Guardians - Makenai
2 Capítulo um - A incessante busca pela salvação
-Iniciar.
Apenas uma palavra e ela podia sentir o calor. Os raios de sol que batiam em sua pele pareciam aquecer e reconfortar-lhe até mesmo a alma. As flores do jardim tinham uma beleza tão precisa e cores tão vivas que mais pareciam um afresco. Também sentia o vento que brincava com seus longos e cacheados cabelos negros.
O som do vento; o perfume das flores; o calor do sol; um mundo perfeito.
Um mundo perfeito...
-Encerrar.
Apenas uma palavra. Não havia mais vento, flores ou sol. A tela virtual diante de seu rosto desapareceu e os olhos verdes de Giovanna novamente tiveram acesso ao mundo real.
-Bem vinda de volta. – Murmurou ela, para si mesma.
De volta à realidade. À sua frente, um velho companheiro a aguardava para continuar o trabalho: seu computador. Um teclado virtual reluzia em luz verde diante dela e, logo acima, um pequeno sensor sobre a mesa voltou a exibir uma tela com as informações exaustivamente trabalhadas.
Desviou o olhar para o lado e esticou a mão, afastando um pouco a cortina da janela do escritório. O que viu foi uma realidade totalmente diferente da mostrada pela simulação virtual. Uma realidade cinza, construída por uma humanidade que ainda teimava em sobreviver. Por quanto tempo ainda? Isso ninguém poderia prever. No que dependesse dela, por toda a eternidade.
Tudo começara há vinte anos, com a súbita abertura da barreira que os dividia do mundo youkai e a invasão em massa desses seres ao mundo humano. Mesmo os Guardiões não puderam fazer muita coisa além de tentarem proteger suas vidas e as de seus filhos. Fora uma invasão completamente inesperada, que não ocorreu aos poucos como de habitual. Isso impossibilitou os Guardiões de se unirem para tentar deter aquela ameaça.
Diante da situação caótica, grandes potências tentaram destruir os estranhos invasores usando armas comuns, muitas vezes de destruição em massa, chegando a, com isso, matar milhões de outros seres humanos. Apenas na primeira década, toda a população mundial foi reduzida a um décimo.
A grande salvação de parte da população veio de um projeto inovador e audacioso, iniciado no ano de 2017 (uma década após a penúltima abertura da barreira) por um jovem milionário japonês, um dos poucos que tinham conhecimento sobre os Guardiões: Keisuke Kentaro. Sua idéia era ir além da base elaborada para reunir os Guardiões: queria construir uma cidade subterrânea, capaz de abrigar milhares de pessoas no caso de uma nova invasão youkai. O projeto consumiu toda a sua fortuna e sua vida, e foi levado adiante por seu filho e, posteriormente, pelo seu neto Koichi Kentaro.
Tal construção ainda não estava completamente concluída quando chegou o momento de sua utilização. Atualmente, cerca de mil e quinhentas pessoas, de várias etnias e nacionalidades, viviam ali. Entre eles, um pequeno grupo de onze jovens que foram devidamente treinados para sair em missões. Estas tinham como objetivo resgatar humanos que ainda viviam em pequenos grupos isolados ao redor daquele mundo já praticamente tomado pelos youkais e, mais do que isso, de encontrar a pessoa que faltava para que eles pudessem, enfim, lacrar a barreira.
Dentre os onze jovens, estava Giovanna Bertolli.
Já era tarde, mas ela voltou ao trabalho. Diante do computador, começou a digitar freneticamente em sua incansável busca. A cada dia, era mais difícil encontrar focos de vida humana. Países inteiros foram completamente dizimados, dentre estes o seu: Itália. Giovanna foi uma das únicas sobreviventes dessa destruição. Tinha cinco anos quando foi encontrada – quase morta – e resgatada. E isso já fazia quase vinte anos. Seu salvador fora Koichi Kentaro. O seu capitão.
Naquele momento, diante do computador, Giovanna concentrava-se em sua principal busca. Não a de localizar lugares onde ainda havia pessoas vivas, este não era o seu departamento. Mas, sim, procurar por aquilo que seria a salvação para o mundo: o atual Guardião do signo de Touro. Não havia qualquer sinal de sua existência há três gerações. A última portadora do título que se tinha notícia era Mariana Lopes, filha de Maurício. Não existia mais qualquer rastro de seu paradeiro, nem de seus descendentes.
