Guardiões do Olimpo

9 Cap 9- Cidade Fantasma


Notas iniciais
Oie! Como vocês estão? O que estão achando da história até aqui? Espero que gostem!

POV Hannah

Já faz quase quatro dias desde que Bryan e eu entramos nos túneis. Já conseguia andar sozinha, mas tinha outros ferimentos. Bryan também tinha se machucado. Os ataques dos parasitas eram intensos, e mesmo que conseguíssemos escapar vivos sempre, nos machucamos cada vez mais. Durante esse tempo, eu e Bryan ficamos mais próximos. Conseguíamos entender o que o outro pensava só com o olhar. Essa intimidade me assustava, nunca tinha me deixado ficar tão próxima de alguém em muito tempo. Mas era meio involuntário, e não sei se queria que tudo voltasse ao que era antes. Amizade tudo bem, ter amigos é bom, mas tinha que garantir que não passasse disso.

Ouvi um grito nada normal, que me tirou de meus pensamentos. Olhei para Bryan e assenti,e nos colocamos nas posições planejadas para situações exatamente como essas. Me encolhi contra a parede, me escondendo nas sombras enquanto Bryan continuava parado como se não tivesse notado nada. Logo o parasita apareceu no fim do corredor.

Eles não tinham forma definida, mas a maior parte era parecida com insetos gigantes. Carnívoros e sanguinários. Já tínhamos dado o azar de encontrar um ou dois felinos, e nessas raras ocasiões quase morremos. De qualquer forma, o monstro veio avançando sem fazer barulho na direção de Bryan. Ele continuou ignorando. Só quando o parasita estava a menos de dois metros dele Bryan se virou. Sacou a espada e esperou o bicho avançar. O monstro pulou em cima do guardião, que lutava para aguentar.

Saí de onde estava e pulei em cima da criatura, usando minhas espadas para perfurar as fendas na carapaça do inseto. Logo seu corpo inerte caiu no chão antes de se desfazer em poeira.

— Você tá bem?- perguntei, ajudando Bryan a se levantar.

— Sim. É melhor a gente ir.- sugeriu e voltamos a andar pelo corredor. Meus machucados ardiam e parecia que nada que eu fizesse estava livre de dor. Podia ver que Bryan sofria com seus novos machucados, mas não disse nada. Ficamos em silêncio o caminho todo, então foi fácil ouvir seus gemidos de dor, por mais que ele tentasse disfarçar. A bochecha de Bryan pingava sangue, e quando chegamos no fim do corredor eu já tinha tido o suficiente.

Impedi ele de avançar e peguei o kit de primeiros socorros da mochila. Ninguém disse nada enquanto separava as coisas para cuidar de seus novos ferimentos.

— Eu to bem.- garantiu, tentando sair de perto de mim.

— Não tá não.- segurei ele de volta apertando seu braço machucado. Depois disso ele parou de resistir e deixou que eu cuidasse dos seus machucados. Enrolei gaze nos cortes e separei algodão para limpar o ralado que ele tinha no rosto.- Agora fica parado.

Ele me obedeceu. Passei néctar diluído com outros remédios no algodão e com cuidado limpei o ralado em seu rosto. Ele me observava enquanto trabalhava, e fiz o melhor que pude para focar meus olhos em sua bochecha esquerda. Quando acabei nossos olhares se cruzaram, e ficamos por um tempo olhando nos olhos um do outro. Pigarrei e quebrei o contato visual, guardando tudo de volta na mochila. Ele se afastou um pouco, desconfortável.

— É melhor a gente continuar.

Continuamos avançando pelo corredor, os dois perdidos em seus próprios pensamentos. “O que foi isso?” Essa troca de olhares… não foi normal. Olhei para Bryan, que estava focado nos nossos comunicadores. Seus cabelos castanhos estavam bagunçados e tive que resistir a tentação de passar a mão por eles para arrumar. Ele estava todo sujo e machucado, e eu não devia estar melhor. Mesmo assim, não conseguia parar de encará-lo. Era uma sensação familiar, a que eu tinha quando olhava pra ele. Uma que eu não sentia a um tempo. Uma que eu senti pela última vez com…

— Ei, olha onde estamos.- Bryan disse me tirando da minha cabeça.- Estamos perto de Nova York. Podemos passar pela base do Brooklyn para pedir ajuda.

