Guilty
1 Novo Mundo
Notas iniciais
Eu fiquei muito empolgada quando li e meu coração de fangirl soube na hora que eu eventualmente acabaria escrevendo algumas coisas sobre eles.
Pouco tempo depois eu entrei de férias e Abbie e eu decidimos nos desafiar a escrever 7 songfics com ships aleatórios e musicas pré-selecionadas. Não pude deixar de aproveitar a oportunidade. Essa é a primeira fanfic do desafio que eu posto e eu espero que ela seja agradável.
Abraço!
Musica: https://www.youtube.com/watch?v=CfSZARFUvnM
Is it a sin, is it a crime loving you, dear, like I do?
Aos 23 anos, James Steward já havia passado por uma infância quase miserável – onde havia desenvolvido e logrado com sucesso a arte de enrolar pequenos e médios burgueses nas feiras comerciais da imunda e cinza Londres do inicio de 1600 – uma adolescência voltada para o desenvolvimento de habilidades manuais como marcenaria e construções civis – e o inicio de uma vida adulta marcada por uma viagem ultramarina de expedição rumo ao Novo Mundo: e ao que quer que ele significasse.
Nenhum acontecimento durante essas passagens havia sido exatamente uma aventura no sentido positivo da palavra, mas James conhecia, mais do que gostaria, a sensação de adrenalina e até bem pouco tempo atrás achava que nada poderia surpreendê-lo.
Isto, é claro, mudou no momento em que conheceu Isolt Sayre.
Não era – nem de longe — uma situação propicia ao romance, mas aconteceu ainda assim: ele havia desembarcado a pouco em Massachusetts, e, dando falta do casal de amigos excêntricos que havia feito durante a viagem, resolvera procurá-los, encontrando-os mortos. Depois de sepultar a ambos, tinha em mente procurar o par de filhos agora órfãos que, caso não estivessem mortos também, poderiam estar em perigo. Seus planos foram subitamente interrompidos quando – ao tocar num pedaço estranhamente polido de madeira – perdeu a consciência, acordando em um abrigo rústico improvisado por uma garota irlandesa que conseguia fazer mágica e que não apenas salvara sua vida, como salvara a dos garotos que estava buscando.
Desde então, ele não sabia o que o assustava mais: o fato de que ela podia fazer coisas que eram fisicamente impossíveis ou o sorriso que ela abria para ele às vezes, quando ele conseguia fazer os garotos rirem ou quando se esforçava o suficiente para não fazer cara de espanto quando ela conjurava algum feitiço.
If it's a crime, then I'm guilty… Guilty of loving you.
James não precisava saber muito sobre magia para deduzir que Isolt poderia fazer algo que apagasse sua memória ou coisa semelhante. E que ela o faria tão logo ele se recuperasse da concussão. Ele entendia que era um risco para ela e para os meninos, caso decidisse agir de má fé por conta da condição peculiar que eles compartilhavam. Se, ao ver magia, ele quase molhara as próprias calças, mal podia imaginar o terror que os puritanos sentiriam (e o que eles fariam) se tivessem consciência de pessoas como Sayre e os garotos Boot. Ele entendia, mas não podia deixar de desejar que ela o surpreendesse uma vez mais.
Era desesperador o modo como ele nutria uma profusão de sentimentos por ela desde que a vira pela primeira vez. Era como se o fio do tempo tivesse se prendido ali, no primeiro contato com os olhos de passarinho assustado que Isolt tinha. Não importava quanto tempo se passasse ou quanta intimidade eles adquiriam ou como ficava cada vez mais óbvio que seu tempo como hóspede estava se findando. Toda vez que James se distraia um pouco ou se preparava para dormir, era essa lembrança que servia de fundo para o seu espaço interno feliz. Isolt era como uma primeira manhã de verão.
Maybe I'm wrong dreaming of you… Dreaming the lonely night through…
E possivelmente por não conseguir parar de pensar nela que James teve a ideia, numa noite em que estava de olhos entreabertos, entre o sono e a consciência.
— Eu estava pensando... – Ele começou, quando todos os integrantes daquele pequeno e improvável bando estavam de pé.
