Guerra Celeste

2 Capítulo 1 - Pote de Vidro


Empurrar meus irmãos para dentro daqueles portões foi necessário. Um a um, eles foram enfiados nas portas do inferno. A missão não era das mais fáceis, mas eu tinha um amigo fiel ao meu lado e creio que isso facilitava um pouco as coisas. Infelizmente, numa das vezes, ele acabou sendo arrastado para um dos portões pelos caídos, agora denominados demônios. Nada pude fazer para impedir. Embora a culpa me aflija a alma, sou um anjo, por isso não me lamento, só não contava eu que tivesse que ocupar um recipiente, onde estou vulnerável às emoções humanas...



— Aqui está! Mas esta será a última, estamos fechando. É perigoso ficar aberto até uma hora dessas. – Diz o barman, me trazendo mais uma caneca topada de cerveja, a minha nona, deixando-a sobre o balcão de madeira. Enquanto eu, sentado num banco, sequer olho para a cara do sujeito barrigudo e imundo, apenas procedo meus goles, observando minha nova caneca.


Recipiente... Não, não falo deste pote de vidro. Na verdade, o recipiente a que me refiro se chama Ytan Söwtier e agora é como me chamo também. Parece que um dos Portões trancafiados por nós fora aberto e o mundo está com a boca escancarada e cheia de dentes para os demônios. Essa é nova missão dos céus para seus servos: eliminar a ameaça! Mas para pisar neste solo terreno, precisamos dos recipientes. Confesso que não é muito confortável, mas ordens são ordens.

- Ytan, seu idiota! Acha que pode nos deixar e ficar por isso mesmo?! – Esbraveja um homem entrando no bar, vestido com uma jaqueta de motoqueiro e uma bandana, com sua trupe de criminosos às costas.

Ytan Söwtier, o que posso dizer dele? Era um integrante de uma gangue de motoqueiros violenta que saqueia pequenas cidades, vândalos causadores de muita baderna. Seu 1,87m, sua barba de entardecer, sua cara de largado, seu passado obscuro escondendo a morte de sua família... Tudo contribuiu para que fosse meu recipiente, assim eu teria o rosto exato para o que tenciono e seria menos um selvagem solto por aí... ou talvez não.

- Óhhh, resolveu dar uma de homem, hã?! – Debocha o canalha, enquanto puxo minha Desert Eagle, encoberta pela minha jaqueta supremamente mais estilosa. — Hahahaha! Matem-no, não deixem um pedaço! – Seu tom de voz muda e ele e sua gangue começam a transformarem-se numa horda de seres sanguinários, de dentes pontiagudos, olhos negros, pele vermelha, asas draconianas e um chifre na testa.

Objetivos? Claramente tenho alguns. Posso ser chamado de “Caçador de Demônios”, a lâmina de minha espada já provou o sangue de vários deles. Ou seja, quando não há um portão para chutá-los de volta, eu os mato. Será assim até que este recipiente resista, até que encontre aqueles que tragaram meu amigo e companheiro de guerra para o quinto dos infernos... Até que minha alma silencie esta culpa.


— Eu pretendia deixá-los vivos em nome de nossa bela amizade do passado, mas vejo que foram possuídos. – Apontei a arma para o líder, o tiro arrancou-lhe um buraco do peito e o ferimento foi corroendo-lhe rapidamente o resto do corpo... Balas banhadas em água benta. Como o bar estava fechando, só havia a mim e o barman, o qual um dos demônios acabara de dar cabo voando com voracidade sobre o mesmo, arrancando e devorando-lhe as tripas ensopadas de álcool.

Meus olhos expeliram a intensa luz vermelha não tão angelical, que escapou das brechas dos óculos Rayban. Baixei a cabeça, retirei os óculos, a ergui novamente, fitando-os. Os demônios, observando o estrago em seu companheiro e minha imagem também, ficaram receosos, recuando amedrontados. Afinal de contas, quem é o demônio aqui? O próximo tiro veio e mais um deles se foi. Então atacaram.

- Malditos... Eu gostava da cerveja daqui! – Um deles veio por cima, antes que me alcança-se, minha Desert Eagle alcançou sua cabeça saltitante. Porém, isso proporcionou uma abertura para o outro, mas o surpreendi com minha segunda belezura em seu pescoço. Hou Hou! Duas bolas em campo, juiz!

Saí pela porta e recoloquei os óculos que refletiram a lua cheia. Demorei breves segundos contemplando o astro lunar e tive uma sensação de vazio um tanto quanto incômoda. Então mirei com uma das armas na direção das minhas costas, ainda olhando para frente, fulminando aquele último demônio que atacara o barman e agora vinha sedento ao meu encontro. O disparo o ultrapassou e atingiu uma adega de bebidas, logo tudo foi incendiado. Subi à moto e fui.

Para onde? Los Angeles. É lá onde o Portão fora aberto. Mas o curioso é que Miguel, um dos Arcanjos, a classe que alcançou o maior nível de Graça entre nós, era o responsável por este Portão. Não compreendo como alguém tão poderoso possa ter sido derrotado.

- Cheguei...

Nos arredores de Los Angeles, um local que fora esquecido quando ergueram os gigantes “arranha-céus”, um nome um tanto irônico quando muitos que neles convivem são corruptos ordinários. Abri as imensas portas e, por incrível que pareça, me deparei com um local que devo respeitar nessas terras.

- Olá, padre. – Disse eu ao velho negro de batina que se aproximou com um lampião.

- Ah, você está de volta. Senti o cheiro de álcool lá de dentro.

- Eu já lhe disse que você é um padre muito ranzinza, não disse?

- Todos os dias, filho.

- Irônico, não?

- Irônico é o fato de eu ter um anjo bêbado na casa do Senhor em pleno Apocalipse.

- Hahahahaha... Mas essa é a intenção. Quem desconfiaria de um anjo que bebe cerveja? — Perguntei eu, com um sorriso sacana no canto da boca. – Preciso que você prepare mais água benta pra mim.

- Amanhã. Um velho cansado merece um descanso, não acha?

Eu me pronunciava retirando um cantil de Whisky do bolso da jaqueta, dando um longo gole. O padre me respondeu enquanto foi indo Igreja adentro, acendendo as luzes, iluminando tudo. Foi então que, subitamente, as portas de madeira foram abertas bruscamente causando um grande estrondo. Um homem com cabelo liso e castanho até o queixo, de olhos totalmente negros e usando um sobretudo bege até a metade das pernas surgiu, seu sorriso sádico me era familiar.

- Mas ora, vejam só se não é o grande Menadel! – Me indagou o sujeito.

- Como ele sabe quem você é?! – Perguntou indiscreto o velho ranzinza.

- É, padre... Acho melhor andar logo com a água benta.