Guerra é Guerra
7 Sasuke em dobro
Notas iniciais

Capítulo 6
por N.C Earnshaw
SER HOKAGE ERA A SEGUNDA coisa mais difícil que ele já tinha feito na vida. A papelada era imensa, os horários malucos, e ele tinha que arranjar um jeito de ler clandestinamente seu livro favorito sem ser pego por Shizune. No entanto, apesar de ser uma missão integral, cuidar de uma vila inteira nunca superaria o trabalho que seu time de ex-genins dava.
Quando Kakashi Hatake achava que não conseguiria se surpreender com mais nada na vida, aquele trio dava um jeito de superar totalmente suas expectativas.
— Outro Sasuke? — A voz do Rokudaime soou incrédula enquanto ele alternava os olhares de um Sasuke para o outro, sentindo algo dentro de si, berrar. Um Uchiha ele podia aguentar, mas dois… Que Kami o ajudasse!
Sasuke bufou alto ao presenciar o drama do atual Hokage e abriu a boca para retrucar. Entretanto, antes que ele o fizesse, Sakura assumiu o controle, cansada demais para ouvir mais uma discussão desnecessária.
— Ele apareceu de repente no campo de treinamento — explicou a Haruno com uma postura profissional. — Encontrava-se com alguns ferimentos, mas nada que eu não pudesse curar. Não percebemos qualquer sinal de outra presença por perto no momento da explosão.
Kakashi assentiu, pensativo.
— Esse Sasuke pode representar algum perigo? — Os três membros do time 7 encararam Charasuke por alguns segundos, pegando-o no flagra enquanto ele se admirava no reflexo da pequena TV do apartamento. — Vocês dois vão ficar responsáveis por ele — determinou o Hatake não se aprofundando demais na “ameaça” sentada no sofá.
Sakura percebeu que Sasuke quis reclamar e concordou prontamente com o líder, levando Kakashi até a porta sem deixá-lo se demorar ainda mais. Não queria que o Uchiha tivesse tempo para se queixar e dar um jeito de colocar Charasuke em uma cela qualquer.
Ela fechou a porta com um baque forte e suspirou aliviada. Quando se virou, deu de cara com um Sasuke irritado e conteve um grito ao ser pega de surpresa ao ir de encontro do corpo dele.
— Sasuke-kun!
— Não vou ficar de babá desse idiota — reclamou o ninja, segurando a mão que ela tinha pousado em seu peito sem perceber.
Sakura corou furiosamente quando se deu conta que o tocava, mas se conteve e puxou sua mão da dele. Se ficasse por mais alguns segundos com sua pele em contato com a do seu Sasuke-kun desmaiaria com toda certeza.
— Preciso de roupas novas — interrompeu Charasuke, colocando-se entre os dois.
Ambos o fitaram sem compreender.
— Acham mesmo que vou ficar usando esses trapos? — Sasuke sentiu uma súbita vontade de socá-lo quando ele mostrou a camiseta que usava como se fosse um pedaço de lixo. — Preciso de alguma coisa que faça mais o meu estilo.
Sakura arregalou os olhos levemente e tocou um braço de Sasuke com discrição, vendo que faltava muito pouco para ele iniciar uma luta.
— Claro! — concordou a Haruno fingindo animação. — Podemos aproveitar e comprar mais comida.
Charasuke, que não aguentava mais ficar preso naquele apartamento minúsculo, foi em direção à porta com um sorriso largo no rosto, pronto para desbravar a Konoha daquela dimensão e ter mais espaço para conquistar Sakura. Não dava para criar um clima romântico naquele cubículo, e olha que ele havia tentado.
Entretanto, antes que o Uchiha* de outra dimensão desse mais um passo para chegar até sua liberdade, uma risada debochada o fez parar onde estava e se virar já com fogo nos olhos.
— Do que está rindo, versão mais feia e deformada de mim? — inquiriu Charasuke com o semblante retorcido em desgosto. Odiava que rissem dele.
— Tsc, tsc… Você só pode ser idiota mesmo. — Sasuke cruzou os braços e balançou a cabeça, nada surpreso com o nível de estupidez da sua cópia. Versão mais feia e deformada? Por favor! Aquele cara deveria olhar para o próprio umbigo! Até o Dobe conseguia ser mais inteligente que ele. — Não acha que as pessoas vão suspeitar ao ver dois de nós andando lado a lado? — explicou com um sorrisinho de canto. Com certeza ele era o Sasuke superior.