Em determinado momento, Giovanna parou de digitar e tirou os óculos de leitura, esfregando os dedos sobre os olhos já cansados. Estava ali há horas. Seu corpo implorava por descanso, mas ela não queria parar. Acreditava estar na pista certa, e tinha certeza de que muito em breve encontraria o que tanto procurava. Ao abrir novamente as pálpebras, viu uma xícara de café sendo posta na mesa à sua frente. Seguiu com os olhos a mão que a trazia, e encontrou um rapaz loiro, de cabelos curtos e lisos e reluzentes olhos azuis, que sorria para ela. Sorriu de volta.
-Obrigada, David.
Ele puxou uma cadeira e sentou-se ao seu lado. Olhou para a tela do computador, mas não entendeu muita coisa. Suas habilidades se resumiam a de guerreiro, não compreendia muito de computadores.
-E aí? – Ele perguntou.
-Nada ainda. – Ela suspirou, tomando um gole do café – Mas estou perto de encontrar algo. Olhe só isso:
Ela voltou a digitar e, logo, um mapa mundial preencheu a tela. Na medida em que ela ia digitando a imagem ia sendo focada, cada vez de forma mais nítida e específica: Continente Americano – América do Sul – Brasil. Ela apontou para a tela, circulando com o dedo indicador o mapa daquele país.
-Já descobri que a energia de Mariana não saiu do Brasil em momento algum, e acabou por se extinguir lá mesmo. Porém, encontrei um registro de explosão da energia de Touro no ano 2060, pouco antes da abertura da barreira e vinte anos depois da última manifestação de Mariana.
-E o que acha que isso quer dizer? – Indagou David, intrigado.
-Por que Mariana ficaria com sua energia inativa por tantos anos, para depois manifestar apenas uma vez? Sem contar que em 2060 ela já estaria com quarenta e oito anos. Poucos Guardiões chegam a essa idade com sua energia. O mais provável é que ela tenha deixado algum descendente. E sei que estou perto de descobrir mais sobre ele.
O Canadense suspirou. Há muitos anos que deixara de ter qualquer esperança de encontrarem o atual Guardião de Touro. Num planeta quase completamente dizimado, as chances de esta pessoa estar viva eram ínfimas. No entanto, ao olhar para o brilho nos olhos verdes daquela jovem tão determinada, às vezes se auto-convencia de que talvez aquilo pudesse, de fato, ocorrer. Era impossível não se animar diante da determinação de Giovanna.
Descansando a xícara sobre a mesa, ela colocou novamente os óculos. Prendeu os longos cabelos negros com um nó, para que não lhe atrapalhassem e recomeçou a digitar. David a fitava com admiração. Os dois haviam sido encontrados e resgatados na mesma época. Ela, na Itália. Ele, em seu país natal, o Canadá. Chegaram a dividir o mesmo quarto de hospital na Cidade-Fortaleza, onde se conheceram e tornaram-se amigos. Cresceram juntos. Tinham a mesma idade. David era pouco mais de quatro meses mais velho que Giovanna, ou apenas “Gi”, como carinhosamente a chamava. Tinham grande amor fraternal um pelo outro. Ou, pelo menos, ela tinha amor fraternal por ele. Já David nutria verdadeira adoração pela italiana.
-Não acha que está na hora de dormir? – Perguntou ela, quebrando o silêncio.
-Era exatamente o que eu ia lhe perguntar.
-Vou daqui a pouco.
-Precisa pensar um pouco em você, Gi. – Recomendou David, preocupado – Está trabalhando demais.
Após uma pausa, ela respondeu sem tirar os olhos da tela ou parar de digitar:
-Não posso me dar ao luxo de pensar só em mim, David. Todos contam comigo para encontrar essa pessoa. O capitão confia em mim, não posso decepcioná-lo. Mais do que isso, não posso simplesmente destruir a esperança desse povo. – Ela sorriu levemente, orgulhosa – Acho que é o que minha bisa ‘Mic’ esperaria de mim.
