Guerra Mutante: A Relíquia Roubada
12 12 - Um garoto traumatizado tenta me matar
Estava anoitecendo quando ouvimos passos na grama.
Demetria estava a uns 3 metros abaixo de mim, comendo uma manga, quando me chamou em um murmúrio. Eu estava quase cochilando, por isso ela precisou me chamar umas cinco vezes, até que eu por fim pude ouvi-la. Eu comecei a ouvir os passos, e esgueirei-me pelo galho. Ela estava imóvel. Fui até a ponta do galho muito lentamente, e puxei as folhas o mais discreto possível, até ver vultos passeando pela planície do outro lado do riacho.
– Franklyn! – Gritou Thomas, sua voz estava tensa. – Demetria!
– Estamos aqui! – Gritou Demetria, descendo da árvore. Eu fiz o mesmo. Saltei de galho em galho, até agarrar-me no tronco e cair na grama. Ela acenava para o nosso grupo, que correspondeu. Eu a segurei, e voei até o outro lado.
– Que bom que estão bem! – Falou Mally, abraçando Demetria, que ao invés de se afastar retribuiu com um outro abraço. – Procuramos vocês durante um bom tempo.
– Percebemos. – Murmurei, olhando-os com atenção enquanto minha visão adaptava-se ao escuro da noite. Uma coisa boa de meus sentidos aguçados é que eu podia ver parcialmente bem no escuro com minha Visão Aguçada. – Vocês estão acabados.
E de fato estavam. Alguns haviam leves cortes no corpo, outros estavam com roupas rasgadas. Ethan havia perdido seu casaco de couro, e Trissy tinha um corte no antebraço esquerdo.
– Culpa dos motoqueiros. – Falou Yordle. Percebi que sua mão emitia uma luz, como uma lanterna. Coisa de seu poder, com certeza. – Por sorte, todos escapamos.
– Se não fosse por mim, estariam todos mortos. – Falou Jake, com repugnância. Todos olhamos para ele, mas ninguém discordou.
– Meu maninho está certo. – Concordou Yordle, abrindo um largo sorriso. – Ele defendeu o grupo com garra. Vocês precisavam ter visto ele lançando bolas de fogo negras.
Eu fiquei surpreso. Pelo jeito, Jake não era tão obscuro assim. No entanto, ele parecia não se importar muito com aquilo. Somente deu de ombros, e cruzou os braços.
– Se o grupo não fosse feito de covardes, teria sido mais fácil. – Falou, e ninguém disse nada. Royal rangeu os dentes, mas não quis falar nenhuma coisa. Não entendia porque ninguém interferia no que Jake falava.
– Isso é algo para se falar do grupo, Jake? – Falei, e ele me olhou com ódio.
– E quem é você para me dizer o que falar ou não? – Respondeu. Seus olhos azuis pareciam negros durante a noite. – Se acha superior por ter dois poderes e dois subpoderes, é? Grande coisa. De todos nós, você é o mais frangote. Foi derrubado de um penhasco? Aposto que se jogou para fugir da luta.
Eu fui em sua direção. Não estava pensando direito. Senti meus punhos cerrarem, e acertei um murro no rosto de Jake, que cambaleou para trás.
– Franklyn! – Gritou Royal, tentando interferir, mas eu o ignorei. Avancei contra Jake. E fui surpreendido por uma esfera flamejante negra, que me fez cair no riacho. Por sorte, atingi a parte rasa.
– Você fez um erro, Thompson. – Murmurou Jake. Seus olhos ficaram completamente negros. Yordle colocou-se na frente de seu irmão.
– Não faça nenhuma besteira, Jake! – Gritou, tentando acalmá-lo.
– Saia de minha frente, Yordle. – E empurrou o irmão com força. Atrás de Jake, sombras surgiram em formatos de asa. Uma longa foice negra apareceu em sua mão. Eu me levantei, mimetizando minhas mãos, ao mesmo tempo criando uma adaga em cada uma de minhas mãos.
– Pode vir! – Gritei, e quando começamos a correr um contra o outro Royal apareceu entre nós dois, tão rápido que nem pude vê-lo. Ele impulsionou suas mãos contra nós, e nos fez cairmos, enfraquecidos. Ele nos olhou com raiva.
