Guilty Pleasure
16 Capítulo 14 - I found love
Notas iniciais
And I'll use you as a warning sign
That if you talk enough sense, then you'll lose your mind
And I'll use you as a focal point
So I don't lose sight of what I want
And I've moved further than I thought I could
But I missed you more than I thought I would
And I'll use you as a warning sign
That if you talk enough sense, then you'll lose your mind
Oh, and I found love where it wasn't supposed to be
Right in front of me, talk some sense to me
And I found love where it wasn't supposed to be
Right in front of me, talk some sense to me
(I found – Amber Run)
♥
Oliver Queen
Entrei no hospital sem assimilar de fato qual caminho seguia. Thea falava alguma coisa comigo, mas eu não era capaz de ouvi-la. Meus pensamentos nublados pelo medo, meu coração batendo tão rápido e dolorido por não saber onde ela estava, não ter respostas sobre como ela estava. Meus passos pesados ecoavam pelo piso liso e claro, desesperados para apenas chegar até ela, mesmo que eu não soubesse para aonde ir, mesmo com meus olhos varrendo cada canto do lobby daquele hospital, esperando encontrar seu belo rosto no próximo corretor, sorrindo para mim. Escutar sua voz dizendo-me que ela estava bem, e a ver revirando os olhos para a minha reação exagerada. Eu até mesmo queria tê-la brigando comigo, porque se ela tinha fôlego para brigar, era porque estava bem.
Por favor, que ela brigue comigo.
Pedi em uma oração silenciosa.
— Thea? Tem certeza de que eles vieram para esse hospital? O que mais Roy disse? Felicity está bem? Consciente? – eu já tinha feito essas mesmas perguntas à minha irmã no caminho para o hospital, eu até mesmo arrancara o telefone de suas mãos e as fizera ao próprio Roy, quando ele ligara para nos avisar do acidente, mas meu cérebro parecia incapaz de se lembrar disso agora.
Tudo o que eu tinha na mente era a imagem que formei. Felicity caindo do Gambit direto no mar gelado da baía de Starling, ela sufocando enquanto buscava por ar, se debatendo enquanto lutava para alcançar a superfície, até seu corpo cansado afundar e desaparecer naquelas águas escuras.
Eu deveria ter ido até ela.
Ter chegado antes.
Ela dissera a Laurel que precisava respirar. Eu sabia o que significava, para onde tinha ido. Nossa pequena versão da Suíça.
— Se ao menos eu tivesse chegado lá antes... – verbalizei o último pensamento, culpa me corroendo por dentro.
— Roy estava lá, ele a ouviu gritar e chegou a tempo. — endureci com suas palavras. E se ele não estivesse? Foi apenas sorte. Nada mais do que isso. Sorte que ele tenha ido com ela, sorte que ele tenha a escutado gritar, sorte que ele tenha chegado a tempo. Eu não gostava de contar com algo banal quanto sorte, quando tinha algo tão importante em jogo. — É tudo o que importa agora. – Ela me disse. Sua mão apertando meu ombro tentando me confortar, um pequeno sorriso nos lábios que não mostrava os dentes, mas que dizia-me para me acalmar — Ollie, precisamos procurar por informações com alguém, saber onde...
Mas a voz de Thea desapareceu. Suas palavras se perderam em meio aos outros sons. Sirenes ecoavam no fundo do meu ouvido, uma agitação tomou conta daquele ambiente estéreo, com nomes sendo chamados por alto falantes, vozes apressadas e médicos correndo na direção da entrada lateral. Eu não precisava de informações, eu fui naquela direção também, pois eu vi uma ambulância parada a porta, uma maca sendo descida dela.
Eu ainda estava longe, mas eu vi os cabelos loiros.
Os cabelos loiros dela.
Eu senti a pontada no meu coração.
E sabia que era ela.
Então eu corri.
Corri para ela.
— Felicity! – gritei seu nome a medida que chegava mais perto. A respiração ficou mais difícil e pesada quando a vi, a pressão em meu peito aumentando exponencialmente. Meus olhos se tornaram mais aguçados, analisando-a deitada naquela maca. Os olhos dela estavam meio abertos o que deveria ter me consolado, mas eles pareciam perdidos, sequer conscientes de que eu estava ali. — Felicity! Fale comigo! – estupidamente exigi, mesmo que ela tivesse algo cobrindo a boca ajudando-a a respirar eu supus, consegui tocar sua mão entrelaçando na minha, mas ela estava fria parecendo... Meu corpo todo estremeceu, sangue correndo gelado pelas veias, apenas em pensar que... Não. Eu não iria para esse lugar sombrio.
Eu corri lado a lado com a maca com minha mão ainda junto a dela, tentei entender as coisas complicadas que os médicos diziam, porém mais parecia outra língua para mim. Tentei continuar com ela, mas fui barrado ao passar por uma porta dupla que era restrita aos médicos. Eles ameaçaram chamar a segurança se eu tentasse continuar. Eles chamaram a segurança, e quando dois brutamontes gentilmente agarraram meus braços, eu fui obrigado a soltar sua mão e apenas olhá-la desaparecer naquele corredor através de outra porta, deixando-a ir.
Deixando-a ir sem mim.
Uma das médicas que a acompanhava voltou, talvez me achando patético demais ainda parado no meio de um corredor, esperando que Felicity saísse daquela porta parecendo saudável e correndo de volta para os meus braços. Ou talvez a médica apenas quisesse que eu me movesse, para que não atrapalhasse o trânsito de médicos e macas.
— Senhor, eu sei que é difícil, mas preciso que nos deixe trabalhar, e que aguarde notícias na sala de espera. – Me indicou com um olhar mais austero a porta atrás de mim. O inferno que eu ficaria mais longe! Ficar longe dela foi o que a trouxe para cá. – Precisamos fazer exames. Entender qual a gravidade. – a mulher, falava pacientemente comigo. Mas quanto mais falava, mais o meu desespero aumentava.
— Eu vou com ela. – insisti, mesmo sabendo que era uma batalha perdida. — Aonde ela for, eu vou. – um sorriso solidário apareceu em seu rosto, um que me diziam que ela já havia visto desespero igual ao meu outras vezes.
— Eu sei que está preocupado, mas preciso que confie em nós. – voz calma e controlada, um semblante confiável — Ela está em boas mãos. Eu vou ir lá para dentro agora e ajudá-la a passar por isso. Eu sei que ela é importante para você, então fique calmo e se recomponha. Porque você deve ser importante para ela também, e quando ela estiver boa vai querer vê-lo bem, e não sofrendo. — concordei, entendendo a sua lógica, mesmo não gostando dela — Iremos mantê-lo informado, senhor...?
— Queen. Oliver Queen. – respondi sua pergunta — Diga a ela... Diga que estou aqui. Que sempre vou estar aqui para ela. – pedi.
— Farei melhor. Vou garantir que você mesmo irá dizer isso a ela. – assegurou-me, antes de sorrir e me dar as costas.
Assenti agradecido, porque era apenas isso o que eu podia fazer.
Nunca me senti tão impotente em toda a minha vida.
Forcei meus passos a fazerem o caminho de volta, meu corpo pesava protestando contra a exaustão daquele dia, ombros caídos e olhar fitando o chão. E ainda assim, ele se recusava a ceder e descansar. Porque algo poderia acontecer enquanto eu não estivesse alerta, Felicity poderia me chamar, ou poderia...
— Ollie? – o apelido veio acompanhado do suave toque das mãos em meu ombro — Ela vai ficar bem? – encarei minha irmã andando ao meu lado, me guiando até a área de espera, onde havia um Roy com cabelos molhados e embolado em uma manta térmica, encolhido no canto de um sofá de dois lugares. Eu sequer o vi chegando na ambulância com Felicity, eu estava tão preocupado e absorto apenas nela, que o resto se tornou invisível.
— Eles vão fazer o melhor que podem. – sentei no outro pequeno e desconfortável sofá daquela área de espera. Apoiei meus cotovelos em meus joelhos, e permiti que meu rosto escondesse em minhas mãos toda a miséria que o temor trazia, a falta de esperança, o desespero, aquela sensação pesada dentro do coração que eu não sabia classificar, mas a sentia, me corroendo – Eu não sei, Thea. – deixei o medo cair sobre mim, abraçando-me como um velho amigo.
— Ela é forte. – Thea tentou. – Roy disse que ela estava lutando.
Roy. Meu rosto imediatamente se ergueu virando-se na direção dele. Fungando com o nariz vermelho, e parecendo concentrado demais em se aquecer, para perceber minha atenção.
Mas agora ele a tinha.
Porque ele viu Felicity, sabia como ela estava.
Poderia me dar algo. Qualquer coisa no que me agarrar. Qualquer coisa para tirar de mim a sensação de seus dedos frios dos meus, da ausência de brilho em seus olhos que não me olhavam de volta.
— Ela disse alguma coisa? – ele piscou, demorando a perceber que eu estava falando com ele, foi necessário um cutucão de Thea em suas costelas para que ele me olhasse. – Ela disse algo à você? – sua negação veio com um movimento pequeno da cabeça, e soltei uma maldição.
— Mas ela abriu os olhos algumas vezes, e colocou muita água para fora depois que a tirei de lá. — a voz dele veio anasalada, o coitado provavelmente havia piorado o resfriado — Isso é bom, não é? – assenti, convencendo-me de que era algo bom. Mas eu precisava de mais.
