Guerra Celeste
3 Capítulo 2 - Memórias de Guerra
CAPÍTULO 2 – MEMÓRIAS DE GUERRA
Aqui estou eu como um soldado que deixa seu lar para lutar por seu povo numa terra inóspita, um anjo que anda na Terra. Com um cantil de Whisky numa mão e um revólver Desert Eagle em outra. Observo de cima a baixo um homem de olhos negros tenebrosos que não me causam temores, mas me trazem lembranças as quais preferiria não lembrar... Um “Caído”, com certeza.
- Olá, Mirrael. Eu não tinha te enfiado num buraco um dia desses? – Perguntei ao sujeito.
- É... Mas resolvi matar a saudade.
- Quanta gentileza. – Respondi, dando um gole no cantil, guardando-o e continuando em seguida. – Então acho que vou ter que te dar outro pé na bunda, certo?
- Quanta indelicadeza. Esse seu recipiente não é dos mais educados, esse é o preço quando sua alma se une a de um macaco. Dessa vez serei eu quem o enfiarei num Portão, para que sinta a sensação de cair no inferno e de ser abandonado por Ele.
- HaHaHaHaHaha... hehe... he...
Meu sorriso resistiu alguns segundos e quando esses segundos se foram vagarosos, minha expressão tornou-se tão séria quanto quando estou sóbrio.
– Pff. Foram vocês quem o abandonaram, foram vocês que levantaram suas armas contra seus próprios irmãos, foram vocês quem renunciaram à Graça... Então não me venha com essa ladainha, pois eu o chutaria de volta para o quinto dos infernos quantas vezes fossem necessárias e não me arrependeria de nenhuma delas.
- Nós só queríamos mais atenção. E o que Ele fez? Não hesitou em nos enviar para aquele lugar podre, e você participou disso! Foi um preço injusto para mim, Menadel!
O padre estava a alguns metros atrás de mim, ao lado do altar. Às minhas laterais, os vastos bancos de madeira e sob meus pés está o longo tapete vermelho, que desbrava o meio da igreja e a divide em duas metades. Também sobre o tapete, está o Mirrael, que ouve com fúria o padre se pronunciar.
- Um modo radical de exigir atenção, não? Se queria atenção, filho, por que não pôs uma melancia na cabeça e dançou o ula-ula para o Senhor? – Disse o padre, provocando.
- Padre, alguém já lhe disse que o senhor é um velho muito arrogante? – Mirrael retrucou e partiu em disparada como um touro enfurecido, mas para triscar no padre, antes teria que driblar um pequeno obstáculo: eu. Ergui a Desert Eagle metendo-a em sua testa brutalmente, o impacto o deteve no ato e o tiro o rebateu no outro.
- O padre apenas lhe fez uma pergunta. Era só dizer a ele que não existem melancias no céu.
Mirrael ficou estirado no chão, sobre o tapete carmesim, com uma bala no centro da testa. Seus dedos se moveram e ele se levantou, a bala foi expelida de seu corpo e caiu no chão. Tirei os óculos Rayban e a aura vermelha voltou a emergir de meus olhos.
- Essa era a última bala, parece que esqueci de banhá-la. Tenho que diminuir a bebida. Hehe. – Dizendo isso, lancei os óculos para o padre que, desengonçado, os agarrou, mas ele se saiu bem, nunca achei que ele conseguiria pegá-los. – Ótimo reflexo, velho ranzinza! Agora, onde estávamos? – Falei voltando o olhar de volta a Mirrael que já me surpreendia. Segurei suas mãos, mas seus olhos emanaram uma aura rubra mais intensa que a minha e assim passei a ser empurrado.
Pude sentir a pressão gigantesca imposta sobre as mãos de Ytan quando o desgraçado do Mirrael me obrigou a recuar alguns passos, desarrumando o tapete.
- É melhor completar a manifestação. Se continuar assim, vou usar suas costas pra esmagar o padre!
- Você não mudou nada, hein?! Continua o mesmo fraco!! – A aura vermelha de meus olhos se intensificou. Abri os braços e conseqüentemente o mesmo ocorreu com os dele, pude ouvir o som de seus ombros se deslocando e voltando para o lugar quando puxei os braços de volta e lhe desferi uma joelhada no abdômen, um gancho de direita no queixo e um chute direto no peito. Pude vê-lo voar sobre o tapete.
