Guerra Fria
1 Capítulo 1
Guerra Fria
“Sofia!” Lorena resmungou ao pisar em uma taxinha. Já havia se acostumado com essa guerrinha que se instalara na casa. Sofi colocava uma taxinha no quarto de Lori, que colocava pasta de dente na cara de Sofi, que dava descarga enquanto Lori tomava banho, e por aí em diante. Era uma guerra fria que nenhuma das duas sabia explicar o porquê. Parecia que faziam isso desde que Lorena chegou naquela mini república feminina. Com seis mulheres na casa, logo a mais criativa resolveu começar essa guerrinha. “Vai ter vingança” um sorriso surgiu em seu rosto.
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“O jantar de hoje é... NADA!” disse Camilly, saindo triste da sala, rumando à cozinha. Nem uma das moradoras sabia muito bem o motivo, mas Lorena tinha certeza que era mais uma de suas briguinhas com Luana. Suspirou e se levantou. Lançou um olhar para ela, dizendo: “Eu vou falar com ela”. Lua assentiu e ela saiu calmamente.
“Posso entrar?” Lorena perguntou, mas não recebeu nenhuma resposta. Tudo que se ouvia era os choramingos e soluços de Camilly. Interpretou isso como um sim. “O que aconteceu dessa vez?” disse, se abaixando pra ficar mais perto da ruiva, que estava sentado no canto da cozinha, abraçando os joelhos.
“Ela... eu... só... me deixa sozinha!” disse, entre soluços.
“Tudo bem, você não quer conversar. Mas, e que tal se eu te abraçasse até você para de chorar?” e abriu os braços, esperando um pouco até que a baixinha levantasse a cabeça. “Vamos, meus braços estão doendo!” brincou, enquanto sorria de maneira calma. Foi surpreendida ao perceber que a outra se jogou em cima dela, chorando cada vez mais, e acabando por amassar a camisa da loira, por conta da força que fazia durante o abraço.
“Ela é uma idiota! Tudo que ela faz é pra me irritar! Eu odeio ela! E odeio mais ainda que não consigo tirar ela da cabeça! Eu faço tudo! Faço comida pra ela, ajudo quando ela tem um daqueles ataques de pressão! Até levo ela pro médico, por conta desse desmaios estúpidos!”.
“Eu sei, você é a mais esforçada dessa casa! E todo mundo aqui vê isso! Sabe de uma coisa? A Lua já até me disse que se sente inútil perto de você, Cami!” ela afastou Lorena o suficiente pra olhar em seus olhos.
“Sério?” perguntou esperançosa. Lorena assentiu. A ruiva enxugou os olhos com as costas das mãos e fungou um pouco “Obrigado. E desculpa te incomodar com meus problemas”.
“É sempre um prazer ajudar!”, se levantou e ajudou Cami a fazer o mesmo. “Aliás, já que não vai ter mais janta, posso pegar algo na geladeira?”.
“Á vontade”.
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Lori acordou em um pulo, após se assustar com algumas batidas na porta. Olhou para o relógio. Eram três da manhã. O que quer que fosse era bom ser importante. Ele abriu a porta e se deparou com uma Sofia prestes a chorar. Com certeza era importante.
“Eu... añh...” enxugou uma lágrima com as costas da mão “... É só...” suspirou “A gente pode conversar um pouco?” Lorena abriu a porta mais um pouco e lhe deu espaço pra entrar.
“Quer se sentar?” disse, apontando pra cama desarrumada. Sofi assim o fez.
“Eu... ouvi você falando com a Camilly na cozinha. Fui lá pegar comida, mas acabei vendo um pouco. Parece que você é um tipo de psicóloga aqui na casa. Eu... só queria conversar um pouco, sabe?” soltou um riso triste “Você tem tempo?”.
“São três da manhã, eu tenho quanto tempo você precisar”.
“Eu tava dormindo, só que começou um sonho estranho, eu falava com todo mundo, só que ninguém me ouvia, ninguém nem olhava pra mim. Era como se... eu não fosse nada. Todos da casa me evitavam, como se eu não existisse. Ás vezes eu penso se eu realmente importo. Sabe?” Lorena assentiu.
“Eu sei muito bem como é essa sensação...”.
“Não, você não sabe...” disse, tão baixo que nem ela mesma escutou. “Todos amam você, todos falam com você, todos... me odeiam! Não tem ninguém aqui que sentiria minha falta se eu fosse embora agora! Quer saber, eu não sei porque eu vim aqui... Boa noite”.
Antes que pudesse sair andando, Sofi sentiu uma pressão em seu braço. Ao se virar, viu que Lorena o olhava de um jeito terno e reconfortante “Eu sentiria muito sua falta, não te odeio. Ninguém aqui te odeia. Você só não nos dá a chance de te conhecer melhor... Por favor, agora que você me acordou, eu provavelmente não vou voltar a dormir, então... Não quer conversar um pouco?”.
Sofi sorriu de um jeito brincalhão, mas ainda meio triste “Não pense que isso significa o fim da guerra”.
“Que bom, eu não sei o que faria sem ter alguém pegando no meu pé”.
Lorena puxou Sofia, com a intenção de fazê-la se sentar, mas acabou usando um pouco mais de força que o esperado, fazendo com que elas caíssem juntas na cama, cessando as risadas que antes ecoavam pelo quarto. Sofi acabou por ficar com a cabeça entre o pescoço e o ombro de Lorena. Ao levantar a cara, deixou suas bocas a poucos centímetros de distância uma da outra. Ambas coraram, mas isso não impediu que a morena tomasse uma iniciativa. Não foi como uma cena de cinema, o beijo não tinha técnica, nem era calmo. Era como se aquilo fosse tão urgente como respirar. Como se suas vidas dependessem daquilo. E foi essa necessidade que deixou o beijo muito melhor.
“Sinceramente, eu preferi isso do que conversar” disse sorrindo, fazendo com que o rosto de Lorena tomasse um tom escarlate.
“Muito melhor!” riram e, com muito esforço, se levantaram.
“Se for tentar se vingar, meu quarto é do fim do corredor...” sorriu maliciosamente e saiu pela porta.
Lorena se deixou cair. Quem diria que guerras frias podem ficar quentes?
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