Guerra Mutante: A Relíquia Roubada
1 1 - O Dia da Independência me dá maus pressentimentos
A minha vida nem sempre foi uma vida normal.
Eu fiz coisas que eu me arrependo muito de ter feito. Eu matei pessoas, muitas delas estavam tentando somente proteger o que amavam. Outras de fato mereciam morrer, algumas por coisas que fizeram, outras por coisas que ainda iriam fazer.
Na nossa vida sempre lutamos por algo que é nosso, e isso até que é engraçado, porque de uma forma ou outra iremos todos morrer e tudo o que mais almejamos sumirá como pólvora ao entrar em contato com fogo. Quando há guerras, os soldados lutam para proteger seu país, mesmo que para isso seja necessário eles morrerem para conquistar a vitória.
Sabe os heróis dos quadrinhos? Aqueles que passam sua vida inteira salvando cidades e tudo mais, usando habilidades especiais? Eles existem, embora não usem uniformes colados à pele e cuecas por cima da calça. Eu sou um deles, eu acho. Mas, você provavelmente não deve estar entendendo nada do que eu estou falando. Então, permita-me lhe contar minha história a partir do dia em que o planeta Terra deixou de ser um planeta, e se tornou um inferno.
O inferno começou há dois anos atrás, em 2082, no dia 4 de julho, justamente no Dia da Independência dos Estados Unidos.
Eu estava dormindo em minha cama, até que uma luz adentrou em meu quarto e atingiu meu rosto. Acordei com um clarão à minha frente, com a origem dele vindo da janela, que devia estar fechada.
– Willian, foi você que abriu a janela? — Perguntei, ainda deitado. Eu voltei a fechar meus olhos, pois a luz estava me irritando.
– Não, foi um gnomo. — Respondeu meu irmão, sua voz vinha em direção da porta. — É claro que fui eu, bocó. Vamos, se levanta, a mãe tá chamando.
Eu me sentei, ainda com os olhos fechados, e então os abri novamente e vi meu irmão parado na porta do quarto, me encarando com uma expressão de sono na face. Seus longos cabelos negros estavam espalhados por sua testa e cobrindo sua nuca. Seus olhos estavam com olheiras terríveis, mas a coloração azul deles ainda era predominante, assim como os meus. Sua pele pálida estava mais pálida ainda por causa da luz no quarto. Willian era três anos mais velhos que eu, que na época tinha 13 anos.
– Por que acordamos tão cedo? — Murmurei, olhando para o relógio em cima do criado-mudo, que dizia ser 7:29.
– Hoje é o Dia da Independência, se esqueceu? Vamos para o Central Park hoje, vai ter uma comemoração lá.
– Não podemos simplesmente comemorar em casa? — Eu me levantei, calçando meus chinelos que estavam sobre o piso de madeira de nosso quarto. À minha frente estava a cama de Willian, já arrumada.
– Franklyn. — Disse Willian, dobrando seus braços. — Qual é, cara. É um feriado comemorativo hoje.
– Por isso que eu quero comemorar ele aqui, no meu quarto, na minha cama, dormindo.
– Não me faça te arrastar até lá embaixo. — Ele abriu um leve sorriso desafiador.
– Você não faria isso. – Caçooei.
E ele fez. Agarrou-me pela gola da camisa e me arrastou desde o quarto até a escada, onde consegui me soltar dele e me jogar no chão.
– Então, Franklyn... — Falou, enquanto eu me erguia pelo chão de madeira fria, até que ele me agarrou e me levantou. Willian sempre foi bem forte, mesmo não tendo músculos. – Você desiste?
– Desisto. — Sorri para ele, que me largou e também retribuiu com um sorriso. — Estou sentindo cheiro de panquecas.
– Somos dois. — Nós nos encaramos durante alguns segundos. – Corrida?
– Corrida.
