em que ela se quebrou e grossas lágrimas rolaram por sua face. Eu percebi que era muito para ela lidar.
— Vai ficar tudo bem. — Depois de tanto me segurar eu a puxei para mim, permitindo que ela chorasse em meu peito enquanto minhas mãos deslizavam por suas costas e cabelo, a consolando. Ela me envolveu com seus braços e chorou ainda mais ensopando a blusa que eu vestia. — Você não precisa ter medo, foi legítima defesa, eu vou ajudá-la. — sussurrei em seu ouvido, senti Felicity suspirar alto contra meu peito, seu corpo parecendo relaxar aos poucos, embora eu ainda a sentisse soluçar.
— Ollie? O que está acontecendo? Tem um carro de polícia lá fora e... — Thea entrou batendo a porta, sua frase ficou perdida no meio quando ela notou a garota em meus braços e seus olhos se tornaram mais aguçados. — Felicity.
Felicity se afastou de mim rapidamente ao ouvir minha irmã dizer seu nome. Eu senti algo dentro de mim se agitando, protestando contra sua distância.
— Olá, Thea. — ela disse ficando de pé e secando os olhos com as costas das mãos.
Minha irmã sequer se deu ao trabalho de esperar pelas respostas de suas perguntas, ela apenas correu em direção a amiga, sabendo, sem nada mais ser dito, que Felicity precisava dela e de repente as duas estavam chorando nos braços uma da outra. Eu nunca entendi o tipo de laço de amizade entre Felicity e Thea, elas sempre foram inseparáveis se conheceram na escola ainda crianças e mesmo apesar da diferença da idade a amizade florescera, eu me lembrava das duas trocando confidências, rindo durante a madrugada quando faziam uma festa do pijama. Ou ainda uma consolando a outra nos momentos ruins.
Depois de cinco anos de separação eu imaginei que a amizade de infância teria se desfeito, elas eram duas pessoas diferentes agora. Mas pela força do abraço delas eu percebi que esse não era o tipo de amizade que se acabava com o tempo ou distância.
Alguma coisa me incomodava na cena das duas, a forma como se confortavam, como um abraço de Thea parecia ser tudo o que Felicity precisava para se sentir melhor. Eu queria que ela quisesse meus braços, que se sentisse melhor com meu abraço.
Eu estava tendo pensamentos tolos. Passei as mãos em meus cabelos como se com um gesto pudesse tirá-los de lá, caminhei até a porta, me forçando a me concentrar em outra coisa. Deixaria Felicity e Thea tendo um pequeno momento, as duas tinham sido amigas por tanto tempo, Felicity precisava disso, de alguém que lhe desse apoio emocional nesse momento da vida dela, e esse alguém não poderia ser eu, era melhor que eu fizesse apenas o meu trabalho e lidasse com os policiais lá fora.
Eu expliquei a situação geral e capitão Lance pareceu entender. Para minha sorte ele era um bom policial e mesmo depois de eu ter rompido o noivado com a filha mais velha dele, ele nunca pareceu guardar algum remorso. Aliás, sua filha mais nova, Sara, até mesmo estagiava no meu escritório.
— Felicity? Este é o capitão Lance, ele está aqui...
— Eu sei, ele está aqui para me prender. — Me interrompeu esticando as mãos num ato de coragem, esperando ser algemada.
— Nada disso será necessário. — Lance se adiantou — Sr. Queen já explicou tudo, só precisamos que venha a delegacia para pegarmos o seu depoimento e algumas informações. Veremos os resultados das investigações, e conforme for, a promotoria seguirá com a acusação ou oferecerá um acordo. — explicou — Mas pelo que me foi dito, eu acredito que não há razões para se preocupar. Podemos ir?
— Sim, eu levarei Felicity em meu carro. — disse, mesmo sabendo que não era o de praxe. Mas mesmo que Felicity não fosse ser algemada, eu não gostava da ideia de vê-la dentro do carro de polícia.
— Eu vou também. — Thea se prontificou.
— Não, eu não quero ter você em uma delegacia novamente. — Determinei, eu já tinha tido problemas demais com Thea e delegacias, eu queria manter minha irmã o mais longe possível dessa história.