— O que aconteceu? Como ela foi parar lá? – continuei o interrogatório, sabendo que estava sendo pouco cortês, e talvez até mesmo um pouco intimidador com o namorado da minha irmã. Mas eu precisava saber.
— Eu não sei. – Eu odiava essa resposta.
— Não sabe? — o fuzilei com o olhar, o garoto engoliu em seco.
— Roy, apenas conte tudo o que aconteceu desde que saíram e Ollie vai parar de tentar matá-lo com o olhar. – Minha irmã disse mais calmamente, suas mãos acariciando as costas do namorado.
— Certo. – tossiu um pouco antes de começar, e Thea lhe entregou uma garrafa de água que ele bebeu quase que inteira antes de finalmente começar a falar. — Felicity apareceu no quarto onde eu estava dormindo, balbuciando coisas sem sentindo e procurando as chaves do carro. – Isso tinha sido logo depois da nossa conversa, percebi. — Ela parecia nervosa, agitada até. E eu pensei que seria uma boa ideia ir até ela, nunca é bom alguém saindo de carro com a cabeça quente. – nisso eu poderia concordar — Pensei que se eu fosse uma boa companhia, talvez pudesse tirar da sua cabeça o que quer que a estava incomodando. Então me esgueirei até seu carro antes que ela pudesse sair. – franzi os lábios para ele — Eu disse que queria apenas cochilar em seu carro, ter um pouco de descanso antes que o irmão da minha namorada resolvesse acabar com a minha vida. – seu olhar veio para mim, com um pouco de rebeldia, percebi.
— Eu nunca deixaria Ollie te matar. – Thea interrompeu com uma voz doce, passando os dedos pelos cabelos do namorado — A menos que você mereça. – deixou a ameaça no ar dando um puxão em uma mecha que tinha em seus dedos, e eu quase sorri com aquela brecha.
Quase, porque o sorriso não veio até os lábios, porque não havia mais sorrisos sem Felicity.
— Então, o que aconteceu depois que se esgueirou para o carro da minha namorada? – ele engoliu em seco, notando o meu tom possessivo. Não, eu não estava sendo ciumento, eu já sabia que não existia nada entre os dois, eu apenas não gostava da palavra que ele havia usado. Se esgueirar. Cheirava a segundas intenções.
— Eu fui atrás dela porque a verdade é que eu não queria deixá-la sozinha. Pessoas fazem merdas quando estão com a cabeça cheia e sozinhas, quando ficam repensando num momento ruim. Meu pai morreu por causa de um momento assim. – Thea enrolou os braços ao redor do namorado, e desviei meus olhos da demonstração de afeto. Não por causa de um ciúme tolo de irmão, mas porque senti inveja, queria poder fazer isso com Felicity... — Então eu a irritei um pouquinho pelo caminho, para distraí-la, mas lhe dei um pouco de espaço porque isso parecia ser o que ela queria. Então fiquei no carro fingindo que dormia e a vi caminhar para aquele barco.
— Queen’s Gambit. – Nosso lugar. Suíça.
— Passaram-se alguns minutos, eu fiquei no carro e estava pronto para retornar as ligações de Thea, quando eu escutei um grito e corri naquela direção, um cara esbarrou em mim quase me derrubando quando eu subia no barco.
— Você viu o rosto dele? – perguntei, não gostando do caminho que o relato de Roy seguia.
— Eu pensei que era melhor checar Felicity. – Concordei com a cabeça, eu não poderia condená-lo por isso. Mas não me impedia de me perder em pensamentos que seguiam por caminhos assustadores, porém muito possíveis.
— Ollie? – Thea me chamou, notando meu distanciamento.
— Acho que talvez tenhamos que chamar a polícia. – expliquei, tateando meus bolsos a procura do celular. Eu teria que ligar para Lance, se eu estivesse certo, aquilo ainda não tinha acabado.
— Não é melhor esperarmos Felicity nos dizer? — Thea estava nervosa com aquilo também. Não querendo acreditar. – Você não acha que... – balancei a cabeça dizendo para não falar nada aqui.
— É possível. – respondi a sua pergunta não feita — Havia alguém no Gambit, pessoas normais não entram em barcos dos outros se não for por algo suspeito. – minha mente já trabalhava — Pessoas normais não fogem de fininho quando alguém grita. Elas fogem quando são a causa do grito. – um silêncio pairou entre nós, todos compreendendo o que talvez tivesse acontecido. — Roy, pode terminar de me contar o que aconteceu depois?
Ele demorou um pouco, tentando se lembrar aonde havia parado na história, mas continuou.
— Estava escuro, eu não vi o cara que esbarrou em mim quando eu subi a rampa que dava para o barco, mas ele era mais alto do que eu e mais corpulento também, parecia usar barba – Descreveu-o sabendo que era isso o que eu queria – Eu chamei por Felicity, e não tive resposta apenas quando me aproximei do corrimão na borda a vi, lutando para se manter na superfície. Quando eu finalmente pulei, ela já estava afundando. – a imagem se formou em minha mente, e meu coração protestou violentamente contra, desejando ser capaz de fazer algo. Foi necessário muito controle para continuar a prestar atenção em Roy e não em minha mente – A arrastei para fora da água. – ele olhou direto para mim, seus olhos pedindo desculpas — Eu não sabia como fazer os primeiros socorros, eu sinto muito... Eu apenas corri até o celular que deixei no carro e liguei para a emergência. Ela estava inconstante os olhos abriam e fechavam, mas cuspiu alguma água. Queria ter feito mais... Queria... – ele não terminou, tendo um violento ataque de tosse, virando o restante da garrafa de água em suas mãos. Thea apertou a mão dele, consolando-o.
Respirei fundo, me levantando do sofá. Me sentindo ainda mais inquieto. Saber como foi, como Felicity veio parar nesse hospital, não havia diminuído meu medo, muito ao contrário, agora com aquela nova suspeita, ele havia aumentado.
— Obrigado, Roy – estiquei minha mão para ele, que a olhou com o cenho franzido.
— Pelo o quê? Eu sequer sabia o que fazer depois que a tirei da água. – falou parecendo culpado e envergonhado ao mesmo tempo.
— Mas você a tirou, você provavelmente salvou a vida dela.
— Eu não...
— Aperte logo essa mão, Roy. – Thea ordenou e ele o fez, num aperto firme apesar de tudo. Eu poderia gostar desse garoto.
— Você a seguiu porque não queria que ela ficasse sozinha e dirigindo um carro quando parecia nervosa, se preocupou com ela e tentou distraí-la, e depois pulou no mar escuro atrás dela, se arriscou por alguém. – apertei ainda mais firme sua mão e então a soltei, olhando para minha irmã — Você encontrou um bom, Thea.
— Não tem medo de pular no mar, mas tem medo de agulhas? – ela brincou — Eu não estou certa disso, irmão.
— Eu não preciso de injeções, eu estou quase... – a frase foi cortada para que Roy desse um longo e alto espirro — ...curado.
— Estou vendo. – ela torceu o nariz e suspirou, resignada com a teimosia do namorado. Mas de repente seu rosto se tornou lívido, seus olhos grandes parecendo maiores e fixos em algo atrás de mim — Quanto tempo já se passou desde que Felicity chegou? – Sua pergunta saiu mais aguda, mostrando-me seu nervosismo. Olhei para o relógio em meu pulso e fiz um cálculo mental.
— Pouco mais de quarenta minutos.
— Não é muito cedo para termos notícias? – questionou, ainda olhando para atrás de mim — Eles dizem que notícias ruins chegam mais rápido. – Virei-me, olhando para a pessoa que caminhava em nossa direção.
Eu era bom em ler pessoas. Sempre fui. Mas médicos eram um tipo diferente, eles eram treinados para controlar as emoções na hora de darem más notícias, então por mais que eu inspecionasse o rosto da médica, seus gestos, que buscasse respostas em seu olhar, eu não conseguia prever o que ela tinha para me dizer.
E minha mente já começou a andar pelos piores cenários, porque Thea estava certa. Notícias ruins sempre chegavam mais rápido. Meu coração palpitou quando a médica começou a falar. Seus lábios se mexiam, mas eu não prestava atenção no som temendo escutar algo que faria meu mundo inteiro desmoronar.
— Sr. Queen... O senhor escutou o que eu disse? — A voz feminina chamou-me embora parecesse vir de longe. A mulher a minha frente vestida em seu jaleco branco me lançava um olhar preocupado, percebi que esta não era a primeira vez que chamava minha atenção. — Sr. Queen?
Felicity. Eu precisava perguntar sobre Felicity, ela tinha... Será que ela havia...
— Felicity, como ela... Ela está bem? — Perguntei temendo sua resposta.
— Ela vai ficar. – Thea nem era uma pessoa religiosa, mas agradeceu à Deus. Eu me permiti soltar o ar em uma longa expiração, mas nem assim meu coração se acalmou, eu precisava comprovar isso com meus próprios olhos. – Ela teve muita sorte, se tivesse ficado mais tempo debaixo da água poderia ter sido muito pior.
— Ela pode ir para casa, então? – Thea perguntou esperançosa.
— Não. – A médica, que se chamava Dra. Caitlin Snow como estava bordado em seu jaleco, deu uma olhada rápida na prancheta que trazia a mão. Cenho franzindo. – Eu gostaria que ela passasse a noite no hospital, no mínimo, e amanhã verificarei o avanço dela.
— Mas você disse que ela estava bem. – reclamei, já sentindo o medo percorrendo minhas veias.
— Eu disse que ela ficaria. — corrigiu-me.