E nós descemos correndo pelas escadas até a cozinha, onde nossa mãe estava arrumando a mesa para o café da manhã, colocando três panquecas em cada um dos três pratos colocados sobre a mesa, com os talheres ajeitados ao lado deles. O nosso vaso de flores vermelho estava como sempre no centro da mesa, com as várias tulipas brancas dentro dele.
– Bom dia, mãe. – Falei ofegante, quando cheguei na cozinha antes que o Willian.
– Ah, Franklyn. — Ela me olhou e sorriu, enquanto colocava a última panqueca em um dos pratos. — Bom dia. Onde está Willian?
– Aqui. — Murmurou ele logo atrás de mim, sem demonstrar nenhum cansaço. — Bom dia, mãe.
– Bom dia. — Respondeu minha mãe. — Apostaram corrida de novo?
– Sabe como é, precisamos nos aquecer para hoje. — Disse Willian, enquanto se sentava ao redor da mesa, em uma das cadeiras laterais. Eu sentei no outro lado, logo à frente dele, e minha mãe sentou na ponta. — É verdade que ele vai estar lá?
– Sim, é verdade. — Respondeu minha mãe, enquanto pegava delicadamente uma faca e se preparava para cortar uma parte da panqueca.
– Ele? Ele quem? — Perguntei, curioso.
– Seu pai, Franklyn. — Respondeu minha mãe, com um leve tom de tristeza em sua voz. Seus olhos verdes brilharam com a luz do sol no cômodo, e seu longo cabelo castanho balançou com uma brisa que adentrou na cozinha sem dar qualquer aviso.
Meus pais haviam se divorciado quando eu e Willian éramos pequenos. Willian tinha 4 anos na época, e eu somente 1. Aconteceu devido problemas que nenhum de nós sabíamos. Willian me disse que eles, no entanto, estavam sempre discutindo sobre coisas confusas. Um tempo depois eles voltaram a se falar e começaram a ser colegas novamente, mas não queriam voltar para trás depois de tudo o que havia acontecido. De vez em quando nosso pai vinha nos visitar, e às vezes nós íamos visitá-lo, embora essas visitas fossem raras.
Nós terminamos de comer nosso café da manhã e nossa mãe nos disse para irmos tomar banho e nos trocar, pois sairíamos de casa às 9:30 e tentaríamos chegar lá às 10:00 ou menos. Eu fui o primeiro a tomar banho, e tentei ser o mais rápido possível. Só de pensar que eu reencontraria meu pai me deixava animado. Quando saí era a vez de Willian, e depois era a vez de minha mãe. No momento em que todos nós estávamos arrumados, saímos de nossa casa. Entramos no carro de minha mãe, uma SUV preta, e então eu vi minha casa pela última vez, literalmente. Naquela hora, eu não sabia que aquela seria a última vez que veria ela, e fiquei admirando-a enquanto minha mãe ligava o carro e abria o portão para veículos: uma casa de dois andares revestida de madeira branca por fora, com o teto de telhas perfeitamente posicionadas e nosso quintal com a enorme árvore que ocupava um quarto do espaço dele, onde havia meu antigo balanço, que agora era somente uma tábua de madeira.
Nós morávamos em uma região um pouco "conservada" de Nova Iorque, mais precisamente no Brooklyn. Por que conservada? Digamos que seja uma área em que não tenha tanta tecnologia quanto no centro. Veja bem, no início do século 21 ainda havia regiões pobres, regiões em que as pessoas passavam necessidades e não tinham onde morar. Depois da Terceira Guerra Mundial que aconteceu em 2016, a população mundial diminuiu em quase 2 bilhões de pessoas. Na metade do século 21, em 2046, o presidente dos Estados Unidos resolveu melhorar seu país e resolveu adicionar a tecnologia por completo na vida das pessoas, de tal forma que tudo funcionasse como robôs: portas com reconhecimento facial ou de impressões digitais, geladeiras que pegassem o alimento que você pedisse, calçadas que funcionassem como escadas rolantes, e também as ruas aéreas, que são literalmente ruas no ar, onde elas são feitas de um tipo de material magnético, em que os carros possuem algo como um imã que os faz ficarem conectados às ruas, de tal forma que eles não despencassem no ar. Elas funcionam como uma forma de facilitar a viagem sem necessitar de usar as antigas ruas no chão, embora muitos ainda gostem de usar essa forma de locomoção por ser mais calma. Minha mãe é uma dessas pessoas. Ela diz que prefere viver à moda antiga. Minha mãe tinha 36 anos naquela época, mas mesmo assim ela vivia como uma adolescente. Assim como grande parte dos adultos de nosso bairro, que viviam de forma "livre e perfeita", como diziam.
