Guardian

10 Capítulo 10


Aldora, Tristan e Iana se puseram novamente a andar, a procura dos limites da cidade de Asgard. Não levou muito tempo até que ambos avistassem a cidade do topo de uma colina. Então procuraram o caminho certo para descer, e assim adentraram a cidade governada pelo rei François, pai de Tristan. Ao passar pelas vilas, e ruelas da cidade, com sua égua, Aldora percebeu o quanto as pessoas naquela cidade pareciam felizes. Homens e mulheres trabalhando nas feiras de frutas, gritando a plenos pulmões o quanto suas frutas eram belas e baratas. Cavalheiros experimentando vestes novas nas feiras de costura. As costureiras falando sem parar umas com as outras. Parecia que aquele lugar realmente estava sendo muito bem cuidado pelo rei.
Aldora franziu a testa observando tudo aquilo, sem jamais ter visto uma cidade assim antes. Tudo parecia correr as mil maravilhas. Tristan andava logo ao seu lado, segurando a mão de Iana. Ele postou seus olhos sobre ela com um belo sorriso como se lhe dissesse alguma coisa. Mas não se deteve a um simples olhar:
-Está vendo? –ele disse- O rei não pode ser um homem tão ruim afinal!
-As pessoas podem encontrar felicidade em pequenas coisas... –ela se negou a admitir que estava errada- Não significa que essa alegria toda seja por conta do rei...
Tristan sorriu apenas para não contrariá-la, pois sabia que Aldora era irredutível. Aldora procurou um lugar para atar sua égua, e dar a ela um pouco de água, pois a pobre já devia estar seca. Enquanto isso, Tristan levava Iana até uma banca de frutas, para que a menina escolhesse a mais bonita e saborosa. Aldora os observou de onde estava, e não conseguia entender bem porque, mas gostava da maneira como o príncipe tratava a menina. Ambos eram tão parecidos, apesar de Tristan ser homem, e bem mais velho que a menina, ele agia como um garoto enquanto estava perto de Iana, deixando a menina feliz na maior parte do tempo. Ver o sorriso estampado nos lábios da pequena enchia o coração duro de Aldora de alegria. Ela sorriu...
O príncipe voltou os olhos na direção de Aldora, jogando os cabelos longos para trás. Aldora não podia negar o quanto ele era bonito, e agradável. Mas toda vez que se pegava pensando nos sorrisos, e gentilezas de Tristan, ela acabava dando em si mesma alguns beliscões. Ela sacudiu a cabeça quando percebeu que seus lábios começaram a se abrir deixando transparecer um sorriso, e se virou voltando a olhar Alice. Tristan sorriu mais uma vez percebendo a reação dela e então deixou Iana naquela banca conversando com uma moça gentil e se aproximou de Aldora.
-Iana seria muito feliz aqui! –ele diz levando sua mão a crina de Alice-
Aldora o olhou tentando ficar séria, e sem entender porque diabos de repente aquela égua havia se tornado tão sujeita a receber carinhos de estranhos. Então ela respondeu:
-E com quem ela viveria? –ela disse já que não pretendia ficar-
-Com você... –ele olhou firme nos olhos dela- Vocês duas seriam muito felizes aqui...
-Não creio que o rei nos deixaria viver em paz na sua cidade... Não se esqueça que me encontrou entre ladrões perseguidos pelo rei.
-Mas não é isso que voce é... –ele disse com firmeza- Só é uma garota que cresceu no meio das pessoas erradas...
-Voce não sabe nada sobre a minha vida Tristan... –ela se afastou de Alice e passou por Tristan, fazendo a volta nele e indo para o outro lado da égua-
-Sei que assim como Iana, voce também foi tirada do ventre de uma família... –ele a seguiu mantendo as mãos sobre Alice- Foi obrigada a crescer entre homens rudes com quem a vida tambem não foi gentil... Isso tornou você uma pessoa diferente, mas isso não é o que voce deveria ser...
-E o que eu deveria ser? –ela estava abaixada enchendo um balde com água e se levantou carregando o mesmo e indo até Tristan- Uma princesa? –ela o encarou- Sinto em desapontá-lo, mas isso... –ela apontou para si mesma- É que eu sou voce gostando ou não...
Ela passou novamente por ele e levou a água para o outro lado da égua e começou a escovar seu pelo para limpá-lo. Tristan baixou os olhos não querendo transformar aquilo em uma nova discussão. Mas ele não pode ficar quieto, então sem sair de onde estava ele disse com os olhos voltados para a terra:
-Não faz diferença pra mim... –ele admitiu o que sentia-
Aldora pareceu não ter ouvido, ou talvez tenha fingido que não. Ela continuou com o que estava fazendo sem olhar para Tristan e sem lhe dar resposta. Tristan sabia que o coração de Aldora estava ferido por todas as coisas das quais a vida lhe privou, mas sabia que o coração dela não era impermeável. Ele foi criado para não esconder seus sentimentos, diferente de Aldora, que fazia um esforço enorme para não demonstrar os dela em hipótese alguma. Mas o príncipe sabia que o coração de Aldora poderia ser tocado.