— Então ainda tem algum risco?
— Felicity precisa ficar no oxigênio por um tempo, o organismo dela passou por um choque. Vai demorar um pouco para se recuperar. – me explicou, olhando-me com compaixão — A garganta vai doer por alguns dias, e é melhor que ela não converse muito para não irritar ainda mais. – fiz uma nota mental sobre isso, mas eu só conhecia uma maneira de fazê-la se calar, e não iríamos por esse caminho. — Vamos mantê-la em observação no hospital porque quero ter certeza que seus exames permaneçam estáveis. – sua voz me passava tanta confiança que aos poucos eu fui me acalmando — E após um mergulho naquelas águas geladas, eu não estaria surpresa se Felicity ficasse resfriada, é bom ficarmos atentos a isso. – não gostei da ideia de Felicity ficar doente, mas eu a obrigaria a ficar na cama até que tivesse certeza de que estava curada — No mais, ela precisa de repouso para curar o corpo e a cabeça – franzi o cenho, confuso.
— Ela bateu a cabeça?
— Não, eu quis dizer que afogamentos podem ser bem traumáticos. – me explicou calmamente.
— Podemos vê-la? – Thea fez a pergunta por mim.
— Não estamos exatamente em nosso horário de visitas...
— O inferno que me importo com isso! – rugi ganhando olhares das pessoas ao meu redor. Eu precisava vê-la.
— ...,Mas dada as circunstâncias eu vou abrir uma exceção. – tive um segundo de alívio, mas que não durou muito — Ah... apenas família é permitida nos quartos, ou então não posso autorizar a entrada. Vocês são família, certo? – Thea e eu nos entreolhamos e assentimos com pressa.
— Eu sou... – eu não podia mentir que era seu marido, e se me pedissem uma certidão de casamento? Eu sequer usava uma aliança. E eu nunca seria convincente como irmão por razões óbvias — ... O noivo dela. – me surpreendi com o quão fácil aquela mentira saiu pelos meus lábios. Embora a médica tenha me dado um olhar desconfiado.
— Melhor amiga, futura cunhada e madrinha de casamento. – Thea se apresentou com graça e desenvoltura.
— Apenas um de cada vez e não fiquem por muito tempo. – Não ficar por muito tempo? Eu não pretendia sequer sair.
— Ollie, por que não vai na frente? – Thea ofereceu — Eu vou levar o bebê aqui para tomar suas injeções, antes que seu resfriado se torne uma pneumonia. – indicou Roy, que pela expressão em seu rosto não parecia nada bem.
— Eu disse que não preciso delas! – resmungou — Eu estou ótimo. – Se ergueu do sofá tentando ficar com a postura ereta, mas cambaleou e sua mentira foi logo traída por um violento espirro que fez seu corpo todo sacudir e estremecer.
— Você está nojento. – minha irmã disso — Não vai ganhar beijos assim.
— E o que eu vou ganhar depois de deixarem furarem minha bunda com um monte de agulhas? – ele reclamou, mal-humorado.
Thea cochichou algo em seu ouvido e as bochechas dele se avermelharam, olhos ficaram mais aguçados e um meio sorriso idiota se formou em seus lábios, fui esperto o suficiente para me afastar e não olhar mais. Eu devia muito a Roy, ele salvou a vida de Felicity, mas isso não significava que eu queria saber das coisas que ele e minha irmã faziam.
Pigarreei com a garganta chamando a atenção dos dois.
— Por que vocês dois não voltam direto para casa? – as sobrancelhas de Thea se uniram, mostrando-me a sua confusão – Tivemos um dia cheio e cansativo, vocês dois merecem um repouso também, Roy claramente ainda está doente e Felicity precisa descansar, nossa agitação ao redor dela não vai ser bom. – expliquei — Eu fico com ela, cuido dela.
— Tem certeza? – Thea perguntou.
— Sim. – assenti lhe jogando as chaves do meu carro, Thea as pegou no ar – Eu acho que podemos fazer uma exceção hoje. – pisquei para minha irmã, que pareceu ainda mais surpresa por eu quebrar as regras. Thea não tinha permissão legal para dirigir desde o acidente, mas eu estava pouco me lixando para as leis agora, eu tinha preocupações maiores. — Cuide do seu namorado, e eu cuido da minha... noiva. – Ela sorriu abertamente, assim como eu, gostando mais do que deveria da minha mentira. Me aproximei de minha irmã e deixei um beijo de despedida no topo de sua cabeça.
— Pode me levar até Felicity? – Perguntei à médica assim que Thea e Roy se afastaram, ela apenas sorriu e andou, liderando o caminho.
— O senhor está ciente que eu disse que não permitimos acompanhantes no quarto? Não poderá passar a noite aqui. – completou.
— Sim. Eu entendi da primeira vez que disse, mas escolhi ignorar. – era melhor chamarem uma escolta policial, porque uma vez ao lado de Felicity eu não iria me mover. — Eu quase a perdi, não estou deixando-a ir para nenhum lugar longe dos meus olhos. – expliquei melhor, implorando por compreensão.
— Ótimo. – devolveu com jovialidade — Então eu vou escolher ignorar o que me disse e fingir que foi embora depois de visitar sua noiva por dez minutos. – ela piscou para mim.
Gostei dela.
— Obrigado. – murmurei.
— Esse é o quarto. – ela indicou parando em frente porta de número 330, mas não a abriu – Ela acabou de ser transferida para cá, ela está no oxigênio e foi medicada, provavelmente vai estar dormindo o tempo todo, enfermeiras passarão de hora em hora para checa-la, mas qualquer emergência tem um pager ao lado da cama e você poderá me chamar — como para comprovar o fato o pager dela começou a apitar — Me desculpe, eu tenho outra chamada. – falou num tom de desculpas — Vejo você amanhã, no horário de visitas que é a partir das oito, já que você não vai passar a noite aqui, nem nada disso...
Eu ri enquanto ela se afastava, já me sentindo mais leve apenas de saber que Felicity estava atrás daquela porta e que eu finalmente poderia vê-la.
— Oliver Queen. – a voz chamando meu nome lentamente, me fez soltar a maçaneta da porta e girar meus pés em direção à ela — Eu diria que é uma surpresa vê-lo aqui, mas não é.
— Slade. – cada músculo cansado do meu corpo retesou, se preparando para aquele confronto — O que quer? – caminhei para mais perto dele, apenas para que ele não se aproximasse de mim. Não o queria próximo demais ao quarto de Felicity.
— Eu quero muitas coisas. – ele apoiou o ombro à parede, encostando-se de lado. Havia círculos escuros ao redor de seus olhos e ele parecia cansado. Seu tom era estranhamente calmo e arrastado, porém anestesiado de qualquer emoção – E eu não acredito que possa me dar nenhuma delas, embora esteja no caminho de algumas. – seu olhar indo direto para a porta de Felicity, um pequeno sorriso deixando seu rosto mais sombrio.
Nenhum pouco sutil.
— Eu não estou no seu caminho, Slade. – coloquei ambas as mãos em meus bolsos e ergui o queixo numa postura altiva. Não importa quantas vezes ele parecia me vencer, eu não estava desistindo. — Eu só estou tentando trazer um pouco de justiça para uma situação injusta.
— Justiça? – ele riu da palavra com escárnio. – Você é tão idealista, Oliver, essa é uma das suas maiores qualidades. – se desencostou da parede, e caminhou a passos vagarosos, como um gato sorrateiramente testando o terreno antes de pisar, até finalmente estar de frente para mim. Seus dentes brilharam num sorriso amplo, quase diabólico até. — Um advogado, tão honesto, tão íntegro. Para ser sincero eu estou surpreso por defendê-la com tanto afinco. – Slade estudou meu rosto — Ela atirou em um homem, e você está disposto a mentir por ela. — todo meu corpo se concentrou em não esboçar qualquer reação. Ele não sabe disso. Está jogando verde, não caia na dele, Oliver. Slade deu a volta por mim, como se estivesse partindo, mas apenas parou ombro a ombro e falou ao meu ouvido — Disposto a comprometer toda a sua imagem, sua carreira, sua vida... Simplesmente porque transa com ela? – meu rosto virou indo direto para o dele. Como Slade poderia saber? — Quando deveria ser um simples caso de que quem comete um crime merece pagar por ele.
Slade começou a andar se afastando.
— Mas não seu filho? – exclamei, fazendo-o dar meia volta e me encarar — Nós dois sabemos o que ele vende por aí, ele não merece pagar? Ele atacou uma mulher naquela noite, e ela apenas se defendeu! – Ele não poderia ser tão cego ao caráter do próprio filho.
— Pessoas fazem escolhas todos os dias, Oliver. — começou — Meu filho nunca as forçou a comprar nada, não as força a procurá-lo, e não certamente não força a ninguém a apontar uma arma para ele e atirar. – explanou tão tranquilamente.
— Isso é ridículo. – vociferei — Você o defende porque é seu filho e o ama, mesmo ele sendo um traficantezinho de merda. – Eu estava começando a perder a compostura. Percebi isso quando uma enfermeira passou por nós, cenho franzido e olhar penetrante se perguntando se deveria intervir, e me obriguei a dar um passo atrás.
Um longo silêncio caiu entre nós até que a mulher se afastasse.
