Guerra Mutante: A Relíquia Roubada

23 23 - A verdade é revelada da pior maneira possível


Lá estava eu novamente, de frente para o hospital. Observei a construção durante algum tempo, hesitante em entrar. O que eu falaria para minha mãe? “Ah, oi mãe, que bom que você acordou. Olha, eu saí daqui do Abrigo, quase morri umas 10 vezes e matei um monte de gente, inclusive o assassino do meu pai e de Willian, mas fora isso eu estou bem.” Com certeza, não falaria assim.

Eu analisei o meu anel no meu dedo anular. Seu ouro brilhava com a luz que refletia nele. Em meu bracelete, estava o bracelete-manopla que meu tio havia me dado, e em minha mão esquerda eu vestia a luva-arco negra. Então agarrei a minha dogtag que Willian havia me dado. Foram tantas coisas que eu ganhei, tantas coisas que me ajudaram durante aqueles dois anos, e se eu parasse para pensar eu não seria nada caso não tivesse tudo aquilo.

Também pensei em meus amigos. Deviam demorar cerca de uma semana para chegar até o Abrigo. Eu esperava que voltassem todos sãos e salvos.

E ainda tinha Klaus, que devia estar morto. Tive um pensamento que talvez Torrance tenha o matado, já que ele não estava no grupo de Mith quando reencontrei meu grupo. Talvez ele estivesse em outro lugar, também, mas aquilo pouco importava naquele momento. Eu respirei fundo e atravessei a rua vazia, abrindo a porta do hospital e subindo pelas escadas direto para o quarto de minha mãe, sem ir à recepção, e a recepcionista com voz de cobra sibilou algo para mim, mas não de atenção.

Quando cheguei ao décimo sétimo andar, meu corpo todo tremia de receio. O que eu falaria para minha mãe, afinal de contas? Não queria contar a verdade, mas também não queria ter que mentir para ela. Eu sabia que tinha que contar para ela sobre tudo o que aconteceu, mas o que ela falaria quando descobrisse que quebrei a promessa de nunca mais matar ninguém?

Eu respirei fundo e fui até o quarto 402, e abri a porta lentamente. Quando segurei a maçaneta, vi o quanto eu tremia. Ao entrar no quarto, lá estava minha mãe, com os olhos abertos, muito magra, observando a janela aberta. Ela continuava deitada em sua cama, e quando me viu ela sorriu.

– Filho... – Ela me olhava um pouco triste e feliz ao mesmo tempo. Ela me analisou. – O que houve com você?

Eu me sentei em um banco que havia ao lado de sua cama. Olhei pela janela, observando a cidade, e então olhei para minha mãe. Ela estava tão mudada. Sua voz estava fraca e rouca, sua pele estava mais clara que o normal, e seus olhos estavam cansados.

– Mãe, eu... – Minha voz sumiu, percebendo o quanto seria difícil para dizer a verdade para ela. – Fui eu quem fez tudo isso.

– Fez o quê, Franklyn? – Ela perguntou, e eu procurei forças para continuar.

– Salvei a todos... – Respondi, triste. – Eu saí do Abrigo, mãe. Eu fiquei fora, lutei contra pessoas... Tudo para salvar aqueles que sofriam pela Espada Dourada. Me desculpe, mãe. Eu acabei quebrando minha promessa.

– Sua promessa? – Ela perguntou, e eu ergui meu olhar para ela.

– Matei pessoas, mãe. – Continuei, e senti meus olhos arderem. Mas recusei-me a chorar. – Eu matei tantas pessoas... E pessoas que eu jurei proteger morreram. A promessa que fizemos de nunca mais matar pessoas... Eu a quebrei, mãe.

– Está tudo bem, Franklyn... – Ela tentou me acalmar, e eu olhei indignado.

– Tudo bem? – Falei, com uma voz tão afiada quanto a de uma espada. – Como pode estar tudo bem, mãe? Você não percebe? Eu matei pessoas! Eu jurei que nunca mais faria, mas eu o fiz! Eu fiz, sem ligar para as conseqüências. Foi como quando começou essa maldita guerra! Eu matei por impulso, matei porque quis! Onde isso pode ser algo bom, mãe?