A aura mantém-se ativa e posso sentir seu calor percorrendo minhas bochechas até minha nuca. Comecei a andar até ele, que tentava se apoiar num dos bancos. O chutei, mas minha sombra havia se anunciou primeiro, fazendo-o perceber minha aproximação antes da hora. Com uma das mãos, ele impediu que meu pé fosse enterrado nas suas fuças.
- Esqueceu de quem eu sou? Não preciso me manifestar pra te mandar de volta pro inferno. – Enterrei! Desci o pé na sua cara com uma ferocidade tamanha que o estirei no tapete.
Em seguida, o segurei pelo pescoço e o carreguei pelo tapete deixando um rastro de sangue no chão até as portas da igreja, agora fechadas por uma corrente de vento invocada por um movimento sutil da minha mão livre. Bati a cabeça do miserável na porta e o ergui arrastando-o nela. Mesmo depois disso ainda tive que presenciar seu sorrisinho nojento.
- Há tempos que eu pedia por um Caído, mas só apareciam demônios de quinta. Agora desembucha! Onde está o Lúcifer? Foi ele quem derrotou Miguel?
- Lúcifer... Faz um bom tempo que ninguém sabe nada dele. Seria ótimo que aparecesse, assim poderíamos abrir os demais Portões.
- Então não sabem dele? Mas quem poderia derrotar Miguel se não ele?!
- Pelo visto, Ele não tem falado muito com vocês ultimamente, não? – Foi ele fechar a boca e sentir sua cabeça se chocar violentamente contra a porta.
- Se Lúcifer está sumido, então quem está no comando?
- Os Senhores do Inferno...
- Como é que é? Quem são esses putos?
- Os demônios mais fortes. Depois que Lúcifer deixou de dar as caras por aquelas bandas, eles assumiram o domínio do inferno. Agora são eles que dão as ordens.
- Que decadência, hein?
- Olha quem fala! Você é um anjo que lutou por Ele na Guerra Celeste e Ele o enviou pra este solo imundo, para que caminhe como um macaco! Belo agradecimento. – Bati sua cabeça três vezes e por três vezes ela sangrou.
- Você... – Bati novamente. — não sabe nada... – E bati pela derradeira vez. — sobre Ele!
- Ugh... Até agora você bateu, bateu e bateu... Por acaso se esqueceu do que é preciso para matar um anjo ou não tem coragem de fazê-lo? – E o sorrisinho nojento voltou.
Usei a mesma mão livre de antes para ultrapassar seu peito e agarrar seu coração, apertando-o, vendo aquele sorriso asqueroso que tanto me inspirou ódio se retraindo na sua face imunda, contemplando seus olhos se afogarem em agonia. Terminei e arranquei seu coração do peito, soltando seu pescoço, vendo-o deslizar pela porta até o chão lentamente, onde ficou inerte, acabado.
- Da próxima vez, sugiro que prepare a água benta com antecedência.
O corpo de Mirrael pegou fogo, porém as chamas sobrenaturais jamais seriam capazes de incinerar algo que não ele. O mesmo ocorreu com o coração negro que ainda pulsava em minha mão.
- Menadel! – O padre me chamou a atenção decidido e sereno, minhas pernas se paralisaram bem diante dele. — Ele era só um dos anjos que apoiaram Lúcifer na revolta, não se deve crer em suas palavras, pois elas são mentirosas e traiçoeiras. Não mantenha a dúvida em seu coração, Ele estará sempre contigo, filho. – Disse o padre, pondo a mão em meu ombro.
- É, acho que sim. – Respondi seguindo caminho como quem dá pouca importância para algo importante demais, deixando a mão dele despencar no ar.
- Mais vale o fim de uma coisa que seu começo! Um espírito paciente vale mais que um espírito orgulhoso! Eclesiastes: capítulo 7, versículo 8. – Insistiu ele, mesmo depois de eu dar-lhe as costas.
- Se fores um anjo bêbado, jamais ouse conversar sobre Deus com um padre... Menadeu: capítulo 1, versículo 1. Foi um dia difícil, padre. Vamos dormir. Parto para Los Angeles amanhã ao por do sol.
- É, além disso... — Ele me olhou com um olhar demasiado triste. — Amanhã é dia de missa. – E apagou as luzes.
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