Guardiã Noturna
1 Capítulo 1
Notas iniciais
“A Guardiã Noturna ataca novamente! A polícia divulgou o relatório oficial, os responsáveis pelo atentado já estão presos, foram encontrados amarrados na porta da delegacia. Evidências indicam que eles foram capturados pela vigilante, pois os ladrões foram amarrados com uma calcinha elástica lilás, a marca da Guardiã Noturna. Nosso rep...” – Luna desligou a televisão, não suportava mais essas notícias sobre a “Ero Guardiã”.
Decidiu tomar banho logo, tinha um encontro marcado com sua melhor amiga, Luma. Todos pensam que são irmãs, pois elas não tem apenas nomes parecidos, mas também são quase idênticas e inseparáveis. Colocou seu melhor vestido, verde claro com flores na barra, sabia que Luma odiava aquele vestido, na verdade ela odiava coisas coloridas e principalmente floridas. Luna não ligava para isso, pois Mino estaria trabalhando no café naquela manhã.
Luma olhou para sua amiga com desprezo.
- Eu já não mandei você botar fogo nessa coisa horrenda?
- Você sabe que não é horrenda, e sabe que só pararei de usá-lo no dia que você se livrar desse colar estranho.
- Nem é estranho. É uma triqueta, símbolo muito importante da magia.
- Lá vem você com esse lance de magia negra.
- Não é magia negra, é magia, simplesmente as forças da natureza agindo para um propósito único.
- Não quero saber desse papo. Mudando de assunto, você já viu o Mino por ai? – disse olhando para o cardápio na mesa.
- Não e nem quero, odeio aquele cara, muito grudento. – ela falou após tomar um longo gole de refrigerante.
- Você sabe me dizer por que somos amigas? Somos totalmente opostas!
- É porque eu sou a única que te atura.
- Sei, sei. Você que é a gótica estranha e desajustada, distante do convívio social.
- Eu sei que você me ama. – Luma fez uma careta olhando para a ponta do nariz.
- Assim como você me ama. – Luna respondeu botando a língua pra fora.
- Deve ser.
E as duas riram intensamente, todos do café olharam para elas. Claro que era assim que Luna realmente via sua amiga, mas não gostava de pensar nisso. Luma realmente parecia uma gótica, vivia com o cabelo preso, maquiagem escura, usava sempre um sobretudo negro que arrastava no chão de tão longo, várias pessoas da sua faculdade costumavam a apostar o motivo. Alguns diziam que ela ficava totalmente nua por baixo dele, outros diziam que ela tinha o corpo tão deformado, que não poderia ser mostrado em público e ainda outros cogitavam que ela na verdade era uma super heroína, que o sobretudo era para esconder a sua roupa imoral de vigilante. É claro que ninguém acreditava muito nessa última opção, mas deveriam.
De noite, a jovem quieta e deprimida, saia pelas ruas derrotando bandidos e conquistando corações. Com seus longos cabelos lilases, sua roupa de vinil azul e vermelho super indecente e colada ao corpo, sua bota de salto alto e as inconfundíveis katanas, ela ganhou uma legião de fãs. Seus seios saltavam na roupa apertada, todas suas curvas eram marcadas e usava uma pequena máscara que cobria apenas o contorno dos olhos.
Antes de se mudar para a nova cidade, pela quinta vez, ela praticava karate, e na cidade anterior, jiu-jítsu, e antes disso, natação, tiro ao alvo, caça, balé, tango. As suas habilidades eram incontáveis, assim como todas as coisas que ela aprendera a fazer. Porém dessa vez ela escolheu não ser popular, não chamar atenção, ser invisível. Não durou muito tempo, logo a necessidade de ser amada, de ser observada e acima de tudo, admirada, reapareceu e para não destruir seu personagem, se tornou a Guardiã Noturna. A magia não tinha nada a ver com suas habilidades, mas às vezes gostava de pensar que aquela triqueta lhe dava super poderes e com ela, seria invencível, parecia que era o quê acontecia, a vigilante nunca perdeu uma luta.