Ela, no entanto, não ficou abalada com aquilo. Ela simplesmente sorriu, e me olhou com um pouco de alegria.

– Eu entendo seu sofrimento, Franklyn. – Ela disse, e eu fiquei confuso. Queria perguntar como ela entendia, mas ela continuou. – Quando tinha sua idade, eu também matei pessoas. Nós, Mutantes, infelizmente vamos acabar fazendo isso uma hora ou outra. É algo comum de nossa vida. Matamos para sobreviver, ainda mais quando estamos em guerra. Eu não o culpo de ter quebrado sua promessa, pois sabia que uma hora ou outra isso aconteceria, filho. E sei que você se sente mal por ter matado essas pessoas...

– Não. – Eu falei, e minha voz ficou um pouco fraca. – Eu não me sinto mal... Mesmo sendo uma coisa ruim, eu não sinto remorso de ter matado todos aqueles homens.

– O que está dizendo, Franklyn?

– Estou dizendo que foi ótimo vê-los todos morrerem por mim. Ver seu sangue saindo dos ferimentos que eu causei, ver seus olhos se fixarem no nada, vê-los pedindo por piedade. Mesmo sabendo que é algo ruim, eu faria isso de novo, de novo e de novo, tudo para proteger aqueles que amo. Pensando bem, eu fiz a mesma coisa quando mais novo. Matei para proteger Willian, e agora matei para proteger meus amigos, minha família e todos que sofreram por minha culpa. Torrance roubou a Espada Dourada, e ele devia saber que eu estava aqui. Queria me deixar impulsivo quando descobrisse que ele havia chegado tão próximo de nós, que havia tentado nos matar mais uma vez. E eu o matei, mãe. Me vinguei de Torrance.

Ela me olhava com certo medo. Parecia não me conhecer mais, parecia me achar um estranho. Mas, então, ela acenou com a cabeça.

– E eu estou orgulhosa de você. – Ela falou, e eu não soube o que dizer. – Olhe bem para tudo o que fez, Franklyn. Quebrou uma promessa que manteve por dois anos para salvar pessoas desconhecidas. Viajou milhas de distância para recuperar uma relíquia por que eu sofria. Matou quem havia feito nós sofrermos para proteger aqueles que você ama. Isso não é ruim, embora muitos pensem que é, filho. Isso prova que você ainda sabe amar. Prova que você não está sozinho. Não importa quantas promessas que você fez para mim você quebre, não importa quantas pessoas você mate ou quantas vezes você fraqueje, continuará sendo meu filho querido. Isso é uma guerra, filho, lembre-se sempre disso. É óbvio que teria que matar alguém quando tivesse que matar, e isso não é ruim.

– Mas... – Lágrimas saíram de meus olhos, e eu rapidamente as sequei. – Mas eu deixei três amigos meus morrerem! Deixei que minha outra personalidade viesse à tona! Deixei que meu corpo agisse por impulso! Como pode ter orgulho de ter um filho como esse?

– É simples. – Ela olhou para a janela, e balançou a cabeça para que eu olhasse também. Vi várias pessoas comemorarem, pessoas sorrirem e pessoas chorarem de alegria. – Você trouxe a esperança para esse lugar novamente, filho. Antes, eu vi que aqui não havia felicidade. Mas olhe agora. Você fez com que todos tivessem esperanças de que ainda há heróis. Você é um herói, filho. Um herói forte, um herói destemido e acima de tudo, um herói que protege quem ama. Isso que me deixa orgulhosa de você.

Eu sorri, e a abracei. Ela chorou quando me abraçou, e depois de um tempo eu a larguei calmamente, ainda sorrindo.

– E eu continuarei sendo um herói. – Falei, e todas as minhas preocupações sumiram. – Talvez eu mate mais pessoas daqui para frente, mas a partir de hoje matarei aqueles que somente prejudicarem a mim e a quem amo.

– Só não se esqueça quem você é, filho. – Ela falou, e eu acenei com a cabeça. – Agora, conte-me tudo o que aconteceu nessa sua viagem.

Lhe contei tudo o que havia acontecido, fazendo algumas pausas para me lembrar das coisas. Contei-lhe sobre todos os acontecimentos desde a última vez que eu havia visto ela: desde meu encontro com Thomas, onde eu enfrentei Kennedy, até quando havia salvado todos há menos de duas horas. Fazia algumas pausas para lembrar das coisas, e senti uma tristeza quando falei da morte de Royal e de Yordle.