-Bem... Acho que meu bisavô Eric esperaria que eu, nesse momento... Te convencesse a ir dormir.
Ambos riram. As histórias sobre a última geração ativa de Guardiões eram tantas que conheciam bem as personalidades de cada um deles. Embora nenhum dos dois sequer chegasse a conhecer os bisavós.
Deixando de rir, Giovanna desviou a atenção do que fazia e olhou para o loiro. Viu a preocupação estampada naqueles olhos azuis e não teve coragem de argumentar. Até porque, estava realmente precisando de um descanso. Desligou o computador e se levantou. David sorriu e a acompanhou. Saíram da sala e caminharam juntos até o corredor do bloco em que viviam, onde, após trocarem um “boa noite”, se separaram, entrando cada um em um quarto.
No que Giovanna entrou havia três beliches, de frente para um armário, e, ao lado, uma porta que dava para um pequeno banheiro. Não tinha janelas, apenas um tubo de ventilação no teto.
Em silêncio para não acordar as outras meninas, abriu o zíper atrás da roupa e começou a tirá-la. Tratava-se do traje utilizado pelos Guardiões: um macacão justo ao corpo, feito de tecido resistente ao fogo e a baixas temperaturas. Em cor grafite, possuía mangas compridas, além de luvas e botas. O de Giovanna tinha detalhes em amarelo, cor que representava o seu signo. Após tirar as vestes, guardou-as cuidadosamente no armário e apanhou um conjunto de calça e casaco, que vestiu para se proteger do frio que fazia todas as noites. Então, seguiu para sua rotina noturna de sempre.
Primeiro, olhou as camas de baixo. Nayuki, Melanie e Susana – respectivas Guardiãs de Áries, Câncer e Libra – dormiam profundamente. Deteve seus olhos por mais tempo nesta última e sorriu, pensando no fato de serem “quase-parentes”. Seus pais se consideravam primos, seus avós eram como irmãos... Mas não era o sangue que os unia, mas sim o fato de, mesmo sendo cada um fruto de uma mulher diferente, ambas os criaram juntos. No fim das contas, Giovanna também via Maire Goldsmith como sua bisavó e, consequentemente, assim que conheceu Susana logo passou a considerá-la como uma prima.
Deixando esses pensamentos de lado, olhou a cama acima da que Susana dormia e não se surpreendeu com o fato de estar vazia.
-Sempre isso... – Murmurou.
Mal terminou de dizer essas palavras e a porta do quarto foi aberta. Christine também não demonstrou surpresa ao encontrar a italiana olhando-a com uma expressão zangada no rosto.
Aproximando-se, Giovanna perguntou, com a voz baixa, mas autoritária:
-Onde estava?
-Perdi a hora de novo. – Respondeu a inglesa, com ironia – Me desculpe, “mamãe”.
Giovanna suspirou. Mas tratou de amenizar o tom de voz. Preocupava-se tanto com aquelas meninas que por vezes acabava realmente sendo autoritária demais.
-É sério, Chris. O que estava aprontando dessa vez?
-Zaila não se sentia bem, então me pediu para cuidar das crianças por ela.
-Estava com as crianças até agora?
Christine hesitou por um momento.
-Estava na sala de máquinas.
-Sozinha? Ou com aquele garoto de novo?
Foi a vez de Christine suspirar, tristemente.
-Por favor, Gi. Tudo é estressante demais. Nossa vida é só sair daqui pra lutar contra aqueles monstros, ver pessoas mortas, mutiladas, carregar feridos pra cá... Eu só estou vivendo um pouquinho. Não me condene, por favor. Não estou fazendo nada de errado. Eu to me cuidando, eu juro.
A mais velha amenizou ainda mais a voz, dessa vez também falando num tom de tristeza:
-Apenas acho que você deveria se valorizar mais, Chris.
-Pra quê? – A outra rebateu – Quem se importa?
Dito isso, Christine caminhou até o armário e abriu a porta onde guardava suas roupas. Assim, começou a tirar o macacão que usava (idêntico ao da outra jovem, mas com detalhes em azul).
