Notas iniciais
Desculpa pela demora, crise de criatividade 😳😅

Normalmente não costumo acordar cedo, principalmente quando eu vou dormir as 5 da manhã, sim, eu adoro dormir tarde, faz parte... Eu acho. Acordar cedo é gostoso, não tem ninguém acordado e você fica lá escutando o silêncio, é simplesmente satisfatório. Continuei deitado encarando o teto, consegui convencer um dos gêmeos a dormir na parte de baixo, me custou algumas sobremesas e uns pedaços de bolo, mas eu nunca mais vou ter que me preocupar com minha cabeça batendo na madeira do beliche.
Eu estava escutando um dos gêmeos falando e o outro respondia logo em seguida, porém os dois ainda dormiam, as conversas eram meio sem nexo e isso me fazia rir baixinho; enquanto isso Guilherme roncava um pouco alto e murmurava algumas palavras indecifráveis, parece que o gene dessa família tem um braço forte para falar enquanto dorme, não sei as meninas, mas os caras aqui competem pra ver quem fala a frase mais sem sentido.
Me cansei de ficar deitado e então desci do beliche, a cada passo a madeira da escadinha do beliche estalava, eu não queria acordar ninguém, não pelo fato de que seria meio chato se eu fizesse isso, era mais pela vontade de ficar sozinho com meus pensamentos um pouco. Fazia cinco dias que eu estava na casa dos primos de Bianca, todos esses dias foram fantásticos e divertidos mas eu ainda não tive tempo pra pensar em que fazer com relação aos meus tios.
Estava saindo do corredor dos quartos quando me deparei com Raquel sentada na poltrona de couro da sala de estar, ela parecia bem focada no mesmo livro verde e dourado que a vi lendo na praia. Ela levantou o olhar calmamente e levou um susto quando me viu, acho que não era eu quem ela esperava
–oi — ela disse no susto enquanto rapidamente fechava o livro e virava a capa para baixo em seu colo, meio que o escondendo
– me desculpe, eu achei que ninguém estivesse acordado- o que era verdade, eu não consigo mentir muito bem- eu já estou de saída...
– não — a voz dela saiu mais fina enquanto ela se levantava rapidamente da poltrona fazendo o livro cair no chão- quer dizer, a Bianca não está acordada ainda- nós nos encaramos e eu desviei o olhar rapidamente para o livro, ela percebeu e logo o recolheu
– eu sei que ela não está de pé ainda, eu ia só- o que eu ia fazer mesmo?- dar uma volta
– sozinho?- ela parecia desconfiada
– às vezes é bom pra refrescar a cabeça- eu ri meio nervoso passando a mão no meu cabelo — quer vir junto?
–posso?- ela falou baixinho abaixando a cabeça
– claro- eu não ia proibir a dona da casa de andar comigo pela própria propriedade
Ela levantou a cabeça surpresa, com aqueles olhos castanhos intensos e seu sorriso único e perfeito.
Saímos da casa e caminhamos à beira da praia, às vezes comentávamos sobre a vista ou sobre o vento mas não tínhamos uma conversa muito concreta. Não sei se o tempo passou muito rápido ou se o caminho era curto mesmo, mas chegamos num rochedo mais parecido com uma ponte que ia além da praia para o meio do mar e acabava onde as ondas ainda não se formavam
– uou — eu me fascinei- isso é muito legal
– achou?- ela me olhou como se não entendesse
– claro! Isso é muito foda — me animei, cara uma ponte natural no meio do mar, merecia uma foto
– quer subir e ir até o final?- ela parecia empolgada esperando minha resposta
– você consegue?!
Ela levantou uma das sobrancelhas
– tá duvidando de mim só porque eu sou menina?- ela parecia brava
– não... É que... Sabe... É uma escalada difícil e ...- meu Deus, eu fiquei roxo de vergonha perto dela.
Então ela começou a rir e eu me aliviei
– você estava mais vermelho que um pimentão- ela ria. Eu me abaixei um pouco para encará-la, ela ainda estava risonha; ainda com um ar brincalhão eu falei tentando fazer uma falsa voz de bravo
– a culpa é toda sua- ela ainda estava com um sorriso leve e nós ainda nos encarávamos, muito perto, ela ficou na ponta dos pés e nossos narizes tocaram-se
– foi você quem me desafiou — ela disse provocante, eu senti meu rosto queimar, estava ficando vermelho e ela também. Nos afastamos rapidamente, eu olhando para baixo tentando disfarçar coçando a cabeça e ela deu um passo pra trás rindo.