– Você passou por muita coisa. – Ela falou, quando terminei de explicar-lhe o que aconteceu. – Mas o que mais me surpreende é o fato de ter três Mutantes especiais na equipe... Você e o tal de Jake e a tal de Demetria.

– Mãe, por acaso a senhora sabia que eu era assim? – Perguntei, e ela suspirou.

– Não, mas tinha medo que fosse.

– Por quê?

– Willian tinha a mesma coisa. – Aquilo foi como se um punhal tivesse fincado em meu peito.

– Está dizendo que meu irmão também tinha dois poderes e dois subpoderes? – Ela confirmou com um aceno de cabeça. – E quais eram?

– Bom, o poder principal era o mesmo que o seu, Energia Ancestral. Seu subpoder era também igual ao seu, Evolução Reativa. Mas o poder e o subpoder adicional eram diferentes. Seu poder adicional era Vampirismo, um poder de tipo mimético que o tornava semelhante a um vampiro, e seu subpoder era Ofuscação Mental, que permitia que ele pudesse ofuscar sua mente. Seu irmão sabia usar muito bem essas habilidades, e com extrema maestria. Ele venceu o próprio diretor de sua escola em menos de um minuto, por isso muitos os chamavam de “O Prodígio de Ouro”, além de seu apelido de batalha...

– Serpente Sombria. – Completei, e ela me olhou surpresa.

– Como sabe desse apelido? – Perguntou.

– Torrance me contou. Falou também do apelido do pai, mas não falou do seu. Você tem um apelido, aliás?

– Não, filho. – Ela sorriu um pouco constrangida.

– Então vamos criar um... – Eu falei, pensando um pouco. – Que tal... Mãe Natureza?

– Mãe Natureza? – Ela riu um pouco, e vê-la rindo me deixou feliz. – Não, acho que prefiro ficar sem apelidos mesmo.

– É, também acho. – Nós sorrimos, e ouvi algumas pessoas conversando alto lá fora. Elas gritavam algo. – O que é isso? – Falei, e fui até a janela, abrindo-a. Abaixo, nas ruas, as pessoas corriam em direção da entrada do Abrigo, aparentemente. Estiquei minha cabeça, e vi na escada do túnel algo descer muito rápido. Eram várias motos, e por um momento pensei que eram os motoqueiros, até ver quem estava pilotando-as.

– O que foi, Franklyn? – Perguntou minha mãe, preocupada, mas quando sorri para ela sua expressão pareceu se acalmar.

– Meu grupo acabou de chegar, e voltaram mais rápido do que pensei. – Respondi, ainda surpreso por eles terem voltado tão rapidamente.

Eu me despedi de minha mãe dando um beijo em sua testa, e sai do quarto do hospital muito animado. Desci as escadas pulando três degraus de cada vez, e em menos de um minuto já estava no térreo. Corri para fora do hospital, atravessando a rua.

Passei correndo pelas várias pessoas, esbarrando em algumas sem querer. Estava animado para saber o que havia acontecido para eles terem voltado tão rápido, embora eu parecia já saber a resposta. Talvez eles tivessem ido até a antiga base de Torrance para pegar as motos que talvez tenham ficado intactas. Ou talvez algum grupo de motoqueiros tenham atacado-os, e eles tenham conseguido contra-atacar e pegar as motos. Não eram o bastante para todos, pois vi alguns do grupo na garupa: Mally, Mikael, Demetria. Ethan e James deviam estar voando, e o garoto ciborgue trazia Snow pelos braços com extrema facilidade. Fiquei feliz pelo lobo estar bem.

Eu comecei a correr mais rápido, pois queria chegar logo à entrada para revê-los. Naquele momento o Mikhivisk já deveria estar falando com eles. Senti meu estômago se revirar de ansiedade.

Mas essa ansiedade logo se foi.

Quando passei por um beco, uma mão agarrou-me pela minha blusa de inverno branca completamente suja e com rasgos, e lançou-me para entre o espaço entre dois prédios. Eu rolei no chão, até parar em uma grade.