...

A tarde se passou, e a noite começava a se aproximar na cidade de Asgard. Aldora se afastou de Tristan e Iana deixando-os em uma casa onde uma senhora muito gentil se ofereceu para hospedá-los naquela noite. Alice permaneceu atada no mesmo lugar, apenas a espera de sua dona. Aldora procurou por seus amigos durante o dia inteiro sem sucesso. Provavelmente eles teriam conseguido passar pelos portões de Asgard sem problemas há algum tempo antes dela.
Quando a noite caiu a moça se aproximou da casa onde havia deixado o príncipe e a sua pequena protegida, mas ao vê-los pela janela, sentados a mesa sob a luz de um lampião, cheios de sorrisos, enquanto se alimentavam, ela não conseguiu se ver encaixada aquela cena. Aldora via aquilo tudo como um sonho, um conto de fadas. E ela não acreditava em contos de fadas. Aldora admirou os olhos e a face de Tristan sob aquela luz, e ambos pareciam brilhar.
-Você não pertence a esse lugar... –ela disse pra si mesma-
Aldora fechou os olhos tentando se imaginar diante deles. Uma cena surgiu em sua mente, lhe fazendo se ver naquela cena. Ela entraria naquele cômodo, encontrando Tristan diante de Iana. Ambos sorririam... Iana sairia da mesa, e pularia em seus braços, para lhe dar um amistoso e carinhoso abraço. Depois ela voltaria seus olhos para Tristan, e este se levantaria indo em sua direção com um belo sorriso aberto. Ele tocaria sua face carinhosamente e então Aldora sorriria. Tristan ficaria ainda mais próximo, e então olhando em seus olhos ele a beijaria...
Aldora abriu os olhos novamente vendo uma moça de cabelos loiros se aproximando da mesa e servindo algo a Tristan. Ela sorriu gentilmente, e era muito bonita e feminina como uma moça deveria ser. Tristan sorriu agradecido, então Aldora sacudiu a cabeça para se livrar daqueles pensamentos tolos sem fundamento. Ela não conseguiu entrar naquela casa, então deu meia volta e foi conversar com a única que ela pensava lhe entender. Sua égua Alice...
No meio da escuridão daquela vila iluminada apenas por fracas tochas de fogo, Aldora se sentiu mais segura. Ela acariciou os pelos da égua, enquanto sorria observando a bela lua brilhante no topo do céu. Então disse:
-Estamos acostumadas com isso minha cara! A solidão nos cai bem... É nosso lar afinal! –ela olhou para Alice que sacudiu a cabeça e relinchou como se não concordasse-
Aldora franziu a testa, e voltou a olhar para a lua. Depois ela sorriu tentando convencer a si mesma que estava melhor longe de todos, mas a realidade não a deixou fingir mais. Aldora se sentiu triste por não poder dividir da mesma felicidade que Tristan e Iana dividiam.
-Talvez eu tenha me tornado dura demais... –ela admitiu- Fria demais... Talvez eu esteja seca por dentro... Sem nenhum sentimento bom...
Ela baixou os olhos em direção a água do cocho onde ela estava sentada, e se viu refletida ali. Por alguns segundos ela se observou com a face séria, depois levou os dedos a água e mexeu na mesma como se tentasse apagar seu rosto. Aldora permaneceu ali por um longo tempo, sozinha com seus pensamentos e sentimentos melancólicos...

Notas finais
-Caso não tenha ficado claro, na frase em que Tristan diz que: Não faz diferença pra mim, ele se referia ao fato de não fazer diferença pra ele se Aldora fosse uma princesa, ou uma ladra. Pois ele gosta dela por aquilo que ela é... Ou seja, o príncipe admite estar apaixonado por ela...