Percebi que Felicity lançou um olhar direto para ela também.
— Você não precisa ir, Thea.
— Eu preciso sim.
— Tudo vai ficar bem, seu irmão é um excelente advogado. — Felicity tentou acalmar a minha irmã sendo positiva — Ele vai me tirar dessa bagunça.
— Mas... — ela respirou fundo — Eu apenas não quero que nada ruim aconteça a você. — minha irmã estava verdadeiramente triste com toda a situação, eu nunca tinha percebido o quanto o laço de amizade delas era forte. — Você acabou de voltar e...
— Vai dar tudo certo.
— Eu cuidarei dela, eu prometo, Thea. — Recebi um olhar curioso de Felicity ao ouvir minha promessa. Eu disse a mim mesmo que estava dizendo isso apenas para acalmar Thea, mas havia uma parte de mim que sabia que eu estava mentindo.
***
Eu acompanhei Felicity durante todo o procedimento. Fotos, recolhimento de digitais, ela estava nervosa, mas determinada a passar por tudo com a cabeça erguida. Até o momento que capitão Lance a levou para a sala de depoimentos. Nesse momento eu a vi vacilar, eu a vi procurar por meus olhos em busca de algo que eu não sabia precisar o que era.
Eu sorri para ela a incentivando a seguir em frente. Ela olhou para mim mais uma vez, seus olhos com uma emoção diferente, culpados talvez? Mas eu não pude averiguar isso a fundo, ela virou-se para o capitão Lance e começou a contar sua história.
— Eu fui a esta festa esta noite. — começou com a voz trêmula e fazendo longas pausas para respirar como se esforçasse para não a chorar — Eu voltei para a cidade depois de cinco anos, e pensei por que não rever alguns amigos? Um amigo me convidou, e eu apenas fui. O que poderia dar errado? — Ela se questionou, o ressentimento claro em sua voz. — Eu já estava lá há algumas horas, eu me perdi dele. Eu o procurei pela casa, e acabei nesse quarto que tinha um cara...
Havia algo me incomodando e na medida em que o depoimento de Felicity evoluía, ficava mais claro o porquê.
Aquilo era um deja vu.
Ela repetia exatamente as mesmas palavras que ela havia dito para mim, não era simplesmente a mesma história, era o modo como ela a contava, a ordem das palavras que fluíam da sua boca com uma desenvoltura invejável. Até mesmos as pausas para fungar e respirar fundo, ou as lágrimas que parecia cair pontualmente nas horas exatas. Ela até mesmo parou no mesmo ponto da história para pedir um copo de água ao policial que a escutava atônito e parecendo verdadeiramente sensibilizado enquanto fazia suas notas.
Cruzei meus braços e encostei-me a parede observando mais atentamente o que acontecia. Mas Felicity apenas continuou com a história, usando exatamente as mesmas palavras.
Como se tivesse ensaiado todo aquele maldito depoimento.
Como uma atriz interpretando um papel.
Eu olhei para ela, não como o homem que a conhecera ainda jovem e se atrevera a tomar mais do que deveria, ou o ombro amigo que tentei ser quando ela me procurara desesperada em busca de ajuda, mas como o advogado frio e imparcial que eu deveria ser nessas horas.
E tudo ficou claro para mim.
Ela mentia.
Desde. O. Maldito. Começo.
O olhar dela encontrou o meu rapidamente, eu sabia o que ela via minha expressão insatisfeita, abaixou os olhos e balançou a cabeça de modo quase imperceptível. Felicity sabia que havia sido pega.
Mas ela apenas não tornou a me olhar, ergueu os olhos cheios de lágrimas e fitou o policial, voltando a contar a triste história que eu tinha cada vez mais certeza não passava de uma grande e suja mentira. Continuei a observá-la atuando com perfeição, me sentindo cada vez mais irritado por ter sido enganado, cada vez mais estúpido por deixar a imagem que eu tinha de Felicity Smoak me impedisse de ver a pequena mentirosa e manipuladora que ela havia se tornado.
Eu a deixei seguir com seu jogo, alimentando a minha raiva com a espera, ansioso pelo momento em que iria confrontá-la e descobrir qual era a verdadeira merda que estava acontecendo ali!
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