Levantei meus olhos, e haviam três garotos andando até a mim. Um deles eu reconheci.

– Kennedy. – Falei, e o garoto sorriu. Seu braço em que eu havia feito o corte já estava muito melhor, sem nenhuma cicatriz. No entanto, não havia sido ele que tinha me agarrado.

Ao lado dele tinha um outro garoto, de cabelos verdes e olhos roxos. Não sabia se o cabelo era pintado ou natural, mas com certeza deveria ser natural, pois sua mão brilhava em sete cores que alteravam: as cores do arco-íris. Sua pele era clara, e um sorriso maligno se abria em seu rosto.

E, no outro lado, havia o mesmo garoto de cabelos loiros e olhos brancos que eu havia visto no hospital junto ao Kennedy. Havia sido ele que tinha me agarrado e me lançado. Sua mão estava cinza e parecia haver aberturas nela.

– O que querem? – Falei, me levantando, mas o garoto com a mão de arco-íris fez um movimento com o braço, e senti algo em meus pulsos e em meus tornozelos e fui para trás, não tocando mais o chão. Olhei para minhas mãos, e vi que estavam presas por algum tipo de corda colorida, mas muito dura.

– Soube que você trouxe a Espada Dourada. – Falou Kennedy, se aproximando de mim. – Eu a quero. Entregue-a para mim, Thompson, e tudo ficará bem.

Eu olhei de relance para meu anel dourado, e depois troquei olhares entre os três garotos. Eu abri sorriso irônico.

– Não. – Falei, e Kennedy pareceu ficar irritado.

– Você não está entendendo a situação, Thompson. – Falou o garoto de poderes de arco-íris. – Está querendo morrer.

– Vocês não podem me matar. – Continuei, desafiando-os. – E caso me matem, a Espada Dourada não irá aceitá-los como os novos donos.

– Bobagem. – Falou o garoto com o poder de arco-íris, e aproximou-se de mim, se preparando para me acertar um soco.

Ótimo, pensei, e fiz com que a minha mão direita se mimetizasse, e ao mesmo tempo fiz a Espada Dourada aparecer. Em um movimento, destruí a corda colorida e soltei meu braço direito, desferindo um golpe de raspão no antebraço do garoto, que gritou, e as outras cordas desapareceram. Ele correu até mim para tentar me acertar um soco com a outra mão, mas eu me desviei e acertei uma joelhada em sua barriga, e depois um golpe com o cabo da Espada em sua testa, e ele caiu inconsciente no chão.

– Henry! – Gritou Kennedy, e eu sorri para ele.

– Quem é o próximo? – Perguntei, e Kennedy veio até à mim. Fácil, pensei, e dei um passo para o lado quando ele tentou me acertar um chute, fazendo-o destruir um latão de lixo que havia atrás de mim. E então lhe acertei um golpe de raspão em sua coxa, e ele gemeu. Depois, o soquei com minha outra mão na qual havia acabado de mimetizar, e ele voou para o outro lado do beco.

O garoto loiro olhava para aquela luta sem nenhuma surpresa. Na verdade, ele simplesmente sorriu.

– Por que está sorrindo? – Perguntei, e ele simplesmente foi até a mim em passos lentos.

– É muito simples. – Ele respondeu, olhando para a Espada Dourada. – Você é mais forte do que eu pensei.

Senti uma dor em meu queixo e pisquei. Quando abri os olhos novamente, estava caído no chão, embora eu não me lembrasse de ter caído. Me virei, e olhei para o garoto com medo. Sua aparência estava muito mais tenebrosa, muito mais assustadora. Sua pele estava toda cinza, seus olhos eram muito negros, e seu cabelo antes loiro agora era branco como a neve.

– Sobrenaturalismo é um poder muito bom, sabe? – Ele falou, e eu me levantei, segurando a Espada Dourada firmemente. Ele me acertou um soco em meu peito, e eu atravessei a grade, indo parar em cima de uma caixa de papelão. – Me transformo em um demônio supremo... Controlo os demônios inferiores... E, acima de tudo... – Ele apareceu em minha frente em um instante, sorrindo como se tivesse ganhado na loteria. – Me dá uma força um pouco exagerada. – Ele me agarrou pela blusa e me largou no ar, acertando-me um golpe na barriga. Eu atravessei todo o beco como se estivesse voando. Passei por uma rua, depois por um outro beco, depois uma rua somente para pedestres e então parei dentro de um restaurante.

