Guardiã Da Vida
1 Guardiã Da Vida
Notas iniciais
Sou eu, qual Guardiã da vida, em meio às vísceras dosmortos.
Corpos que antes eram rosados e viris. O primor de sua juventude jogada ao vento.
Os observo.
Alguns mantêm seus olhos abertos. Atino a manter-me focada em um jovem rapaz, sua arma ainda em sua mão, que apesar de ter perdido asesperançasde sobreviver a alguns minutos mantêm-se agarrado a ela.Punho firme.
Pude ver sua expressão, seu rosto determinado a me alcançar com a testa franzida, dentes a mostra, transformou ao receber o golpe final. Enquanto a arma atravessava-lhe,devastadora, seu coração.
Agora, desejo ter acertado- lhe os olhos. Para que não pudesse os ver. Não me atingiria desta forma ao encará-lo tão angelical. Seus olhos duros e distantes ainda podemlerminha’lma.
Olhos verdestêm este poder sobre mim, entram em mim com a mesma facilidade de atravessar uma porta já aberta. Nunca estive aberta, mesmo assim,arrombam- me.
Fugi deles antes que eles tivessem êxito.
Todo o local exala o cheiro enjoativo dosangue, seu gosto metálico não sai de minha boca.
Passo por cima de alguns corpos verificando se estão mortos com meu arco e flecha em mãos. Mas tudo que encontro é corpos abertos e os avalio.
Em breve seu sangue secará, mas ele ainda sai de seus corpos quente.
Arrancoflecha por flechadas dezenas, estas que são comparadas aseu último resquício de vida, seuultimo suspiro, e os amaldiçoou por sujarem elas com pedaços de seusórgãos, especialmenteolhos.
Puxo a ultima flecha presa no coração do garoto dos olhos verdes, mas o escuto. Seugemidoarrepia-me a nuca como se tivesse sussurrado em meuouvido.
Ele ainda estavavivo.
Por isso seus olhos...
Tirei outra flecha da aljava, posicionei-me e então ele meolhou.
De sua boca não saia som algum, mas pude ler “socorro” em seus lábios.
Como poderiasalvá-losendo que seu coração estapartidoao meio?
Levei a flecha até a aljava novamente. Dei um passo até fixar meus pés ao lado doburacoem seu peito.
A morte o abraçava. De seu nariz escorria seu sangue. Sua boca soltava fervorosamente oliquido vermelho.
Ignorei este fato e beijeidocementeseus lábios. Mantive-me alguns segundos para garantir que ele estivesse sentindomeus lábios nos seus, mesmo em meio a tantador.
Seus olhos pareceramreviverquando os encarei novamente. Não precisou de esforço algum, já estavafracodemais. Então o deixeientrar.
Ao ver tudo que guardodentrode mim, seus olhos verdes empalideceram; chegando a uma coloração desconhecida decinza.
“A vida guarda dentro dela a morte. – li seu pensamento. -Sua glória vem da morte.”
Deixei que ele visse todas asvísceras, absorvesse ocheiro, presenciassecadamorte e assentissecomo eu assinto.
Ele tentou dizer algo, mas o sangue que jorrava de sua boca o impediu.
E então decidi que já vira o bastante, ele nãosuportariamais.
Levantei-me e com um movimento já automático, alcancei a aljava e dela tirei minha melhorflecha.
Seus olhosassustaram-se,em um breve desespero.Agitados demais.
–Feche-os. — minha voz soou em meio ao silencio fúnebre.
Acompanhei enquanto aquelesolhosque a pouco estiveram dentro de mim eram cobertos por suas pálpebras.
Mantive os meusabertos.Obriguei-os a ficar de tal modo; apesar de conseguir fazer o movimento com eles fechados. Mas queriaeternizá-locom minha mente.
O jovemNathaniel Hissnauerde apenas 19 anos, apaixonado por Giulia Sthal que o espera ansiosa em sua pequena cidade enquanto ele luta por sua pátria, este que pouco viveu seráguardadoem mim. Mas apenas se mantiver meus olhos abertos.
Puxei a flecha e a vipenetrarem sua pálpebra.
Vi seu semblantesuavizar-secom a chegada damortee ofimda dor.
Eu,Guardiã da vida,deixo a morteconsumir-lhee trazer a elepaz.
Fecho meus olhos, revendo toda sua vida através de seus olhos verdes até o momento em que ele me perseguia desesperado para sobreviver eviver.
Dou passos em direção a saída certa de que oeternizei, pois só o posso fazer aovê-lomorrer.
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