– Parem com essa briguinha inútil. – Falou. Ele estava muito sério, e botava medo em todos, até mesmo em Jake. A Aura do Temor de Royal era extremamente forte. Ele dissera que Mutantes com o mesmo subpoder não são afetados, mas eu não estava temendo-o por causa de sua aura, e sim por causa de seu poder. James, no entanto, não expressava emoção.
Senti minhas forças voltarem aos poucos, e me levantei lentamente. Jake fez o mesmo, e cuspiu no chão com desprezo. Royal não falou nada, e caminhou até mim, acertando-me um soco em meu rosto que me fez cambalear para trás. Pensei em revidar, mas achei melhor não tentar.
– O que deu em você?! – Gritou, agarrando-me. Jake se afastava do grupo, sorrindo. – Sabe o que diabos você fez?
Bati em Jake, pensei em responder. Mas permaneci calado.
– Ele é um membro do grupo! – Continuou Royal. Ninguém dizia nada. Todos olhavam para nós, mas não ousavam interferir. – Sabe por que o aturamos? Porque ele é um dos mais fortes de nós! Mesmo ele sendo um maldito rabugento, ele continua sendo um dos mais fortes e um membro importante para nosso grupo! Você aceitou entrar no grupo, então terá que respeitar a todos! Caso contrário, eu mesmo acabo com você!
Ele me largou, e eu caí sentado. Royal ofegava, e me lançou um olhar de pena. Estendeu sua mão para me ajudar a levantar, mas eu não fiz nada. Estava com meu olhar fixo no nada. Não conseguia pensar em mais nada a não ser naquilo que Royal havia acabado de falar. Olhei para Jake, por fim, que sorria com maldade para mim. Eu o ignorei, e por fim agarrei a mão de Royal e me levantei.
– Desculpe-me. – Falei, e Royal assentiu.
– Tudo bem... – Murmurou, sua respiração ofegante cessou. – Só não tente fazer mais isso. Você podia estar morto agora se eu não tivesse interferido.
– Posso perguntar uma coisa? – Falei, pensando se seria certo o que eu falaria. – A todos do grupo?
Royal me encarou, e por fim assentiu.
– O que é?
– Por que vocês temem tanto Jake? – Todo mundo ficou um pouco surpreso. – Dane-se se ele é um dos mais fortes, não somos todos um grupo? Eu posso ter entrado há uma semana praticamente como um intruso, mas ainda sou um membro assim como ele. Só que eu não sei o motivo de vocês temerem tanto Jake. O que é que ele fez, afinal de contas?
Yordle se aproximou. Royal lançou um olhar para ele.
– O Anjos e Demônios é um grupo criado desde a criação do Abrigo. – Falou Yordle, seu olhar estava fixo na noite. – Foi criado um mês depois do Abrigo ter sido criado, ou seja, é um pouco antigo. Quando eu e Jake chegamos lá, tentamos entrar no grupo para nos tornarmos mais fortes, e conseguimos entrar. Mas naquela época Jake estava traumatizado por causa da morte de nossa mãe, que havia sido morta na nossa frente, a sangue frio. Quando saímos em nossa primeira missão, Jake surtou, e então aconteceu.
– O quê aconteceu? – Murmurei, temendo já saber a resposta.
– Ele matou todos os membros do grupo, com exceção de mim. – Falou, agora com um tom melancólico na voz. – Membros que eram níveis superior à ele, alguns que haviam até mesmo ajudado a montar o Abrigo. Ele matou a todos, como se estivesse brincando. Não se importou com quem eram, com suas histórias, com absolutamente nada, simplesmente os matou. Foi então que tudo mudou e ele ficou assim, sempre sombrio. Esqueceu o que era amor. Esqueceu o que era felicidade. Ele não é rabugento por que quer, e não age assim por causa de ódio ou algo do tipo. Desde aquele dia, ele ficou com traumatizado. Nosso grupo atual é a “versão 2” do grupo original, e ele só escolheu entrar porque queria que as coisas fossem diferentes. Por isso, ele sempre está afastado de nós. Teme que tudo aconteça novamente. Teme que mate todos nós por culpa de seu instinto impulsivo.
Eu estava sem palavras. Olhei para Jake, que estava no topo de uma colina, observando a noite. Agora entendia tudo. Agora tudo fazia sentido. Por isso ele se excluía. Senti uma dor em meu coração. Havia errado em atacá-lo. Em confrontá-lo.
