Guiding Light
1 Prólogo
Notas iniciais
Seiya tinha há muito transferido toda a sua atenção para a janela e a árvore, e aos garotos do segundo grau que jogavam bola no pátio.
Ainda era muito mais interessante do que álgebra, e por isso sorriu ao ouvir soar o sinal que indicava fim do período e o familiar som de seus colegas de classe puxando suas mochilas e deixando a sala como se estivesse empesteada com alguma doença.
Talvez eu vá me juntar aos garotos do pátio. Ou passar na mercearia. Ou volte para a mansão, ver a Saori. É quinta; e a Senhorita Saori não tem aulas de nada até mais tarde, pensou preguiçosamente. Sorrindo mais consigo mesmo enquanto puxava os livros debaixo da carteira e recolhia seu material.
Marin surgiu na sua frente com uma bolsa pendurada no ombro, uma mão na cintura e um olhar feio dirigido ao desenho trêmulo e semi-acabado de um cavaleiro medieval se ajoelhando frente a uma princesa no lugar de suas anotações de álgebra.
“Honestamente, Seiya.” Tinha um tom não desprovido de gentileza. “Não sei porque aceitou frequentar o colegial se não pretende se esforçar nisso.”
“O senhor Kido disse que seria bom para mim; ocupar a mente com algo além do treinamento. Foi o que ele disse.” Respondeu, dando de ombros. “De algumas aulas eu gosto. E o pessoal é legal, você sabe. É bom pra mim mesmo.”
Isso a fez sorrir. E Seiya baixou a cabeça para fechar e guardar seu caderno. Quando sorria assim, fazia com que se lembrasse de sua irmã perdida – as duas tinham aquele sorriso, aquele tom gentil para lhe falar e os cabelos castanhos encaracolados.
Os curtos de Marin estavam um pouco rebeldes após um dia de aula, e isso também fazia com que se lembrasse da irmã depois de um longo dia de brincadeira.
“Você não quer vir andando comigo e parar na sorveteria?”
“Pode ser.” Sorriu. Estava fechando o zíper da bolsa. “Mas tem alguma chance de só passarmos na sorveteria durante o caminho? Eu gostaria de ver a senhorita antes que ela precise partir para uma daquelas lições de etiqueta cha-“
Seiya não viu a expressão desapontada de Marin. E tampouco a garota permaneceu dessa forma por muito tempo.
Porque estava apitando, a maldita coisinha vermelha. Apitando e piscando. Como se fosse o maldito sinal do apocalipse.
Bom, era algo do tipo.
“Seiya…” Ela começou, incerta. Mas nunca continuou seja lá o que tenha começado a dizer. Ou talvez ele não tenha ouvido, absorto na sua própria bolha de pânico como estava.
Mas o maldito pingente estava piscando, preso naquela corrente de bronze que usava em vez de chaveiro, se pendurando pateticamente do bolso da mochila. Bem da forma que Seiya se sentia.
Espere. Ele foi treinado pra isso. Tinha coisas para fazer, tinha de vestir a armadura e- Não. A armadura estava na mansão.
Certo. A mansão. Claro.
Ele lembra-se de ter se despedido de Marin. Lembra-se de ter dito que não poderia acompanha-la de volta e parar para um sorvete ou qualquer coisa estupidamente óbvia assim. Lembra-se de ter corrido pelos corredores e saltado escadas, lembra-se de ter se atrapalhado com o tranco da bicicleta e de ter disparado nas ruas da pequena ilha grega.
Ele pedalou como em um sonho. As possibilidades do que aquilo poderia significar passando por sua cabeça, cada uma mais terrível do que a outra. Parte de sua mente estava em pânico, outra pedia aos deuses por coragem – a maior parte, a que dominava, gritava por Saori com tanta veemência e determinação que pode ou não ter realmente gritado enquanto corria para chegar até ela, saber que está bem e protegê-la… rápido, mais rápido!
O maldito pingente apitou durante a viagem inteira.
Era possível ver o crepúsculo através das vitrines e largas janelas de vidro da floricultura, tingindo o céu em tons bonitos de laranja e rosa enquanto o sol de despedia da terra do sol nascente.
June não estava vendo nada daquilo, absorvida demais pela imagem do rapaz que no momento sentava no meio da loja cercado de vasos, este por sua vez completamente absorto no arranjo que fazia.
Shun era seu melhor amigo e a sua maior paixão. Tinha se afeiçoado ao sempre choroso e desajustado garotinha que tinha precisado defender de todas as garotas e dos poucos garotos com quem viveram na Ilha de Andrômeda.
Precisava constantemente se lembrar de que ele era o mais poderoso agora — que ela e todos os outros que deixaram para trás em Andrômeda. Embora ainda fosse o mesmo garoto sensível e gentil que sempre foi.
O amava por isso.
