Guerra De Inverno
1 Capítulo único
Notas iniciais
Explicações históricas na nota final.
Seu corpo todo doía; sua mente vagueava incertamente; sua percepção falhava nas mais mínimas tarefas.
Tino tentou andar, mas ultrapassar o obstáculo que era toda aquela neve acumulada e que não dava indícios de que iria parar de cair era exigir muito mais do que o seu corpo era capaz de realizar no momento.
Um, dois passos. Foi o máximo que conseguiu.
Seus joelhos, sem forças, cederam e o fizeram cair de frente na neve gélida. Talvez o frio intenso junto à água condensada diretamente em contato com seu rosto desprotegido fossem o suficiente para mantê-lo lúcido. Ou talvez tivessem o efeito oposto e o ajudariam a apagar mais rápido.
Mas não podia deixar isso acontecer! Se deixassse, com certeza morreria congelado!
Tentava, à todo custo, manter-se consciente, mas suas pálpebras pesavam e pareciam implorar para serem fechadas; sua mente parecia implorar para ser desligada. Sua respiração condensando à frente a cada dificultada expiração parecia ter um efeito hipnótico sobre ele, e sua consciência aos poucos ia cedendo ao desejo de apagar e deixar todo o resto para trás.
Tinha resistido por tempo suficiente, não tinha? Apesar da desvantagem, ele tinha conseguido resistir. Mas a um grande preço. Ao seu redor vários corpos repousavam e eram lentamente encobertos pela neve que nunca cessava, na fronteira do território russo. Corpos inertes, cujo último trabalho havia sido manchar a paisagem levemente acizentada, fortemente de vermelho.
Trabalho este que no qual Tino também fazia sua contribuição no momento.
O vento parecia ficar mais forte a medida que os segundos passavam. Um frio não proveniente do rigoroso inverno russo o invadia de pouco em pouco. Um misto de sensações assustadoras e ao mesmo tempo, tentadoras.
Estava quase desistindo, quase se entregando ao torpor irresistível, quando viu.
Uma silhueta? Ou quem sabe uma sombra?
Não sabia.
Mas também não teve tempo de tentar analisar. Fechou finalmente os olhos, deixando a escuridão o engolfar por completo.
~x~
Onde estava? Que lugar era aquele? O que estava fazendo ali?
Olhou ao redor, estranhando tudo o que via. Nada ali era familiar, e tudo era irreal demais para conseguir acreditar que algo daquilo era de fato, real.
Tinha morrido por acaso? Sempre se perguntou o que devia acontecer com os países que morrem, será que agora teria sua resposta? Mesmo que ele não fizesse nenhuma questão de recebê-la.
Ainda estava caído na neve, mas ao mesmo tempo não estava.
Estava deitado de bruços em algo que em um momento parecia ser neve e no outro adquiria um curioso tom dourado, de certa forma, quente. A neve voltava, e no momento seguinte estava deitado por sobre uma superfície claramente azulada, como se estivesse flutuando no céu.
Nada fazia sentido.
Sentia-se estranhamente leve e... Confortável. Talvez estivesse alucinando, talvez estivesse morrendo, talvez os dois. Mas a questão era que estava gostando de ficar daquele jeito naquele lugar desconhecido.
Estranho.
Mas... Começou a ouvir um barulho depois de um tempo sempre na mesma posição. Pode ser que nem tanto um barulho, e sim uma... Sensação?
Uma sensação de urgência de que não podia ficar ali, de que tinha que “despertar” logo.
Antes que fosse muito tarde.
Começou tentando erguer os braços e se levantar. Era mais difícil do que parecia; parecia haver uma espécie de pressão impedindo-o disto, sem contar a curiosa aparente ausência de qualquer material consistente abaixo dele. Era realmente como se aquele “neve” não estivesse lá.
Forçou-se a conseguir, e assim que se viu ereto, ganhando uma visão mais ampla de onde estava (o estranho tom azul claro permanecia até onde sua visão alcançava, e não havia mais nada por lá, nada mesmo), sentiu tudo do que havia se visto livre antes, voltar de uma vez.
Cansaço. Frio. Dor.
Fechou fortemente os olhos, ofegando, e quando os abriu novamente, todo aquele cenário havia sumido. Ao invés da paisagem misteriosa, encontrou-se em uma espécie de... Cabana? Sim, era uma cabana. Mas igualmente desconhecida para ele.