– Me desculpem. – Falei, abalado. – Eu errei.
– Não é conosco que deve se desculpar. – Falou Yordle, e eu compreendi. Afastei-me do grupo, mas Royal me segurou.
– Tem certeza? – Falou, e eu assenti.
– Yordle está certo. Jake merece minhas desculpas. Precisa saber que eu sinto muito. Mesmo que não aceite-as.
Mas Jake correu em nossa direção. Seu olhar estava tenso.
– Corram! – Gritou, e ninguém compreendeu. – Eles nos encontraram!
Quando falou, todos se assustaram. Começamos a ouvir o som das motos, e então começamos a correr. Eu sabia que eles nos encontrariam. Deveríamos ter seguido caminho, se não fosse pela bobagem que eu havia feito.
– Para a árvore! – Gritou Demetria, já atravessando o riacho.
Jake fez suas asas negras aparecerem e voou, agarrando Yordle e levando-o para a árvore, o que me deixou surpreso. Royal fez o mesmo, levando Thomas e Mally consigo. Ethan agarrou James e Anne pelas mãos e os levou para o outro lado. Minhas mãos ainda estavam mimetizadas, então eu voei e agarrei Chloe e Hector. Os outros atravessaram pelo riacho. Nós começamos a nos esconder nos vários galhos das árvores. Por sorte, haviam muitas folhas para nos esconder.
Em poucos segundos, todos já estavam subindo. Cada um estava em um galhos, ou estavam em duplas. Slient estava junto de Esmond, abraçando o irmão. Estávamos todos tensos. Senti minhas mãos doerem, e desfiz meu mimetismo. Estava com pouca Energia.
Fui até a ponta do galho, observando por entre as folhas. As motos apareceram na colina na mesma hora, e vários motoqueiros gritavam ao mesmo tempo. No entanto, eles não estavam procurando por nós. Estavam caçando outra pessoa. Um garoto de no máximo 10 anos corria pela planície, tentando cruzar o rio.
– Não há para onde fugir! – Gritou Torrance, saltando de sua moto. Sua mão brilhou, e a Espada Dourada apareceu. Ele a apontou para o garoto, que lutava para chegar à nossa planície.
Ele virou-se para o grupo de motoqueiros, e começou a tremer e fungar. Estava chorando. Torrance, vendo isso, riu em voz alta.
– Não me matem, senhores! – Fungou o menino, se ajoelhando na água.
– Não serei eu quem irá te matar. – Falou Torrance, e o garoto pareceu ter um pouco de esperança. – Será minha espada.
No mesmo instante, uma luz saiu da ponta da lâmina da Espada Dourada e atingiu o garoto, que começou a gritar e chorar ao mesmo tempo. A luz estava iluminando todo o local, como uma lanterna gigante. Uma onda de impacto aconteceu, espirrando água para todos os lados, criando ondas que se desfizeram aos poucos. O garoto estava completamente queimado, e caiu na água já morto. Os motoqueiros riram e gritaram de animação. Ouvi Slient chorando baixinho, e Chloe fungou. Eu queria interferir, mas Royal apareceu atrás de mim e tocou em meu ombro, fazendo sinal para permanecer ali.
Não podemos interferir, caso contrário todos morreremos, falou Royal dentro de minha mente.
Isso é telepatia?, pensei.
Sim, respondeu. Mas não interfira.
Está bem, pensei entristecido. Os motoqueiros guiaram suas motos para longe. E pude ouvir Torrance gritar.
– Agora, depois dessa pequena caçada, vamos à uma caçada maior! – Exclamou, e sua voz foi ficando mais baixa. – Thompson, onde você está, seu merd....
E não ouvi mais nada. Agora só o som da água do rio, a brisa e o balançar das folhas preenchiam o silêncio. Slient chorou um pouco mais alto, e Esmond o acalmou abraçando-o.
– Ele era inocente. – Falou, chorando, mas Esmond não disse nada.
Olhei para Jake, e ele estava um pouco abalado. Todos estavam. Royal tinha a expressão vazia. Os motoqueiros eram cruéis demais, e a Espada Dourada era muito forte. Não tínhamos chances contra eles.