As pessoas gritaram quando o garoto apareceu, e eu me levantei o mais rápido que pude e comecei a correr até a porta dos fundos. Ele riu, caminhando atrás de mim. Estava em uma viela, e comecei a atravessá-la, quando fui surpreendido por um garoto. Eu quase teria o matado, se Thomas não tivesse se esquivado a tempo.

– Franklyn, calma aí, sou eu! – Ele exclamou, quando se desencostou da lata de lixo. – Você conseguiu mesmo pegar a Espada Dourada, é?

Eu me virei para trás, ofegante, e vi o garoto caminhando até nós.

– Quem é aquele? – Thomas perguntou, e eu olhei para rua logo à nossa frente.

– Eu não sei, mas corre! – Gritei, e comecei a puxá-lo para fora daquela viela, e começamos a correr pela rua. Um clarão aconteceu atrás de nós, e vi uma labareda de chamas negras extinguir um carro estacionado. O garoto saltou sobre o carro destruído, parando na rua, e começou a correr até nós. – Precisamos sair daqui, há muitos civis!

Thomas concordou com a cabeça, e nós entramos em um beco. No fundo, ele virava para a direita. Começamos a correr mais rápido, e quando fizemos a curva estávamos de frente para uma parede de um grande prédio. Virei-me para trás, e lá estava aquele garoto.

– É só entregar a Espada Dourada para mim, Franklyn. – Falou o garoto. – E então você terá uma morte menos dolorosa.

Olhei para Thomas, que parecia não entender nada, e então para aquele garoto estranho. Eu suspirei, e caminhei até ele, erguendo a espada em sua direção.

– Tome. – Respondi, e ele pareceu surpreso. – É toda sua.

– Ah, obrigad... – Acertei um golpe com a Espada em seu rosto antes mesmo que ele pudesse falar, fazendo um corte que se estendia de sua bochecha esquerda até sua testa. Ele cambaleou para trás. Thomas soltou um grunhido de surpresa.

O garoto colocou a mão esquerda na parte esquerda de seu rosto, como se estivesse segurando-o. Ele, no entanto, não expressava dor. Simplesmente tirou a mão de seu rosto, e sorriu como se fosse um louco para mim, Sua pele cinza pareceu cair na parte esquerda de seu rosto, em volta de seu olho, e sua pele branca apareceu. Mas o que me surpreendeu não foi aquilo, e sim dois detalhes: a pele não tinha de fato caído, mas era como se tivesse se soltado do corpo, e o seu olho agora era azul, com uma cicatriz logo acima, que terminava um pouco mais para cima de sua sobrancelha preta. Mas antes o olho dele não era branco? Continuei apontando a espada para ele, pronto para desferir um outro ataque.

– Quem é você? – Perguntei, e o garoto sorriu.

– Um fantasma. – Falou, e sumiu em uma nuvem de chamas negras, deixando a Thomas e a mim sozinhos naquele beco sem saída.

– Quem era ele? – Questionou Thomas enquanto andávamos pela rua. Novamente eu estava com alguns ferimentos, e sentia o gosto de sangue em minha boca. No entanto, não queria dar atenção àquilo naquele momento.

– Eu esperava que você soubesse. – Falei, e ele negou com a cabeça.

– Nunca vi aquele cara. – Ele parecia tentar se lembrar daquele garoto, mas pela cara que fazia devia estar mais confuso do que eu. – Aquilo tudo foi estranho. A pele cinza pendurada... Na realidade, a pele cinza em si. Ele devia ter algum mimetismo raro.

– Sobrenaturalismo. – Falei, e ele pareceu levar uma onda de choque. – Conhece esse poder?

– Sim... Também é um pode raro, talvez mais raro que o seu Energia Ancestral. O Mutante pode controlar o poder dos mundos infernais... Transforma-se em um tipo de demônio mestre. É um poder muito estranho e sombrio.

– Mas, deixando esse assunto de lado, como vocês chegaram aqui tão rápido? – Perguntei, e ele riu.