— Você defende a sua pequena assassina porque a ama. – meu coração reagiu aquela palavra, meu cérebro normalmente ágil, entretanto focou em outra. Assassina. Compreensão começou a me atingir a medida que Slade continuava, confirmando meu maior temor. — Não é irônico que poucas horas após meu filho morrer, a assassina dele tenha vindo parar nesse mesmo hospital? – Joe Wilson estava morto. – Justiça poética, não acha? – uma risada sem humor raspou pela garganta dele.
— Joe Wilson está morto. – repeti para mim mesmo, apenas para me forçar a absorver o significado, e as implicações disso.
— A promotoria ainda não foi informada, mas a acusação dela vai ser alterada ainda amanhã, não quero perder mais tempo. – Ele havia perdido o filho, eu via essa dor em seus olhos, mas eu também via estampado naquele sorriso vitorioso a sede que Slade tinha por vingança.
Eu o conhecia.
Ele não correria o risco de perder em um tribunal, seria um caso de vingança. E ele não mediria esforços para obtê-la.
— Onde você estava às onze horas dessa noite? – interroguei, fazendo-o jogar a cabeça para trás e gargalhar secamente. O bastardo sabia ao que eu me referia.
— Assustado? – não respondi, me recusava a lhe dar esse prazer. Assustado não abrangia a extensão do que eu sentia, eu estava aterrorizado. – Eu estava nesse hospital, ainda de luto pelo meu filho, tenho médicos, enfermeiros e várias testemunhas. – ele sorriu e piscou para mim — Boa sorte tentando provar o contrário.
Eu entendi o que ele quis dizer.
Apertei minhas mãos, fechadas em punhos. Eu queria socá-lo e tirar aquele sorriso presunçoso de seu rosto, queria vê-lo sendo preso e pagando pelo que fez. E queria mais do que tudo, Slade longe de Felicity.
Mas eu nunca conseguiria provar.
— Vamos ver como essa tal de justiça vai se sair quando confrontar uma acusação de assassinato. – engoli em seco, eu podia sentir o suor frio se formando em minha testa. — É uma pena que Starling não tenha pena de morte, mas prisão perpétua serve para mim. – Perpétua. Não vai ser assim. Não posso... — Ou talvez, se for caso de justiça divina sua preciosa sequer deve sobreviver a esta noite... – ele me encarou, satisfeito por eu não conseguir esconder o medo que suas palavras me causavam — Mas sempre haverá outras noites, outros barcos...
Slade me deu as costas, mas eu o segui. Passos duros, respiração ofegante, vendo vermelho a minha frente e pronto para atacar. Ele não iria deixa-lo ameaça-la e simplesmente sair sem nenhuma consequência.
— Se você encostar um dedo nela, se sequer chegar perto, eu juro que vou matá-lo. – Slade piscou, mas eu não.
— Isso é uma ameaça, Queen? – uma das sobrancelhas se arqueou.
— É uma promessa. – nossos olhares se prenderam, ódio em ambos.
— Estou ansioso. – seu sorriso foi menor dessa vez, mais cauteloso. E não pude deixar de me sentir aliviado quando seus passos começaram a ecoar para longe.
***
A luz florescente do quarto a deixava mais pálida.
Tudo em mim se agitava diante do seu perfil frágil. Eu queria cruzar o quarto e envolvê-la em meus braços, mas eu não sabia se ainda tinha esse direito.
Provavelmente não.
Felicity estava sentada com as pernas para fora da cama, inconsciente da minha presença no quarto. Cabeça inclinada para baixo, e apesar dos cabelos estarem soltos cobrindo parcialmente seu rosto, eu conseguia ver o tubo preso em suas narinas, ajudando-a a respirar melhor. Seus pés descalços esticados, as pontas dos dedos tentando alcançar o chão. Não estava deitada e dormindo como a médica me disse que estaria. Não deveria ser uma surpresa para mim, ela sempre foi rebelde quando alguém lhe dava uma ordem.
— A cama é um pouco alta para você. – eu ri com cautela, revelando minha presença, fazendo seu rosto imediatamente se virar na minha direção, aqueles grandes olhos azuis capazes de fazer meu mundo girar, se prenderam nos meus.
Eu precisava vê-la.
Mas eu não estava preparado para vê-la.
Eu precisava vê-la para me livrar da imagem mental dela se afogando, dela chegando nesse hospital em uma maca, da sensação de seus dedos gelados e seu olhar sem foco quando eu chamei seu nome. Mas eu não fazia ideia de que me sentiria ainda pior ao encarar seus lábios sem cor, seus olhos fundos e ligeiramente avermelhados.
Comecei a caminhar em sua direção.
Vê-la não era o suficiente.
Eu precisava tocá-la.
— O que faz aqui? – Sua pergunta veio numa voz baixa, rouca e instável, me lembrando do que ela havia passado.
— Oi para você também. – De repente me senti deslocado, e parei em minha caminhada, como se não tivesse o direito de estar aqui. – Como está se sentindo? – Coloquei minhas mãos em meus bolsos, antes que fizesse algo estúpido como abraçá-la.
— Como se tivesse engolido arame farpado. – reclamou levando a mão a garganta. Felicity deu um pulinho da cama, seus pés finalmente tocando o chão. Mas não passou despercebido que sua mão se apoiava a cama em busca de estabilidade para ficar de pé.
— Você deveria estar deitada e dormindo. – a recriminei — Seu corpo precisa descansar para se curar.
— Não consigo dormir. – fungou.
— Está com dor? — dei um passo à frente, querendo cuidar dela, ansioso por fazer qualquer dor desaparecer. — Onde dói? Quer que eu chame a médica? – Como eu fazia para chama-la? Felicity apenas lançou um pequeno sorriso para mim.
— Não precisa chamar ninguém, já estou tão entupida de medicamentos, que mal consigo ficar de pé. – franzi o cenho, não gostando daquilo.
— Então é melhor se deitar. – Felicity me ignorou completamente dando um passo para frente, a mão se apoiando no braço da poltrona ao lado da cama, a que eu pretendia passar a noite, velando o seu sono. Se fosse em outro momento, eu iria até ela e a obrigaria a ficar na cama. Mas depois da noite de hoje, de tudo o que dissemos, de como ela havia ficado abalada, eu estava receoso de tomar mais decisões ruins e piorar as coisas entre nós.
— A médica que esteve aqui me perguntou se estava tudo bem para mim passar a noite sozinha no hospital, ou se eu gostaria que algum familiar passasse a noite comigo. – ela falou devagar, testando a voz e então me olhou interrogativamente se sentando a poltrona, puxando as pernas para cima e as abraçando, seu queixo se apoiando sobre os joelhos.
Me aproximei um pouco mais, pegando a manta sobre a cama, me abaixei em frente a Felicity e cuidadosamente enrolei o tecido quente ao redor de seu corpo que tremia.
— Eu disse que não tinha parentes na cidade.
Então a médica sabia.
— Eu sei ser muito persuasivo. – sorri, mas Felicity não comprou minha resposta e esperou pela verdade – Eu disse a ela que era seu noivo.
— Noivo? – ela sussurrou a palavra, tão baixo que mais a fazia parecer um segredo. Percebi tardiamente que estava naquela posição, apoiando o peso sobre um dos joelhos e com outro dobrado, como se fosse pedi-la agora.
— Se você surtou quando eu disse que era minha namorada, aposto que está à beira de ter uma síncope por agora ser minha noiva. – brinquei, tentando aliviar o clima, mostrando que minhas palavras eram levianas, mesmo que em algum lugar dentro de mim, tenha gostado muito de dizer que Felicity era minha noiva.
— Eu não diria sincope, está mais para uma arritmia que pode muito facilmente evoluir para um ataque cardíaco. – ela levou a mão ao coração. Controlei um sorriso. Eu podia ser o tolo feliz porque ao menos minhas palavras afetaram seu coração?
— Então é ótimo que tenha seu noivo presente para cuidar da sua saúde.
— Você está adorando isso. – ela apontou, balançando a cabeça.
— Odiando cada momento de ter você em um hospital, odiando como você veio parar aqui, mas feliz por você estar apenas em um hospital, onde eu posso manter meus olhos sobre você, cuidar de você... – Principalmente agora que eu sei o que aconteceu — Te provocar é apenas meu jeito de testar se você está bem. – um pequeno e quase imperceptível riso saiu de seus lábios, e apenas isso já me fez sentir muito melhor. Era bom ver um raio de felicidade em seu rosto, me trazia esperança de que ela ficaria bem. Nós ficaríamos bem. – Hey, o que está tentando fazer? – Me assustei ao vê-la tentar tirar os tubos de oxigênio de seu nariz.
— Eu só quero usar o banheiro. – justificou, começando uma pequena crise de tosse.
— Não vai tirar isso! – proibi, levando as mãos para as dela e a impedindo de continuar a puxá-los. Por um momento ela parou, observando nossas mãos se tocando, sentindo-as. Não pude deixar de me sentir aliviado com o calor quase abrasivo, vivo, delas.
— Eu vou tirar. – Como, até mesmo fraca, ela tinha forças para discutir comigo?
— Como alguém pode ser tão teimosa? – reclamei me erguendo do chão, impondo minha presença — Eu estou dizendo que isso fica, não vai querer comprar uma briga comigo, Felicity. — falei sério. — Sou maior, mais forte e mais persuasivo também.
Para a minha sorte eu não tive que brigar com Felicity por causa do respirador que ela tão teimosamente queria tirar. A enfermeira que entrou no quarto naquele momento, o fez por mim. Ela também a acompanhou até o banheiro, checou seus níveis de oxigênio ou algo assim, e aumentou um pouco a dosagem do medicamento intravenoso que Felicity estava recebendo. O que me preocupou um pouco, mas a mulher sorriu para mim dizendo que era apenas para fazê-la dormir melhor.
