Guardian
4 Capítulo 3
– O que eu fiz? – disse Nate se pondo entre mim e a porta.
– Nada. – o empurrei e me atirei escada abaixo.
– Então porque tá fugindo de mim? – ele segurou meu pulso antes que pudesse abrir a porta. Ele havia tomado uma expressão no mínimo raivosa, assim como eu.
– Não tem nada a ver com você. – disse livrando meu pulso. – Só... me deixa em paz. – abri a porta deixando aquela música horrível atingir em cheio meus ouvidos, Nate permanecia parado ali na beira da porta enquanto eu atravessava a pista de dança, logo ele voltou para o bar e uma garota se aproximou inclinando-se sobre o balcão e começou a falar com ele, coisa que serviu para me encher ainda mais de ódio, um ódio que nem eu sabia bem o motivo.
O vento fora daquela boate era frio e ao mesmo tempo maravilhoso, e por algum motivo inexplicável a fila para entrar naquele lugarzinho só havia aumentado. A rua estava bem mais calma do que o normal, geralmente, se pode ouvir o barulho dos carros passando do meu apartamento, se eu pudesse morrer, agora, numa noite calma na madrugada, seria o momento perfeito, mas por azar, eu não posso.
Abri o portão e cumprimentei Krystal, a porteira, que como sempre, estava quase dormindo, entrei no elevador e subi até a solidão do décimo segundo andar, ao contrário de outros prédios, neste cada andar é um apartamento, uma característica comum em prédios de luxo, e devo tudo á época da corrida do ouro que me rendeu dinheiro o suficiente pra viver bem até hoje. Fui até o banheiro e liguei a ducha enquanto me despia e entrei embaixo da água que como sempre, estava fria, encostei minha cabeça da parede enquanto deixava a água escorrer por meu corpo e fiquei pensando no que Linda havia dito, ela estava certa, mas ainda assim não fazia sentido, isso nunca foi problema para ela, ela nunca se importou comigo, sempre foi uma egoísta que só pensa em como as coisas podem afetar ela e bem, eu não vejo como o fato de eu ser meio puta afeta a vida dela, tem algo de muito errado nessa história toda... só não sei o que. Terminei meu banho e vesti um short preto de piscina com uma regata azul e tentei secar ao máximo o meu cabelo com a toalha, literalmente pulei na cama e fiquei olhando para o teto esperando até que minhas pálpebras pesassem.
Eu estava no fundo de um lago, pedras cortavam a água como balas perdidas e eu só sentia o meu corpo emergindo, cada vez mais rápido indo de encontro á luz. Acima da superfície eu me vi boiando em um pequeno lago no meio de um bosque, minha visão estava embaçada e meus ouvidos só captavam sussurros indefinidos, fui retirada da água por um homem que não consegui identificar, minha visão voltava aos pouco e logo pude escutar novamente, o barulho do canto dos pássaros encheu meus ouvidos, me dando uma sensação maravilhosa e inexplicável.
– Quem é ela? – ouvi uma mulher de cabelos loiros, quase brancos dizer, ela tinha uma voz doce e gentil, estava vestida com uma capa preta assim como todos os outros três homens ali presentes.
– A última peça do quebra cabeça. – disse um dos três homens, este tinha cabelos negros na altura dos ombros, olhos verdes e uma barba densa.
– Hyrum, Elena, ajudem-na. – disse outro deles, com cabelos curtos e cacheados na cor castanha, tinha olhos negros penetrantes e uma pose robusta.
O terceiro homem e a mulher de cabelos loiros me ajudaram a ficar em pé. Elena desenhou símbolos no chão até formar um círculo perfeito, o homem de cabelos castanhos se aproximou de mim e recitou palavras em o que acredito que seja hebraico, ele pegou minha mão e a olhou por alguns instantes e logo depois desenhou em minha palma um símbolo, doia insuportavelmente, mas por mais que tentasse minha voz não saia de forma alguma, aquilo queimou minha pele e deixou uma marca de ômega. Desta vez, o homem de cabelos negros que veio até mim, fez um sinal para que o outro largasse minha mão e recitou mais palavras arcaicas que faziam meu corpo doer completamente mas por mais que tentasse não conseguia me mexer, estendi a mão em um ato involuntário e o homem sacou uma adaga prateada e reluzente e começou a desenhar com ela por cima da queimadura, mas antes que terminasse uma luz vinda de algum lugar o interrompeu e eu acordei em minha cama, meu corpo inteiro tremia e eu estava completamente suada, a luz forte do amanhecer invadia meu quarto. Olhei minha mão com atenção para ter certeza de que aquilo não era real, nada, não havia nada em minha mão. A campainha tocou, saltei da cama e me dirigi a porta, por um momento hesitei em girar a chave e abrir a porta, com medo de um demônio dos infernos pular em cima de mim mas ainda sim abri e me deparei com a desgraça chamada Nate.
– Como descobriu onde eu moro? E como entrou aqui? – perguntei com raiva.
– Primeiro: eu te segui até aqui ontem. – disse ele passando por mim e entrando no apartamento. – e segundo: a segurança nesse prédio é bem ruim né? E a propósito, belo apartamento.
– Invadiu meu prédio?
– Isso. – ele sorriu enquanto se jogava no sofá. – Tua cara tá horrível sabia?
– E você é muito idiota sabia? – eu disse retirando os pés dele de cima do meu sofá. – O que você quer?