Giovanna tomou fôlego para retrucar, mas deteve-se ao ouvir um som vindo de uma das camas. Olhando nesta direção, percebeu que havia algo errado com Nayuki. A japonesa estava agitada, como se estivesse tendo um pesadelo.
Rapidamente, Giovanna se aproximou, abaixando-se ao lado da cama.
-Nayu?! — Disse suavemente, enquanto tocava de leve o ombro da colega — Nayu, acorde!
Os olhos puxados se abriram abruptamente, exibindo íris azuis que contrastavam com a aparência oriental da jovem.
Vendo que a ariana parecia assustada, Giovanna sorriu, tentando tranqüilizá-la:
-Fique calma, está tudo bem.
-E a Mel? – Perguntou Nayuki Koyanagi, preocupada.
-Está dormindo. Acalme-se. Teve outro pesadelo, não foi?
-Eu já deveria estar acostumada. – Retrucou a japonesa, irritada.
-Quer conversar sobre isso?
-Na boa, Giovanna? Não estou a fim – Ela passou a mão pelos cabelos negros que tinham as pontas tingidas de vermelho e batiam à altura dos ombros. Depois respirou fundo, tentando restabelecer a calma – Foi mal se eu te acordei.
-Não se preocupe, eu ainda estava acordada.
-Descobriu alguma coisa?
-Nada ainda. Mas estou na pista certa.
Nayuki riu. Giovanna a olhou com curiosidade, aguardando uma explicação para o riso.
-Faz um bom tempo que você está nessa tal \"pista certa\". Na boa, Giovanna, não existe um Guardião de Touro. Aceita logo isso e para com essa busca idiota.
A mais velha ainda pensou em argumentar, mas, por fim, percebeu que seria inútil. Voltou-se para Christine e viu que ela já havia trocado de roupas e agora subia para a cama acima da que Susana dormia. Vencida, a geminiana apenas disse:
-É melhor dormir, Nayuki. Teremos um longo dia amanhã.
E, dizendo isso, deitou-se na cama acima à de Melanie e tentou relaxar. Tarefa difícil, com a quantidade de pensamentos que insistiam em ocupar-lhe a mente.
Nayuki, entretanto, não demorou a pegar no sono novamente.
*****
Num primeiro momento, David teve a impressão de que todos no quarto já dormiam. Contudo, logo percebeu que estava enganado ao ver acesa a luminária da cama do sagitariano da equipe. Aproximando-se um pouco, o canadense não se surpreendeu ao reconhecer o tipo de “literatura” que mantinha Takashi Toshihiko acordado. A revista velha e amarelada fora encontrada durante a última missão, onde não houve sobreviventes. Enquanto todos se preocupavam na busca por alimentos ou objetos úteis, o japonês deteve-se para apanhar uma revista de mulheres orientais nuas, que encontrara em meio aos escombros de uma casa.
David não sabia se a situação era para rir ou chorar. Lembrou-se de tudo o que lera ou ouvira falar sobre o último Guardião ativo do signo de Sagitário e perguntou-se como era possível que seu descendente lhe saísse tão diferente.
Takashi Toshihiko tinha vinte e dois anos. Olhos negros e cabelos da mesma cor e lisos, batendo pouco abaixo do queixo. Apesar de seu jeito aparentemente irresponsável, suas habilidades como Guardião não deixavam absolutamente nada a desejar. Era o melhor amigo de David e, de longe, o mais animado do grupo.
-Ô, delícia! – Takashi sussurrou, assim que passara para outra página da publicação.
Deixando aquilo de lado, David trocou de roupa e preparou-se para subir no beliche. Entretanto, deteve-se ao perceber que a cama abaixo da sua estava vazia.
-Onde está o Chun? – Perguntou, sem se importar com o fato de estar atrapalhando a “leitura” do amigo.
Mas Takashi não pareceu incomodado. Respondeu, sem desviar a atenção da revista:
-Saiu e disse pra não esperarmos por ele hoje. De boa, conhecendo ele como a gente conhece, é bom nem esperarmos mesmo. Na certa só volta amanhã.
-Entendo.
E David compreendia mesmo. Era assim todas as vezes que eles voltavam de alguma missão na China. Liquidaram youkais, encontraram alimentos, água, roupas... Mas nenhum sobrevivente.