Ficamos na árvore sem trocar palavras durante algum tempo. Até que, por fim, Royal desceu da árvore. Eu, Izuqui e Mikael fomos juntos. Nós retiramos o corpo do garoto do riacho. Ele não podia mais ser reconhecido, estava completamente queimado. Izuqui criou uma cova rapidamente usando os apetrechos de sua armadura, e nós enterramos o garoto ali, e depois fechamos ela. Ficamos tristes por causa dele.
Quando voltamos, Royal falou para que dormíssemos, e que tomássemos cuidado para não cairmos da árvore.
Ele saiu do galho em que eu estava, indo para um mais acima. Ficaria de vigia nas duas primeiras horas, e logo depois seria eu, e após a mim seria Esmond. Eu adormeci rapidamente, já que meu cansaço era enorme.
Sonhei com uma auto-estrada, e eu estava caminhando por ela. Eu parecia estar sozinho, mas vi pessoas de fumaças que nem no meu outro sonho. Elas andavam comigo, e sentia o medo em todos ali presente. Haviam alguns carros destruídos nas vias da estrada, e nos dois lados dela havia barreiras de proteção, onde atrás delas haviam várias montanhas. À frente, tinha um túnel.
Nós entramos no túnel, e ele estava completamente escuro. Não conseguíamos enxergar muita coisa. Mas então um som de rochas caindo nos assustou, e a entrada foi selada. Não podíamos voltar atrás, somente seguir em frente. Haviam muitas pessoas mortas no chão: soldados, Mutantes e civis.
O clima no túnel era tenso. Estava completamente destruído: alguns carros batidos, rachaduras nem um pouco recentes, e rastros de batalhas. Era assustador. Foi quando ouvi um sol de metal batendo no chão, e uma luz nos cegou. Antes que eu pudesse ver o que era, a cena mudou.
Agora estava em um tipo de prisão. Algemas prendiam minhas mãos e meus pés. A prisão era muito moderna, com a porta transparente, mas protegida por algum tipo de campo de força. Ao meu lado havia um vulto, também preso. Eu tentei me mover, mas não consegui. Era como se eu estivesse anestesiado.
Vozes sussurravam algo que eu não entendia. Elas foram ficando mais altas, e mais próximas. Eu podia finalmente me mover, e fui em direção da porta. Tentei tocá-la, e uma onda de choque atingiu a mim e lançou-me contra o lugar que estava antes. Meu dedo queimava.
Foi quando as vozes finalmente falaram algo, e eu pude entendê-las.
– Numa situação dolorosa, a lágrima descerá, e a honra do herói é o que tudo salvará. – Falavam as várias vozes, e então acordei com Royal me chacoalhando.
– Levante. – Sussurrava, para não acordar os outros. – É a sua vez.
– Hã? – Estava com muito sono para pensar, mas aos poucos recordei-me que era meu turno. – Ah.... Tudo bem...
Eu me levantei e bocejei, e Royal estava com o rosto cansado. Quase todos dormiam. Jake, como sempre, estava acordado. Ele estava no topo da árvore, observando a noite como sempre fazia.
Dei um leve tapa em Royal antes de começar a escalar o tronco, indo até o alto, e o lugar em que eu ficaria era próximo de onde Jake estava. Abaixo, Royal foi para um galho vazio e se sentou, encostando as costas na árvore e fechando os olhos. Alguém roncava alto, e o som dos grilos no chão eram baixos e aconchegantes.
Fiquei cerca de dez minutos observando tudo ao redor de nossa árvore. Não havia ameaças. Foi quando que, por fim, tentei falar com Jake.
– Ei, cara, me desculpe por mais cedo. – Falei, nivelando minha voz para que só ele ouvisse. – Eu agi sem pensar... Estava muito estressado. Yordle me contou sobre o que aconteceu com a antiga versão do grupo... Eu sinto muito.
Ele me encarou, mas sua expressão não era de ódio ou raiva, mas somente séria.
– Sente muito? – Murmurou, aproximando-se de mim. – Você sabe o que é agir impulsivamente? Eu tenho que me controlar, caso contrário eu saio matando a todos. Não há nada para você sentir muito, Thompson. O que aconteceu mais cedo é passado, da mesma forma do que aconteceu no passado. Você não sabe o que é perder alguém que ama.
– Sim, eu sei. – Falei, e minha voz ficou um pouco mais alta. – Eu vi meu irmão e meu pai serem mortos. E eu estou nessa missão para vingá-los.
Ele agora me olhou como se tivesse ganhado um prêmio.