– vem, eu vou te levar até lá- ela me agarrou pelo braço e me puxou entre as pedras.
A escalada não foi tão difícil, parecia que as pedras tinham o formato de uma escada, o que facilitou muito minha vida porque diferente de Bianca, eu sou um desastre em qualquer coisa que envolva meu físico
– pronto! — ela já estava de pé no começo da ponte
Quando eu consegui subir ela saiu correndo para o final da ponte
– espera, você vai cair!- eu gritei, mas não adiantou muita coisa, ela não parou de correr até chegar no final e quando chegou fez um gesto para que eu fosse com ela

– pestinha- eu falei comigo mesmo e sai correndo atrás dela
Chegando no ponto de encontro eu a vi sentada na borda da ponte
– finalmente, você é muito devagar- ela zombou
– você vai cair no meio do mar- eu avisei ofegante
– larga de ser medroso, senta aqui do meu ladinho- ela falou zombando enquanto dava dois tapinhas na pedra ao lado da dela
Ficamos olhando o mar, sem falar nada apenas num silêncio agradável, até que eu avistei um pontinho preto no meio do mar, um pontinho bem distante
– o que é aquilo?- apontei para o ponto
Ela apertou um pouco os olhos para poder enxergar
– é uma ilha- ela disse como se não fosse muita novidade
– que legal!- eu nunca tinha visto uma ilha antes- se eu tivesse um barco ia até lá
– por que? — ela me olhou como se eu fosse tonto
– porque ilhas são legais- eu não sei porquê disse isso, eu não sei como é uma ilha
– são só punhados de terra com água em volta e umas árvores, nada de mais
Dei ombros, ainda queria ir até aquela ilha
– vocês não tem um barco?- eles vivem na praia, na minha cabeça todo mundo que vive na praia tem um barco
– não — ela respondeu me cortando, meio brava
– Ok- não queria começar uma discussão sobre barcos e ilhas- e o que é aquilo?- apontei para um objeto brilhante preso entre as rochas próximas a água
– eu não sei- ela se aproximou das rochas — te desafio a ir pegar
– está duvidando de mim? -ergui uma sobrancelha e me aproximei dela
– duvidando?- ela também se aproximou- meu querido Daniel- ela agarrou meu rosto pelas bochechas me fazendo parecer um peixe- eu estou te desafiando! — então me afastou de perto dela
– o que eu ganho se pegar? — se eu ia arriscar minha vida num pedregulho escorregadio para pegar uma coisinha brilhante que provavelmente podia ser uma latinha de coca, tinha que ser um prêmio muito bom
– ganhar... Hm- ela ficou pensativa- a sei lá
– assim não vale! — eu ria
– quando você pegar eu decido qual será sua recompensa
Eu suspirei fingindo cansaço
– Ok, trato feito- apertamos as mãos e eu fui descer as pedras
A cada passo meu pé escorregava, parecia uma descida sem fim, uma mão atrás da outra, com cuidado, tudo estava liso era impossível se manter estável naqueles pedregulhos
– filha da mãe- minha mãos havia se cortado bem no meio dos dedos, ardia pra porra, ainda mais com o sal do mar
– tá tudo bem ai em baixo? — Raquel parecia preocupada
– nada de mais, só mais um dia arriscando minha vida por troço brilhante- falei sarcasticamente e ela caiu na risada
Estava chegando perto, apenas mais alguns passos e conseguiria alcançar, olhei para baixo e o formato do brilho parecia um redondo largo, não conseguia decifra muito bem, os respingos do mar embaçavam minha visão e minhas mãos estavam tremendo
– não! — eu escutei um sussurro
–Raquel?- eu gritei, mas parece que ela não me ouvia
– não!- o sussurro aumentou, era uma voz de mulher
– quem tá aí? Bianca?- eu parei onde estava, minhas mãos trêmulas e minha visão turva
– por que você está fazendo isso? — já não era mais um sussurro, a voz feminina parecia estar do meu lado
– eu to falando sério, para com essa porra dessa brincadeira- estava começando a ficar nervoso
A voz parou, eu não sabia se continuava ou se subia, olhei para um lado e as ondas começaram a ficar mais forte
– Raquel eu acho que vou subir!- eu gritava, mas ela não escutava
Olhei para o lado novamente e vi uma mulher pálida com cabelos loiros e de roupa branca, ela estava virada de costas pra mim, eu tomei um susto do cacete
– Ah! Moça- eu estava nervoso e minha voz tremulava- o que você está fazendo aqui? É perigoso !