Chun Wang era o mais velho da equipe, com vinte e seis anos de idade. Nascido em Hong Kong, já vivia há mais de dez anos na Cidade-Fortaleza. Tinha olhos e cabelos castanho-escuros e era extremamente reservado no que dizia respeito aos próprios sentimentos, tão ou mais que Melanie – já que essa ainda se permitia desabafar com alguém, enquanto ele, nem isso – apesar de realmente considerar Takashi, David e Giovanna como amigos. Era extremamente leal a Koichi Kentaro, nisso, se parecia muito com a italiana, embora a lealdade da garota fosse vista por alguns como uma \"paixão platônica\".
-O cara não desiste nunca. -Comentou Takashi, referindo-se a Chun.
-Normal. Acho que eu, no lugar dele, também não desistiria.
Pela primeira vez, Takashi desviou os olhos da revista e fitou David, incrédulo.
-Fala sério, cara! Tudo tem limites. Ele já está há dez anos nessa busca. A irmã dele, na certa, deve estar morta.
-Nunca se sabe. – Respondeu o loiro – É um direito dele procurar pela irmã.
-E é um direito meu achar que o cara vai acabar ficando maluco com essa obsessão.
David suspirou. Sabia que, no fundo, Takashi tinha razão. Já havia se passado mais de dez anos desde que o chinês fora resgatado. Foi o único sobrevivente encontrado em Hong Kong, mesmo assim, insistia na idéia de sua irmã, na época com nove anos de idade, ter conseguido fugir. Durante os últimos dez anos, o rapaz não se cansava de procurar por ela. Teimoso como era, todos sabiam que não desistiria nunca.
Cansado, David foi para a cama e logo adormeceu.
Takashi ainda prosseguiu com sua “leitura”.
*****
O trabalho como Guardiã já era importante e cansativo o bastante. Mesmo assim, Susana Goldsmith jamais abriria mão de suas tarefas extras, ainda que, para isso, tivesse que diariamente acordar ainda mais cedo que os demais, para que desse tempo de realizar seus afazeres.
Primeiramente, dava uma boa olhada na área da Cidade reservada às plantações. Embora não concordasse muito com a forma artificial de plantio e fertilização dos vegetais, era obrigada a concordar que aquela era a única maneira da pequena área fornecer alimento rápido e suficiente para a demanda local.
Se tivesse o tempo disponível, adoraria poder trabalhar diretamente naquilo, como as pessoas designadas para mexerem na terra, cuidando do plantio e da colheita. Contudo, o máximo que sua rotina lhe permitia era fiscalizar o ambiente todas as manhãs. Simpática, a loira de vinte anos caminhava pelo local cumprimentando a todos, enquanto preenchia um relatório que carregava em mãos. Após esse trabalho, ia rapidamente para outra área da cidade, cuidar diretamente de outros seres vivos.
Não eram apenas os humanos os resgatados em missões. E, das demais formas de vida salvas, a Guardiã de Libra se responsabilizara por cuidar das duas espécies mais encontradas. Primeiramente, dirigia-se ao canil. Era um espaço pequeno, levado em conta a quantidade de animais que ali se encontravam. As jaulas circundavam toda a extensão retangular e se amontoavam, como um prédio com vários andares, indo até o teto. Os maiores ficavam nas jaulas mais baixas, enquanto os menores ficavam acima. Uma escada presa a um trilho dava condições de verificar a situação de todos os cães.
Cuidadosamente, Susana cuidava da limpeza das jaulas e verificava os recipientes de água e comida de cada um dos quase mil cachorros. Depois, seguia para o abrigo situado ao lado daquele, onde ficavam os gatos.
-E aí, garotos? – Ela disse, assim que adentrou o local – Desculpem a demora, mas sabem como são seus amigos caninos, não é?! Não são tão limpos quanto vocês.
Aproximou-se da primeira das jaulas e viu-se tomada de surpresa ao notar que havia comida e água limpa nos recipientes. Olhando os compartimentos ao redor, percebeu que todos estavam assim. Pensava em quem teria feito aquilo quando ouviu uma voz estridente a gritá-la:
-Susana-sama!
