Guilty Pleasure

3 Capítulo 2 - Unsteady


Notas iniciais
Olha quem voltou =D Amei os comentários e respondi cada um! Gostei de ver as teorias de vocês, mas não vou dizer se alguém acertou! Eu espero que gostem do novo capítulo, fiquem atentos que eu sempre deixo escapar uma pistazinha. Ahh e finalmente vamos saber em quem a Felicity atirou! Um obrigada a quem comentou e favoritou a história, é sempre gratificante receber o apoio de vocês! Boa leitura!

Hold, hold on, hold on to me

'Cause I'm a little unsteady

A little unsteady

Mama, come here

Approach, appear

Daddy, I'm alone

'Cause this house don't feel like home

If you love me, don't let go

If you love me, don't let go

Hold, hold on, hold on to me

'Cause I'm a little unsteady

A little unsteady

(Unsteady — x ambassadors)

♥

Felicity Smoak

Oliver Jonas Queen.

Eu ainda tinha gravada com perfeição em minha mente a imagem de Oliver Queen. Eu sabia que era o clichê dos clichês se apaixonar pelo irmão da melhor amiga, mas na época eu não me importava muito. Não era como se o perfeito e indisponível Oliver Queen fosse me ver como algo diferente da melhor amiga da sua irmãzinha. Eu era uma apenas uma jovem, e ele um homem feito. Ele permeou meus sonhos adolescentes durante anos, e era injusto que até hoje, por mais que eu me repreendesse por isso, ele ainda tivesse esse poder.

Ele havia sido o meu primeiro, e mesmo que depois daquela noite nossas vidas tenham tomados rumos completamente diferentes, eu não me arrependia de nada. Tinha sido um erro para ele, mas não para mim.

Ele não tiraria as partes bonitas daquela noite de mim.

Vê-lo ainda causava aquele estranho frisson. Embora depois de tanto tempo, o sentimento viesse acompanhando de uma já conhecida dor a qual eu tentava manter o tempo todo trancafiada, para evitar despertar antigos fantasmas. Mas era impossível não olhar em seu rosto belo e não voltar há cinco anos no tempo, quando todo o meu maldito mundo perfeito começou a desabar. Eu não poderia culpar Oliver por tudo o que aconteceu depois daquela noite, oh sim, logo depois de uma primeira vez perfeita ele esmagara todos os meus sonhos tolos e me acordara para a realidade. Mas eu tinha minha cota de culpa por ser ingênua o suficiente a ponto de não ver a verdade. Naquele momento eu estava apenas em puro deleite por, de alguma forma, Oliver Queen me querer também. Eu via o mundo através das lentes cor de rosa de um óculos de sol, e quando eu finalmente as tirei, a beleza se foi e tudo o que havia ao meu redor era cinza e escuro.

Eu não estava pronta para isso.

E bem, eu arquei com as consequências da minha imprudência. Hoje eu olhava para o passado e via o quão burra eu tinha sido. Eu fui para cama com o irmão mais velho da minha melhor amiga e ele estava de casamento marcado. Ele deveria ter me visto como uma vagabunda, era óbvio que ele veria aquilo como um erro. Mas é claro que eu me atrevi a pensar que Oliver dispensaria a maravilhosa e perfeita Laurel Lance por mim depois daquela noite.

Sonhos tolos de uma menina mais tola ainda.

No fim serviu para alguma coisa.

Experiência.

Aprendizado.

A porcaria de um coração destroçado.

E aqui estava eu, de volta a cidade que há cinco anos eu deixei para trás. Deixei juntamente com meus sonhos tolos e os pedaços do meu coração.

Mas os malditos olhos de Oliver ainda me prendiam. Seu corpo rígido e musculoso, escondidos por baixo do tecido dos seus ternos, ainda me atraia e excitava como se eu ainda fosse uma adolescente cheia de hormônios. Seu rosto másculo ainda era tão belo quanto eu me lembrava, e embora fosse muito mais implacável agora, eu ainda percebia os contornos suaves de um sorriso que um dia roubara o meu coração.

Eu não tinha voltado para Starling, na verdade, toda a minha volta ainda era temporária. Não agora depois da confusão que eu havia me metido eu não duvidava que eu passasse um bom tempo aqui.

Suspirei tentando me livrar daqueles pensamentos e me concentrei em responder de forma automática a pergunta do simpático policial a minha frente. Eu já havia decorado as respostas, mas tentei fazer isso do modo mais natural possível. Eu não queria que mais alguém me pegasse mentindo.

Porque Oliver percebera.

