Guardian Angel
1 Capítulo 1
Notas iniciais
─ Os dois, venham comigo.
─ Mestra Haayah, onde estamos indo?
A mulher não respondeu. E em seu lugar, outro aprendiz se pronunciou.
─ Chegou a hora de um garoto. Nós vamos buscar sua alma.
─ Mas...
─ Silêncio, Allan. ─ Pediu a mulher educadamente. ─ Isso faz parte do seu treinamento. Preste muita atenção e aprenda, pois vai precisar disso depois.
─ Certo...
Ela abriu as asas enormes e brancas. Os dois aprendizes a imitaram, também abrindo as suas. As do que respondera eram de um tom meio perolado, enquanto que as do outro eram branquíssimas, sem nenhuma mancha sequer; as penas pareciam flocos de neve macios.
Decolaram, enormes pássaros flutuando no céu noturno. Vultos imperceptíveis, porém presentes.
Sempre presentes.
─ Ali.
Haayah apontou para um menino de uns 16, 17 anos, que andava apressado.
Estavam os três ali, parados, numa rua movimentada. As asas haviam sumido. Na verdade, ainda estavam lá, mas as pessoas não podiam vê-las. A não ser que eles quisessem.
─ Então é um japonês? ─ Perguntou o que tinha as asas peroladas.
─ Isso.
─ Mestra...
─ O que foi? ─ Questionou ela virando-se para Allan.
─ Esse é o fim do nosso treinamento?
─ Sim. Vocês vão presenciar agora o fim desse menino, e então vão aprender seu ofício.
─ Vai demorar muito?
─ Tenha paciência, Ariel. Tudo anda há seu tempo.
─ Ainda há tempo.
Uma mulher apareceu ao lado dos três. Era muito alta e magra. A pele, ainda mais branca do que as asas dos seres que estavam à seu lado; chegava até a ter um tom cinzento.
Vestia trajes no estilo punk: uma saia preta curta, meia arrastão, coturnos com salto alto, uma camiseta com uma caveira estampada em prata. No pescoço, um crucifixo. No braço, uma pulseira de espinhos. E no rosto, maquiagem pesada, os olhos com sombra preta e um batom roxo escuro. Tinha uma aparência assustadora.
─ Credo...! Quem é essa? ─ Exclamou Allan olhando a mulher de cima a baixo.
Ariel o puxou para um canto abruptamente, furioso.
─ Onde está o seu respeito? Não sabe quem é ela?
─ Não... Puta medo dela...
─ Idiota! Ela é “aquela que não tem piedade”.
─ Ahn... Quem?
─ Seu...
Ele se aproximou e cochichou algo no ouvido do amigo. Este arregalou os olhos, finalmente compreendendo.
─ Ah!
─ Shhh!
─ Desculpa...
─ Ele ainda não chegou? ─ Perguntou Haayah para a mulher, ignorando os dois.
─ Não... Já deve estar vindo. Ainda há tempo.
─ Está com saudades de mim, minha querida Haayah? ─ Falou uma voz debochada, surgindo atrás dos meninos. Os dois se viraram e viram um homem de o cabelo loiro escuro jogado para trás, e vestindo roupas sociais também pretas, com uma gravata vermelha.
─ Ah, é você Eric. ─ Falou Haayah calmamente.
─ É um prazer revê-la. E... ─ Ele olhou para os outros dois ─ Devo presumir que esses são seus mais novos cãezinhos treinados?
Allen bufou. Quem era aquele cara para dizer isso?
─ Não são cãezinhos, são meus alunos. ─ Haayah não perdia a compostura.
─ Claro, claro ─ Eric tinha um sorriso cínico no rosto. ─ Então, vamos logo aos negócios, tenho muito que fazer.
─ É ele. ─ Apontou a mulher com roupas punk, para o menino que agora se aproximava de um cruzamento.
─ Hum... Muito jovem. Mesmo assim, nessa idade já pode ter feito coisas suficientes para ir comigo, não?
─ Não é você quem decide isso. ─ Haayah tirou uma moeda prateada e grande do bolso. Ela tinha duas faces: na primeira, uma pomba de asas abertas desenhada; na segunda, uma cobra com duas cabeças. ─ Vamos julgá-lo de forma justa.
─ Você quem manda, meu bem.
Ela jogou a moeda para cima, e todos observaram ela rodopiar por um instante. Então, ela tornou a cair, e tocou o chão sem fazer nenhum som sequer. Para cima, a face da pomba.
─ Está decidido.
Eric amarrou a cara.
─ É uma raridade... ─ Falou emburrado.
─ Não há mais tempo.
A mulher punk pronunciou aquilo com uma voz macabra, e então olhou para o garoto que corria para atravessar a rua. Com pressa, ele não olhara para os lados, e conseqüentemente não viu um carro que se aproximava veloz dele.
─ CUIDADO!
Allen gritou sem intenção. O garoto, assustado ao ouvir o grito, recuou e caiu para trás, escapando do carro. Eric soltou uma gargalhada maldosa
─ Ah, isso sim é interessante! ─ Falou ele ainda rindo ─ Boa sorte garoto, tem alguém ai que não vai ficar nada feliz com isso.
Ele apontou para “aquela que não tem piedade”, e continuando a rir, desapareceu num piscar de olhos, como se nunca tivesse estado lá.
─ Por que você fez isso? ─ Gritou Ariel.
─ Eu... Só falei... Não foi de propósito... ─ Allen gaguejou confuso.
─ Haayah. ─ A mulher punk parecia um pouco irritada pelo seu tom de voz, apesar de sua expressão não ter se alterado. ─ Você sabe o que isso significa.
─ Sim. ─ Ela respondeu séria.
─ Bom. Você terá de resolver. Eu ainda tenho muito trabalho.
─ Certamente.
Com um aceno da cabeça, a mulher também desapareceu.
Haayah voltou-se para um confuso Allan. Respirou fundo e depois falou num tom solene.
─ Anjo Allan, aprendiz de guia de almas.
─ S-sim.
─ Você interferiu no destino de um humano e, portanto, alterou seu tempo de vida. Isso é um crime e, por conseguinte, você terá de arcar as conseqüências.
Ela apontou para o menino sentado na calçada que acabara de escapar da morte.
─ A partir de hoje, se tornará o anjo da guarda desse garoto.
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