– Isso é jeito de falar com as visitas? – disse ele franzindo a sobrancelha e abrindo um sorriso.
– Visitas não, mas invasores sim. Fala logo, o que você quer?
– Eu quero saber por que você fugiu de mim ontem.
– Eu não “fugi” de você.
– Então porque saiu daquele jeito?
Suspirei longamente e me sentei ao lado dele no sofá.
– Escuta bonitinho...
– Bonitinho? – disse ele com um sorriso malicioso.
– Fica quieto e me escuta. – disse batendo uma almofada no rosto dele. – Eu estava de boa na minha casa ontem quando do nada uma “amiga” minha apareceu e começou a encher o meu saco então eu expulsei ela e fui para aquela boate na tentativa inútil de esvaziar minha cabeça. Pronto, já sabe.
– Então não tem nada a ver comigo?
– Não.
– Então você gosta de mim? – disse ele chegando mais perto do meu rosto.
– Talvez eu goste, talvez não. – disse imitando ele.
– Vou entender isso como um sim. – ele estava prestes a me beijar, mas no mesmo instante pulei do sofá.
– Interprete como quiser, mas agora vaza. – disse fazendo um gesto para a porta.
– Vai mesmo me expulsar?
– Vou. – disse segurando as mãos dele e puxando para fora do sofá. – Vamos, rapa fora daqui. – empurrei ele até a porta, joguei ele pra fora e antes que pudesse fechar ele a segurou com o pé.
– Eu vou, mas eu volto. – disse com um sorriso.
– Duvido. – chutei o pé dele e fechei a porta.
Eu tenho que admitir que Nate me leva a loucura às vezes, até pelo fato dele ser lindo, charmoso e eu desejar que ele fosse o próximo a acordar ao meu lado mas eu não tinha tempo para isso, eu tive um sonho sinistro que deve significar alguma coisa de importante pra minha vida, eu não tenho tempo de pensar naqueles olhos azuis lindos e naquele corpo seduzente... e... eu to fazendo de novo... Ah! Que maldição! Uma maldição linda por sinal, mas ainda sim uma maldição. Foi então que sem perceber eu me atirei porta afora e entrei no elevador apartando o botão do térreo com tanta força que tive medo de que o elevador parasse e eu ficasse presa ali antes que pudesse pegar Nate no térreo. A porta se abriu e o vi a alguns metros de distância.
– Nate, espera! – gritei, e logo me arrependi. Ele se virou com as sobrancelhas levantadas e as mãos nos bolsos. – É.... vo... volta aqui. – eu disse me sentindo mais envergonhada que nunca, até porque eu não tinha um bom motivo para ter pedido que ele voltasse.
– O que? – ele disse já dentro o elevador junto comigo.
– Eu... eu... eu tive um pesadelo hoje e eu queria desabafar sobre ele com alguém. – isso mesmo Rachel, faça dele sua amiguinha confidente.
– Sério? – ele me olhou com um sorriso duvidoso.
– É... – falei fechando a cara.
– Tá bom então.
As portas do elevador se abriram e entramos no apartamento de novo. Sentei no chão de frente para a janela e fiz um sinal para que ele sentasse ao meu lado, não sei se teria coragem de olhar na cara dele de novo.
– Vai, me conta seu pesadelo. – disse sarcasticamente, eu podia sentir aquele sorriso bobo pra cima de mim, certamente ele estava pensando que hoje a jiripoca vai piar.
– Ta bom, eu conto. – disse com dificuldade. – No meu pesadelo... eu acordava num lago, embaixo d’água pra ser exata... e então eu emergia e um homem vestido de preto me tirava do lago, eu não via nem ouvia direito então ele...
– Por que você não diz logo que quis que eu voltasse porque gosta de mim? – disse ele me interrompendo. – Eu sei que você me acha um deus grego. – ele usou um tom de ricasso de desenho animado.
– Sim, sim, claro que acho. – disse sarcasticamente.
– Não precisa negar. Nós dois sabemos que isso é verdade.
– To começando a me arrepender de ter te chamado de volta.
– Por que me chamou de volta?
– Eu não sei.
– É porque você me ama? – disse ele me provocando.
– Não, eu não te amo.
– Quer saber, vamos fazer assim – ele se levantou em um pulo e começou a andar enquanto olhava para o teto pensativo. – A gente si em um encontro e depois disso, você me diz se você gosta de mim ou não. Fechado?
– Não.
– Ah! Vamos... não custa nada. – disse ele fazendo um biquinho que provavelmente faria garotas caírem aos pés dele, menos eu, eu já estava.
– Quer saber? – eu levantei – Eu topo, quem sabe eu ainda consiga gostar de você depois disso?
– Você já gosta de mim.
– Isso a gente só vai saber depois do encontro.
– Gostei. – ele sorriu. – E aonde a senhorita gostaria de ir?
– Eu curto cinema.
– Isso é bem clichê não é?
– E? O que tem? Depois quem sabe um boliche ou coisa e tal?
– Boliche? Você ta descrevendo um encontro em que eu gostaria de ir.
– Somos dois.
– Tá, então hoje as seis horas eu venho até aqui te buscar e nós vamos para o cinema, ok?
– Ótimo.
– Daí a gente fala do seu pesadelo viu querida? – disse ele enquanto saia do apartamento.
– Não enche. – disse ao fechar a porta.
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