Ela se virou pra mim e eu nunca tinha visto nada daquele jeito, parte de seu rosto estava intacto e perfeito, olhos azuis mortos, lábios vermelhos carnudos e uma maquiagem perfeita, mas do outro lado a única coisa reconhecível era o olho, seu rosto estava em carne viva e pulsante, todo rasgado, seu vestido coberto de sangue, seus braços feridos e em sua cabeça havia uma pedra perfurando seu crânio e deixando à mostra parte de seu cérebro
Eu gritei tanto que minhas cordas vocais arderam. Ela apenas me encarou e sussurrou
–por que? — então ela se jogou do penhasco colidindo com a água
–NAO! — eu gritei e soltei uma de minhas mãos do rochedo, um erro, eu comecei a escorregar do rochedo muito rápido, quase caindo
Eu gritava e caia, por um momento meu corpo reagiu por impulso, se jogou contra o rochedo e tentava se agarrar a qualquer pedra, eu grunhia de dor, mas estava começando a parar de cair, minhas garras conseguiram se fincar numa rocha e repentinamente consegui parar, pera, garras? Sim, dez delas, no momento não tinha muito tempo para perguntas, comecei a escalar o rochedo como um louco, e as garras foram muito úteis.
Logo no topo Raquel estava deitada observando o céu
– nossa! Demorou em lerdinho- ela ria e se sentava
– Raquel eu...- estava cansado, machucado e acho que bati minha cabeça, minha visão estava se escurecendo rapidamente, a última coisa que vi foi Raquel olhando apavorada pra mim e gritando por socorro, então eu apaguei


– ei, campeão, acorda!- uma voz grossa ecoava na minha cabeça
– você acha que ele morreu?- uma voz mais fina de criança
– não, o pulso e a respiração estão normais, eu só preciso que ele abra os olhos
– Dani, acorda por favor- era a voz de Bianca
– me desculpa, fui tudo culpa minha- Raquel chorava
– não- eu finalmente consegui me manifestar
– graças a Deus- Bianca abraçava Guilherme enquanto uma lágrima escorria de seu rosto
– me desculpa Daniel- Raquel segurava minha mão muito forte- tudo é culpa minha, por favor me perdoa
– Raquel, não- logo me lembrei das minhas garras, me sentei num pulo e todos se assustaram
– Dani o que foi?- Bianca parecia muitíssimo preocupada, quando ela não estava me empurrando no feno ou me obrigando a brincar de luta ela era uma sempre uma ótima amiga pra mim, quase uma mãe
Olhava minhas mãos louco, analisava minhas unhas agora normais e passava o dedo em cada uma delas
– Daniel está tudo bem? — Guilherme estava me encarando, sua voz era séria e macia
–sim, eu só- não estava muito bem pra contar sobre minhas garras ainda- me machuquei um pouco- eu disfarçava olhando as palmas das minhas mãos, estavam enfaixadas com um pouco de sangue passando sobre o curativo
– Um pouco? — Bianca se transformou de mãe cautelosa é dócil para bicho do mato puto da vida em segundos- você está todo fudido, quase morreu, sua cabeça está sangrando, seu joelho está todo rasgado com osso exposto, suas mãos estão em carne viva, seu peito, braços, coxas e até seu rosto está todo ralado, você quase vira um cadáver graças a nossa fantástica anfitriã Raquel aqui- ela lançou um olhar de puro ódio e raiva para Raquel que se virou e começou a chorar- e você ainda tem a audácia de falar que isso foi pouco?
