Kaàkur liberou que os Arknats fossem descansar, embora eles não precisassem já que o pouco que descansaram naquela noite, teria sido o suficiente para aguentar mais dois ou três dias de viagem. Mesmo assim, respeitaram a ordem do senhor das Terras dos Mártires, já que este sim, parecia ter se esgotado com a longa conversa que acabaram de ter. Urkatho os levou para um pequeno casebre ao lado da casa de seu senhor, tão escura e fria como tantas outras, no entanto havia uma pequena lareira que foi acesa para que eles pudessem se aquecer. Urkatho disse que iria providenciar algo que eles pudessem comer, mas os Arknats se recusaram. Seria falta de educação recusar uma caça de qualquer coisa que Urkatho os trouxesse, por isso foi mais fácil dizer que não estavam com fome. Mas estavam.

Os jovens se puseram a pensar por todo o resto de noite, ou dia, já que naquele lugar a noite parecia não acabar. Eles conversavam sobre o que Kaàkur havia lhes falado e foi Jhuan que a todo o momento, indagava a real existência dos Söllys.

— Não posso acreditar que fomos enganados todo esse tempo. – dizia ele constantemente.

— Enganados? Vai colocar em prova os ensinamentos e o real motivo de estarmos aqui? – disse Káros.

— Vocês querem realmente começar uma briga? Ainda mais neste lugar? – perguntou Táro — É um fato que o que o senhor Kaàkur disse tem sentido, no entanto, mesmo que a verdade seja essa, não somos ninguém para punir as atitudes do Divino, sendo que ele deu a permissão a Sölly para nos criar. Ele deve ter tido seus motivos para resgatar os deuses das terras que Netus consumiu, e tê-los trazido para cá. Tal como teve seus motivos para dar vida a Sölly e a Lyha, tal como deu a permissão para que ambos criassem vida em Gáler. Ele é o Divino, logo seus atos não podem ser contestados. E o que garante o que Kaàkur disse é a verdade? Como ele mesmo disse, foi uma história que Netus contou a ele, e esta talvez seja a verdade absoluta de Netus, o seu ponto de vista. Jamais saberemos o que de fato aconteceu ou motivos por estarmos nessa situação.

— Sim, faz sentido o que diz Táro. – disse Káros colocando a mão no ombro de Táro — Não devemos nos atrever a contestar, devemos fazer. Levando em conta que seja esse nosso propósito. Talvez o Divino já tivesse seus planos antes mesmo de Netus ser criado.

— Káros, você mesmo mencionou ao recaído, que achava estranho o Divino ter criado Netus, se já sabia seu real propósito.

— Jhuan, eu tenho minhas indagações e embora eu as tenha mencionado naquele salão, prefiro guardar minhas ideias a mim. Nada sei além do que nos é ensinado, e devo respeitar tal situação.

— Quando voltarmos a Söllaghe, nós vamos pedir algumas explicações a Madros, ele tem o dever de nos contar a verdade, no mais, qual o motivo de estarmos aqui? – disse Táro.

— Madros vive agindo de forma contraditória. – disse Jhuan.

— Por que diz isso?

— Táro, meu nobre, foi Madros parece nunca dizer de fato, o que queremos ouvir, agora eu percebo isso.

— Talvez, mas ele mesmo disse que nossos senhores disseram nosso nome, e se o nosso nome foi dito dentre tantos algum motivo existe. – disse Káros, sentando agora num banco próximo à lareira.

— Lembram o que Kaàkur disse sobre destino? – interpelou Táro – Que o destino ainda não havia sido criado, logo ele não acreditava que o destino nos colocou perante a ele. E se o destino começou a ser escrito? Quero que entendam que estou criando suposições, talvez ilógicas, pois a lógica cabe a eu entender. Mas acredito que se há um destino, ele começou no momento em que fomos escolhidos aleatoriamente para sermos os Arknats.

— Talvez não tão ilógico assim meu amigo. – disse Káros — Kaàkur disse sobre o acaso, e eu particularmente não acredito no acaso. Não encontramos com Urkatho a toa. Ora, de tantos lugares que poderíamos encontrar, nós iríamos parar bem cima do covil do primogênito de Netus?

— Acredito que muitas perguntas irão surgir durante nossa estada nessas terras.

— Táro, você e Káros estão cegos. Eu acredito no que Kaàkur disse, faz total sentido vendo que nunca vimos o outro lado.

— Não vamos mais discutir sobre isso. Se Kaàkur é o primogênito ele tem poderes, e pode estar nos ouvindo nesse momento, tal qual a Madros.

E Táro estava certo. Não ao saber se tanto Kaàkur como Madros estavam os ouvindo, mas sim que eles poderiam ouvir se assim quisessem. Então logo o silêncio reinou até que Urkatho batesse na porta. Foi Jhuan que a abriu.

— Ah sim, a horrível e tenebrosa criatura de Gúmor.

— Oncor, senhor. Gúmor é uma região de Gáler, e eu fui criado noutro mundo. – disse Urkatho cuspindo no chão — Vamos, meu senhor deseja que eu os leve ao centro da cidade.

— E por qual motivo?

— Káros, não é? Apenas venham.