— Isso parece perigoso. – Isolt implicou, arrancando risadas sonoras das crianças. James sorriu envergonhado e fingiu arremessar um pedaço de maça em Chadwick, que se recompôs após a ameaça gestual.
— Bom, se você considera uma casa segura e perfeitamente estável como perigosa... – James continuou, agora com os olhos estreitos.
— Uma casa? – A expressão divertida de Isolt se transformou em uma mistura de surpresa e empolgação. Parecia tão óbvio! Parecia tão simples. Porque ela não havia pensado nisso antes? Talvez a constante preocupação com seus convidados depois de meses sem nenhum contato humano fosse a principal resposta.
— É. Com a sua ajuda e com um pouco de magia, nós poderíamos construir algo resistente para você e os garotos. – No plano original, ele também estava incluso, e foi essa razão que o fez desviar os olhos: como se ela pudesse descobrir isso apenas encarando-o.
— Vocês poderiam construir um castelo! Ou uma casa-navio! – Webster gritou, com a mente febril de tantas ideias novas.
Isolt olhou para os garotos. Chadwick, subitamente em silencio, parecia refletir sobre o assunto. Uma casa seria um adeus definitivo ao Hemisfério Norte. Isolt já havia conversado com ele sobre a impossibilidade da volta, mas seu coração ainda se enchia de uma esperança boba, mesmo sabendo que não havia nada para ele em seu velho lugar no mundo.
— Ter um quarto seria legal. – Murmurou por fim, e sua fala pareceu a aprovação final que Sayre precisava. Ela fez um sinal para James e quando todo mundo terminou o café da manhã, eles saíram para caminhar e conversar em particular.
— A sua concussão... – Isolt começou pelo assunto que lhe preocupava. James sabia que isso ia acontecer, e já estava preparado:
— Eu sei me cuidar. Além do mais, você vai ficar com o trabalho pesado. Eu só vou arquitetar a estrutura e contemplar as coisas que você faz.
Isolt riu, passando uma mecha do cabelo comprido para trás. Algo no gesto fez o coração de James saltar uma batida.
— Você tem sido excepcional em esconder o seu espanto cotidiano.
— Eu tive algum tempo de treinamento. – Justificou-se.
Ela concordou com a cabeça, chutando alguns gravetos pelo caminho por nenhum motivo em especial. Ultimamente a conversa entre eles vinha sendo recheada de pausas constrangedoras.
— Na verdade... – James retomou a fala, convencido a não deixar o assunto morrer ao menos uma vez. – Eu não tenho me espantado mais.
Ela ergueu uma sobrancelha, em desconfiança.
— Eu sempre fico surpreso. – Ele disse com sinceridade. – Mas não espantado. Acho... Bonito.
Isolt sentiu a bochecha esquentar e soltou uma risada nasalada que poderia significar qualquer coisa. Uma parte sua queria lhe dizer que se ele tivesse convivido com sua tia por algum tempo, nunca usaria esse adjetivo para qualificar o ato de fazer magia. Em contrapartida, o que aconteceu foi ouvir a si mesma murmurando um “obrigada”, porque algo dentro dela estava realmente agradecido e, mais do que isso, emocionado.
If it's a crime, then I'm guilty… Guilty of dreaming of you.
Depois do dia em que James teve, honestamente, a melhor ideia de sua vida, ele, Isolt e os garotos Boot passaram algum tempo coletando material para a construção. Era uma atividade coletiva quase terapêutica: eles se auxiliavam em silencio, funcionando como partes de um time que operava perfeitamente bem em conjunto. James se sentia enternecido quando percebia que os garotos imitavam seus gestos e que prestavam atenção ao modo como ele agia, na esperança de poder fazer o mesmo. Era perturbador e ao mesmo tempo divertido notar que, naquele momento, ele era única referencia – alem de Isolt – que as crianças tinham. Fazia com que ele quisesse ser um bom modelo.
E também lhe incutia uma ou duas ideias perigosas, como casamento e adoção. A principio, surgiu como uma coisa fina, um pensamento tão tênue que ele mal tinha consciência.