June havia estado extasiada em vir com ele para sua terra natal. Tinham começado um pequeno negócio e estavam os dois cursando faculdade – ele fazia Botânica e ela Estudos Sociais – e moravam num apartamento no topo da loja. Nunca foram mais do que amigos, mas a loira sentia-se feliz demais para reclamar de algo pequeno assim.
Do jeito que levavam a vida, quase se atrevia a pensar que os dias de morte e dor naquele tempo antes de deixarem ilha tempestuosa não passavam de um sonho ruim.
Os deuses são cruéis – e como June sabia disso – pois foi no exato momento em esses pensamentos corriam por sua mente que ouviu o barulho, repetitivo e irritante.
Chegou a esticar a mão para seu celular, confusa, pensando ser algum alarme. Mas não era o seu alarme. E também não tinha programado o despertador para nada.
Então voltou o rosto para Shun, quase em reflexo, percebendo que o som vinha dele. Tinha os cabelos presos para longe da face, e as lágrimas que ameaçavam cair junto à expressão de choque em seu semblante a deixaram com uma sensação de náusea antes mesmo de seguir a luz do pingente rosa amarrado ao tornozelo do amigo.
Era o fim do sonho para eles. E se viu incapaz de se mover ou dizer qualquer coisa, porque sabia que bater em seja-lá-quem estivesse fazendo aquilo com o garoto não era algo que pudesse fazer ou que fosse resolver algo de qualquer forma. Então permaneceu parada, deixando-se oprimir por tudo aquilo momentaneamente.
Nesse meio termo, observou enquanto Shun engolia soluços e fechava os olhos longamente. Quando pareceu julgar que seria capaz de fazê-lo, o rapaz recolheu-se do chão e andou em direção ao balcão enquanto removia o avental.
“Eu sinto tanto.” Foi tudo o que pode dizer quando a peça de roupa foi jogada na sua frente. Era a verdade.
“Eu também.” Ele foi quieto. Seus olhos ainda estavam úmidos.
Quando chegou ao batente da porta dos fundos, anunciou que ia ao quarto – mas a loira já sabia. Shun não lutaria. Nunca machucaria ninguém se pudesse. Mas tinha um dever a cumprir, e ela o deixaria lidar com isso sozinho. Normalmente era assim que Shun encontrava suas forças. Sabia que quando o rapaz voltasse a deixar o quarto, seria Andrômeda.
Ela dobrou o avental cuidadosamente e o guardou sob o balcão. Tateou até a terceira gaveta, puxando-a e encontrando a familiar máscara de metal de seu oficio. Passou os dedos pelos olhos vazios e o rosto duro de mulher, sentindo-se tão fria quanto o metal.
Então o sino da porta de entrada soou, e June precisou fechar a gaveta com pressa ao sorrir comercialmente para o novo cliente.
Como se ainda estivesse no sonho.
Era uma boa coisa que Hyoga usava óculos escuros quando saiu da limusine, porque os flashs das câmeras que caíram sobre si poderiam muito bem tê-lo cegado no instante. Não muito antes de ficar moco com aqueles gritos ensurdecedores…
Fez do caminho do carro para o saguão do hotel uma corrida rápida, embora seu agente continuasse a insistir que deveria parar de agir tão ‘antipático e irritado’ o tempo inteiro.
Foda-se, tinha decidido, enquanto aguardava que o homem aparecesse logo com as suas malas para que fizessem o check-in.
A bonita recepcionista tinha um gigantesco sorriso bobo no rosto quando falou com ela, e Hyoga lhe ofereceu um autografo só porque ao menos tivera o profissionalismo de não pedi-lo.
Só que aí então ela tinha explodido em risinhos, gritinhos e tinha começado a agradecê-lo e falar algo em um ‘japonglês’ rápido demais para que entendesse, mas até aí a moça tinha se portado muito bem.
Ele precisava de um longo banho. Realmente precisava. Fora uma longa viagem de avião e uma entrevista assim que pisou em terra. Mas, ao invés disso, jogou a jaqueta no chão e atirou-se na cama em sua enorme suíte, esperando pacientemente que o celular ligasse.
Precisava falar com Shun. E precisava falar logo.
Estava na discagem direta, então não precisou de mais do que o pressionar de um botão para que a chamada começasse. Havia uma felicidade ansiosa se instalando em seu estômago no momento em que seu namorado atendeu o telefone.
“Ei! Estou em Tóquio!” Anunciou, sorrindo consigo mesmo enquanto esperava a comemoração do outro lado da linha.
A comemoração não veio. E algo que lembrava um soluço se fez ouvir ao fim de sua frase.
“….. Shun?”