Naquele dia em especial, estava cansada demais para discutir com sua melhor amiga, então simplesmente fingiu que ouvia todas as besteiras que ela falava sobre Mino e sobre como ela o conquistaria. Quando Luma ouviu que sua melhor amiga pensava que ele a amava também, teve que interferir.
- Se eu fosse você, não pensaria assim, ouvi dizer que ele é apaixonado pela Guardiã Noturna...
- AQUELA FILHA DE UMA CACHORRA SARNENTA! Cada vez mais eu odeio aquela vaca maldita! – Luna bateu na mesa não se importando com o público. – Aquela Ero Guardiã nojenta, acha que é muito gostosa e que pode ter todos, aposto que ela transa com um cara a cada noite diferente.
- Não diga isso, você não a conhece e ela pode ser aquela moça ali, sentada naquela mesa. – ela disse com indiferença, ignorando a dor que aquelas palavras lhe causavam, mas ela estava certa, em parte.
- Talvez, nunca gostei dela. Ela sempre vem aqui e olha o tamanho daqueles peitos! Se eu tivesse peitos assim com certeza teria os homens aos meus pés. – ela disse após olhar rapidamente para a mesa indicada.
A heroína sabia que sua melhor amiga odiava sua verdadeira identidade, pois era assim que se referia ao disfarce. Com ele ela era livre, podia falar e fazer o que quiser, sem leis ou libido. Sabia bem, era pura luxúria falando quando vestia o traje. Cansada por causa da noite passada, ela disse a Luna que iria embora.
Chegando em casa tomou um longo banho quente, antes de sair da banheira, a porta do banheiro abriu e um lindo rapaz loiro, de olhos verdes, alto e belo, sonho de consumo de qualquer garota, entrou.
- Que susto que você me deu Tsuke! – ela disse se levantando da banheira e pegando a toalha. – Como você entrou?
- Como sempre oras. – ele sorriu com inocência.
- E como sempre, você nunca me contará.
- Correto!
-Certo, certo, me passe o secador, se eu não secar o cabelo agora, ele vai ficar super alto.
Tsuke era o único que conhecia seu segredo, era seu melhor amigo. Sua vida era um mistério, ela apenas sabia que podia confiar nele e que ele, a encontrava sempre que ela pensasse nele. Eram como irmãos, ela nunca pensou em outra coisa, até aquele momento. Ela estava nua na frente dele, sem a mínima vergonha, ele não parecia se importar e então, ele começou a tirar a roupa.
- Ei! – ela exclamou ao ver o montinho de roupas ser colocado em cima do vaso sanitário.
- Tomando banho oras! – ele disse entrando na banheira que ainda não havia sido esvaziada.
- Eca! Troca a água primeiro pelo menos!
- Você não tem nenhuma doença contagiosa e não estava rolando na lama. – ele respondeu afundando a cabeça na água.
Deixando o rapaz no banheiro, ela foi para o quarto se vestir. Para sua surpresa, todas as suas roupas haviam sido lavadas, ela já sabia quem foi, afinal, morava sozinha há um ano.
- Tsuke! Eu já mandei parar de mexer nas minhas coisas! – ela gritou vestindo a calcinha.
- Se eu não fizesse nada, você iria morrer logo perdida na bagunça. – ele estava na porta do quarto. – E não grite, você sabe que eu sempre estarei aqui quando você precisar.
- Ok meu anjo da guarda! – ela disse rindo e se virando para que ele abotoasse seu sutiã.
- Como ... você descobriu? – ele perguntou baixinho enquanto abotoava com as mãos trêmulas.
- O quê? – ela disse se virando para ele sorrindo.
- Que eu sou seu anjo da guarda, como você soube? – seu rosto sério estava muito engraçado em contraste com seu corpo nu.
- Você... Ah! Quase que você me pega! – ela disse rindo. – Meu anjo da guarda... Se você fosse meu anjo da guarda, não teria isso aqui! – ela passou a mão abaixo da cintura dele e riu novamente. – Anjos não possuem sexo, se é que eles existem.
Ela vestiu sua roupa rindo de vez em quando e saiu. Ainda na porta disse:
- Tsuke! Feche a porta quando sair.