– Lembra da base que explodimos? Nós fomos lá, e vimos que haviam motos ainda intactas. Algumas estavam com leves danos, mas ainda funcionavam. Quando chegamos nos falaram que tínhamos feito sucesso na missão. – Exceto por todos voltarem vivos, pensei em dizer. – E, Franklyn, posso te dizer uma coisa?

– O quê?

– Você é um bom líder. – Ele falou, sorrindo. – Aquilo que fez quando decidiu deixar o grupo para morrer sozinho... Foi heróico. Você ia se sacrificar por nós.

– Eu só não queria ver mais ninguém que jurei proteger morrer.

– É, percebi isso. Também ficamos sabendo sobre o caso da Demetria... Olha, acho que seria bom escondermos os novos poderes e subpoderes dela e de Jake, caso contrário isso iria prejudicar não só o grupo, mas todo o Abrigo.

– Por quê?

– Eu não sei, mas tenho esse pressentimento.

Eu concordei. Já havíamos andado bastante, mas não nos falamos muito. Não tínhamos nada para falar naquela hora. A dor dos golpes que o garoto havia me dado ainda me perturbava, e a cena de sua pele pendurada repetia a todo instante em minha cabeça, o que me intrigava cada vez mais.

Antes que pudesse perceber, estávamos na rua da nossa base. Antigamente, dos Anjos e Demônios; agora, de uma Alcatéia.

Na frente da casa branca, haviam motos estacionadas. Eu entrei, e Demetria estava sentada na escada, nos esperando, e quando viu a mim e Thomas se levantou.

– Venham, subam. – Ela disse. – Precisamos conversar.

Eu não entendi, mas subimos. Olhei para Thomas, e ele parecia nervoso. Talvez já soubesse do que se tratava. Quando chegamos à sala de reunião do grupo, todos estavam sentados em uma cadeira, e a cadeira que antigamente era de Royal estava vazia. Demetria e Thomas sentaram-se nas cadeiras do lado, e eu fui até a cadeira do líder. Até mesmo Hariel e Emma já estavam acomodadas.

Snow apareceu por baixo da mesa, e eu o acariciei antes de começar a reunião. Tive a impressão de que ele também estava tenso, como os outros.

– O que foi? – Perguntei, e todos se entreolharam, como se decidissem quem falaria.

– Descobrimos quem roubou a Espada Dourada. – Falou Jake, fazendo com que a atenção de todos fossem à ele. Eu ri, e todos me olharam.

– Claro que descobrimos. – Eu falei. – Foi Torrance.

– Não, Frank. – Falou Esmond, que também estava tenso como os outros. – Não foi Torrance quem roubou a Espada Dourada.

– Como é que é? – Perguntei, e meu riso sumiu. – Mas vimos Torrance com a Espada.

– Vimos ele com a Espada, mas não vimos ele entrando aqui e saindo. – Falou Demetria, e eu a encarei. Quando viu que todos a olhavam, ela começou a observar as suas mãos que estavam sobre a mesa, com timidez. – E se fosse ele, os vigias e o grupo de investigação do grupo teriam sabido.

– Como eles saberiam? – Perguntei.

– O Abrigo possui uma barreira de proteção que serve como uma área de detecção. – Falou James. – Essa barreira detecta qualquer um que entra no Abrigo. Na primeira vez que entra e saí do Abrigo, é um possível inimigo, espião ou um civil desconhecido. Na segunda vez, a barreira já reconhece o indivíduo. Na terceira, já sabem quase tudo sobre ele: seu fluxo de Energia, seu tipo de sangue, tudo, e isso somente com a barreira.

– Onde querem chegar com isso? – Eu estava ficando confuso.

– Franklyn, caso o intruso fosse Torrance, ele seria detectado entrando e seria marcado como um intruso. – Falou Thomas, e eu vi que de fato ele sabia sobre o quê aquela conversa se tratava. – Mas você e sua mãe foram os únicos desconhecidos a entrarem no Abrigo antes do roubo da Espada Dourada. Se ficassem aqui por mais algum tempo, já seriam reconhecidos, saindo ou não do Abrigo, e o prazo de reconhecimento demora uma semana caso não saia do Abrigo.

– Então quem sabe Torrance não tenha encontrado alguma brecha? Ou talvez tenha se teletransportado para aqui dentro?