Infelizmente ao que me parecia, dormir não estava nos planos de Felicity, porque ela permaneceu sentada naquela poltrona, e nem mesmo a enfermeira a convenceu a sair de lá.
— Eu acho que aquela enfermeira que saiu jogou seu charme em cima de mim – comentei, apenas para distraí-la e tirá-la daquele silêncio.
— Eu vou brigar com ela. – ela me deu um quase sorriso — Você é meu noivo.
— E você dizendo isso sorrindo não faz o menor sentido. – franzi o cenho. Realmente, não fazia sentido, algo estava errado. – Você está com dor e esgotada, física, mental e emocionalmente, os medicamentos daqui a pouco irão fazer efeito e uma hora você vai acabar cedendo. Não pode controlar seu corpo com teimosia. – ela bufou, provavelmente irritada por eu estar certo — Tem certeza que pretende dormir nessa poltrona?
— Eu estou bem. – mas um bocejo a entregou.
— Você sabe que está roubando o meu lugar de dormir, não sabe? – devolvi me fazendo de incomodado — Eu quero minha poltrona de volta. Ou não se importa que eu fique a noite inteira de pé?
— Eu estou fazendo isso apenas porque senti pena de você. – Tentei controlar meu sorriso de vitória quando vi que ela começou a se erguer, a manta escorregando por seus ombros e caindo na poltrona. Felicity não fez menção de pegá-la.
— Precisa de ajuda para subir na cama? – perguntei, mas não esperei por sua resposta. Minhas mãos se colocando ao redor de sua cintura e na parte de trás de seus joelhos, erguendo-a. Ter seu corpo junto ao meu fez meu coração se acalmar, aquela tensão desapareceu sendo substituída apenas por alívio. Eu finalmente estava tocando-a. Eu a tinha em meus braços, respirando, com sua pele quente aquecendo a minha e seu coração batendo e fazendo o meu próprio responder àquelas batidas.
— Eu preciso de muitas coisas. – Felicity me respondeu, de olhos fechados parecendo perdida em algum sonho bom.
Sua cabeça se recostou em meu peito, e por um momento pensei que seria melhor Felicity dormir em meus braços ao invés da cama. Mas isso seria para o meu bem-estar, e não o dela, então abandonei a ideia dizendo a mim mesmo que pelo menos eu estaria perto. Deixei meus lábios tocarem sua testa em um beijo demorado.
— Você está quente. – estremeci ao constatar.
— Esse é seu jeito de dizer que estou sexy nessa camisola de hospital, Queen? – Havia diversão em seu tom.
— Não. – neguei — É meu jeito de dizer que você está com febre. – dei uma segunda olhada para ela, a camisola não era lisonjeira, não abraçava suas curvas do jeito certo. Mas minhas mãos estavam espalmadas na parte nua das suas costas, onde havia uma ampla abertura, então eu podia ver as vantagens. – E sim, essa camisola também te deixa sexy. — a coloquei delicadamente sobre a cama, ajeitando os travesseiros — Mas agora eu prefiro você bem coberta. – concluí, pegando a manta e cobrindo-a, certificando de que estava aquecida.
Sentei-me na poltrona que a pouco Felicity estava encolhida, e meu corpo robusto, mal cabia nela. Tudo bem, eu não estava planejando dormir essa noite, eu iria olhar para ela a noite inteira, esse era o único jeito de acalmar o agito dentro de mim.
Felicity girou na cama, ficando de lado e olhando direto para mim sentado naquela poltrona.
— Você ainda não me perguntou porque eu fugi. – seus olhos me interrogavam, e eu suspirei, já era madrugada, ela deveria estar dormindo e descansando, não conversando comigo.
— A médica disse que não era bom você forçar sua garganta conversando. – recriminei, mas ela apenas continuou me encarando com seus olhos grandes. Ela estava exausta, mas se recusava a dormir. — Eu não preciso perguntar o que eu já sei – suas sobrancelhas se uniram demostrando confusão. — Você precisava respirar. – lembrei — Você foi para a Suíça porque lá se sente bem, tranquila, consegue colocar seus pensamentos confusos em ordem e seus sentimentos também. Lá não tem julgamentos. – Felicity parecia surpresa por eu entendê-la tão bem. Como não poderia? Eu passava a maior parte dos meus dias observando-a, tentando ler nas entrelinhas de cada palavra, cada gesto, cada sorriso. Catalogando seus risos, esmiuçando seus sentimentos, tentado identificar suas emoções pelas batidas de seu coração. Desde que ela voltou para a minha vida, eu não fiz nada além de tentar conhecê-la. — Eu te pressionei, as coisas ficaram difíceis entre nós, eu pensei que tivéssemos nos entendido. Eu deveria ter notado que você iria precisar respirar. — balancei a cabeça por ter sido tão tolo, Felicity não estaria no hospital se não fosse por mim.
— Não foi sua culpa. – ela disse, sua mão esticando-se e buscando a minha enrolando-se nela, fazendo-me sentir todo o seu calor. Eu queria chamar a enfermeira para checar sua temperatura novamente, mas a mera ideia de me afastar fazia meu coração doer.
— Talvez não. – concordei, eu não tinha sido aquele a empurrá-la do barco, mas fui eu quem a afastou, a deixou desprotegida. — Mas nós tínhamos um acordo. — Felicity pareceu confusa — Quando precisasse de um tempo para respirar você me levaria consigo, e quando precisasse de um tempo de mim, levaria seu celular, para eu encontra-la mesmo que não quisesse. – a lembrei. Mas ela apenas concordou balançando a cabeça, e notei que ela já não estava muito presente.
— Eu tenho um monte de perguntas. – Perguntas que ela queria fazer para protelar o sono, percebi. Por que ela não queria dormir?
— Chega de perguntas. – determinei — Vai ficar quietinha e descansar, amanhã você pode me perguntar o que quiser. – concedi.
— Amanhã eu não vou me lembrar. – seus olhos se fecharam e ela suspirou audivelmente, cansada demais para abri-los novamente, eu supus.
— Bom para mim, eu aposto que várias dessas perguntas me deixariam encrencado. – ela apenas sorriu ainda com os olhos fechados, confirmando minhas suspeitas. — Agora durma. – apertei sua mão. – Amanhã vai ser um dia melhor.
Eu não poderia prometer a ela um dia melhor.
Eu sabia que todos os dias que nos seguiriam depois de hoje seriam tensos. A acusação de assassinato, o julgamento que logo se aproximaria, a pressão da impressa e perigo de Slade sempre a rondando. Mesmo que Thea desejasse assumir a responsabilidade pelo crime, o que eu duvidava que Felicity fosse permitir, ainda haveria muito a lidar.
Não haveria dias melhores.
Mas haveria a minha promessa de tentar torná-los melhores para ela. Encontrar algo que fosse a nossa força, pelo qual valesse a pena lutar, algo que trouxesse pequenos e raros momentos de luz do sol em meio aos dias nublados que teríamos pela frente. Entrelacei meus dedos nos dela.
Eu já havia encontrado nossa fonte de raio de sol.
Felicity se remexeu na cama de um lado para o outro, balbuciando algumas palavras sem sentido. Fiquei mais alerta quando ela abriu os olhos e apertou nossas mãos ainda mais.
— O que foi? – soprei a pergunta com cuidado, não queria despertá-la se ela ainda estivesse meio adormecida.
— Eu não consigo dormir. – resmungou — Fico me lembrando... – ela não terminou, mas eu podia imaginar, o terror que devia ser fechar os olhos e reviver a sensação de se afogar.
— O que posso fazer? – perguntei, acariciando sua mão. Eu já havia arrastado a poltrona, grudando-a na cama de Felicity,
— Deite comigo e me abrace. – elevei meus olhos para os dela, ainda sonolentos.
— Felicity. – adverti.
— É pedir muito que me abrace um pouco? — a voz ainda estava rouca e baixa, quase sussurrada, mas havia uma vulnerabilidade que não estava ali antes. Uma vulnerabilidade que me fez levantar da poltrona, dar a volta na cama, tirar os sapatos e me colocar ao seu lado na cama. Tomei cuidado para ocupar menos espaço possível, e não atrapalhar nem o tubo ligado a ela ou a intravenosa. Estiquei minhas pernas sobre o colchão, mas me mantive meio sentado.
Seu corpo instintivamente rolou em direção ao meu, seus braços envolvendo minha cintura e sua cabeça descansando um pouco acima, em meu abdome. Um longo suspiro deixou os lábios dela e a senti relaxar.
— Você pode me pedir o que quiser, que nunca será muito, ou inalcançável – deixei meus dedos correrem por seus cabelos num ritmo constante, escutei-a ronronar baixinho e sorri feliz por ser capaz de acalmá-la — Basta me pedir e eu o farei, qualquer coisa por você, meu amor. — eu disse à Felicity, mesmo sabendo que ela não assimilava nada do que eu dizia. Que amanhã Felicity não se lembraria disso, mas não me importava, eu estava dizendo para mim mesmo.
A cama era estreita, mas eu tinha Felicity segura em meus braços, eu escutava o som fraco, porém constante da sua respiração, sentia sua pulsação forte, seu cheiro e seu calor. Ela estava bem, eu deveria poder relaxar agora, mas era no silêncio da noite que os monstros deixavam seus esconderijos, a ameaça de Slade rondava a minha cabeça, impedindo-me de ter paz.
