Guardians - Makenai
1 Prólogo
Tóquio – Japão
Ano: 2017
Há quantos anos não iam àquele lugar?
Era a pergunta que passava pelas suas mentes naquele momento. Agora, tudo tinha um ar diferente.
Da cozinha onde estavam reunidos, ouviam vozes animadas que se misturavam ao som da correria das crianças que brincavam no salão.
No entanto, ali o clima era bem mais tenso. O que fizera Hikari, Anne, Ryan, Micaela, Maire e Live voltarem à base não fora uma ameaça youkai, tampouco uma reunião de amigos, mas sim um inusitado convite de Keisuke Kentaro – um homem que eles sequer conheciam, mas que contactara um a um, demonstrando conhecê-los bem. Tinha uma proposta para apresentar aos que mantiveram-se vivendo no Japão.
-Cidade subterrânea? – Repetiu Micaela, incrédula de que realmente estivesse ouvindo tal idéia.
Não menos incrédula, a caçula da equipe – agora com vinte e dois anos de idade e uma aliança na mão direita, que anunciava um casamento próximo – indagou:
-Para início de conversa, como você sabe sobre nós?
O rapaz – um japonês de não mais de vinte e cinco anos – respondeu:
-Apesar de não ser de conhecimento público, a história dos Guardiões está longe de ser algo secreto. Autoridades do Japão e de outros países, além de inúmeros civis, sabem sobre a existência de vocês.
-Sabem que existimos. – Rebateu Ryan – Mas não exatamente quem somos.
-Foi apenas uma questão de investigar um pouco mais. Trabalho para o Governo, não foi difícil.
-Uma cidade subterrânea. – Micaela repetiu. Sua mente parecia presa e esse “detalhe” da conversa.
Olhando para a loura de cabelos compridos, Keisuke explicou:
-É um projeto audacioso, eu sei. Mas tenho a permissão das autoridades, o dinheiro necessário e toda a disposição para levá-lo adiante.
-Com que interesse? – Maire se manifestou.
-O interesse não é só meu, mas de todo o Japão e, porque não dizer, de toda a humanidade. Pode ser que leve décadas ou até séculos, mas aquela barreira vai voltar a se abrir.
-De forma alguma! – Hikari protestou – Minha irmã, Kiara, assumiu o trono do mundo youkai e tudo por lá está na mais completa paz.
-Por enquanto. – Ele replicou, de forma séria.
-Ouça, senhor... – Disse Anne com sua costumeira formalidade, ainda que estivesse falando com um rapaz quase dez anos mais jovem que ela – Ainda que a barreira volte a se abrir, sempre haverá os Guardiões. Treinamos nossos filhos para isso e algum dia eles treinarão seus filhos e assim sempre será.
Kentaro olhou fixamente nos olhos da antiga Guardiã de Câncer e, com a mesma seriedade que vinha demonstrando desde que os encontrara, disse:
-A questão é: até quando terão um mundo seguro para treinarem seus filhos?
Diante da pergunta, os seis Guardiões se entreolharam, pensativos. O japonês continuou a falar:
-A Cidade subterrânea será um local onde os Guardiões poderão ser treinados com segurança. Mais do que isso: dependendo do nível da invasão, ela poderá servir como abrigo para milhares de pessoas. Será uma verdadeira fortaleza, uma segurança para as futuras gerações. O que me dizem?
Um breve silêncio preencheu o cômodo, até ser quebrado pela voz de Micaela, que repetia pela terceira vez:
-Uma cidade subterrânea. – Balançou a cabeça, ainda descrente que algo desse nível pudesse ser construído facilmente.
Bem, ninguém disse que seria tão fácil assim. E a geminiana também sabia que aquela barreira algum dia voltaria a se abrir. Eles não poderiam prever quando, nem as proporções de uma futura invasão youkai. Talvez a idéia de uma cidade subterrânea fosse um pouco exagerada, mas... E se isso algum dia viesse a ser realmente necessário?