– Isso é bem improvável. – Falou Jake, cruzando os braços. – A barreira não há brechas, pois é “segurada” por três robôs extremamente futurísticos, com alta tecnologia de detecção, rastreamento e proteção. E, caso ele se teletransportado, seria de fato reconhecido como um intruso e já teria sido caçado.

– Então, para alguém ter roubado a Espada Dourada, deveria ser do Abrigo há muito tempo, de tal forma que já não tivesse suspeitas nele. – Falou Demetria, e eu senti um frio em minha barriga.

– Foi aquele garoto. – Falei para Thomas. – O do Sobrenaturalismo. Ele quem roubou a Espada Dourada. Ele se movia rápido demais, e era amigo de Kennedy. Sem falar que parecia ser bem velho no Abrigo.

– De que garoto você está falando? – Perguntou Izuqui. Ele mexia em seu painel no antebraço de sua armadura, como se estivesse procurando algo. – Aqui no banco de dados do Abrigo não cita ninguém com Sobrenaturalismo.

– Mas, espera... – Demetria se levantou e correu até uma prateleira, procurando por um livro. Quando achou, o retirou e correu até a mesa, revirando as páginas. Parou quase que no final do livro. – Aqui está! “Sobrenaturalismo é um poder raríssimo, em que o Mutante chega a ter posse dos demônios e criaturas infernais de todos os mundos infernais já conhecidos. O Mutante cresce como uma pessoa perturbada, e diferente dos demais Mutantes, a pessoa com esse poder já sabe como usá-lo desde pequeno, tornando-se na fase adolescente quase que um rei dos mundos infernais, adquirindo a habilidade de várias criaturas demoníacas. A habilidade que se destaca é sua mudança de aparência, em que ele pode se transformar em pessoas, não adquirindo suas habilidades. Mas sua aparência falsa é facilmente descoberta quando sofre algum dano, e sua pele se solta como se fosse uma proteção na área que foi cortada, revelando sua verdadeira aparência naquela região, e sua...”

– Droga. – Falei, interrompendo Demetria, que me olhou com raiva. – Não pode ser.

– O quê não pode ser? – Falou Thomas, tocando em meu ombro, mas ele soltou um grunhido, pensando a mesma coisa que eu. – Ah, merda.

– O que foi? – Murmurou Demetria, e eu respirei fundo.

Comecei a interligar tudo. Um Mutante que deveria estar no Abrigo há muito tempo, tentando parecer bom para não levantar suspeitas, que seja reconhecido mas não seja marcado como inimigo...

– De fato, não foi Torrance quem roubou a Espada Dourada. – Falei, pensando em tudo aquilo. Minha cabeça latejava, e eu me xingava mentalmente por ter sido tão idiota de não ver aquilo. – Foi ele... Ele levou a Espada à Torrance, para me fazer mal, por algum motivo que eu não sei qual é. Ele se transformou naquele garoto que me atacou... Tentou recuperar a Espada Dourada para poder entregá-la a alguém que pudesse ser uma ameaça para nós novamente. Ele é como mim, como Demetria e como Jake, talvez por isso ele possa ter roubado a Espada tão facilmente, usando aquele seu poder maldito. Eu devia saber que tinha sido ele! Eu devia!

– Franklyn, agora sabe quem é, não? – Perguntou Jake.

– Sim... – Falei, ainda não acreditando. Minha mente resgatou a última parte da profecia: “Para que o caminho escondido mostre onde acabará”. Torrance havia falado de respostas. As respostas para aquilo tudo, ele queria dizer. As respostas eram o caminho escondido. E eu havia descoberto onde ele acabaria. Eu sabia que conhecia aqueles olhos azuis de algum lugar, ainda mais com aquela cicatriz que parecia ser recente. Mas aqueles olhos azuis ainda expressavam sua loucura. – E eu prometo que quando reencontrar o desgraçado do Klaus, eu juro que irei matá-lo.

Notas finais
Olá, leitores! Esse foi o último capítulo desta fanfic. No entanto, ainda não é o fim! Essa é somente a primeira fic de uma saga. Então, fiquem atentos para a próxima fic: O Soldado Renegado. Abaixo, um album de imagens dos personagens da fic feitos no site "tektek": http://imgur.com/a/n7FDM
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!