No entanto, a medida em que os quatro foram conversando sobre a casa e como ela deveria ser, a percepção sobre a ideia foi se tornando cada vez maior, até o momento em que se tornou impossível ignorá-la. James queria que aquela casa fosse dele também e que aquelas pessoas fossem sua família.
E ele passou a sonhar com isso mesmo quando estava acordado.
What can I do, what can I say after I've taken the blame?
You say you're through… You'll go your way, but I'll always feel just the same.
Quando a primeira versão do que posteriormente viria a ser a consagrada escola de magia norte-americana Ilvermorny ficou pronta, James Steward já estava visivelmente saudável e irremediavelmente apaixonado por Isolt Sayre.
Por essa razão, na noite em que todos dormiam debaixo de um teto seguro pela primeira vez, ele fez o que pôde para escrever com sua péssima caligrafia a carta de despedida que lhe exigiu um nível de abnegação que nem sabia possuir. James contou – com as melhores palavras que conhecia – o quanto amava Isolt e o quanto se importava com sua segurança e a segurança das crianças, dando a sua palavra de que jamais faria qualquer coisa para prejudicar a qualquer um deles. E justificou a sua partida explicando que não poderia viver bem consigo mesmo sem a lembrança do sorriso dela. Ele preferia manter aquilo e se afastar antes – e para sempre — do que obrigá-la a tomar as medidas que ele sabia que ela poderia tomar.
Ao terminar, seu estomago estava embrulhado. Ele sentia que podia vomitar, socar uma parede, proferir uma lista de palavrões ou beber um barril inteiro de cerveja. Provavelmente todas as opções em conjunto, mas ao invés disso, partiu em silêncio.
Maybe I'm right. Maybe I'm wrong… Loving you, dear, like I do. If it's a crime, then I'm guilty, guilty of loving you.
Foram árduas horas aquelas em que James utilizou para se afastar – literalmente – de Isolt. Primeiro ele foi abraçado pela escuridão e depois consolado pelas horas iniciais da manhã. Para a irlandesa, entretanto, foi bem fácil saber o que fazer depois de ler o que ele havia escrito. Encantando um pintassilgo, Isolt enviou um bilhete bem simples, carregado com três palavras fatais, as únicas que poderiam fazer o peito de James ribombar novamente:
Volte para casa.
Quando o passarinho o alcançou, James já se sentia a pessoa mais miserável do mundo. Demorou um pouco para ele notar o bicho e ainda mais para notar que ele estava tentando chamar sua atenção, mas não durou nem o tempo de uma respiração para James voltar correndo por onde havia vindo ao ler o recado.
Ele finalmente tinha algo pelo qual voltar. Era como ter... Raízes. A sensação era extasiante.
Isolt o esperava de braços cruzados e lábios comprimidos no cume do monte Greylock. Ela queria cobri-lo de pancadas – e ela certamente iria – mas primeiro decidiu abraça-lo, esperando que a culpa por ser estúpido doesse mais do que a agressão física.
Funcionou.
James de repente era uma verborragia de pedidos de desculpa e frases emotivas desconexas. Isolt não prestou atenção em nenhuma delas. Ao invés disso, ficou analisando suas expressões, o modo como sua boca repuxava para o lado esquerdo e como aquilo parecia atraente por nenhuma razão aparente.
Então ela decidiu beijá-lo, em parte para calá-lo, em parte para absolvê-lo e em parte para sentir como era o contato dos próprios lábios nos lábios alheios.
Também funcionou.
James a correspondeu com uma vontade desconcertante. Isolt entendia pouco sobre relacionamentos amorosos, mas ela entendia bastante da sensação de ter um lar: durante toda a sua infância órfã e adolescência infeliz, ela guardara a sensação e as pequenas memórias que tinha da antiga vida com os pais como um lembrete de que a vida não era de todo ruim.
E ali, beijando James, Isolt se sentiu em casa novamente.
James, por sua vez, descobriu o conceito certo da palavra.
E juntos, eles ajudariam uma quantidade enorme de jovens bruxos a descobrirem a mesma sensação naquele mesmo lugar ao longo do tempo.
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