-Rumi. – Sussurrou, abrindo um leve sorriso antes de olhar para quem a chamava e confirmar suas suspeitas – Você fez isso?
Um grande e orgulhoso sorriso surgiu na face da menina japonesa de doze anos de idade.
-Sim, eu alimentei e troquei a água de todos os gatinhos. – Contou a pequena, alegremente. Os longos cabelos negros estavam presos num rabo de cavalo, mas ela apressou-se em soltá-los, numa nítida conduta de exibição – Ia alimentar os cãezinhos também, mas Susana-sama foi mais rápida.
Sorrindo, a libriana se aproximou e abaixou-se diante da menina.
-Agradeço a ajuda. Mas deveria estar dormindo. Acho que ainda falta uma ou duas horas para sua aula começar.
-Não tem importância. Quero cuidar dos bichinhos, para que Susana-sama possa dormir um pouco mais. Se a senhorita deixar, farei isso todos os dias!
A mais velha quase riu diante do “senhorita”, mas conteve-se. A pequena Rumi não era conhecida por ser uma criança amável e educada, ao contrário: era o terror do alojamento em que vivia, sempre desrespeitando e desobedecendo aos adultos e mostrando um comportamento agressivo com relação às outras crianças. Porém, com Susana ela parecia outra pessoa e todos compreendiam bem as razões para isso. A Guardiã de Libra ainda se recordava bem do dia em que encontrara Rumi, tão pequena e assustada, encolhida sob os escombros de um prédio destruído. Fora sua salvadora e, com isso, ganhara a total confiança e gratidão da menina.
-É muita responsabilidade. – Respondeu Susana.
-Mas eu dou conta! E todos eles gostam muito de mim. Menos o Ralf, ele me arranhou, olha! – Mostrou um pequeno arranhão na mão direita, ocasionada por um dos gatos.
-Deve ser o jeito dele de demonstrar amor. – Susana sorriu – Não duvido que todos gostem muito de você, mas isso não é o suficiente para...
-Por favor, Susana-sama! – Rumi ajoelhou-se diante da Guardiã – Deixe-me ajudá-la! Seria muito importante para mim!
Susana ia pedir para que a menina se levantasse, mas deteve-se ao ouvir o apito de seu comunicador. Acionou o pequeno botão localizado no pingente de seu signo preso à roupa e, pelo sensor instalado nos brincos que usava, ouviu a voz de um dos amigos Guardiões:
-Su, está muito ocupada?
-Não, David. – O pequeno microfone camuflado nas roupas fazia com que sua voz fosse ouvida perfeitamente por quem a contactara – Pode falar.
-É melhor voltar para a base. Gi marcou uma reunião de urgência.
-Do que se trata?
-Não sabemos. Parece que ela acordou de madrugada e voltou para a sala de computação. Deve ter descoberto algo importante, não marcaria uma reunião às pressas por um assunto banal.
-Tudo bem, David. Já estou indo.
Acionando o mesmo botão, a comunicação foi encerrada. Susana, então, pôde pedir a Rumi que se levantasse:
-Não precisa implorar, Rumi. Vou conversar com a responsável pelo seu alojamento, e se ela me garantir que não terá problemas, eu deixarei você me ajudar com os bichinhos, tudo bem?
-Oh, Susana-sama! – Empolgada, abraçou a Guardiã – Muito obrigada! Prometo que farei o meu melhor!
Com muito esforço e delicadeza, Susana conseguiu se soltar de Rumi e seguir para a base. Ficando sozinha, a menina levantou a mão direita à altura dos olhos, admirando, orgulhosa, o “prêmio” que conseguira obter da libriana: um longo fio de cabelo loiro.
-Um fio do cabelo de Susana-sama! – Vibrou – Guardarei para sempre!
E beijou aquilo, como se fosse um troféu.
*****
Uma grande mesa redonda representava o que durante séculos fora marcado por um círculo pintado ao chão. A antiga base Guardiã já não existia mais. Agora, um novo local era usado para as reuniões do grupo.