– Entendi tudo. – Ele riu um pouco baixo, me olhando sério logo após. – Sabia que tinha entrado no grupo só para atender um desejo seu.
– O quê está dizendo? – Murmurei. Fiquei com um pouco de calafrios.
– Torrance foi quem matou eles, não foi? – Eu olhei para ele, surpreso, mas não respondi. – Eu sabia. Não está aqui para recuperar a Espada. Só quer se vingar dele.
– Está enganado. – Falei. Sentia raiva dele, mas não queria começar uma outra briga. – Minha mãe está em Coma, assim como grande parte das pessoas do Abrigo. Eu quero me vingar sim, mas muitos daqui também querem. Torrance fez, de alguma forma, mal para todos. Ver o homem que matou meu pai, meu irmão e deixou minha mãe em Coma me deixou completamente irritado. Agi sem pensar por causa daquilo. Mas, eu não vou somente me vingar dele. Irei recuperar a Espada, e irei salvar a todos...
– ...E então será aclamado como herói. É, eu sei como as coisas funcionam. Faça o que quiser, Thompson. No entanto, caso você sem querer estiver morrendo, não vou poder te ajudar.
Queria poder dizer alguma outra coisa, mas disse a mim mesmo que não daria o gosto para ele de começar uma outra briga. Royal já dormia, e se Jake era tão perigoso quanto seu irmão dissera, seria mais suicídio enfrentá-lo do que Torrance no momento.
Então, o deixei ali. Voltei a fazer minha vigia, subindo um pouco mais na árvore, até chegar ao topo. O tempo passou muito rápido, e não havia nenhuma ameaça. Quando vi que já havia acabado meu turno, eu desci, mas Jake me impediu de continuar.
– Thompson. – Ele falou, segurando-me pela camisa.
– O quê foi? – Perguntei, e ele suspirou.
– Bom... – Ele parecia estar lutando contra si mesmo para falar algo. – Eu te desculpo. – Falou, e eu fiquei boqueaberto. O olhava surpreso. Sabia que ele tinha algo a mais para falar.
– E...? – Perguntei, e ele me olhou com raiva agora, mas cerrou os punhos e continuou.
– Peço desculpas. – Falou, e eu sorri para ele, embora não tenha ganhado nada em volta.
– Eu aceito seu pedido de desculpas. – Eu ri bem baixo, e ele ainda não me largou.
– Não pense que isso mudará a minha forma de te ver, Thompson. – Disse, segurando-me com mais força. – Não somos amigos, lembre-se disso.
– Tudo bem. – Falei, e ele me largou. Desci para chamar Esmond, e descobri que era ele quem roncava alto.
Ele piscou os olhos, falou “tudo bem” e voltou a fechá-los e cochilou. O chamei novamente, chacoalhando-o, e ele acordou com um susto. Quando finalmente percebeu que era seu turno, subiu a árvore o mais rápido que pôde. E eu voltei ao galho em que eu estava antes, voltando a dormir.
Levantei com o som do vento. Alguns já haviam acordado, e estavam tomando seus cafés da manhã improvisados: frutas, sucos, doces, salgados, água, etc. Eu abri minha mochila e retirei um bolo que meu tio havia guardado. Ele ainda estava frio, o que me deixou surpreso. Talvez ele tivesse encantado minha mochila ou alguma coisa parecida.
Depois de comê-lo, eu desci da árvore e fui até o riacho, e eu caí de joelhos antes de beber a água. Havia me esquecido do garoto que antes estava ali. Olhei para a cova improvisada que havíamos criado, agora já fechada.
– Tem medo de fantasmas? – Falou uma garota atrás de mim. Anne se aproximava, ajoelhando-se ao meu lado, bebendo da água do riacho.
– Sinceramente? Eu não sei. – Respondi, um pouco receoso. Não tirava os olhos da cova. – Muitos fantasmas do passado me atormentam, mas poucos são os que me ferem.
– Acho que te entendo. – Disse, quando parou de beber a água. – Eu queria ter interferido ontem à noite. Mas eu acabaria tendo o mesmo destino que o garoto, e condenando a todos nós. Você pensou o mesmo, não?
– É... – Murmurei, e ela se levantou.
– Bom, eu irei voltar para a árvore. Se arrume logo, iremos ir em breve. – Falou, e eu assenti. Ela foi em direção da árvore, escalando-a com delicadeza.