Eu não sei aonde eu havia errado, mas ele percebera. E aquilo era uma grande merda. Por que ele tinha que ser tão meticuloso e atento aos mínimos detalhes? Eu notei a mudança na postura dele no instante em que ele descobriu que eu estava mentindo. Ele apertou a boca numa linha fina em óbvia reprovação e seus olhos crisparam frios na minha direção. Ele tinha estado confuso e surpreso, e até mesmo desconfiado ao me ver batendo na porta da sua casa pedindo por ajuda, mas depois ele não tinha sido nada menos do que compreensivo comigo enquanto eu contava a triste história que havia ensaiado.

Deve ter sido um tapa na cara perceber que eu não era a pobre moça ingênua que eu havia lhe vendido.

Eu sentia a reprovação do olhar de Oliver em mim, mesmo que eu me esforçasse para não encarar seus malditos olhos azuis, eu os sentia, queimando em mim querendo me obrigar a contar a verdade. Eu sabia o que ele queria, e eu também sabia que eu não daria isso a ele sob nenhuma circunstância. Há segredos que causam menos estragos quando são guardados a sete chaves.

E esse era um deles.

Quero dizer, a possibilidade de eu ir parar na cadeia era um estrago fodido, mas ainda assim, eu não tinha outra opção, então era melhor aguentar a hostilidade de Oliver e cruzar meus dedos para que a minha história colasse. Eu sabia que ele era um dos melhores advogados criminais do Estado. Sua fama o precedia, e se havia alguém que era capaz de me tirar da confusão em que me meti, era ele. E era por isso que eu havia aberto mão de um pouco do meu orgulho e batido a sua porta.

Quando o interrogatório acabou, eu assinei meu depoimento, ainda sob o olhar atento de Oliver. Escutei o ranger dos dentes dele, as batidas impacientes e constantes de seus sapatos caros no piso da sala, eram tudo o que se podia ouvir preenchendo o silêncio quase estéril. Enquanto isso, eu deliberadamente demorava o máximo possível ao desenhar minha assinatura evitando o momento em que teria que confrontá-lo.

Infelizmente eu não poderia fugir do confronto para sempre. O policial pegou os documentos que eu lhe entreguei e pediu que eu aguardasse do lado de fora, no corredor porque ainda haveria uma perícia física. Eu nem precisei me mover, em questão de segundos eu senti a mão grande de Oliver me agarrando pela curva do braço e me liderando para fora. Caminhamos em um silêncio mortal pelo corredor estreito demais para que eu ficasse a uma distância segura dele. Dava para sentir a tensão que exalava do corpo dele, a rigidez da mandíbula que mantinha sua boca fechada evitando que Oliver disparasse todas as recriminações que passavam por sua mente. Quando chegamos a um canto mais vazio do extenso corredor, ele me soltou de uma única vez, como se tocar em mim — uma mentirosa — contaminasse todo o mundo certinho dele.

— Mas que porra foi essa? — Escutei a voz dita num tom baixo, porém carregada de hostilidade.

— Não sei do que está falando! — Dei de ombros controlando a vontade de me encolher contra a parede, fazendo Oliver bufar impaciente, os dedos longos se enfiando em seus cabelos e os puxando, parecendo frustrado. Eu nunca o tinha visto assim, tão irritado e tão fora do seu controle habitual.

— Oh, não se faça de boba que não combina com você! Você está mentindo para todo mundo! — Ele acusou mais alto do que gostaria, e olhou para ambos os lados se certificando de que sua pequena explosão não havia chamado atenção de ninguém. — Está mentindo para mim. — seu tom foi mais baixo dessa vez e até mesmo magoado, mas nem por isso menos irritado e havia algo mais ali. Era decepção o que eu ouvia na voz de Oliver?

— Não estou! — menti novamente sentindo meu rosto todo se aquecer com a mentira.

— Oh, está sim, eu vejo isso nos seus olhos. O jeito como você interpretou a cena de pobre vítima que só estava tentando se defender. Eu vejo isso agora, você está nervosa, talvez com medo de que eu faça toda a farsa vir à tona? Mas está tentando esconder o nervosismo e é por isso que suas unhas estão cravadas profundamente na palma da sua mão, é por isso que você evita olhar nos meus olhos enquanto eu te acuso, e suas bochechas estão vermelhas porque sabe que foi pega e está nervosa, possivelmente tentando pensar rápido em uma nova mentira. O que já te adianto é uma perda de tempo. — Oliver deu um passo à frente, me compelindo a me afastar dele batendo o meu corpo na parede fria, sem ter escapatória a não ser sentir toda a intimidação que vinha dele — Você pode ter me enganado quando tinha toda uma historinha planejada, mas consegue mentir agora? Sob pressão? Não é apenas mais fácil apenas soltar tudo o que está segurando? Você não quer carregar o peso dessa mentira sozinha.

Me senti ceder um pouco.

