Guia Prático
1 Como sobreviver ao bebê
A baderna.
Não uma que fosse resolvida com uns berros, umas ameaças aos vizinhos próximos, tampouco algo que se resolvesse ao tirar algum aparelho de som da tomada. Era uma baderna que apenas se acalmava com uma mamadeira quentinha na medida certa, um chameguinho no colo e talvez uma música de ninar.
Definitivamente uma baderna à qual nenhum dos dois estava acostumado.
Tateou então na cama, as luzes ainda apagadas enquanto resmungava baixo sem querer levantar, totalmente entregue ao cansaço. Bakugou então resmungou mais alto, como se o barulho daquela pequena coisinha não fosse o bastante para acordar todo o prédio! (Okay, talvez fosse exagero, mas certamente acordaria qualquer um naquele apartamento).
— Shōto, levanta caralho! — Doce e sutil, cotovelando o outro para que ele se mexesse naquela cama king size, e fosse acolher o pequeno berrador. — É a sua vez.
Era o quê, a terceira noite daquele pequeno bebezinho em suas vidas de modo contínuo, e já havia colocado tudo de cabeça para baixo. O sono de ambos estava desregulado, as olheiras deixavam isso bem nítido. O humor de Katsuki parecia ainda pior, não que fosse flor que se cheirasse.
As luzes apagadas não impediam de notar o movimentar sobre a cama, de ouvir o resmungo baixo e sonolento. Fazendo com que Katsuki pensasse em como aquele infeliz conseguia dormir pesado com uma criancinha chorando no quarto ao lado!?
Tentou se acomodar na cama, puxando o travesseiro de Shōto para tapar os ouvidos enquanto virava para o lado, tapando o rosto da luz que vinha do corredor, agora que a porta fora aberta.
Não dormiu de novo, sequer conseguia manter os olhos fechados enquanto ainda ouvia o choro do bebê. Ouviu também alguns tropeços de Shōto, rindo ao lembrar que tinha mordedor espalhado pela casa, assim como um ou outro brinquedo que eles sabiam bem ainda não ser para o bebê e sua pouca idade.
Do corredor, Shōto ouvia não só o choro, mas a risada de Bakugou, resmungando ainda mais por estar sonolento e sem olhar por onde andava. Seguiu para o quarto recém-decorado do bebê, o abajur que imitava estrelinhas no céu ligado para não deixar aquele pequeno humaninho na penumbra total.
Era incrível como uma coisinha tão pequena conseguia fazer tanto barulho, Shōto pensou enquanto estendia os braços para acolher o bebê em seu colo. Balançando-o de um lado ao outro enquanto tocava com o indicador as bochechinhas rechonchudas e avermelhadas pelo berreiro recente. Os olhinhos fechados e as lágrimas que vertiam como numa nascente. Era gracioso, apesar de definitivamente barulhento. Mas com isso Shōto já estava acostumado, afinal, estava num relacionamento com o mais estridente dentre os heróis: Bakugou Katsuki.
Rindo, notando que aos poucos o bebê cessava o choro, seguiu para a cozinha, onde já havia uma mamadeira pronta para o meio da noite, tal como naquele momento onde o relógio marcava uma e quarenta e seis. Bocejou enquanto esquentava a mamadeira, apenas o suficiente para morná-la. Fazendo uso de nada mais que o próprio fogo da mão, ouvindo um resmungo às suas costas:
— Hfnt! Deveria colocar no micro-ondas, como eu faço. — Katsuki reclamou enquanto aproximava-se esfregando os olhos, para tão logo apertar suavemente as bochechinhas rosadas do filho, e abraçar Shōto, notando como a diferença de altura não diminuiu com o tempo.
Muitas coisas mudaram, claro. Ele estava um pouco mais alto, Shōto também. Havia um novo corte de cabelo, para os dois. Katsuki havia deixado os fios loiros crescerem um pouco mais, enquanto Shōto havia cortado muito mais os fios, deixando-o batidinho na nuca, um corte mais volumoso em cima, num arrepiado que lhe caia muito bem. Os fios ainda em dois tons, os olhos em dois tons, embora agora óculos de leitura fossem mais recorrentes. Haviam envelhecido bem, a vida como heróis era boa, trazia frutos e reconhecimento; claro, também perigos.