Quando conseguiu fazer sentindo do que o namorado estava dizendo entre soluços e a voz embargada, Hyoga honestamente não conseguiu nem pensar em dizer mais nada para consola-lo. Atirou o telefone para um lado sem mesmo desliga-lo antes correr ao longo do quarto até suas malas ainda amontoadas junto à porta.
Merda, pensou. Derrubando a maior delas ao chão com um baque surdo e começando a jogar roupas para o alto descontroladamente.
Merda.
Tinha começado a ouvi-lo agora. Um baixo som enervante. Quando atingiu o fundo da bolsa, puxou o zíper do bolso interno que mostrava a luzinha azul ainda fraca através do pano. Puxou dali a corrente de bronze, encarando o pequeno pingente com uma sensação de extrema impotência antes de se deixar jogar.
“Merda.” Dessa vez tinha realmente o dito, permitindo que a cabeça fosse ao chão também.
Justo agora que estava tão animado com a chance de ver Shun depois de tanto tempo.
Uma pequena parte de si perguntou-se como faria para cancelar todos os compromissos de sua agenda, e como diabos era esperado que corresse por aí em uma armadura e lutando contra caras maus como se fosse a porra de um power-ranger sem ser pego por alguma câmera paparazzi.
Ele supunha que óculos não fossem ajudar.
Debaixo do fluxo da cachoeira, Shiryu sentia-se em paz.
É verdade que há muito havia sido capaz de mudar o curso da queda d’água, assim tendo completado com sucesso seu treinamento naquelas águas e nos Cinco Picos Antigos de Rozan.
Quando lhe foi dada a escolha, pode ter sido que tenha surpreendido outros ao retornar para a China ao invés de sua terra mãe; mas certamente não surpreendeu a si mesmo – ali tinha as palavras sábias de seu mestre, os cuidados de Shunrei e a oportunidade de sempre continuar se aprimorando como cavaleiro.
No momento, apenas meditava. Embora estivesse vagamente ciente do fraco e inexpressivo cosmo de seu mestre, Dohko de Libra; o antigo cavaleiro continuava sentado em sua vigília eterna, como mandou a deusa.
“Shiryu.”
A voz de Shunrei o despertou de seu estado de medição, encontrando uma expressão preocupada no rosto da chinesa. Esperou que falasse mais.
A moça nada disse, apenas baixou o olhar para suas mãos fechadas junto ao colo e esticou-as para que visse, revelando uma pedra verde acesa. Ainda que abafado pelo som do véu da cachoeira, percebeu que apitava.
Assentiu gravemente, começando a andar para longe da cascata e do rio. E então depois andaria para mais longe.
Então envolveu Shunrei em seus braços, que parecia pequena demais em sua preocupação. Não fazia mal nenhum, estivera apenas esperando esse dia.
Apenas esperava ter a proteção dos deuses.
Os galpões estavam certamente agitados naquele dia.
Ikki puxou os cabelos azulados para longe da testa, sentindo-os grudar ali. Andava movendo carregamentos há horas, e parece que até ele estava começando a sentir os efeitos do trabalho árduo.
Mas sorriu para si mesmo ao constatar que a maioria dos homens andavam a fazer pausas jogando aos cantos,e e estavam todos suando como porcos.
Quando se abaixou para erguer mais uma das pesadas caixas de madeira, sentiu um arrepio percorrer sua espinha e a largou de volta ao chão. Ikki franziu o cenho imediatamente, levando a mão á nuca – a sensação permanecia.
“Ei, você tá bem?” O homem mais próximo o olhava com certa preocupação.
“Só um arrepio.”
Disse aquilo mais para si mesmo do que para o sujeito.
“Deus te abençoe. Você devia fazer uma pausa, rapaz. É um louco se pretende continuar nesse pique o dia inteiro.”
“Não acredito em deuses.” Mordeu de volta.
O homem se afastou. Tanto faz. Não precisava de ninguém, e certamente poderia viver sem coleguismo barato.
Mesmo assim, desta vez ergueu a caixa seguramente ao recomeçar a carrega-la para o galpão, é melhor checar novamente a rua do Shun quando voltar para casa á noite.
Notas finais
Se alguém estiver interessado numa continuação, mande reviews e tal. Não mata e incentiva o autor. Principalmente uma preguiçosa desestimulada que nem eu que precisa se convencer a levantar pro almoço todo dia. Na boa.
Não é nem ameaça dizer que não vou continuar é só... colocação de fatos. Ou algo assim.
Foi divertido de escrever, ao menos. CDZ foi uma parte tão feliz da minha infância, me fez descobrir que tinha a capacidade de quebrar os moleques da vizinhança no pau. Agora que penso sobre isso, é a minha primeira fic de Cavaleiros. A homenagem veio tarde?
Então, recapitulando; a Ly-chin é um anjo, eu sou uma palhaça, CDZ é foda e reviews - obrigado.
E HyogaxShun é canon no que me diz respeito. I'm done here.
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