O salão era menor do que o anterior, mas espaçoso o suficiente para a atividade a qual se destinava. Ao centro, a mesa era marcada pelos símbolos dos doze signos zodiacais, rodeando a borda da superfície de vidro fumê. As cadeiras, no entanto, eram dezesseis, já que a “equipe” era formada também pelo capitão Koichi Kentaro, além dos três ex-Guardiões sobreviventes. Estes foram os primeiros a chegar ao local nessa manhã.
Nicole Green era a antiga Guardiã de Leão. Uma bela loira de trinta e seis anos, cuja beleza não deixava que os outros percebessem o tanto de sofrimento que já passara pela perda do marido e perseguições de youkais até conseguir se refugiar na Cidade Fortaleza com seu filho Kevin.
Paul Taylor era primo de Nicole e o Guardião de Escorpião. Ambos tiveram pouco contato durante a infância, embora tenham crescido na mesma cidade – Londres. Tinha os cabelos grisalhos, olhos de um verde bem escuro e um rosto com semblante constantemente sério. Era completamente radical e imutável em suas opiniões, geralmente colocando as missões acima da preocupação com o bem estar dos jovens Guardiões.
Já Odara Velaz era a “mediadora” entre os mais velhos. Tendo herdado o nome da bisavó e a personalidade forte da avó Live, a aquariana via-se sempre obrigada a dar o “voto de Minerva” em qualquer assunto que fosse discutido, tendo em vista que as opiniões de Paul e Nicole geralmente eram opostas uma à outra.
Não demorou até que alguns dos Guardiões chegassem ao salão. Vieram em dois grupos – primeiro três garotas: Nayuki Koyanagi, Christine Taylor e a caçula Melanie McKay – uma adolescente de quinze anos, estatura baixa, cabelos negros e olhos da mesma cor, que não transmitiam nada além de um profundo vazio e indiferença a qualquer fato ao seu redor. Logo em seguida vieram os cinco rapazes: David Carter, Takashi Toshihiko, Kevin Green, Chun Wang e o mais novo entre eles: Akshai Velaz, de dezoito anos. Este foi logo recebido por um abraço da mãe, preocupada em verificar se o filho estava bem depois da última missão. Nicole fez o mesmo com Kevin. Já Paul, não demonstrou qualquer preocupação especial com nenhum deles, nem mesmo com a filha Christine. Ao invés disso, indagou:
-Onde estão os demais?
Foi Nayuki quem respondeu, mostrando indiferença na voz:
-Susana, como sempre, foi cuidar dos bichos dela. Zaila sempre se atrasa. E a Giovanna, já que nos convocou logo cedo, deveria ser a primeira a chegar aqui.
-Ela nos pediu vinte minutos. – Informou Odara – Queria checar os dados antes de nos apresentá-los.
-Mas isso já tem mais de meia hora. – Rebateu Paul, impaciente.
Nicole bufou, mas controlou-se para não rebater a informação. Na verdade, havia se passado menos de dez minutos desde que Giovanna dera tal aviso.
Neste momento, duas das jovens que faltavam chegaram. Susana encontrara com a Guardiã de Virgem próximo ao alojamento-base e agora a acompanhava, empurrando sua cadeira de rodas.
Zaila Collins sofrera um grave ataque durante uma missão, o que a deixou com graves sequelas na coluna. Ainda conseguia andar com o auxílio de muletas, mas utilizava a cadeira sempre que precisava se locomover carregando o pequeno Adan: seu filho, de um ano e meio.
Como era casada, não vivia com os demais Guardiões. Havia na Cidade-Fortaleza prédios destinados a abrigar as famílias (que eram poucas, em meio aos milhares de órfãos e viúvos resgatados), com micro-apartamentos de um ou dois cômodos. Também não saía mais em missões desde o acidente que limitou seus movimentos, mas participava ativamente de todas as reuniões e decisões do grupo, além de assumir na Cidade a função de professora no abrigo de crianças.
Assim que a avistaram, Christine, David, Takashi, Kevin, Chun e Akshai se aproximaram, indo cumprimentar a amiga e o bebê que ela carregava. Adan tinha a pele negra como a da mãe, mas todos diziam ter os traços do pai. A Guardiã de Escorpião, Christine, o segurou no colo e logo foi cercada pelos outros Guardiões, todos devidamente preocupados em observar se a criança estava bem de saúde, já que tivera um severo resfriado dias antes. Odara e Nicole também se aproximaram. Apenas Melanie, Nayuki e Paul permaneceram à distância. O antigo Guardião olhou com desdém para o excesso de agasalhos que o menino usava, e comentou:
-Pra que tantas roupas? É assim que pretende criar o futuro Guardião de Virgem?