Os Arknats seguiram então aquela criatura pelas ruelas da cidadela. O silêncio de quando eles chegaram fora rompido com urros e muita gritaria em um idioma inteligível aos ouvidos dos Söllys. Eles mal podiam esperar o que estava por acontecer, e talvez seus olhos apenas estavam preparados para o que iriam enfrentar. A cidade não era grande, já que os casebres eram habitados por dezenas de criaturas que viviam aglomeradas. Mas naquele dia estes casebres estavam vazios, pois todos estavam no centro. Logo eles chegaram, e um corredor foi aberto para que eles pudessem passar. Muitas criaturas tentavam se aproximar deles, mas temiam, e voltavam atrás. Queriam os atacar isso era evidente, mas os Arknats não esboçavam nenhuma reação aos ataques furtivos e fracassados. À frente, bem no centro do grande circulo, estava Kaàkur, imponente e mais translúcido do que eles poderiam imaginar. Ao seu lado dois enormes troncos e entre eles uma criatura enorme e gorda, com a pele grossa e escura, tinha uma enorme boca que estava fechada com pregos e seus olhos estavam vendados.

— Que bom que vieram. – disse Kaàkur.

— E o que realmente estamos fazendo aqui? – perguntou Táro.

— Lembram o que eu disse ontem, sobre nos mantermos vivos para não sofrer um castigo ainda pior nos salões de Netus? Pois bem, acontece meus caros que todos esses são meus afilhados. Toda criatura que é expulsa de Oncor, eu recolho e os trago para cá. Mas tal qual lá ou em outro lugar, aqui também tem regras, e este desertor quebrou uma delas.

— E qual seria? – indagou Káros.

— Ele saiu sem a minha permissão, colocando em risco o nosso esconderijo.

— E o que o motivou a sair? – perguntou Táro.

— Seu faro. Ele captou algo acima de nós, que aparentemente estava roubando os seus cavalos.

— Exatamente quem estava fazendo isso? – perguntou Jhuan se aproximando da criatura amarrada entre os troncos. Jhuan parecia um anão perto dela.

Kaàkur caminhou até as costas da horripilante criatura, e o frenesi se instalou na cidade dos Mártires. Foi quando ele ergueu a mão e todos se calaram.

— Que todos fiquem cientes, que o que faço é para manter a ordem. Se não estiverem satisfeitos, formem uma fila e sofram o castigo. Mas saibam que o castigo de Netus é muito pior do que vocês possam imaginar.

Foi então que Kaàkur retirou um bastão da cintura e o sacudiu, e uma imensa corda de fogo se criou. Talvez tenha sido cem, ou mais açoitadas que a criatura levou, em agonia muda por não conseguir gritar já que sua boca estava selada pelos pregos. A criatura ficou irreconhecível depois e algumas criaturas ao redor se aproximavam para beber o sangue que estava empoçando no chão. Para os Söllys foi evidente a tortura, e todos os três se viraram em choque pelo o que viram.

— Já chega! – gritou Táro – Por mais medonha que seja esta criatura, ela merece isso?

— Vejamos então jovem Söllys, o que diria se o que ele farejou foi um dos seus, e sua vontade de comê-lo foi maior do que a infração cometida.

—Um dos nossos?

— Sim Jhuan. No meu castelo, deitado e sem vida, esta um Söllys de cabelos louros trançados.

— Não acredito, nenhum outro Söllys tem a permissão de sair das terras do reino.

— Táro, aquilo que chamam de O Portal, não é a única saída para cá. Você bem sabe disso.

— Do que ele esta falando Táro? – perguntou Káros.

— As Montanhas Áridas? Mas Madros não mencionou nada sobre isso...

— Como eu disse, seu senhor mantém informações em sigilo.

Eles não acreditaram no que ouviram de Kaàkur. E ainda mais, não acreditaram na atitude que ele estava tomando. Punindo um afilhado¸ assim como o chamou, por ter matado outro Söllys? Não tiveram dúvida. Saíram correndo para o castelo de Kaàkur, e no meio do caminho ouviram um forte urro e bem a frente uma enorme cabeça caiu, fazendo com que os jovens parassem de correr por um instante.

Chegaram então ao castelo, e empurram a porta. E não precisaram demorar muito para encontrar o corpo do Söllys largado no centro do salão. As toras que foram acesas na noite anterior, ainda trepidavam lentamente. Foi Jhuan quem se aproximou primeiro, e se ajoelhou, observando o Söllys que ali estava. Logo depois foi Káros, e em seguida Táro.

— Herkái. Crescemos juntos. – disse ele.

— E como ele foi parar aqui?

— Ele era meu amigo, e acredito que tenha acreditado quando eu mencionei o que vi na Montanha Árida. Uma passagem para este mundo. Uma passagem que estavam tentando ultrapassar. Ele deve ter se sentindo no direito de vir até nós, era tão estúpido e maravilhosamente inocente de seus atos. Descanse meu amigo. Que a luz das terras do Jardim do Sol o receba com gratidão e alegria.

Táro se abaixou e colocou sua mão no coração de Herkái. E o luto se fez presente, com o silêncio e lágrimas. Eles haviam perdido o primeiro Söllys.