Estava deitado em uma cama estreita, com pesados cobertores por cima de seu corpo dolorido mantendo-o aquecido. De novo a mesma pergunta instalara-se em sua mente: onde estava?
Sem achar que tinha força suficiente para erguer a cabeça, olhou da posição que estava mesmo, ao seu redor. O ambiente não era dos mais claros, mas isso não o atrapalhou.
Poucos móveis, de aparência antiga, paredes de madeira escurecida, e uma pequena janela do lado oposto de onde estava, ressoando levemente por conta do forte vento que batia e revelando a neve que pelo visto havia evoluído para uma nevasca.
Sentia todo o seu corpo doendo e ardendo de maneira intensa e insistente, mas não podia negar, era menos do que antes. Mais... Suportável, por assim dizer.
Ouviu um barulho, seguido pelo vento frio carregado com um pouco de neve entrando pela porta recém aberta, e em seguida alguém entrou.
Tino estremeceu. Tanto pelo frio quanto pelo temor de quem seria aquele a entrar. Não podia ser Ivan... Podia? Não era ele quem tinha visto antes de apagar... Era?
— Como está? — a tal pessoa perguntou. E foi com essa pergunta que o finlandês reconheceu quem era. A voz grave, ressonante, séria, tão conhecida sua.
Berwald.
— Berwald... – Tino disse num sussurro, sem conseguir produzir nada mais do que isso no momento. Era extremamente e indecristivelmente reconfortante ver Berwald depois de tudo o que tinha acontecido.
Na verdade, era reconfortante ver Berwald em qualquer momento que fosse.
Era algo que nunca conseguiu explicar em palavras, mas que em seu íntimo sabia.
E que não tinha coragem de dizer.
— Ivan não virá mais – Berwald falou, aproximando-se alguns passos da cama única – Você ganhou, Tino.
Ganhou? Tinha realmente... Ganhado? Tinha realmente... Acabado?
Soltou um riso baixo, de alívio. Sentia-se aliviado por aquela guerra ter terminado; orgulhoso por ter resistido até o fim; satisfeito pelo sueco estar ao seu lado no momento; mas acima de tudo, sentia-se triste consigo mesmo por tantos de seu povo terem sido mortos.
Uma lágrima solitária rolou por sua face. Ele só não sabia o que ela significava, qual dos sentimentos embaralhados dentro de si ela representava.
— Berwald? — falou surpreso quando a mão do sueco gentilmente limpou a lágrima de seu rosto, acariciando-o em seguida.
Os olhos azuis, tão penetrantes, o encaravam de uma maneira indecifrável. Como sempre.
— Desculpe-me... — o maior falou.
— Ahn? Pelo quê? — Tino perguntou sem entender. Pelo quê ele estava se desculpando?
— Você se machucou — Berwald disse, e seu tom deixava claro que aquilo não era algo aceitável de acontecer — Eu não vou mais deixar isso acontecer. Nunca mais.
E então ele abraçou Tino. Inclinou-se sobre ele, e o abraçou forte, gentil, caloroso.
Quando o encontrou, sangrando, fraco, caído na neve, o medo e o ódio lhe tomaram como há muito não acontecia.
— Não foi sua culpa — Tino sorriu, erguendo um braço com certa dificuldade, começando a acariciar os curtos fios alvos do maior.
"Não foi sua culpa"? Talvez não fosse, mas não era assim que Berwald pensava. Poderia ter ajudado mais, poderia ter ido lutar ao lado de Tino pessoalmente, podia ter feito mais para ele nã oter se machucado tanto. Tinha sido proibido de fazer tudo isso pelo seu chefe, e era obrigado a obedecer, mas se odiou por isso.
Por isso, não importava o que lhe custasse, nunca mais deixaria isso se repetir. Ivan não iria mais atacar Tino, ninguém mais ia machucar ele.
Não permitiria.
Notas finais
Guerra de Inverno -> aconteceu no início da 2 Guerra Mundial, quando a URSS invadiu a Finlândia. A Finlândia resistiu bravamente (dá-lhe Tino xD) e conseguiu não ceder à URSS, mas no final (ao contrário do que eu disse na fic), foi como um empate. Muitos países mandaram ajuda para o país nórdico, inclusive a Suécia, mas apesar de enviar soldados e mantimentos, a ajuda não foi exatamente direta.
Fale com o autor