Eu odiava o quanto Oliver era bom nesse jogo e tudo o que eu tinha a meu favor eram os três anos de teatro na escola. Mas Oliver parecia ter um talento nato para fazer as pessoas se dobrarem a sua vontade. Seu tom havia mudado para baixo e macio, chegando até mesmo a ser um pouco sedutor. Era como se sua voz me atingisse, não apenas me ordenando que fizesse algo, mas me convencendo de que era o melhor a ser feito.

Oliver deu mais um passo à frente e meu corpo estremeceu em resposta. Eu não soube dizer se era por causa da proximidade, ou porque eu estava tensa demais ao ter seus olhos esquadrinhando cada parte dos meus.

— Oliver... — eu quase me deixei convencer. Porque mentir era exaustivo, porque eu estava num maldito beco sem saída, e seria bom ter mais alguém em quem se apoiar. Mas se eu contasse a ele, Oliver iria querer fazer a coisa certa, e a coisa certa não seria bom para nenhum de nós. — Eu não posso agora, talvez quando tudo isso terminar...

Seus olhos ficaram mais escuros e ele se afastou, parecendo incrédulo ao escutar minha recusa e então voltou a ser o Oliver duro, hostil e cheio de julgamentos de antes.

— Eu não sei que merda aconteceu nessa festa. Eu não faço ideia do que te levou a atirar no garoto, talvez ele tenha merecido, talvez tenha sido um acidente, mas se você quiser ter qualquer chance de sair dessa sujeira, sem ter que passar o resto da vida usando um macacão laranja atrás das grades, é melhor começar a falar. — Mordi o lábio impedindo que qualquer som saísse deles, mostrando minha determinação e isso apenas o irritou ainda mais — Mas que inferno, eu exijo que me conte a verdade, Felicity! — Maldito tom imperativo, mesmo se eu quisesse contar a verdade, eu não contaria. Simplesmente porque Oliver Queen precisava se colocar em seu devido lugar, as coisas não eram assim tão simples.

Nem sempre se pode ter o que quer.

Essa é uma lição antiga.

— Oh, você exige? — o enfrentei, me negando a deixar que seu tom me acuasse mais uma vez. Ele pareceu surpreso ao me ver mover em sua direção — Então ao que parece eu não tenho alternativa a não ser dá-la a você. — Fui irônica e Oliver não era tolo para não perceber.

— Não teste a minha paciência, Felicity. — eu certamente estava testado, para ser honesta, eu estava determinada a pressioná-lo até que ele finalmente chegasse no seu limite e a perdesse. Porque eu odiava essa versão controlada dele.

— Só porque você quer algo, não significa que pode simplesmente exigir para si, sem se importar com quantas pessoas poderão sair feridas com isso. — eu disse e a mágoa marcou cada uma das minhas palavras. Só então eu percebi que elas se aplicavam muito mais a outro momento no passado do que no de agora. Mas foda-se, havia muito guardado dentro de mim e nem sempre era fácil conseguir controlar, ainda mais tendo Oliver a minha frente, fazendo minhas emoções se confundirem e trazendo antigos fantasmas à tona.

— Eu não tenho a intenção de ferir ninguém, e não estou exigindo nada, eu estou pedindo que você me dê. — Ele se colocou subitamente na defensiva, havia algo de triste e envergonhado em seus olhos duros e me perguntei se Oliver havia percebido que eu não falava unicamente de agora.

Eu estava perdendo o foco.

Por que ele sempre fazia isso comigo?

Pior, por que eu permitia que ele ainda fizesse isso comigo?

— Nesse caso, a resposta para o seu pedido é um não. — Meu tom foi cortante, Oliver assentiu com a cabeça, e tentou segurar a reação, mas eu percebi seus lábios torcendo para baixo numa careta insatisfeita.

— Então temos um impasse porque eu não trabalho com mentirosos. — Declarou com seu jeito intransigente, seus braços se cruzaram sobre seu peito, os lábios comprimidos em uma linha ligeiramente curvada para baixo.

Essa era a postura dele quando desaprovava algo ou alguém, eu me lembrava de Thea ter recebido muitas dessas quando era mais jovem e aprontava na escola, e principalmente quando trazia um namorado para casa.

Eu não era a irmã dele para que ele jogasse sua desaprovação em mim.

Aliás, se havia algo que eu era para Oliver Queen era um grande e gigantesco nada. Logo, ele não tinha o direito de agir como se se importasse com a merda das escolhas que eu faço.

— Então não trabalhe. Eu posso ter um defensor público ou algo assim. — Dei de ombros como se aquilo não fosse nada demais, mas ciente de que sem Oliver eu estaria completamente fodida. Mas eu tinha o mínimo de orgulho em mim, ele havia me tido nua embaixo de si e me largou logo em seguida para correr para os braços da noivinha perfeita, eu não iria abaixar a cabeça e aceitar a merda do julgamento hipócrita dele!