Mas eu gostava de lá, de nosso bairro. Nunca passou a ideia pela minha cabeça de eu simplesmente deixar aquele lugar para sempre. Eu sabia que iria voltar para casa no fim daquele dia, com minha mãe e Willian, talvez até mesmo com meu pai junto conosco.
Nunca estive tão errado na minha vida.
A viagem inteira nós ficamos conversando sobre as coisas que poderíamos fazer no Central Park. Minha mãe havia nascido perto de lá, a dois quarteirões de distância, por isso era a pessoa mais animada no carro. Eu e Willian ficávamos olhando os enormes prédios de mais de oitenta andares da cidade, e quase todos os prédios tinham no máximo dez andares há 70 anos atrás. Os prédios comerciais eram os maiores: alguns chegavam a ter 100 andares. Mas o que mais se destacava era o Empire State ao fundo, com incríveis 203 andares. Era atualmente o maior prédio de toda a América do Norte, e também o segundo maior ponto turístico de Nova Iorque, perdendo apenas para o Central Park.
– Quando crescer eu vou querer trabalhar lá! — Afirmou Willian com um tom de confiança na voz.
– Boa sorte, então, superempresário. – Murmurei, e ele me olhou com cara feia no banco da frente.
Quando me dei conta, já estávamos a poucos minutos do Central Park. Podia ouvir uma música que dizia sobre as belezas do nosso país, como foi a época da libertação e tudo mais. Bandeiras dos Estados Unidos estavam penduradas nos postes, várias pessoas andavam com roupas vermelhas, azuis e brancas, tinha até uma sósia do Tio Sam.
Minha mãe estacionou a SUV em um estacionamento subterrâneo a três quarteirões e distância do Central Park. Ela pegou sua bolsa, Willian pegou sua mochila que ele costumava carregar para todo lugar e eu coloquei meu moletom vermelho, então saímos do carro e andamos em direção da saída do estacionamento, rumo ao Central Park.
Depois de cinco minutos de caminhada, já podíamos ver as árvores do parque e as várias pessoas comemorando o Dia da Independência. Há um quarteirão de distância havia uma barreira que proibia a entrada de veículos, com exceção das viaturas policiais. Nós atravessamos a barreira e continuamos a caminhar até o Parque, até que finalmente entramos nele.
A mesma música que estava tocando nas ruas tocava ali, e muitas pessoas dançavam por entre as árvores do parque. Algumas se sentavam em clareiras para fazerem piqueniques, já outras caminhavam em grupos enquanto conversavam e riam. Crianças brincavam de pega-pega e pique-esconde, todas com a mesma expressão de felicidade no rosto.
– Por que não vai lá brincar com elas, Franklyn? — Brincou meu irmão. — Parece ser divertido.
– Vai se ferrar. — Respondi, e depois nós dois rimos.
– Onde é que ele está? — Murmurava minha mãe, preocupada. — Ele disse para nos encontramos aqui.
– Você sabe que ele se atrasa, mãe. — Falou Willian. — Ele não é pontual.
– É por isso que nós nos divorcia... — Ela parou de falar, quando percebeu que estávamos ali ainda. — Bom, esqueçam. Vamos no sentar e esperar.
– Esperar pelo quê? — Falou uma voz que vinha detrás das árvores.