Felicity dormiu pacificamente em meus braços a noite inteira.
Mas eu não me arrisquei a fechar os olhos.
***
Felicity Smoak
— Oliver? – O nome dele foi o primeiro som que saiu dos meus lábios secos. – Oliver? – Chamei novamente, mesmo que a garganta doesse ainda mais ao dizê-lo, não sentir seu corpo envolvendo o meu era uma dor maior. Eu não poderia ter sonhado que ele havia dormido aqui, nessa cama estreita, comigo? Poderia inventar a sensação de seu calor? Abri meus olhos constatando que a cama era realmente estreita e que ele não caberia aqui. Mas como eu explicava o seu cheiro em meus travesseiros? – Ele não está aqui. – constatei com tristeza ao abrir meus olhos e encarar todo o amplo quarto sem qualquer sinal dele.
Havia apenas uma mulher, cabelos castanhos avermelhados, jaleco branco, checando algo em sua prancheta. Dra. Caitlin Snow, minha mente se lembrou dela se apresentando para mim enquanto eu estava sendo tratada.
— Está procurando o seu noivo, Felicity? – Ela me perguntou num sorriso doce.
— Meu... o quê? – perguntei atordoada. Fragmentos de conversas passando por minha cabeça, mas era difícil juntá-los agora... Eu me lembrava de Oliver ajoelhado a minha frente e... Ergui minha mão esquerda agradecida (e para minha completa surpresa um pouco decepcionada) por não haver nenhum anel ali.
— Você deve estar um pouco confusa. – assenti para a médica – Não force nada, foi uma noite traumática e você ainda está esgotada, tente apenas não pensar muito que o resto virá naturalmente. – ela sorriu novamente para mim — Agora deixe-me ajudá-la com isso. – Ela indicou o tubo em meu nariz, e foi um alívio quando aquilo finalmente foi embora e pude tomar uma longa e profunda respiração por mim mesma.
— É um alívio, não?
— Definitivamente. – concordei.
— Preciso que fique sentada e tome outras respirações tão fundas quanto a primeira. – pediu e assim o fiz, sentindo o estetoscópio gelado às minhas costas enviar uma onda de arrepio pela pele, mas a ignorei, aliviada por pelo menos estar respirando.
Mas parei de respirar no instante em que a porta se abriu. Oliver surgiu atrás de um buquê enorme de girassóis. Um amplo sorriso em seus lábios, ele havia trocado de roupa para algo mais casual e aparentemente tomado um banho e aparado a barba também. Só quando ele se aproximou mais e pude olhar para seus olhos que vi as escuras olheiras debaixo deles.
— Bom dia, querida. – Oliver disse para mim com um sorriso tão lindo, que e eu ignorei o querida e tolamente apenas assenti, só então me lembrando de respirar normalmente.
— Ah, bem que eu imaginei que esse alguém iria levar seu fôlego embora... – A médica me cutucou e piscou para mim, pendurando novamente seu estetoscópio nos ombros.
— Se sentindo melhor? – Oliver perguntou com a voz ansiosa, dando passos para mais perto de mim, sua proximidade me fazendo esquecer qual tinha sido sua pergunta.
Notei que Oliver colocou as flores sobre a cama para que ficasse com ambas as mãos livres. Dedos roçaram o contorno do meu rosto, elevando-o um pouco para que nossos olhares se cruzassem, para que se perdessem um no outro como sempre faziam. Meu coração falhou uma batida quando sua boca se aproximou da minha. Esperando o que lhe faria bater num ritmo acelerado de novo.
Eu tinha milhares de motivos para estar brava com Oliver, para me afastar dele, e havia apenas um para fazer justamente o contrário, um que me fazia esquecer todo o resto e querer me aproximar, querer tocá-lo. E era esse um, que comandava meu coração. Esse um, que queria desesperadamente aquele beijo e se viu fechando os olhos para recebê-lo. E mesmo que pressão macia dos lábios de Oliver nos meus tenha durado apenas poucos segundos, mesmo que tenha sido apenas um beijo singelo e doce. Foi o suficiente para me fazer feliz.
E talvez, fosse apenas esse um motivo que importava.
— E agora, se sentindo melhor? – Repetiu a pergunta, com um sorriso discreto no rosto.
— Sim. – respondi, mas Oliver franziu o cenho para a minha voz ainda rouca.
— Como ela está, Dra. Snow? – Se dirigiu para a médica.
— Da mesma forma que estava há vinte minutos atrás quando você me perguntou. – Oliver continuou a encarando, esperando por mais — Ela está bem, Oliver. – ela respondeu exasperada e um pouco impaciente, e então seu rosto se virou para mim — Eu tive que expulsá-lo esta manhã, você deveria estar descansando e ele simplesmente estava todo enrolado envolta de você. – senti meu rosto queimar, então não tinha sido um sonho.
— Eu disse que ela dorme melhor nos meus braços. – seu tom era um pouco arrogante, mas seu sorriso de menino era apenas sincero e isso meio que me conquistou.
— Você conseguiu um charmoso. – falou comigo — Vai te dar trabalho.
— Você não faz ideia... – comentei.
— Pelo menos sua febre cedeu. – Oliver havia levado sua mão a minha testa, apenas para confirmar.
— Como eu disse que cederia. – A Dra. Snow lançou um olhar afiado para Oliver, com uma expressão que mais parecia dizer “Qual de nós dois tem um diploma em medicina aqui?” – Ele é sempre assim? Questiona tudo e a todos e nunca parece satisfeito com nada?
— Exatamente. – ri, mas tive que parar porque comecei a tossir. Maldita garganta que ainda estava irritada! — Como conseguem inventar drogas capazes de acabar com uma febre, mas não com esse mal-estar na garganta? – reclamei com um pouco de graça, apenas para tirar aquela expressão preocupada de Oliver.
— Ela vai incomodar por alguns dias. – Dra. Snow me explicou — Estou te receitando algumas pastilhas e outros medicamentos comuns ao resfriado, alguns para relaxamento muscular. – Me entregou o que eu supus ser a receita médica — Eu ainda não estou de acordo com essa alta, apesar de sua respiração estar boa, e os exames de gasometria arterial e radiografia de tórax também. — e então olhou para Oliver de um jeito bem sério — Eu quero que você me prometa que Felicity vai descansar e se manter bem aquecida, quero que a traga de volta se ela não se sentir bem.
— Eu prometo. – seu tom não deixava dúvidas — Se ela espirrar, nós voltaremos para cá imediatamente.
— Certo. – A médica assentiu após avaliar Oliver e perceber o quanto ele parecia compenetrado naquilo — Espero não vê-los novamente, exceto se quiserem me convidar para o casamento. – ela piscou para nós dois. Era estranho que nenhum de nós tenha se incomodado em desmentir o noivado? — Ah, Oliver! Não se esqueça de passar na recepção e assinar os documentos que estão faltando. – Avisou antes de sair pela porta.
Franzi o cenho para a figura parada a porta do quarto. Eu o vi apenas de relance quando a porta era aberta e fechada pela Dra. Snow, e o homem se inclinou para falar algo com a médica. Ele trajava terno preto e não parecia um médico ou enfermeiro, não pude deixar de achar estranho.
— Essas são para você. – Oliver disse entregando-me as flores, me fazendo esquecer do homem parado ao lado de fora.
— Obrigada. – Instantaneamente sorri com seu gesto, levei as flores ao rosto e inalei o frescor. Eu nunca tinha ganhado flores, principalmente girassóis que eram tão incomuns. Eu sempre imaginei que Oliver fosse o típico homem que daria rosas para uma mulher.
— Escolhi girassóis porque assim que os vi pensei em você. — Oliver se explicou, mesmo que eu não tenha perguntado nada. Ele pareceu um pouco ansioso e sem jeito — Você precisa de raios de sol na sua vida, Felicity.
— São minhas flores favoritas. – Não, elas não eram. Mas a partir de agora seriam.
— Pronta para ir?
— Com essa camisola?
— Você ainda parece sexy nela. – piscou, e um pedaço da nossa conversa naquela noite voltou para mim. – Thea trouxe algumas roupas quando ela passou aqui mais cedo e você ainda dormia, — indicou com um leve movimento de cabeça a pequena bolsa de viagem que estava aos pés da cama — eu vou te dar um pouco de privacidade enquanto se troca. Mas se precisar de mim é só chamar, eu esperarei lá fora.
Oliver saiu do quarto e aproveitei para checar a bolsa que Thea tinha trazido. Graças a Deus havia mais do que roupas nela! Eu pude lavar o rosto com um sabonete decente e cheiroso, escovar meus dentes e aplicar um pouco de batom nos lábios para trazer um pouco de vida ao meu rosto pálido. Meu cabelo, porém, era outro assunto, nem mesmo o penteando ele deixou de ter aquele aspecto ressecado e emaranhado, então eu apenas o trancei, fazendo uma nota mental para lavá-lo e hidrata-lo quando estivesse em casa.
Casa.
A palavra me pegou de surpresa.
Eu não havia pensado no apartamento que eu dividia com Curtis em Coast City, mas na mansão Queen. Varri o pensamento para o fundo da minha mente, disposta a não encher minha cabeça com mais problemas a essa hora.
Vesti os jeans escuros e o suéter azul bem quentinho, calcei as botas de cano baixo, mas ignorei o cachecol e a pequena touca de tricô deixando-os no fundo da bolsa. Não estávamos no inverno.