Seus olhos fitaram os meus, testando a certeza da minha decisão. A mão dele segurou o meu braço num aperto delicado e que não combinava com a dureza de seu rosto. Sua mão me impedia de me afastar e novamente me vi presa por ele, não presa por seu aperto, mas sim por seus olhos azuis que antes sempre me encantaram e que agora eram tão frios quanto o iceberg que afundou o Titanic. Presa naquela tensão cheia de coisas não ditas e mágoas do passado, e que agora se infiltravam também no presente.

Estar próxima a Oliver era confuso, e eu tinha sido uma tola por cogitar que conseguiria lidar com isso tendo ele como meu advogado.

— Felicity... Seja razoável. — me derreti ao escutar meu nome sair dos lábios dele, havia algo cru quando ele disse meu nome, como se não houvesse estratégias ou algum motivo escuso para isso. Oliver apenas dizia meu nome, sem expectativas, sem perguntas.

Meu nome nunca soou tão malditamente perfeito em outra boca ou outra voz.

— Alguma coisa está acontecendo aqui? — Pisquei, me sentindo aliviada por ter algo chamando a minha atenção, e me fazendo colocar minha mente de volta num lugar que fosse bem longe da boca de Oliver. Olhei por cima dos ombros dele seguindo a voz feminina e encontrei uma Thea que parecia nervosa, mas cujos olhos inteligentes estavam atentos em mim e em Oliver. Talvez sentindo toda aquela estranha tensão?

A mão soltou meu braço de repente, e me senti aliviada ao ver seus olhos inquisidores indo para outra pessoa que não fosse eu.

Finalmente eu pude respirar.

— Eu te disse que não a queria em uma delegacia novamente. — Oliver a recriminou — O que você está fazendo aqui? E como você chegou aqui, Thea? — a última pergunta foi dita num tom de irmão mais velho superprotetor.

— Relaxe, eu chamei um táxi. — notei que Oliver pareceu aliviado com a resposta — Eu trouxe algumas roupas para Felicity, me lembrei de que as dela estavam sujas de sangue, e que era provável que os policiais as quisessem como evidência.

— Obrigada. — Agradeci, pegando das mãos dela sacola que ela me indicava.

— Vocês dois ainda vão demorar muito? — perguntou olhando de Oliver para mim.

— Não. Felicity e eu já acabamos. — Oliver falou frio despendendo para mim um mero olhar rápido. Ele dissera com todas as letras “já acabamos” naquele momento eu soube que precisaria encontrar outro advogado.

***

Oliver manteve-se distante, eu diria que era muito mais do que uma distância profissional. Era pessoal. Ele não me dirigiu a palavra nenhuma vez, aliás, ele sequer me olhou novamente, apenas se manteve frio daquele seu jeito taciturno que me irritava cada vez mais.

Como Thea previra, uma policial feminina me acompanhou até uma sala para que eu me livrasse das roupas sujas de sangue. Eu fiquei nervosa porque houve toda uma inspeção em mim, verificaram por baixo das minhas unhas, pegaram amostras do meu cabelo sujo com sangue já seco, minhas digitais, DNA e verificaram se havia algum de hematoma de qualquer tipo.

Era tudo muito clínico. Ninguém falava nada, e o silêncio me deixava ainda mais nervosa. E se alguma daquelas evidências me contradissessem? Eu já presumia que estava sem advogado, e se toda a minha historinha fosse por água abaixo era pouco provável que eu conseguisse um.

Terminei de vestir as roupas de Thea, assinei rapidamente mais um documento e escutei um discurso de informações sobre não deixar a cidade durante o curso das investigações, e mais um monte de outras coisas nas quais minha mente não conseguira se concentrar. Fiquei aliviada quando o policial, um tal de detetive Malone, parou de falar e pude finalmente deixar aquela sala.

— Está tudo bem? — Thea me questionou assim que fechei a porta da sala. Busquei pelo corredor a figura de um Oliver mal-humorado, encostado em alguma parede que me lançaria um olhar de reprovação, mas depois me ignoraria. Isso não aconteceu, porque Oliver simplesmente não estava lá.

Tentei esconder a decepção e me concentrei em quem estava ali por mim.

— Thea, você não precisa se preocupar comigo. — Ela me lançou aquele olhar que me dizia que ela iria apenas me ignorar. — Aparentemente acabou por hoje, acho que já posso ir embora, mas seria bom ter certeza. — franzi o cenho tentando me lembrar das palavras exatas do policial que sorria demais para mim.

— Você acha que pode ir?

— Desculpe, eu não estava muito atenta.

— Eu que peço desculpas. Você está no meio de toda essa confusão, deve estar assustada. Há algo que eu possa fazer? Eu faço qualquer coisa. — Seus olhos angustiados me imploravam por algo, Thea apertava as próprias mãos demonstrando o quanto ela estava nervosa. — Quer um café? — Eu não queria nada, mas Thea não me deixaria em paz se eu não lhe desse uma ocupação.

