Guerreiros de Gáler
13 O homem de pedra
Era difícil acreditar, mas eles acabaram de encontrar um dos deuses perdidos. Uma dama, ainda sem nome.
Mas foi inevitável o olhar de Jhuan para Káros e Táro em sua total desaprovação em abandona-los.
– Sei que ela disse para ir sem medo, mas o que pode garantir que não seja Netus? – perguntou ele.
– Não saberemos. – disse Káros colocando sua mão no ombro do amigo – Mas não temos opção a não ser seguir sua ordem. Vá meu amigo, que a graça de Sölly o cerque de sorte.
Jhuan não olhou para Táro, apenas se virou e saiu, levando consigo o cavalo que há pouco Táro tentou sacrificar. Os dois ficaram vendo seu amigo partir, novamente para aquele deserto que há pouco tentou os matar em suas mentes. Os outros cavalos pareceram por certo momento, pensativos, até que tomaram a decisão de seguir Jhuan.
– Eles são tão sensatos. – sussurrou Káros – Vamos, devemos seguir ao norte. Alias, tudo esta no norte.
Táro olhou Jhuan desaparecer e logo depois seguiu Káros, que já estava um pouco à frente. Estavam sozinhos. Talvez perdidos. Com fome. Cansados. E agora eram apenas dois, e não tinham certeza se Jhuan chegaria vivo as terras de Madros.
Seus passos pareciam levar mais tempo para alcançar a frente, embora já tivessem percebido que estavam longe da onde Jhuan partira. Mas a pergunta que não queria calar, o que a deusa quis dizer com “Eu senti você. E embora eu saiba o motivo eu não posso neste momento te dizer...” ? Qual teria sido o motivo que a trouxe até eles? E será que quando eles encontrassem outro deus o destino de algum deles também seria esse? Retornar sozinho?
– Veja Táro. Ali na frente. Creio que nossa angustia passe agora!
A frente era possível de se ver um grande vale verde, embora sem árvore alguma, e até onde seus olhos alcançavam, podia ser ter mais a frente, outro vale, com dezenas de rochas sobrepostas formando imensos monumentos naturais. Eles chegaram à grama e se deitaram e puderam sentir um pouco de frescor, pois agora existiam núvens que podiam amenizar o calor de Sölly.
– Acredito que aquele deserto não seja tão rigoroso. Sua luz queima, mas não tanto. Com toda certeza existe maldade naquele lugar, e só precisamos atravessar uma linha.
E Káros estava certo, havia uma linha que separava a terra seca da grama, e quando eles a atravessaram puderam sentir alivio, tanto em suas mentes quanto em seus corpos. Colocaram novamente suas vestes e descansaram um pouco, e não demorou até que pudessem ver no céu pontinhos luminosos. A noite estava chegando.
– Engraçado, Lyha deveria aparecer tal qual como Sölly.
– Talvez ela não esteja pronta para mostrar sua beleza. – disse Táro que estava à frente – Devemos prosseguir, talvez encontremos algo para comer.
– Um peixe quem sabe?
– Não sinto a presença de água. Ao menos não por essas regiões.
Eles se levantaram depois de cochilar um pouco, e seguiram para o norte. Calados. Káros ainda não conseguia digerir a ideia de que Táro havia retirado o coração de Hérkai e dado a Kaàkur como presente. Embora já estivesse aceitando a ideia de que o presente pudesse ter algum efeito positivo, no entanto ele ainda não havia decidido se para eles ou para Netus.
Quase pelos primeiros raios de Sölly no horizonte, eles já estavam no que Táro mencionou ser “deserto de pedras” onde, como dito anteriormente, se tratava de imensas pedras e rochas empilhadas umas as outras, formando imensas colunas. Não estavam distantes e sim agrupadas, como se uma imensa montanha tivesse sido explodida naquele local. Mas tais indagações sobre o que teria causado aquilo, e se aquilo teria realmente acontecido ficara para depois, pois Táro deu um grito.
– Um coelho! – e ele lançou um raio de luz na direção do pequeno animal.
O raio de luz seguiu o animal por ali e acolá numa velocidade frenética enquanto eles podiam ver as grandes orelhas do animal saltar pedra sim e pedra não na tentativa de fuga do raio. Táro e Káros corriam atrás do raio, até que de repente viram uma grande rocha com uma fenda, por onde o coelho passou, e logo depois o raio. Viram brevemente que o raio desceu, como se ali fosse à passagem para uma pequena caverna.
– Eu irei! – disse Táro – Estou mais familiarizado com cavernas.
– E eu não diria ao contrário, escuridão me causa certa euforia. – disse ele rindo.
Táro sorriu levemente e adentrou a fenda.
– Está muito escuro aqui, eu não consigo ver por onde – a voz de Táro foi ficando cada vez mais longe — o raio desceu e muito menos o coelho, acho que vou dar mais alguns passos e...
–Táro? – chamou Káros. Seu coração chegou à boca e seu corpo começou a tremer – Táro, meu amigo, eu sei que tivemos nossas indiferenças há pouco, mas tal brincadeira é por demais de mau gosto.