Charasuke sorriu malicioso diante das ideias que surgiram em sua mente.
— É uma pena não ter sua adorável presença no nosso passeio, Uchiha-san. Sakura-chan e eu ficaremos inconsoláveis sem você — dramatizou o ninja. Ele chamou Sakura com o dedo, encarando-a com o olhar mais sensual que possuía. “Ela não vai resistir”, pensou eufórico para si mesmo, animado em passar um tempo de qualidade com sua garota.
Sakura soltou uma risada nervosa ao sentir o chakra do seu Sasuke-kun oscilando e cruzou os braços atrás de si, tentando achar uma forma de dizer a Charasuke que preferia ir a uma missão Rank-D estúpida a ficar sozinha com ele por horas. Ainda se sentia desconfortável demais ao lembrar da mão dele apalpando seu traseiro, mesmo que soubesse que consideraria aquele ato como a única experiência sexual que teve em toda sua vida.
— Sinto muito, Cha- Sasuke*, — corrigiu-se. — mas o Hokage-sama designou nós dois para acompanhá-lo e não podemos desobedecer uma ordem direta.
Charasuke ficou em silêncio, sentindo a decepção tomar conta de seu corpo. Aquele outro cara estando presente no passeio apenas estragaria seus planos de ser romântico.
Sakura entendeu sua quietude como dúvida, e se adiantou para arranjar uma solução.
— Um de vocês… — Sasuke limpou a garganta e a fuzilou com os olhos. — Você vai ter que usar um henge — explicou a Haruno com um sorriso sem graça.
— Está tudo bem, Sakura-chan — garantiu o ninja da outra dimensão, surpreendendo Sakura.
Se o Sasuke-kun daquele universo era posto em uma situação que ele não gostava, fechava a cara e resmungava por horas a fio. No entanto, aquele outro Sasuke* somente sorria e levava tudo numa boa, preocupado em agradá-la para não deixá-la chateada. Ela não podia negar que eram muito interessantes as diferenças entre eles…
࿐
Sakura Haruno nunca foi a garota mais popular durante sua infância ou adolescência. Sua testa era grande demais, não tinha os peitos fartos como Ino ou Hinata, e antes faltava-lhe a confiança que somente uma mulher completa parecia possuir. Entretanto, após o treinamento com Tsunade, tudo mudou. Apesar de sua testa não ter diminuído ou seu peito crescido num passe de mágica, a Haruno conseguiu algo que sua versão pré-adolescência nem considerava importante um dia ter. Amor-próprio.
A construção do amor-próprio foi difícil, e diversas vezes ela se pegou se humilhando em situações fora de seu controle, clamando o amor de alguém que, aparentemente, só queria sua amizade.
Sasuke caminhava do seu lado esquerdo com as mãos enfiadas nos bolsos. A postura indiferente chamava a atenção de todas as garotas que passavam por ele, e Sakura não as recriminava. Ele era o espécime masculino mais bonito que ela já teve o prazer de ver em sua vida. Os olhos negros guardavam milhares de segredos, a boca pequena e vermelha clamava por um beijo e os músculos discretos do seu corpo a faziam desejar… Ela balançou a cabeça, não suportando o rumo que seus pensamentos tomavam. Sasuke Uchiha não a queria, tentou se lembrar. Ele nunca a tocaria como um homem toca uma mulher, por mais que ela desejasse que ele o fizesse. Tinha que se contentar com a amizade que ele lhe oferecia.
Sasuke estranhou a careta que se formava no rosto de sua companheira de time e teve que contar a súbita vontade que teve de indagar o que estava passando em sua mente para deixá-la daquela maneira. A Haruno era sempre tão sorridente que quando seu semblante ficava sério, o Uchiha tinha certeza que algo não estava indo bem.