— Tudo bem, um café seria bom. — Ela assentiu, se afastando. Eu fiz uma nota mental para encontrar uma forma de conversar com Thea depois, eu estava preocupada com a reação dela a toda essa coisa, tínhamos muito a conversar. — Thea? Onde está o seu irmão? — mordi o lábio assim que terminei minha pergunta, eu não queria voltar atrás e implorar para que ele não desistisse de mim, mas eu lamentava ter dito que podia lidar com um defensor público que sequer me faria uma defesa razoável.

— Eu acho que ele foi para lá. — Indicou o lado direito da interseção no final do corredor, e quando eu dei por mim eu já estava caminhando naquela direção.

Eu precisava falar com Oliver, eu sabia que não poderia contar a verdade, ele me mataria se soubesse o que realmente aconteceu nessa noite. Mas eu precisava encontrar um modo de convencê-lo a me defender, sem que a minha mentira, ou o nosso passado atrapalhasse.

Eu estava virando no corredor em que Thea havia dito que Oliver seguira, mas parei e dei um passo para trás me escondendo ao perceber que ele não estava sozinho.

Dinah Laurel Lance.

Contive a vontade de vomitar ao vê-la ali, dando um beijo em uma das bochechas de Oliver. Me questionei se eles eram um daqueles casais que terminavam, mas adoravam reviver os bons momentos. O mero pensamento me deixou ainda mais enjoada, mas por sorte Laurel não permaneceu por muito tempo, deixando Oliver apenas com o Capitão Lance, que só nesse momento eu me lembrei de que era o pai dela.

— Alguma novidade? — Oliver perguntara num tom profissional ao Capitão.

Eu não sei por que eu me escondi, eu não devia nada a Oliver, e além disso, eu possivelmente era a razão daquela conversa, mas ainda assim o fiz. Talvez eu apenas não quisesse sentir o perfume de Laurel ainda no ar.

— Nós temos a identificação do sujeito que ela atirou. A boa notícia é que ela chamou a ambulância a tempo, o cara ainda está vivo, em condição crítica e sendo operado no Hospital de Starling, mas ainda assim vivo. — Deixei um suspiro aliviado deixar meus lábios enquanto o aperto no meu coração suavizava.

Talvez eu me livrasse de uma acusação de assassinato.

— E porque será que eu sinto que há uma notícia ruim também. — O tom de Oliver veio temeroso e aborrecido, me deixando mais atenta e alerta.

— O cara em que ela atirou é Joe Wilson, o...

— Filho de Slade Wilson. — Oliver conclui com uma risada amarga.

Eu não conseguia o rosto dele, mas pela forma que o nome saiu de sua boca eu sabia que aquilo não poderia ser algo bom. Eu varri minha mente tentando me recordar do nome, mas ele me era completamente desconhecido.

— É, ele mesmo. — Lance concordou — Dado aos seus desentendimentos passados com o senhor Wilson, eu acho que essa é uma briga que pode ficar bem feia. — Aquilo me surpreendeu, será que Oliver e o tal Wilson eram alguma espécie de inimigos declarados? — Joe é o único filho dele e nós sabemos bem o quanto esse homem é capaz de fazer para proteger sua imagem e o filho. Eu estou tentando manter as informações em sigilo, mas não vai demorar muito até ele irromper na delegacia exigindo respostas. — Oliver passou uma das mãos em seus cabelos, percebi que isso era algo que ele sempre fazia quando estava nervoso, um pequeno tique. — Deixe a sua cliente avisada, ela precisa saber no que se meteu.

Colei meu corpo contra a parede em que eu estava tentando compreender o que eu havia escutado. Por que Lance havia dito para Oliver me deixar avisada? Como se houvesse algo mais naquela história que eu desconhecia e talvez devesse temer.

— Estava ouvindo a conversa dos outros? — Me assustei ao ver Oliver parado a minha frente, mãos dentro do bolso, cabelos desalinhados de tanto que seus dedos se perderam passeando por eles, e olhos azuis que me fitavam com um estranho interesse.

— Se eu sou o assunto não vejo problemas em escutar — Me recuperei a tempo de lhe dar uma resposta atravessada, que o fez respirar fundo buscando pela famosa paciência dele que eu estava sempre deixando no limite. — A propósito, você tem uma sujeirinha aqui — indiquei a marca de batom na bochecha de Oliver, e fiquei satisfeita ao vê-lo limpá-la com as costas da mão sem a menor cerimônia.

— Eu não me recordava de você ser tão impertinente. — Mordisquei o interior da bochecha me impedindo de dar um sorriso. Essa era a primeira vez que Oliver falava de algo sobre mim relacionado ao passado.