Encarando o autor da proposta, ela declarou:
-Conte comigo para o que precisar.
Após discutirem mais a respeito daquilo, os demais acabaram tomando a mesma decisão.
*****
Cidade-Fortaleza – Ano 2080
A sede de conhecimento dos pequenos era notável, mas Christine sabia que não era qualquer tema que despertava toda aquela curiosidade. O assunto em questão era o preferido daquele grupo de trinta crianças com idades entre sete e doze anos de idade e a jovem de cabelos castanhos e olhos verdes entendia bem os motivos daquilo, afinal ela própria se encantava sempre que falava sobre aquele assunto. Sua voz era pura empolgação, enquanto caminhava de um lado a outro na sala, diante dos alunos.
-E, como todos aqui já sabem, esta é a primeira geração ativa de Guardiões depois de sessenta e três anos.
Um menino de traços orientais levantou-se da cadeira, também empolgado.
-Sim! Depois da luta contra Kuro!
-Pois é. – Concordou Christine, fazendo um sinal para que o garoto se sentasse – Kuro era mau, muito mau! – Dramatizou uma expressão de vilã, fazendo as crianças caírem na gargalhada – Para testar se vocês andaram estudando, quem sabe me dizer os nomes da última geração ativa de Guardiões?
A turma inteira levantou os braços e Christine apontou para uma menina negra, deixando que ela respondesse a pergunta.
-Hikari, Maurício, Micaela, Anne, Shermmie, Ryan, Maire, Sniper-o-cara, Hayato, Qiang, Live e Eric. – Ela respondeu, sem hesitar.
Christine sorriu, orgulhosa.
-Certíssimo. E que bom que mencionou, porque meu bisavô era O cara, de verdade! – Os olhos dela brilhavam – Derrotou milhares de youkais com muita coragem e perseverança!
-Ele era o melhor! – Declarou a mesma menina que respondera a última pergunta.
-Sem dúvidas que era! E minha bisavó Shermmie não ficava muito atrás.
Uma aluna morena de doze anos levantou a mão e fez uma pergunta:
-Sempre foi comum o casamento entre Guardiões?
Achando a questão interessante, Christine Taylor sentou-se numa cadeira e, após uma breve pausa, encheu os pulmões de ar e começou a responder:
-Em algumas épocas sim. Em outras, nem tanto. O último casamento entre Guardiões que se tem notícia foi na geração dos meus bisavós. Nas duas últimas gerações não houve nenhuma união e na atual, até o momento, também não. Um fato interessante é que mesmo em épocas de paz, houve inúmeros encontros entre Guardiões, em gerações que não chegaram a se unir oficialmente. Dizem até que existe um elo invisível que os une. – Ela sorriu ao pensar na possibilidade de tal elo realmente existir – Voltando às perguntas, quem sabe quando ocorreu a última abertura da barreira?
-2060. – Responderam todos em uníssono.
-Muito bem, vejo que andaram estudando.
Christine fez outra pausa enquanto percorria os olhos pelos alunos.
2060. Quando tudo ocorreu, nenhuma daquelas crianças sequer existia. Faziam parte da geração nascida durante o período de caos. Período este que durava até os dias atuais. A grande maioria daquelas crianças era órfã, e a outra parte nascera já na Cidade-Fortaleza, fruto de desprevenidos ou loucos que insistiam em colocar mais seres humanos naquele mundo já condenado ao fim.
Quando a barreira se abriu, Christine estava com pouco mais de um ano de idade. Mesmo sendo o Guardião de Escorpião, seu pai pouco pôde fazer diante da invasão tão súbita e violenta. Milhões de pessoas foram mortas, e os Guardiões foram os principais alvos.
Por um grande milagre, misturado a muito esforço, as crianças da nova geração puderam ser salvas e, hoje, viviam na Cidade-Fortaleza – um imenso abrigo subterrâneo que servia de lar aos sobreviventes do caos, além de ser a atual base de treinamento dos novos Guardiões.
Dos onze novos Guardiões...
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