– ei Bia, calma...- eu tentei erguer meus braços mas eles doíam de mais
– calma? O seu cú Daniel- ela estava furiosa, deu meia volta e saiu do quarto batendo a porta
– ei Raquel?- eu chamei ela calmamente- Raquel olhe pra mim- eu pedi
– eu não consigo, eu sou um monstro- ela tampava o rosto e chorava
– Raquel fica calma, vai ficar tudo bem- ela finalmente tirou as mãos da frente do rosto, e eu consegui ver naqueles olhos que antes eram um doce chocolate, o desespero, a tristeza e a raiva os transformaram em madeira maciça, carvalho puro e impenetrável.

– Calma Raquel, a culpa não foi sua- Guilherme a abraçou e ela se desabou a chorar em seu ombro
– mas fui eu que desafiei, eu fiz ele fazer isso- ela estava arrasada, senti uma pontada de dor e raiva no coração
– Raquel eu aceitei o desafio, eu quis descer o penhasco, eu assumi meu próprio risco, você não tem nada a ver com isso- eu falei até um pouco grosso demais
– vai lá fora, Daniel precisa descansar agora- Guilherme a soltou e abriu a porta para ela
– mas Bianca está puta comigo
– você conhece Bianca, daqui a pouco ela vai estar te abraçando, pedindo desculpas e fazendo um bolo, ela adora bolos
– mas Gui, dessa vez parece sério- ela estava super preocupada e nervosa
– não vai durar muito tempo- ele sorriu para ela e assim Raquel saiu do quarto
Eu estava meio alheio da conversa dos dois até que me lembrei
– Guilherme! — eu gritei e ele se virou imediatamente para mim
–o que foi? Tá com alguma dor? É a cabeça? Costelas?- ele estava aflito
– não, não calma- eu estava pedindo calma, mas a verdade é que eu estava bem agitado por dentro, as imagens do acidente passaram como um flash na minha cabeça
– Daniel o que foi?- Guilherme estalava os dedos na minha frente, estávamos sozinhos no quarto
– a mulher loira- eu sussurrei
– o que?
– a loira, do penhasco, Guilherme...- eu me lembrei dela se jogando e colidindo com a água- tem outra pessoa no penhasco, ela esta ferida, ela se jogou do penhasco, ela...ela...- eu estava chorando e nem tinha percebido
– mulher loira do penhasco?- ele arregalou os olhos e eu confirmei com a cabeça- Daniel, você está bem?
– sim eu estou, mas a mulher, ela está na água, ela caiu, o rosto dela...- eu me lembrei de cada detalhe, da carne pulsante em seu rosto e o olho azul no meio de tanto vermelho- meu Deus, o rosto dela
– ei Daniel, você deve ter tido alguma alucinação, você bateu a cabeça muito forte, não mora ninguém além de nós nessa praia
Eu não sei com o que ficava mais chocado, com as imagens na minha cabeça ou com o que Guilherme havia acabado de falar
" não mora ninguém além de nós nessa praia, não mora ninguém além de nós nessa praia, ninguém, além de nós, ninguém, ninguém" a frase ficou se repetindo na minha cabeça junto a imagem da mulher loira, eu comecei a tremer
– Daniel?- Guilherme me chamou mas eu não liguei, estava assustado, ficando louco- ai meu Deus, Bianca!- ele gritava- traga agora uma bacia de água fria e uma toalha, Rápido!
Em cerca de dois minutos Bianca já estava com tudo em mãos
– o que aconteceu Gui?- ela estava em choque e ofegante
– ele está fervendo, ele está com uma febre altíssima- Guilherme desesperadamente pegou a toalha, molhou na água congelante e a colocou em minha nuca, por um momento paralisei e então ele colocou minhas mãos e pulsos dentro da bacia d'Água
– Dani- Bianca de ajoelhou do meu lado e começou a chorar, eu estava deitado, paralisado, era um pesadelo
Meu olhos estavam quentes, eu estava quente, mas morrendo de frio, tentava desesperadamente me cobrir mas não havia coberta que apartasse esse frio
– Dani- Bianca chorava cada vez mais alto- Dani o que fizeram com você- as últimas coisas que escutei, o resto foi tudo um som continuo de piiiiii, e mais nada, eu via todo o caos lá fora mas apenas escutava o mesmo som. Minha visão se embaçou, começou a ficar turva, eu não via mais formas e sim borrões e tudo ficou preto, o barulho continuo havia sumido e tudo que escutei no final foi uma voz feminina sussurrante
– por que?

Notas finais
Talvez o próximo capitulo demore um pouco mais 😔😩