Zaila o olhou e respondeu, sarcástica:
-Com amor? É sim.
Nicole riu.
-Zaila é das minhas! Não dê atenção a ele. Sempre cerquei Kevin de cuidados, e isso não o impediu de se tornar um ótimo Guardião.
Distante do aglomerado, Nayuki comentou, de forma com que apenas Melanie, ao seu lado, pôde ouvir:
-Kevin é um ótimo Guardião? Só ela que acha isso.
Segurando o bebê nos braços, Christine não perdeu a oportunidade de zombar do leonino:
-Kevin-mimadinho-da-mamãe devia ser uma fofura quando criança!
O rapaz de vinte anos, que tinha os olhos e cabelos castanhos, fez bico diante da provocação. E rebateu:
-Pare de falar assim comigo.
-Por quê? Devia ser uma gracinha mesmo. – Ela abriu um sorriso sacana – É uma gracinha até hoje.
Kevin ficou vermelho, num misto de vergonha e irritação. Odiava as brincadeiras com tom de paquera que aquela garota sempre lhe fazia.
Como se para evitar que a discussão fosse adiante, neste momento chegou aquele a quem todos na Cidade-Fortaleza chamavam de “Capitão”. Koichi Kentaro era um japonês de quarenta e dois anos, neto do idealizador e criador daquele abrigo. Um homem alto, de cabelos negros e curtos. Tão logo ele chegou, a porta que dava para a sala de computação se abriu e de lá saiu Giovanna. Com os olhos verdes marejados e uma expressão preocupada no rosto, ela se dirigiu diretamente para seu lugar na mesa, parando de pé diante do símbolo de seu signo. Os demais Guardiões fizeram o mesmo, iniciando a apresentação milenar passada de geração a geração:
-Nayuki Koyanagi, Guardiã de Áries, se apresentando.
-Giovanna Bertolli, Guardiã de Gêmeos, se apresentando.
-Melanie McKay, Guardiã de Câncer, se apresentando.
-Kevin Green, Guardião de Leão, se apresentando.
-Zaila Collins, Guardiã de Virgem, se apresentando.
-Susana Goldsmith, Guardiã de Libra, se apresentando.
-Christine Taylor, Guardiã de Escorpião, se apresentando.
-Takashi Toshihiko, Guardião de Sagitário, se apresentando.
-Chun Wang, Guardião de Capricórnio, se apresentando.
-Akshai Velaz, Guardião de Aquário, se apresentando.
-David Carter, Guardião de Peixes, se apresentando.
-Sabe o que eu acho? – Indagou Odara, com a voz baixa, de modo com que apenas Nicole e Paul, que estavam próximos, puderam ouvir – Essa apresentação é tão ultrapassada. Deviam criar algo novo.
-Discordo. – Opinou Nicole – Acho lindo esse momento, exatamente por ser tão tradicional.
-Vocês duas fiquem quietas. – Ordenou Paul, ganhando de pronto um olhar nada amigável das duas mulheres.
Alheio à breve conversa entre os três ex-Guardiões, Koichi pediu:
-Então, Giovanna, pode nos contar o que foi que descobriu?
A italiana respirou fundo, tomando fôlego para a importante revelação que estava prestes a fazer.
*****
Hikari Gautier, Guardiã de Áries.
Ou ex-Guardiã, como podem perceber.
Como as coisas mudam em oitenta e poucos anos, não é? Mas mesmo com tanta tecnologia, modernidade e organização, não se consegue encontrar um Guardião desaparecido.
Fora isso, alguém além de mim percebeu o caos ao qual esse mundo chegou? E a pior de todas as coisas: notaram que não tem uma mísera balada nesta Cidade-Fortaleza? Que vida mais infeliz a destes nossos bisnetos...
Próximo capítulo: A Guardiã de Touro
E você? Está lutando por quem?
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