Ele permaneceu no apartamento sozinho, quando se virou, viu um rapaz com quase a mesma idade que ele, e com igual beleza.
- O quê você pensa que está fazendo? Você quase estragou tudo! – o rapaz ruivo se jogou na cama.
- Eu pensei que ela tivesse descoberto!
- Claro, claro... É o quê você queria certo?
- Não venha com essa de novo, você sabe muito bem que é somente uma missão...
- A missão da sua existência...
Tsuke simplesmente sumiu no ar, não suportava aquela conversa. Furioso, o outro anjo também desapareceu. Em cima da torre de Tóquio, o anjo loiro pensava consigo mesmo. “Talvez eu devesse facilitar mais, quem sabe algumas chegadas mais repentinas, ou outros sinais...” Se um anjo fosse descoberto pela sua protegida, ele perderia suas asas e voltaria a ser humano, com a mesma idade que aparentava ter, era esse o seu plano, fazer Luma o descobrir. Não que odiasse ser anjo, mas somente assim poderia viver com ela e a tocar docemente, oferecendo todo seu amor.
Ela, por outro lado, estava no topo do mais alto prédio do lado leste da cidade. Ela saltou, em queda livre ela se sentia viva, antes de tocar o chão, ela se segurou firme em um poste da rua, caindo suavemente em pé. Um executivo estava saindo tarde do trabalho, a falta de aliança foi o suficiente para que ele ganhasse um beijo da vigilante que apareceu a sua frente. Antes de se dar conta disso, ela já havia desaparecido.
Tsuke observava todos os movimentos dela e já estava cansado de vê-la daquela maneira, se entregando a todos que aparecessem, menos a ele, que a amava de verdade, não era impulsionado por nenhum desejo da carne, apenas o puro amor da alma. Mas essa pura alma estava sendo contaminada pela inveja, ciúme e raiva. Sentimentos que eram suprimidos pela aura angelical que ainda possuía.
A vigilante terminara seu turno mais cedo, não havia nenhum distúrbio na cidade e poderia dormir o suficiente naquela noite. Ao entrar em seu quarto, se deitou imediatamente em sua cama. Tsuke estava a sua espera, assim que ela tocou seu peito nu, sabia que era ele e suspirou.
- Já disse para parar de entrar assim. – ela disse se encostando nele.
- Sabe quando te disse mais cedo que era seu anjo da guarda?
- Ah, para com isso, eu sei que você é só um pervertido hahaha.
- Eu estou falando a verdade, mas eu desistiria de tudo para ficar com você. Eu não suporto te ver com um cara diferente a cada noite!
Antes mesmo de ela abrir a boca, ele desapareceu, Luma levantou e ligou a luz, ele já estava vestido, sentado na cadeira do canto. Não pareceu estar surpresa, pois havia pensando nisso várias vezes, sabendo que era a única explicação, lógica ou não. Ela andou até a cadeira onde o anjo estava. Sentou-se no colo do rapaz.
- Mas isso não é proibido? Não estão te vendo? – sussurrou no ouvido de Tsuke.
- Eu... fiz algumas coisas que os impedem de nos ver. – ele arrepiou ao ouvir a voz suave dela.
- Então isso quer dizer que... podemos fazer tudo o quê quisermos? – ela começou a desabotoar a camisa social que ele usava.
- Tudo e um pouco mais. – ele disse levantando-a e jogando-a na cama.
No dia seguinte ela não vestiu a roupa de super heroína, apenas roupas comuns por baixo do sobretudo. Luna estava a sua espera na porta da faculdade. Luma apenas entregou uma pequena bolsa e disse para sua amiga: “Me desculpe, mas faça bom proveito, Mino ainda pode gostar de você, mesmo que seja por esses métodos.” E antes mesmo que a jovem e doce garota abrisse a boca, a guardiã já estava longe, nos braços do seu ex-anjo da guarda, que agora era apenas um mortal. Ao abrir a bolsa, Luna encontrou a roupa de vinil azul e vermelha, as katanas e uma dúzia de calcinhas elásticas lilases, seu ódio pela Ero Guardiã desapareceu.
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