— Não, eu era bem tola naquela época. — Forcei-me a lembrar deixando Oliver deslocado, eu percebi tardiamente que tinha dado a ele uma brecha para começar aquele assunto. Eu não sabia o que ele poderia dizer, mas eu sabia que era melhor não desenterrar aquilo.

— Sobre isso, Felicity, eu espero que...

— Eu confesso que estou surpresa, eu esperava voltar aqui depois de anos e ver você casado com sua maravilhosa Laurel. Possivelmente um par de filhos perfeitos, e uma longa e entediante vida. — eu o interrompi antes que ele dissesse algo sobre nós dois. — Eu esperava que você estivesse gordo e careca também. — A última frase quase o fez sorrir. — O que aconteceu com o noivado perfeito? Ela não era perfeita o suficiente? Ou essa marca de batom no seu rosto era apenas para mostrar que vocês são amigos de foda? — Eu sabia que estava cruzando um limite, e sarcasmo também não era a melhor ferramenta para lidar com Oliver, mas desde que eu soube que os dois haviam rompido, sempre houve uma parte estúpida de mim que cogitava se eu teria sido a razão.

— Apenas não deu certo. — Ele deu de ombros sem expressar nenhuma emoção.

— Como amigos de foda vocês funcionam melhor? — Ele me olhou impaciente.

— Vamos focar no que é importante. Vai me contar a verdade ou não? — É claro que o filho da mãe fugiu da pergunta.

— Ainda isso? — devolvi de um jeito frívolo, se ele poderia evitar minhas perguntas, eu também iria evitar as dele.

— Não percebe o que está fazendo? — começou a ficar novamente irritado — Você está cavando a própria cova, e se continuar assim vai chegar em um ponto em que não poderei mais ser capaz de ajudá-la. — Seu tom não era mais de reprimenda, era de pesar. — Esse processo vai ser algo feio e desgastante, a outra parte vai tratá-la como uma criminosa, é bem provável que sua vida inteira seja esmiuçada diante de você para todo mundo ver. E mesmo que eu dê o meu melhor, há grandes chances de essa mentira atrás da qual você está se escondendo exploda, e se isso acontecer eu não sei se serei capaz de reverter o estrago.

— Então você ainda vai ser meu advogado?

— Eu tenho outra escolha? — Franzi o cenho ao escutar sua resposta.

— Sim, eu disse que posso ter um defensor público. — Oh, merda por que eu tinha que ser tão orgulhosa?

— Deixe-me colocar de outra maneira, Felicity. — Ele deu um passo à frente, seu corpo se impondo, sua presença me dominando, seus olhos se prendendo nos meus de tal jeito que deixava evidente o poder que Oliver emanava — Você não sobreviveria dois minutos num tribunal sem mim.

Arrogante? Sim. Mas o desgraçado tinha razão.

— Isso é por causa de Slade Wilson? — O nome o abalou por um momento.

— O que sabe sobre ele? — perguntou ríspido, seus olhos me analisando como se tentassem prever se eu iria soltar mais uma mentira.

— Apenas o que ouvi você e Lance dizendo. Eu... Humm... Eu atirei no filho dele, certo? — Oliver assentiu — E esse tal de Slade é alguém perigoso? Um bandido? — Questionei e Oliver se calou por um tempo, seus olhos evitando os meus de propósito.

— Digamos que ele não vai ser compreensivo com você, não importa a historinha triste que você conte, ainda que você consiga convencer a todos de que é verdade. Slade vai ir atrás de você. — Meu corpo estremeceu diante de suas palavras brutais. — Ele é um dos juízes mais conhecidos de Starling City, você feriu o filho dele e ele vai querer ver alguém pagar por isso.

— Puta merda! — exclamei o palavrão percebendo o quão ferrada eu estava, eu ia perguntar mais, porém nesse momento Thea chegou trazendo o meu café, e Oliver deu o assunto por encerrado e simplesmente ordenou que fôssemos para casa.

***

Amanhecia quando deixamos a delegacia, mas nenhum de nós havia dormido ainda. Thea insistiu que eu ficasse na mansão com ela e descansasse, de acordo com ela não havia razão para eu ficar sozinha num hotel. Eu atendi ao seu pedido, mesmo que a mansão Queen me trouxesse muitas recordações as quais eu não queria recordar. Mas quando algo tão traumatizante quanto atirar em alguém acontece não é bom ficar sozinha. E nós sempre estivemos juntas nos melhores e piores momentos, principalmente nos momentos em que uma de nós estava no fundo do poço. Nós éramos como irmãs, uma apoiando a outra, uma sofrendo pela outra, uma fazendo de tudo pela outra. Quando eu parti de Starling, Thea foi a única pessoa que eu lamentei deixar, até porque ela foi a única pessoa que nunca me decepcionou.