— Não vai dar, não tem ninguém no Brooklyn nessa época do ano. A base fica vazia.

— Bom, o Acampamento Meio-Sangue não é longe, podemos aparecer e pedir ajuda pro Quíron. Ele ia ajudar já que ele sabe sobre…

— Não.- interrompi. Meu sangue gelou com aquela sugestão. Não. Em hipótese alguma eu iria pedir ajuda pros semideuses. Não depois de tudo. Não. Eu faria qualquer coisa, iria pro Tártaro e voltava se significasse que eu não precisaria pedir ajuda pros acampamentos.

— Por que? Nós precisamos de ajuda, você tá muito ferida, nem sei se a gente vai conseguir chegar em Ohio por aqui e…

— A gente não vai.- repeti, minha voz mais dura do que antes. Não era nada contra o Quíron ou ao acampamento, mas não acho que ia conseguir olhar na cara dos semideuses sem explodir. Esse era o principal motivo de eu trabalhar na central e não nas outras bases. Pude ver a confusão no rosto de Bryan mas ele assentiu e continuou andando. Me senti mal de repente. Ele também estava machucado e precisava descansar tanto quanto eu. Não era só porque eu tinha um problema que ele tinha que sofrer as consequências também.- Bryan…

— Tá tudo bem Hannah.- ele sorriu.- Sério. Não sei porque você não quer ir pro Acampamento, mas tudo bem. Não vou te forçar. A gente chega na central logo.

Isso me pegou de surpresa. Estava tão óbvio assim que eu queria evitar os semideuses? Eu tomava cuidado para permanecer neutra toda vez que o assunto vinha à tona. Acho que Bryan me conhecia melhor do que eu achava. E ele não perguntou nada. Agradeci mentalmente por isso, mas não pude deixar de ficar receosa. Ele não queria saber?

— Não é que eu não queira saber o motivo, mas sei que se você quiser que eu saiba, vai me contar. Não somos amigos a muito tempo, e entendo que você confie mais na Maia e no Jacob que em mim. É normal.

Ok, pera. Primeiro: ele conseguia ler minha mente? Segundo: ele errou na última parte. Nem Maia e Jacob sabiam sobre… tudo. Eu já os conhecia antes, mas nos aproximamos mais quando mudei de bloco dois anos atrás e os dois viraram meus melhores amigos. Mesmo assim, eles não sabiam de nada. Ninguém sabia.

Continuamos andando por mais um tempo, até que nosso quarto dia nos túneis chegou ao fim. Montamos acampamento em uma câmara um pouco maior que as outras, onde a terra era escura e os cristais eram coloridos. Fiquei com o primeiro turno de vigia. Bryan precisava descansar. Terminei de acionar as armadilhas e olhei no meu comunicador. 21:52, Missouri. O tempo parecia que não passava, tudo era igual. Ajeitei meu casaco em baixo da cabeça como um travesseiro, e dormi.

Acordei antes de Bryan e olhei o relógio. 9:53. Tínhamos dormido demais. Tudo bem que o cansaço acumulado dos dias anteriores tinha feito com que eu precisássemos dormir, mas a gente tinha que continuar. Missouri não era longe de Ohio. Se desse tudo certo, podíamos chegar em casa de noite. Comecei a recolher as coisas. Bryan acordou com o barulho que eu estava fazendo. Dei a ele parte da comida que restava para comermos alguma coisa antes de sair.

Andamos, andamos e andamos mais um pouco. Andamos tanto que meus pés começaram a doer. Mas não paramos. Só paramos quando o relógio marcou duas da tarde, e tínhamos acabado de atravessar a fronteira do Nebraska. Sentamos em paredes opostas do túnel onde estávamos para descansar e comer, e respirei tentando retomar o fôlego.

Olhei para Bryan. Ele também me olhava. Analisamos um ao outro por um tempo antes de voltar a fazer outra coisa. Ele estava cansado e eu podia dizer que algum ferimento o estava incomodando, mas não sabia qual. Decidi ficar quieta. Afinal, também não gostaria se ele ficasse preocupado por causa de cada arranhão meu.

Ficamos em silêncio o resto do tempo que levou para chegarmos no meio do Nebraska. Não era onde a gente tinha que estar, mas foi onde os túneis nos levaram. Depois de mais alguns metros, chegamos em um beco sem saída.