Não era brincadeira de Táro, ele seria incapaz de agir de tal forma ainda mais estando em terras desconhecidas, mas Káros temeu. Temeu que o amigo tivesse caído na escuridão, mas temia ainda mais o fato de ter que entrar na fenda para ver o que poderia ter acontecido. Hesitou durante alguns minutos, fitando a fenda ao longe, esgueirando com a cabeça na ânsia de uma resposta de Táro que não veio. Mas ele é um mágico, e a única coisa que poderia fazer seria magia. Fechou os olhos e pensou no que podia fazer e sibilou a palavra Hasenár que em sua língua seria “revele-se”. Foi então que sentiu um leve tremor em seus pés, e o medo mais uma vez tomou conta de seu corpo. Deus alguns passos para trás enquanto pequenas pedrinhas se movimentavam em direção a fenda. Ouviu um assobio algo e sua percepção fez com que baixasse a cabeça, bem no momento que uma imensa pedra passara por cima de seu corpo. Pouco a pouco todas as pedras e rochas pareceram ganhar vida e foram se juntando a rocha com a fenda. Káros sentiu o pulso forte e seu corpo foi envolvido por desespero quando se deparou com um imenso homem de pedra ganhando forma. Era majestosamente grande e duro, levando em consideração do que era feito. Logo seus olhos se formaram e aquela fenda se virou para a horizontal se transformando em uma imensa boca. O homem de pedra então se pôs de pé e fitou o homenzinho que abaixo estava, parecia ter fúria em seus olhos, e Káros se viu em grande perigo. Estava sozinho.
– Àrtah! – disse o homem de pedra com uma voz impactante que fez o chão tremer – Quem é você? – completou ele.
– Sou... eu sou...
– Diga seu nome ou irei pisá-lo e transforma-lo em areia!
– Sensato... — ironizou ele — Sou Káros.
O homem de pedra se silenciou. Ergueu a cabeça como se estivesse procurando por respostas. Se virou e olhou para Sölly, depois de algum tempo, com a tremenda dificuldade.
– Eu o esperava jovem Söllys, embora eu pensasse que fosse um pouco mais corajoso.
– Como sabe quem sou, e que não sou aquele que deve temer?
– Eu não tenho o porque temê-lo, isso é me refiro ao decaído.
– Acredito que não deva mesmo, mas em minha simples insignificância perante a sua altura eu devo perguntar seu nome...
– Sou Thèro, um dos deuses a quem você procura.
– Imenso prazer em enfim tê-lo encontrado, senhor Thèro.
– O prazer é todo meu. No entanto havia outro com você, não?
– Receio que o senhor tenha o engolido. – disse Káros incerto.
Thèro resmungou alguma coisa e logo depois se abaixou lentamente, abriu a imensa boca e Táro saiu. Então se pôs de pé novamente.
– Peço desculpas, mas nessa forma física eu não tenho paladar. – Thèro passou tossir ou algo do tipo, e levou a mão até a boca. Vagarosamente inclinou o corpo e colocou o coelho no chão, que saiu saltitando rapidamente dali.
– E lá se vai nossa refeição! – disse Táro, que até o presente momento ainda não tinha se dado conta que Thèro estava a suas costas.
– Táro, olhe para trás.
Táro olhou e se maravilhou com o que estava vendo.
– Muito prazer Táro, deve ser este o seu nome já que seu amigo o pronunciou, eu sou Thèro, o majestoso, o segundo da linha de sucessão do reino de Alunàr, e receio que estavam à minha procura.
Káros então se pôs a falar sobre os últimos acontecimentos e sobre a deusa que acabaram de encontrar, e sua ordem para que Jhuan voltasse para as terras protegidas de Madros. Comentou sobre Netus e sobre a guerra que estava por vir, e que fora incumbido a eles procurarem pelos três deuses, antes que Netus assim o fizesse.
– Compreendo. Encontraram a Dama da Floresta. Uma bela jovem por assim dizer... – disse Thèro que se sentou – Alunàr era um lugar lindo, com suas paisagens que sempre mudavam a luz do amanhecer. Seus rios e mares, suas planícies e montanhas, seus castelos e seres... tudo era lindo e calmo, e a luz reinava com vontade. Mas foi ele que causou o medo, ele que causou a dor. Netus, o decaído.
– Ele era um habitante de Alunár. – perguntou Káros.
– Ele era o primeiro da linhagem pura do Divino. Mas algo aconteceu com ele em meio a criação, ele achava que poderia se igualar, e foi quando a escuridão se criou. Não a escuridão da noite, que é tão linda em sua pureza quando a luz do dia, mas uma escuridão passível de dor e revolta. Foi ele que causou o primeiro sentimento contrário ao amor, o ódio. Pouco a pouco a escuridão foi ganhando forma em Alunàr, e Netus acabou se escondendo nas montanhas do norte para criar seus discípulos. Mas ele nunca teve muito êxito, sempre acontecia algo de errado e eles eram execrados para o Oeste, se tornando apenas meros soldados que podiam ser dispensados a qualquer momento. Mas houve um dia que Netus se revoltou e ascendeu ao poder. Alunàr se viu perante ao caos e uma guerra se iniciou. Ele levou todos para o abismo da vida, mas eu resisti, assim como a Dama da Floresta e Nièkor, o Senhor D’ouro. Decidimos partir para um mundo novo ao qual tínhamos certeza de que o Divino iria nos proteger, e então na vastidão do universo encontramos um lugar que estava sendo criado, e escolhemos aqui como nossa morada. Mas receio que Netus tenha nos encontrado, ele é sagaz e obviamente jamais deixaria seres como nós habitarmos um lugar mágico como esse. Ele é um usurpador de mundos, po não pode criar um, logo devasta o outro.
– Sabe onde podemos encontrar Nièkor? – perguntou Táro.
– Mas é lógico que eu sei, mas receio que ele seja um pouco duro, no entanto talvez eu possa controlar seu coração. – Thèro se levantou e se curvou pedindo para que os Söllys subissem em sua mão – Venham comigo, será mais rápido através de meus pés, do que com os seus. Ele fica a margem do mar, junto do povo que o acolheu.
– Existem outros? Eu pensei que éramos os únicos além dos Oncorianos.
– Meu nobre Káros, nenhum lugar é inabitado! Vamos, não podemos perder tempo.
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