Thea adormeceu depois de alguns minutos de conversa, ela tentou conversar sobre o que acontecera essa noite, mas eu lhe disse que seria melhor que nunca mais tocássemos nesse assunto. Ela pareceu aceitar melhor depois que eu lhe garanti que Oliver iria resolver tudo. Sua última pergunta antes de adormecer, foi se estava tudo bem entre mim e Oliver.

Como se houvesse um modo de tudo estar simplesmente bem depois de como as coisas acabaram.

Para minha sorte eu não tive que responder, já que Thea caiu no sono. A mão dela segurava a minha de um jeito forte, temendo que eu fosse partir a qualquer momento. Soltei nossos dedos e ergui-me silenciosamente da cama, puxando um cobertor sobre ela. Eu não conseguiria dormir agora, meus pensamentos estavam desordenados demais, muita coisa acontecera, muitas lembranças retornaram e eu ainda não tomara um tempo para mim.

E para fazer isso eu precisava me afastar de tudo o que gritava Queen.

Fechei a porta do quarto de Thea com deliberada lentidão, e fitei o corredor a minha frente. Fui atingida por tantas lembranças de uma única noite há cinco anos. Da noite do aniversário de Thea em que eu deixara o quarto dela e esbarrara em Oliver nesse mesmo corredor, foram poucas palavras e toda aquela tensão que vinha há tempos se construindo entre nós simplesmente explodiu. Eu ainda me lembrava com perfeição da sensação do toque dele queimando sob a minha pele, da forma como meu coração disparou ao sentir seus beijos no meu pescoço, do gosto mentolado da boca dele que me fizera derreter, e como me sentia viva apenas em estar em seus braços.

Havia algo em Oliver que me puxava até ele, uma força poderosa que era difícil de lutar contra. Como se fôssemos os lados opostos de um imã. Completamente diferentes, mas que se atraiam.

Eu me recordava bem, o primeiro movimento tinha sido meu. Eu assinei minha sentença naquela noite no momento em que me coloquei nas pontas dos meus pés e me inclinei para Oliver, deixando nossos lábios se tocarem. Deveria ter sido uma carícia inocente, um beijo roubado apenas para satisfazer as minhas fantasias tolas. Mas no instante em que meus lábios tocaram os dele, algo mudou dentro de nós e a inocência do beijo foi para o inferno.

— O que está fazendo aqui? — Seu cheiro me despertou daquelas lembranças antes que a voz o fizesse, fitei aquele que há poucos segundos protagonizava meus sonhos acordados.

Ele ainda era uma tentação.

Oliver Queen, com seus cabelos úmidos de quem acabou de sair do banho, cheirando a sabonete e loção pós-barba. Isso era um teste à minha sanidade?

— Estava pensando em ir embora sem contar a ninguém? — Ele continuou, ao perceber que eu não respondi a primeira pergunta. Em minha defesa eu já não me lembrava de qual era.

— Eu não iria fugir nem nada disso. — refutei — Só iria voltar para o meu hotel, ficar sozinha um pouco. — Seus olhos caíram nos meus ceticamente e me analisaram como se fossem um detector de mentiras — O quê? Vai ser assim agora? Vai analisar tudo o que eu digo achando que cada palavra que sai de mim é uma mentira?

— Não pode me culpar por isso. — Deu de ombros sem se importar.

Desgraçado.

Mas eu poderia culpá-lo por um milhão de outras coisas.

— Você é um hipócrita. Gosta de ditar o que é certo e o que é errado, como se houvesse uma simples e clara linha entre eles. Mas quer saber, Oliver, essa linha só existe dentro dessa sua cabeça dura! — acusei sentindo o sangue correr mais rápido dentro de mim, havia tantas coisas que eu queria ter-lhe dito depois daquela noite e nunca o fiz. Tudo ainda estava ainda dentro de mim, trancado, esperando a primeira explosão para ser jogado em cima dele. — Você mesmo não se importa muito com o certo ou o errado, ou apenas finge que não tem alguns segredinhos sujos? Simples, não é? Varrer as indiscrições para baixo do tapete, fingir que elas nunca aconteceram, enquanto posa de dono da verdade, defensor da moralidade... — Comecei a desabafar, eu estava com as lembranças muito frescas na minha mente, lembranças de nós, de como eu me senti enquanto fazíamos sexo e depois quando ele simplesmente disse que eu havia sido um erro.

— Isso não é sobre nós. — Oliver falou na defensiva, parecendo assustado e surpreso com meu súbito rompante.

— Não, porque não há um nós. Nunca houve! — Eu estava perto de perder o controle, e tudo por culpa de Oliver. Eu odiava que minhas emoções sempre estivessem em xeque quando eu estava próxima a ele. Mas era tão difícil segurar quando tudo dentro de mim se agitava, eu sabia que Oliver era aquele que me despertava as melhores e piores lembranças, ele representava os dois extremos de mim. Eu o amara com a inocência de um primeiro amor, e ele me mostrara o quanto esse sentimento tão belo é capaz de destruir.