Peguei a bolsa em uma das mãos e as flores na outra, me permitindo mais um momento para cheirá-las, e me deixei sorrir tolamente apenas porque Oliver havia comprado flores para mim. Pensei em suas palavras “Você precisa de raios de sol na sua vida, Felicity”
Eu precisava.
Eu provavelmente estava definhando naquele lugar escuro e frio para o qual estava tão acostumada a ir. Girassóis não tornariam esse lugar mais claro e quente, mas talvez fossem o primeiro passo.
— Hum, ei. – a voz de Oliver veio hesitante. Elevei meus olhos na direção dele, que espiava pela porta aberta apenas o suficiente para passar sua cabeça.
— Você não ia esperar do lado de fora? – franzi o cenho.
— Você demorou, fiquei preocupado. – admitiu, já entrando no quarto, mas deixando a porta totalmente aberta dessa vez – Pensei que estivesse precisando de ajuda. – Ele me olhou, analisando-me, verificando se eu parecia bem, supus. – Dê-me a bolsa, assim poderá segurar apenas as flores e cheirá-las o quanto quiser. – Revirei meus olhos para ele que retirou a bolsa da minha mão, com um sorriso de quem estava muito contente consigo mesmo por eu ter gostado do seu presente.
— Bata da próxima vez, eu poderia estar nua. – o recriminei, apenas para tirar seu sorriso convencido.
— Então eu seria um cara de muita sorte. – Seu sorriso foi apenas a insinuação de um, mas seus olhos. Deus! Seus olhos cravados nos meus, fizeram meu coração bater a mil por hora.
— Ou um cara morto. – brinquei, apenas para mudar o clima.
Mas Oliver se aproximou, dedos se enrolando em uma mecha de cabelo que havia escapado da trança, o dorso da mão escovando com delicadeza a pele da bochecha. Pensei que Oliver fosse me beijar quando seu rosto desceu um pouco, o coração acelerou. Um beijo de verdade dessa vez, não o roçar de lábios daquela manhã.
— Você está pronta para ir? – Oliver me perguntou se afastando antes que o beijo pudesse acontecer, seus olhos investigativos em mim. Desviei o olhar do dele, não querendo demonstrar o quanto eu desejava aquele beijo, mas meus olhos caíram direto na porta, no homem de terno que espionava a nós dois dentro do quarto.
— Por que tem um homem parado do lado de fora? – Perguntei em um sussurro tentando não olhar para o intruso, e senti Oliver ficar mais tenso e tomar um longo minuto de silêncio antes de me responder.
— Felicity, o que exatamente você se lembra do seu acidente? – Oliver perguntou parecendo ansioso e cauteloso ao mesmo tempo.
Eu tentava não pensar muito, a médica disse que não era bom forçar a memória de algo traumático, e eu estava satisfeita em simplesmente tentar ignorá-la. Porque no meu íntimo eu sabia que havia coisas que não estava pronta para encarar.
— Não foi um acidente. – Constatei, a imagem do homem me empurrando veio imediatamente a mente. Oliver não esboçou qualquer reação, o que me revelou muito — Mas você já sabia disso. – Ele assentiu, embora parecesse calmo havia algo sobre seus olhos que não parecia certo.
— Você faz ideia de quem...
— Não. – o cortei, antecipando a pergunta — Estava escuro e eu não vi o rosto... – Oliver assentiu novamente, já esperando por isso também. Semicerrei os olhos em sua direção, ciente de que havia algo mais.
— Senhor Queen, o carro já está pronto. – O homem a porta nos interrompeu. E aproveitei para medi-lo um pouco mais. Alto, forte, com cabelos escuros e olhos azuis claros. Bonito. — É melhor irmos agora antes que a situação piore. — Que situação?
— É melhor irmos. – Oliver disse, seu braço passando por baixo do meu, pronto para me acompanhar.
— Oliver, o que está acontecendo? – juntei meus pés no chão, eu não estava saindo antes de receber algumas respostas — Quem é ele? – apontei para o desconhecido que apenas exibiu um sorriso.
— Felicity... – Oliver começou, parecendo um pouco vacilante, receoso da minha reação — Este é...
— Ronald Raymond, seu novo guarda-costas. – esticou a mão na minha direção oferecendo um sorriso simpático – Mas pode me chamar apenas de Ronnie.
— Guarda Costas? – Elevei uma das sobrancelhas para Oliver, enquanto apertava a mão de Ronnie.
— Pode dizer segurança pessoal se preferir. – ele respondeu com atrevimento — Guarda costas está um pouco datado de qualquer maneira, muito anos noventa e Whitney Houston – deu de ombros.
— Eu não me recordo de ter concordado em ter uma sombra irritante me seguindo por todos os lados. – reclamei com Oliver, cruzando os braços e tomando uma postura mais altiva. Quando eu havia lhe dado o direito de controlar minha vida? — Sem ofensa, Ronnie. – acrescentei.
— Vou fingir que não estou magoado. – fez um biquinho triste e levou uma das mãos ao coração. Seu gesto me fez segurar um sorriso. Eu poderia facilmente gostar dele, seria quase como ter um cachorrinho de estimação.
— Felicity. – meu nome nos lábios de Oliver soou como um pedido por compreensão — Eu sei que em metade do tempo Ronnie é um idiota. E na outra metade também. – ele olhou de esguelha para meu segurança — Acredite em mim quando digo que não gosto da ideia, mas precisamos dele no momento. Eu não confio em qualquer um, mas Diggle o indicou, dizendo que Ronnie é o melhor no ramo e que é confiável.
— Isso é mesmo necessário? – questionei.
— Você foi empurrada do barco e... – Oliver não terminou e suspirei, resignada. Eu teria algumas condições para aquela coisa de “guarda-costas”, mas discutir agora seria perda de tempo. — Eu tenho que assinar a papelada que a Dra. Snow deixou lá na recepção, assinar sua liberação. Por que não vai com Ronnie e nos espera no carro? Podemos conversar mais tarde, eu explico tudo e resolvemos juntos como isso vai funcionar para você. – sugeriu. Percebi que havia algo deixando Oliver inquieto, quase desesperado para irmos embora.
— Eu concordo, mas com ressalvas.
Ronnie me acompanhou até o carro de Oliver que estava estacionado na garagem privativa do hospital. E apesar de ele ter sido todo cheio de sorrisos ao me conhecer, sua postura mudou para completamente compenetrado quando estava ao meu lado, observando tudo e todos ao meu redor. Quase rosnando para quem nos encarasse por muito tempo.
— Então... – resolvi puxar conversa enquanto esperávamos Oliver. — Existe alguma regra a seguir? Eu nunca tive um segurança antes. – notei o pequeno sorriso pelo retrovisor. Ronnie além de meu segurança, seria nosso motorista. Eu não sei porque Oliver precisaria de um, mas...
— Seu namorado já me falou quais são as regras. – Namorado. Me forcei a ignorar a sensação que aquela palavra causava em mim. – Regra número 1 – ele elevou um dedo da mão — Não dar em cima de você. Regra número dois. Não dar em cima de você de jeito nenhum. E regra número três, não dar em cima de você de jeito nenhum a não ser que eu queira acordar sem minhas bolas. – eu ri.
— Oliver não disse isso. – me recusei a acreditar.
— Não exatamente com essas palavras, mas foi o que eu li em cada linha dura do rosto dele quando me contratou – isso era bem possível — Você é importante para ele, e meu trabalho é proteger você. Simples assim. – Eu era assim tão importante para Oliver? — Além do quê, eu não preciso dar em cima de você. Estou há poucas horas nesse trabalho e já consegui o telefone de uma gata. – ele ostentou vitorioso um cartão entre os dedos, e me movi para frente entre o espaço dos bancos para ler melhor.
— Caitlin Snow? – eu praticamente gritei — Você deu em cima da minha médica! – percebi horrorizada.
— Bem, eu não dei em cima dela. – se defendeu — Eu disse que era apenas para o caso de você precisar, mas eu totalmente irei convidá-la para um jantar. – sorriu descarado.
O sorriso imediatamente desapareceu de rosto de Ronnie quando a porta de trás foi aberta e Oliver escorregou, sentando-se ao meu lado. Seu braço se acomodou em meus ombros, e novamente senti sua boca se demorar sobre minha testa, fazendo-me suspirar um pouco frustrada.
— Oi. – algo brincava em seus olhos.
— Oi. – respondi, sem saber o que falar de volta, fechei meus olhos e deixei meu corpo relaxar contra o seu. Oliver pareceu satisfeito com a ideia de apenas me abraçar e não falarmos mais.
— Ronnie, depois que sairmos, eu quero que passe por dentro do Glades. – avisou ao nosso segurança/motorista — Vai ser mais difícil de nos seguirem por esse caminho. – Ronnie assentiu, dando partida no carro.
— Nos seguirem? – ergui os olhos para Oliver interrogativamente. Mas não precisei esperar por sua resposta. Ronnie havia deixado a garagem e estávamos nas ruas agora. Havia carros das principais emissoras de tvs estacionados ali, fotógrafos e... Slade Wilson em um terno escuro, em frente ao hospital parecendo dar uma entrevista para um bando de jornalistas. – desviei o olhar da janela, movendo-o para Oliver — O que diabos está acontecendo?
— O filho de Slade faleceu está noite. – sua voz foi sombria, demorou apenas um segundo para eu entender o porquê.