Então meu pai apareceu, segurando quatro algodões-doces. Ele continuava o mesmo de antes: alto, o cabelo preto com alguns fios grisalhos, sua barba aparada e seus olhos cinzentos profundos e misteriosos. Vestia uma camiseta de botões quadriculada cinza por debaixo de um sobretudo marrom, uma calça jeans escura e um sapato social preto.
– Pai! — Exclamou Willian e eu na mesma hora que o vimos e corremos para abraçá-lo.
– Olá, filhos. — Falou meu pai, enquanto nos abraçava com um só braço, enquanto olhava para minha mãe. — A família Thompson novamente está reunida. Aliás, você está linda, Helen.
Minha mãe corou e desviou seu olhar para baixo, retirando alguns fios de cabelo que estavam sobre seu rosto.
– E você parece bem, Kenneth. — Murmurou minha mãe, observando-o e abrindo um leve sorriso. — Parece que já providenciou um lanche para nós.
– Ah, sim. Eu não sabia o que comprar para vocês, então peguei um algodão-doce para cada um. — Ele segurou todos com mais firmeza e entregou um para cada. — Vamos nos sentar?
– Está bem. — Respondeu minha mãe, e fomos procurar bancos para nos sentar.
– Mãe, podem ficar aí, eu e o Franklyn vamos sair para caçar algo para se fazer. — Falou Willian calmamente quando por fim encontramos um banco vazio.
– Vamos? — Perguntei, e ele deu uma cotovelada de leve de tal forma que meus pais pareceram não ver. — Ah, sim, vamos.
– Vocês têm certeza? — Perguntou minha mãe, que parecia ter ficado preocupada com a ideia. — Há muitas pessoas aqui.
– Mãe, eu sei me defender. — Respondeu Willian, olhando para mim. — Tá, eu defendo Franklyn também caso algo acontecer.
– O quê? — Exclamei, indignado. — Como assim me defender? Eu tenho treze anos, não oito.
– Alguma coisa ruim pode acontecer.
– Você não espera que uma guerra se inicie do nada aqui, né?
– Quem sabe. Mas vamos andando logo de uma vez. Até mais, mãe e pai.
– Até. — Falou meu pai, de forma amigável. — Tomem cuidado.
– Nós tomaremos. — Riu Willian, e nós dois começamos a andar pelo parque, deixando nossos pais sentados sozinhos logo atrás.
Eu dei uma última olhada para eles, e eles estavam conversando, mas os sorrisos em seus rostos haviam sumido. Ambos estavam sérios, e eles pareciam falar de tal forma que não queriam que outras pessoas ouvissem sobre o que conversavam. Eu perdi a atenção neles quando Willian me beliscou.
– Qual é! — Exclamei, sentindo um pouco de dor com aquele belisque.
– Deixe-os ficarem sozinhos, Franklyn. — Falou, me empurrando para começarmos a andar. — Nada vai acontecer com eles. Agora estão juntos, e não há com o quê se preocupar.
– "Estão juntos". Fala como se eles estivessem namorando de novo. Mas eles estão estranhos. Foi só nos afastarmos e eles perderam os sorrisos. Por quê isso?
– Talvez estejam falando sobre assuntos sérios? Foi só eu voltar da escola que você ficou burro assim?
– Vai se ferrar, Willian.
E assim começamos a de fato andar pelo Parque, parando para conversar com alguns conhecidos nossos (como o nosso vizinho, o Sr. Burngold e a professora de aritmética de Willian) ou observando o aglomerado de azul, vermelho e branco. Mas eu estava com um mau pressentimento. "Alguma coisa ruim pode acontecer", falou Willian. Aquela frase não saía de minha cabeça. E se de fato algo acontecesse ali? Eu dizia para mim mesmo que era bobagem, e depois de alguns minutos eu finalmente me convenci que aquilo não aconteceria. Seria impossível acontecer.
E, como sempre, eu estava MUITO errado.
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