Guerra Dos Tronos
2 Mel e Aço
Depois da explicação, Nico foi praticamente expulso do Salão, mesmo quando alegou que Jason não estava em seu lugar apenas porque não conseguiria ficar quieto e que isto fazia dele o Chefe de Cronos. Mas ao dizer isso até Thalia fez menção de prender o riso, então ele saiu, revoltado, para o meio dos templos.
Em grande parte de sua vida — que não era mais de dezenove anos — Nico vivera pulando de um templo para outro. Em seu nascimento, assim que a mãe morreu no parto, uma profetisa contou que ele deveria servir a algum Deus, se não, não poderia ser um grande guerreiro. Como era o mais novo de duas garotas, o pai priorizou que ele fosse a todos os templos, em todas as Fortalezas, para que fosse treinado e iniciado nas lições dos Deuses e Nico passou a gostar de servir aos Deuses, principalmente à Deusa Aphrodite, e só foi para casa no velório do pai, para depois partir a outros templos novamente.
Passara nove anos preciosos sendo ensinado em templos e falando com as irmãs e Thalia por cartas. Mesmo sem querer, se tornavam muito próximos e isso criava um abismo absurdo na relação de Nico com Jason e Perseus, o que fazia com que se odiassem tanto e nunca se escutassem e sempre se ignorassem. E era isso que martelava na mente e no coração de Nico, fora por esses problemas de brigas sem sentido que Perseus ficara sozinho e tinha sido capturado.
O medalhão de caveira pesava mais que antes. Aquele era seu único presente "mágico" dos Deuses, ele pesava quando estava preocupado, queimava quando rezava com verdadeira devoção, era gelado como o aço quando estava com raiva e parecia perfurar seu peito quando chorava. O frio do norte o fazia se arrepiar inteiro e a música suave do templo de Apollo penetrava sua alma e a enchia de medo, mesmo sem saber do que.
Deus Apollo, Menestrel de Santos — ele se ajoelhou na frente da estátua do Deus e segurou com força em seu medalhão. — Ilumina os olhos de nossos arqueiros e guia suas flechas aos nossos inimigos, peça à Deusa por mim e minha alma, assim como meus amados e os Seus. Rogo por Cronos e seus filhos e os Seus filhos, e todos os que vivem no Olimpo, filhos de Deuses, filhos de homens, escravos ou nativos ou homens sem Casa. Deus Apollo, Menestrel de Santos.
Permaneceu com os olhos baixos e começou a sussurrar sua prece para Aphrodite e os outros Deuses, aprendera assim, ao Deus do templo ele reza alto, aos outros ele pede apenas aos seus ouvidos. Atrás dele, uma ruiva o observava, com certa curiosidade. Quando ele terminou, ela elevou sua voz para falar.
Não são muitos os homens de guerra que rezam para Apollo — Nico se assustou, mas continuou ouvindo. — Geralmente são as moças, virgens. Elas vêm e pedem para que seus noivos sejam virtuosos — hesitou -, ou vigorosos.
Homens de guerra, você disse. Eu sou aquele que chamam de homem do templo. — Ela riu.
Nem bem é um homem, parece uma criança crédula e ingênua. — Nico fechou a cara e se levantou.
E você não parece uma virgem que vem pedir pelo noivo. — Ela riu baixinho.
Desculpe. Eu acredito que conheço você. Muitas garotas que frequentam os templos falam sobre esse certo homem dos templos. Dizem que ele tem um olhar quente feito o fogo do inferno. — Nico olhou para ela e deu seu melhor sorriso malicioso, aproximando-se devagar. — Um toque frio que arrepia moças experientes.
Nico imaginou que ela realmente queria alguma coisa, o olhava tão intensamente que parecia até apaixonada, como uma antiga amante ou algo mais. A garota era bonita e Nico não tinha mais missão relevante ali, estava livre para os templos, as rezas e as garotas dos templos. Então segurou seu braço suavemente, sentindo-a se arrepiar.
E um beijo mais doce que o mel dos Deuses — ela sussurrou. Nico roçou seus lábios nos dela, pronto para beijá-la, quando ouviu a voz de Thalia chamando-o no corredor. Afastou-se apenas o suficiente para olhar para a porta do templo.