— Ele é lindo. — Shōto falou enquanto o pequenino fazia máximo esforço com as rechonchudas bochechas para puxar o leite na mamadeira, as mãozinhas à esmo buscando tatear o ar, ou quem sabe se firmar em algo. Fora a deixa de Bakugou, ainda abraçado ao companheiro, para pegar aquela mãozinha com seu polegar e indicador.
— Ele é. — Havia uma suavidade ímpar empregada na timbre, emoção.
Os cabelinhos castanhos estavam desgrenhados por livrar-se da touquinha que vestia antes de dormir e começar o berreiro. As sobrancelhas ralinhas e a boquinha ocupada e suja de leite. Gordinho, tão pequeno e frágil. Fora achado em meio aos escombros, num dos salvamentos no qual heróis chegaram um tanto tarde para salvar a todos. Mas o encontraram, ou, como Katsuki gostava de dizer, ele os encontrou. Entrou em suas vidas, colocou tudo de cabeça pra baixo, mas os fez mais felizes, sem dúvida!
— Tem seu gênio, como pode?
— Como assim, pavê, seu desgraçado. Tá me chamando de chorão e birrento? — O beliscão nas costelas fez Shōto reclamar e se mover, buscando livrar-se do toque não muito sutil.
— Bem, eu não disse isso. Na verdade, você quem tirou as conclusões. — Riu, abafando o quanto pode para não acordar o pequeno Naoki. A mamadeira quase em seu fim, mas a boquinha já não mais puxava o líquido com a mesma intensidade, o espaçamento entre uma sucção e outra havia aumentado, e muito.
Era por sorte que Shōto tinha o filho nos braços, sabia bem que isso acarretaria em Katsuki uma onda de raiva que seria facilmente quebrada em berros, numa discussão acalorada por parte apenas dele, que terminaria num diálogo quente sobre os lençóis da cama. Coisa que, não estavam com tempo e disposição de fazer quando o pequeno Naoki finalmente foi entregue a eles, com guarda total.
— Está com sorte que tá com ele no colo, caso contrário engoliria esse sorrisinho triunfante. — O jeito impetuoso não havia mudado muito, mesmo que Best Jeanist tenha feito o melhor para moldá-lo com modos de um herói! Ainda tinha o dedo do meio em riste, mandando Shōto à merda, de modo silencioso, mas efetivo.
— Vou colocá-lo no berço, vai continuar na cozinha? — a pergunta veio suave, como tudo em Todoroki, a calmaria em pessoa, ou como Katsuki dizia às vezes, o dormente.
Recebeu como resposta um meneio de cabeça, enquanto Bakugou tomava a mamadeira em suas mãos para colocá-la para lavar, vendo os dois se afastarem em passos lentos, com Shōto quase bailando para manter o bebê adormecido.
Quando voltou para o quarto, Shōto já parecia dormir virado para seu lado na cama. Descobriu que não quando, ao deitar, sentiu o braço dele a envolvê-lo pela cintura, puxando-o para mais perto enquanto parecia cafunga-lo na nuca, trazendo arrepio à pele sempre sensível a toques naquele local.
— Amanhã meu pai vem para ficar com ele, enquanto vamos à última reunião com o juíz, para assinarmos a guarda. — A voz novamente sonolenta, como se o sono estivesse apenas em stand-by por aquele tempo enquanto na cozinha.
— Eu marquei com minha mãe, ela e meu pai vem amanhã. Era esse o combinado, não?
— Katsuki, nossa casa não vai sobreviver à nossa família junta. Lembra o último feriado que comemoramos em família? Sua mãe tirou meu pai para uma queda de braço. — o bocejo veio, um selar de lábios na nuca de Katsuki também.
— Não tenho culpa se seu pai quase perdeu feio, a coroa manda muito bem.
Riram.
Seria complicado sobreviver aos dias com um novo integrante na família, mas a missão difícil mesmo seria para o bebê sobreviver a um dia com os avós.
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