— Felicity, não deveríamos discutir isso aqui. — disse num tom severo de quem dá o assunto por encerrado. — Além disso, eu pensei que nossa relação fosse ser profissional. Eu sou um advogado e você a minha cliente, o nosso passado não deve ficar entre nós, a única coisa que deveríamos discutir é o fato de você não estar sendo honesta comigo.

Oh, mas é claro que ele iria simplesmente dar um jeito de mudar de assunto!

— Eu estou sendo honesta, eu admiti que menti! Mas em nenhum momento você me perguntou o porquê. — Oliver piscou, sua boca se abriu ligeiramente enquanto ele se dava conta daquilo.

— Por que está mentindo? — mordi o lábio inferior, não sei porque eu trouxe a questão, eu também não poderia dar essa resposta a ele.

— Porque a minha mentira é um jeito de ver a verdade. — eu senti que a justificativa era ruim no momento que deixou meus lábios. Ele inclinou a cabeça ligeiramente de lado torcendo o lábio naquela carranca insatisfeita.

— Vai me dizer que a verdade é algo subjetivo? Porque tudo o que vejo na minha frente são fatos! Você mentiu para mim, você quer levar uma mentira para o tribunal e espera que eu seja complacente com isso. Isso vai arruinar a você e a minha carreira também.

— Isso é sobre sua carreira perfeita? Está com medo de que eu a manche?

— Não. — negou convicto — Eu estou tentando ser sensato e te mostrar que a sua decisão tem consequências. — Mas contar a verdade também tinha uma consequência e para ser honesta se Oliver pudesse escolher havia uma chance de ele preferir que eu mentisse também.

— Vai dar tudo certo. — disse, tentando convencer mais a mim mesma do que a ele — Só você percebeu que eu menti.

— Você se esquece de algo, Felicity. Se o cara que você atirou realmente sobreviver — Oliver começou num tom sério, dando dois passos largos na minha direção e de repente ele estava dominando tudo. — A versão dos fatos dele pode ser completamente diferente da sua, e ele vai ter o apoio do pai. Ainda vai querer arriscar e insistir em não me contar a verdade?

Aquilo era uma merda.

Mas eu não via outra saída.

— Sim. — A palavra saiu dos meus lábios num sussurro, e Oliver fechou os olhos absorvendo o seu significado. Para minha surpresa ele não se virou para mim exigindo a verdade ou iniciou um novo sermão sobre as consequências da minha mentira. Quando ele abriu os olhos novamente eles pareciam chateados, porém determinados.

— Eu espero realmente que saiba o que está fazendo. — seu tom veio calmo e ligeiramente triste. Eu também espero saber o que estou fazendo. — Certo. — Oliver pigarreou e começou a falar comigo numa voz mais profissional — Eu a quero amanhã, no meu escritório às 8:00h. Sem atrasos, sem desculpas, sem novas mentiras. — O aviso não foi nada sutil — Ainda está em tempo de mudar as versões dos fatos, pense nisso com cuidado. — ele acrescentou — Mas se você vai realmente me fazer embarcar nessa mentira, nós vamos lidar com isso do meu jeito. Hoje você vai ter o dia para você, descanse e não saia do seu hotel, se precisar de algo, qualquer coisa, me ligue — me entregou um cartão preto com todos os seus contatos — O principal agora é manter o perfil baixo e não chamar atenção. Além disso, você vai me avisar de cada movimento seu, não vai fazer comentários de nenhum tipo sobre o que aconteceu com ninguém, e nem conversar sobre isso em algum lugar que não seja o meu escritório e comigo. Eu não a quero respirando sem a minha autorização. Estamos entendidos? — confirmei com um movimento de cabeça. Deus, eu não sabia o quão maníaco por controle Oliver era até hoje. — O que está fazendo? — Ele me perguntou ao me ver tapar a boca e ficar anormalmente parada.

— Esperando a autorização para respirar. — falei com o último sopro de fôlego que eu tinha e algo inesperado aconteceu.

Oliver me encarou e então seu semblante sério se quebrou numa risada.

Não aquelas risadas simples ou nervosas, ou meramente educadas, mas uma risada completa, com direito a jogar a cabeça para trás, fechar os olhos e exibir todos os seus dentes brancos e perfeitos. O som da sua risada provocando uma sensação gostosa dentro de mim.

Minha vida estava uma merda, eu estava mentindo sobre um crime e poderia ir para a cadeia, mas tudo o que eu conseguia pensar era que eu fizera o controlado Oliver Queen rir.

Notas finais
E aí? Estão gostando? Tem novas teorias? Falem comigo, porque eu amo receber comentários e saber o que vocês estão pensando. Beijos e até o próximo!