— Que ótimo!- exclamei.- Os túneis nos trouxeram até uma parede. Como a gente sai daqui agora?

— Espera.- pediu Bryan. Ele estendeu a mão e tirou um pouco de terra da parede, revelando uma superfície de metal.- Me ajuda a limpar.

Limpamos a parede toda, ficando ainda mais sujos de terra, se é que era possível. Era uma parede de um metal que já fora prateado, entalhado com vários desenhos. No meio, tinham duas marcas de mão marcadas no metal.

— É uma porta.- deduzi surpresa.- Uma porta para… a antiga base dos guardiões.

— Como a gente abre? Não tem maçaneta.- Ele olhou para um arco de palavras escritas sobre o contorno da porta e leu.- “Apenas os filhos da magia poderam entrar”

— Os guardiões. Na verdade qualquer descendente divino. Eram chamados de filhos da magia antes.- esclareci.- Acho que abre… assim.

Pressionei minhas mãos nas marcas da porta e ela estremeceu. Sem emitir um ruído a parede se dividiu ao meio, se abrindo para os lados, revelando o mundo atrás dela. Entramos.

A antiga base devia ter sido incrível. Estávamos no terceiro andar de cima para baixo, e ele era imenso. Parecido com um shopping, a base tinha um grande espaço livre no centro, que ia desde o térreo até o último andar. Barras impediam as pessoas de caírem lá embaixo, e atrás delas, infinitas salas se abriam em todas as direções. Do meio de tudo, plantada lá embaixo, estava a maior árvore que eu já tinha visto.

— Nossa.- Bryan parecia tão chocado quanto eu.- Esse lugar é incrível.

Estava tudo empoeirado e velho, mas não era difícil de imaginar como o lugar era antes. Uma casa. Todos juntos. Não era que nem agora, que ficávamos espalhados em várias bases, com a cidade isolada do resto. Antes todos viviam aqui. Os túneis faziam com que fosse possível ir pra qualquer lugar rápido e facilmente. Acima do solo, na superfície, tinham mais dois andares de fachada, que agora deviam estar em ruínas. Mas tudo de baixo ficou perfeitamente preservado, parado no tempo.

Conseguia imaginar eu e meus amigos vivendo ali, podendo ir à escola e treinar, encontrando colegas e familiares nos corredores. Me via perfeitamente estudando mapas dos túneis, escalando a árvore, saindo com meus amigos. Via tudo tão claramente que podia até ter sido a minha vida. Pensei em todas as pessoas que poderíamos ter salvado se tivéssemos chegado na base a tempo. Com isso seria possível. Chegar pelos túneis. Talvez eles ainda estivessem aqui. Talvez eu não estivesse tão sozinha.

“Para com isso.” Se ficasse pensando no que poderia ter sido e ficasse remoendo todos os “e se” da minha vida não ia acabar nunca. Além disso, não importava o que a base já tinha sido, ela claramente não era mais. Estava deserta. Cheia de fantasmas.

Saímos para explorar e acabei achando uma enfermaria. Aproveitamos para trocar bandagens e comer um pouco da ambrosia que tinha lá. Ia ajudar. Ambrosia e néctar não estragavam nunca, então não íamos morrer, pelo menos não por intoxicação alimentar. Depois disso usamos a árvore para descer até o térreo. Não tinha ideia de como ela estava viva depois de tanto tempo, mas ficar perto de natureza, não importa o que fosse, depois de tanto tempo debaixo da terra me fez bem. Olhava em volta no pavilhão quando ouvi um barulho.

— Ouviu isso?- perguntei a Bryan, me colocando na minha posição de luta. O barulho de novo.

— Ouvi.- Ele respondeu. Antes que pudéssemos processar o que estava acontecendo, dezenas de parasitas apareceram do nada e nos cercaram. Tinham todos lá. Insetos, felinos, pássaros e algumas combinações híbridas perigosas. Não tinha como fugir. Não tinha plano. Geralmente essa era a hora em que eu lutava. Mas não tinha como a gente sobreviver a uma luta daquelas.- O que a gente faz?

— O que sempre fizemos. Resistir até cair.

Notas finais
Até semana que vem!