Ele encarou sua cópia que andava do lado direito da kunoichi, tentando saber se ele tinha feito algo novamente, e sentiu um estranho alívio ao não ver um rosto idêntico ao seu. Era esquisito para si, ver alguém que era ele, mas com expressões e personalidade tão diferentes. Charasuke tinha escolhido se transformar em alguém completamente oposto. Os cabelos lisos e negros tornaram-se loiros e crespos, a pele pálida estava bronzeada e os olhos negros de um verde idêntico ao de Sakura.
O Uchiha semicerrou os olhos ao ver a quantidade de sacolas que o outro segurava. Ainda não descia bem para ele o fato do idiota ter desdenhado de suas roupas. A vontade que tinha era de tê-lo deixado nos farrapos cobertos de sangue e poeira. Playboyzinho mimado.
As ruas de Konoha não estavam tão lotadas como o usual. Era horário de almoço e os habitantes do vilarejo enchiam os restaurantes para comer no pouco tempo de intervalo que possuíam. Era uma vantagem para o trio; principalmente para o ex-vingador que odiava multidões.
Barraquinhas de frutas e verduras atraíram a atenção de Sakura, em especial os tomates suculentos expostos. Tinha percebido na noite anterior que ambos os Sasuke’s amavam qualquer comida em que o ingrediente principal fosse aquela fruta.
Ela não deu atenção a Charasuke que se afastava. Confiava que ele não tinha qualquer motivo oculto para sumir ou fugir deles.
— Sasuke-kun — chamou a Haruno ao perceber o olhar focado de Sasuke em Charasuke. Ele levava suas missões tão a sério que chegava a ser engraçado. — Pode me ajudar a escolher alguns tomates?
Sasuke sentiu uma quentura estranha do lado esquerdo do seu peito. Era agradável ver Sakura se importando tanto consigo, pois era uma informação universal que Sasuke Uchiha era louco por tomates, e a primeira coisa que ela buscou na barraca foi a fruta que ele tanto amava.
— Onde acha que o Dobe se meteu? — puxou assunto sem desviar os olhos do tomate que analisava.
Ele se virou para ela quando sua resposta não veio, e seu coração disparou ao ver que Sakura o lançava um sorriso malicioso.
— Aposto que está com a Hinata — riu ela, achando hilário o quão grudento Naruto era com a sua “deusa de olhos perolados”.
— Eles são nojentos — brincou Sasuke fazendo uma careta.
Sakura o fitou surpresa e riu ainda mais.
— Eles estão apaixonados. É normal agir como um bobo quando se está com a pessoa que se ama.
Sasuke não gostou da tristeza que tomou sua voz.
— Você…
Uma mão surgiu do além e colocou uma flor em frente aos olhos de Sakura, atrapalhando o que quer que fosse que Sasuke iria perguntar. Ele sentiu uma onda de raiva surgir ao perceber o olhar encantado que a Haruno lançou por trás dos seus ombros, entusiasmada com a beleza da singela flor.
— Uma flor… — dramatizou Charasuke estendendo a flor com uma das mãos e com a outra sobre o coração. — para a mais bela flor do jardim de Konoha.
Sakura aceitou a flor e a levou ao nariz para sentir o cheiro leve. Um sorriso cálido se abriu em seu rosto, e o ninja de outra dimensão sentiu o chão aos seus pés abrir. Ela era a coisinha mais linda e delicada que ele já vira!
— É muito cavalheiro da sua parte me trazer flores — agradeceu a Haruno com as bochechas coradas.
O tomate que Sasuke segurava na mão virou papa, fazendo com que o líquido escorresse pelos seus dedos, tamanha a fúria que sentia.
Charasuke se empertigou, ansioso por qualquer coisa que ela fosse falar.
— Mas não caio mais nessa. — A garota lançou um olhar zombeteiro para o Uchiha*, pegou a sacola de tomates que Sasuke tinha separado e foi em direção à outra barraca, ignorando o estado de letargia que tinha deixado os dois.
Sasuke deu um sorriso de canto ao presenciar a derrota do seu rival e o encarou com desdém.
— Sakura não é como as outras. Ela não é conquistada com bobagens como flores ou bombons — “aconselhou” o Uchiha, sentindo-se vitorioso. — Se a conhecesse um pouco saberia disso.
Ele deixou o outro para trás e seguiu Sakura, não oferecendo ajuda para Charasuke com as sacolas. Se ele possuía energia o bastante para flertar, também tinha para carregá-las.
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