— Eu estou sendo acusada de assassinato. – balbuciei. Minha mão se fechou em torno de algo, apertando com todas as forças. Tudo o que é ruim, sempre pode piorar.
— Conversaremos sobre isso em casa. – insistiu, sua mão buscando a minha, soltando-a do que ela apertava e entrelaçando-a na dele. Oliver parecia tão nervoso quanto eu, por isso não me atrevi a contrariá-lo dessa vez. Desviei o olhar para o buquê de girassóis que trazia em meu colo, percebi que em meu nervosismo havia destruído completamente uma das flores.
Sem raios de sol para mim.
Apenas dias frios com nuvens escuras e fortes tempestades.
***
Eu passei quase uma hora dentro da banheira.
Não tinha percebido o quão cansada estava, o quanto eu precisava de me limpar. Não porque estava suja, mas me limpar do dia anterior. Do peso de tudo o que havia acontecido. Ter Thea contando a verdade para Oliver sobre o que realmente aconteceu com Joe Wilson. Discutir com Oliver por causa do nosso relacionamento, por ele insistir em querer a parte do meu coração que eu já não tinha comigo. Fugir para o Gambit.
Quase morrer afogada.
Eu precisaria agradecer a Roy por isso mais tarde.
Deixei o banheiro vestindo um roupão, e com os cabelos molhados caindo nos ombros, estava cansada demais para secá-los. Eu pretendia apenas me jogar na cama, mas parei assim que vi Oliver Queen deitado nela.
Não deitado exatamente.
Ele estava com as costas encostadas na cabeceira, mãos apoiadas atrás da cabeça, tornozelos cruzados e um olhar tão doce que me fez me aproximar, mesmo que a combinação Oliver e uma cama, fosse perigosa.
— O que faz aqui? – mordi os lábios, não queria ser indelicada nem nada. Eu queria Oliver aqui, queria tanto que isso me assustava. Mas nós dois ainda estávamos num ponto meio indefinido no momento, e eu não sabia exatamente o que esperar, ou o que sua presença significava.
— Trouxe algo para você comer. – só então reparei na bandeja sobre a cama com um sanduíche e um copo de suco — E depois vou me certificar de que você vai dormir.
— Eu não acho que eu precise ficar de cama. – respondi. Eu ainda estava cansada, até poucos minutos atrás esse era o meu plano, mas ver Oliver me lembrou que havia tantas coisas a resolver que parecia errado dormir nesse momento. – Temos que conversar, temos que resolver o que vamos fazer agora que vou ser acusada de assassinato. – uma veia na testa de Oliver pulsou, sua mandíbula enrijeceu e ele respirou profundamente.
Não quer ver anúncios?
Com uma contribuição de R$29,90 você deixa de ver anúncios no +Fiction durante 1 ano, além de outros benefícios.
Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!— Conversamos ontem e tudo deu errado, você precisa de espaço e tempo. – notei a culpa em seu tom — Coma. São ordens médicas. – Oliver pediu.
Ajeitei meu roupão e subi a cama, sentando-me e observando Oliver me observar atentamente. Peguei a pequena faca na bandeja e parti o sanduiche que havia ali ao meio, em uma linha diagonal.
— Então nós dois vamos segui-las. – determinei, entregando metade do sanduiche para ele. Mordi um pedaço do meu e esperei Oliver morder o dele antes de continuar. – Acha que não reparei nas olheiras? No quanto parece exausto, Oliver? – eu poderia ter caído de um barco e me afogado, mas Oliver não estava muito melhor. — Você ao menos dormiu essa noite? Comeu alguma coisa? – perguntei, sorvendo um pouco do suco de laranja e entregando-o ao Oliver que fez o mesmo, mas logo retirou a bandeja de comida que estava entre nós, colocando-a sobre o criado-mudo.
— Eu estava preocupado com você. – admitiu, se arrastando pela cama e chegando um pouco mais perto — Tudo aconteceu muito rápido ontem, eu tive que resolver as coisas mais urgentes, mas também não queria deixar você sozinha naquele hospital. Então fiz tudo ao mesmo tempo.
— Desculpe, eu realmente arruinei sua noite. – E pensar que minha única expectativa na noite anterior era um encontro com Oliver.
— Não, Felicity. – ele me olhou nos olhos, sua mão pousou sobre a minha segurando-a buscando por conexão, entendimento — Você não tem nada a se desculpar. – me garantiu — Eu... Você me assustou. Eu não fazia ideia do quanto pensar em perder você poderia doer em mim, e então Slade te empurrou e eu...
— Você acha que foi ele? – O interrompi. O rosto de Oliver se contorceu em dor, sua mão apertando ainda mais a minha.
— Eu não acho. – fúria brilhou em seus olhos — Slade praticamente esfregou isso na minha cara e disse que não ia parar. – engoli em seco, sangue correndo mais rápido enquanto eu assimilara o risco que estava correndo. Eu praticamente tinha a marca de um alvo em mim. Agora eu entendia a insistência de Oliver com o Ronnie.
— É isso o que está te preocupando? Tirando o seu sono? Que Slade possa tentar me matar? – perguntei a voz desaparecendo na última palavra. Seus olhos voltaram para os meus, atormentados. Oliver segurou minha mão com as duas dele, abaixou a cabeça escondendo seus olhos de mim, sua boca beijando cada um dos meus dedos, como se fizesse uma oração silenciosa para me segurar junto a si.
Estremeci com aquela visão.
— Eu não consigo parar de pensar, de temer isso. – Oliver começou a falar, e quando seus olhos vieram novamente para os meus, havia um brilho de lágrimas não derramadas neles. — Eu não posso fechar meus olhos, e correr o risco de quando abri-los não mais te ver, de não ter você perto para tocar ou sentir seu cheiro, ou ainda perder seu gosto...
Seus olhos se tornaram brasas.
Eu mal pude piscar e elas me queimaram.
Sua boca estava na minha, desesperada e sedenta. Oliver comandava cada ação daquele beijo. Seu corpo comprimindo o peso do seu sobre o meu, ao deitar-me na cama, fazendo-me sentir cada centímetro do seu corpo forte. A mão, que antes segurava a minha com delicadeza, agora prendia meus pulsos acima da minha cabeça, impedindo-me de mover. A que estava livre por sua vez percorria meu corpo, subindo por dentro do tecido felpudo do roupão e tocando a coxa nua, afundando seus dedos na carne, fazendo-me arfar cada vez que sentia seus dedos irem mais para cima.
Não era um beijo romântico ou delicado. Eu quase podia sentir o gosto de medo e do desespero o corrompendo, mas eu também sentia a paixão, o bem querer, a necessidade de me manter tão perto quanto era fisicamente possível.
Foi por causa disso que me rendi.
Porque eu também me sentia desse jeito.
Seu gosto explodiu em minha boca, sua língua quente e exigente se movia junto a minha, seus lábios sugavam os meus. A boca começou a descer distribuindo beijos por meu rosto, arranhando minha pele em seu caminho até o pescoço, encontrando um ponto perfeito onde Oliver sugou com força. Arqueei meu corpo para o dele procurando-o, já que não era capaz de tocá-lo. Sua boca voltou para beijar a minha e foi como estar com febre outra vez.
Queimando por Oliver.
Um gemido rouco deixou minha garganta ao sentir os dentes puxando o lábio inferior e...
Nada.
Nada de sua mão segurando meus pulsos.
Nada de seu corpo.
De seu beijo.
Ele apenas se afastou.
— Oliver... – o chamei, meus lábios ainda trêmulos, minha respiração ainda ofegante e o coração dilacerado por sentir tanta paixão em um único beijo.
— Me desculpe. – Oliver balançou a cabeça, ainda arfante — Eu não queria atormentá-la com meus tormentos. – ele sorriu, mas seu sorriso não chegou aos seus olhos ainda escuros dos medos que ele a pouco me confessara, medos que seu beijo me mostrara — Durma.
— Eu não vou conseguir dormir sabendo que você não está bem. – o segurei pelo braço antes que pudesse sair da cama — Fale comigo, Oliver, me diga o que precisa que eu faça para aliviar um pouco as coisas para você. – Ele piscou, parecendo surpreso com minha oferta.
Oliver me estudou, parecendo incerto.
Dei um pequeno aperto em seu braço e assenti minimamente.
— Qualquer coisa. – Sim, eu daria qualquer coisa para tirar aquele medo dos olhos dele.
— Eu não queria fazer isso, principalmente agora que precisa descansar. – sua voz era baixa e doce. — E eu não quero pressioná-la com seus segredos porque sei que cada vez que o faço, você se afasta, você aumenta essa distância entre nós. E eu não aguento isso, não aguento ter que ficar longe, mas também não aguento não poder fazer nada para te proteger. – comecei a ficar tensa, mesmo que não soubesse aonde Oliver estava querendo chegar. — E eu preciso que entenda. – seu tom antecipava um pedido de desculpas para as palavras que seguiram – Eu preciso que me conte se há algo que eu deva saber, — meu coração parou naquele instante. — porque estou aterrorizado que Slade possa usar seus segredos para machucar você.
Soltei seu braço.
Slade poderia descobrir meu segredo, e pior usá-lo de alguma forma.
E eu estava assustada, mas meu segredo não poderia me machucar mais do que eu já estava machucada. Mas também não machucaria apenas a mim.
Olhei para Oliver.
— Sim. – falei baixo demais, a voz quase desaparecendo assim como minha coragem. Meus olhos não ousaram encarar os dele. — Oliver, tem algo muito importante que preciso te contar.
Fale com o autor