Nicolaus, venha, preciso de você. — A Lady de Cronos olhou torto para a garota que o acompanhava, mas não falou nada. Ele foi saindo atrás da prima e a ruiva o segurou pelo pulso.
Venha me ver à noite.
Eu virei — declarou antes de partir sem olhar para trás.
.
.
.
Quem é aquela? — Thalia perguntou enquanto caminhavam pela muralha.
Não sei o seu nome. — Deu de ombros. — Nem me importo.
E lá vai a bênção de Aphrodite embebedar as jovens. — Eles riram juntos. — Falando sério, Nico, ela parece diferente.
Diferente por seu cabelo? Eu já vi pessoas ruivas, Thalia.
Aposto que a quer porque nunca esteve com uma ruiva.
Não. Se eu tivesse apostado, você teria perdido. — Nico riu sonoramente. — Ela é do templo.
— Serve a Apollo?
Talvez, mas acho que não. O que você diz que é diferente, eu entendo. Ela é afilhada de Apollo, ou de Dionísio, agora estou em dúvida. Vive nos templos.
Então seria uma sacerdotisa? Fique longe dessas pessoas, meu primo — ela apertou sua mão com força.
Não, Thalia. Ela é mais que tudo isso. Pelos olhos dela eu vi, aquela garota é uma profetisa.
— Então cuidado em dobro, gente assim costuma enganar ninfetas e crianças ingênuas que tentam encontrar ninfetas.
Você me chamou de criança ingênua? — Por um momento pareceu apenas irritado, mas logo abriu o sorriso entendendo a brincadeira dela.
Prefere ser chamado de ninfeta?
Os dois gargalharam alto, fazendo-se ouvir pelos guardas que cercavam a muralha. Nem parecia que estavam prestes a entrar em guerra com o desconhecido ou que o Chefe da família estava desaparecido. Tudo era apenas riso, nunca se negaria que Nico e todas as garotas de Cronos se divertiam juntos porque se amavam.
Eu não quero guerrear. — Thalia falou de repente.
E viver na tensão com o Extremo Sul? Thalia, assim também não dá.
Mas eu estou com medo. É duro confessar, mas eu estou morrendo de medo — Nico a abraçou, segurando-a contra seu peito, mesmo ele sendo ligeiramente mais baixo que ela.
Eu quero voltar pra casa e ouvir a sua voz bradando: Ergam as bandeiras! Cronos vai dar as honras do Olimpo. — Ele imitou a voz dela e ela começou a rir.
E Cronos vai, querendo ou não. E eu estarei lá e lutarei e morrerei pela minha rainha.
Não vai morrer. Eu não vou permitir. Minha Deusa vai proteger meu coração, portanto, você.
Você realmente reza para a Deusa Aphrodite e acredita que ela vai salvá-lo?
E por que não? Quem vence a guerra, o mel ou o aço? — Ela franziu o cenho.
Mel ou aço?
Isso. Aphrodite ou Ares?
Ares.
Por que?
Porque é óbvio, ele luta.
Mas é preciso? Sempre? E a diplomacia? Não é por isso que temos reis e guerreiros, para que a batalha seja a última opção? E as tréguas? Alguém faz tréguas com espadas? — Ela finalmente pareceu entender. — Quem vence a guerra, o mel ou o aço?
Acho que o mel. Embora, às vezes, o aço seja necessário.
Quem vem primeiro, de qualquer jeito, é o mel. Aphrodite. — Nico deu de ombros. — E mesmo que eu admire essa de lutar pela minha Casa, eu sempre vou tentar antes pedir uma vitória à Aphrodite, porque é ela quem destila esse mel nos mortais.
Thalia começou a refletir sobre o que Nico dizia, Cronos não rezava no tempo dele, Hades, Zeus e Poseidon também não. Então, o que tinha criado no jovem crônida aquele desejo natural de rezar por proteção ou vitória? Talvez fosse toda a linhagem de ódio e injustiça, porque, fora Nico, nunca existiu um filho de Cronos que rezasse para alguém além do próprio Cronos Deus dos Tempos.
Fale com o autor