E olhei para meu reflexo na água. Senti meu peito doer. Eu estava muito diferente do garoto de dois anos atrás. Mais amadurecido, e ao mesmo tempo mais confuso. Quanto mais coisas eu descobria e via, mais confuso ficava.
Depois de todos arrumarem suas coisas, finalmente partimos. Continuamos seguindo em direção sul. Estávamos todos com pouca confiança. Não tínhamos certeza se conseguiríamos recuperar a Espada Dourada, depois daquilo que vimos na noite passada.
Era certo de que, caso tentássemos enfrentar Torrance, eram poucas as chances de vencermos. Se ao menos fossemos mais fortes...
O rio terminou repentinamente, descendo em um tipo de gruta, e a partir de agora era somente planície. Havia se passado uma semana, mais ou menos, desde que partimos. Senti meu pulso vibrar, e olhei para meu bracelete. Ele brilhava.
Ative, pensei, e ele se transformou na manopla. Algumas das pessoas que estavam ao meu redor se assustaram.
– Isso é um Item Mágico? – Perguntou Rick, e eu assenti. – Demais.
Na tela de comunicação, mostravam 10:23. E a imagem de meu tio estava aparecendo na tela, com a opção de “atender” ou “rejeitar”. Eu pressionei “atender”, e meu tio apareceu segurando algum outro aparelho.
– Franklyn! – Falou, e alguns de meus companheiros se aproximarem. – Graças a Deus vocês estão vivos!
– Oi, tio. – Murmurei, e ele sorriu. – Como vão as coisas no Abrigo?
– Não muito bem. – Falou, e seu rosto estava sério agora. – Já tentamos de tudo, mas as pessoas com Coma não melhoram. Temo que o prazo esteja encurtando, Franklyn.
– Nós iremos recuperar a Espada Dourada, tio. – Falei, e então contei-lhe sobre tudo que havíamos visto durante a viagem, sem mencionar meus sonhos e algumas de minhas conversas, e também resolvi não falar sobre a briga que eu e Jake tivemos.
– Sinto muito por ter matado novamente, Franklyn. – Disse, mas eu não falei mais nada. – Bom, mantenha contato comigo caso algo aconteça. E lembre-se que a Manopla não é só para manter ligações, viu?
– Sim, tio. Eu lembrarei. Nos veremos em breve. – Ele concordou, e sua imagem desapareceu. – Assim espero.
– Fica frio, Frank. – Falou Esmond, ao meu lado direito. – Você irá vê-lo. Estamos mais perto de pegar a Espada Dourada do que antes, nisso você tem que concordar.
Eu só respondi com um aceno de cabeça, e fiz minha manopla voltar a ser um bracelete por dentro de minha blusa. Já não havia mais neve, no entanto eu não sentia calor ou frio. Minha Evolução Reativa parecia estar melhorando bastante, mas eu não estava me importando muito com aquilo.
Depois de um tempo atravessando colinas, rochedos e algumas árvores solitárias, finalmente pudemos avistar montanhas ao longe. Não conseguiríamos escalá-las, então teríamos que contorná-las. Eu as conhecia de algum lugar.
Demoramos cerca de uma hora para contorná-la, e avistamos uma estrada por entre as montanhas com barreiras de proteção, e percebi que de fato conhecia aquelas montanhas. Eu havia visto-as em meus sonhos. A estrada fazia uma curva ao sul.
– Vamos seguí-la. – Falou Royal, e grande parte concordou.
– Não! – Exclamei, repentinamente, e todos me olharam.
– Por quê não, Franklyn? – Questionou Royal, e eu pensei em alguma desculpa para falar, no entanto nada veio à minha cabeça. E lhes falei sobre o sonho que eu havia tido sobre aquele lugar, sem mencionar a outra parte da prisão.
Thomas foi um dos únicos a se pronunciar.
– É só não entrarmos no túnel, então. – Falou, mas ninguém concordou.
– É o túnel, ou contornarmos as montanhas e demorarmos mais tempo ainda, ou tentarmos escalá-las, onde temos grandes chances de morrer. – Falou Chloe, e Thomas se decepcionou.
– Então, o quê? – Falei, olhando seriamente para Royal. – Como será?
Ele suspirou, e viu que não tinha alternativa.
– O túnel nos espera. – Disse, e todos permaneceram quietos.
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