Guardian
3 Capítulo 3
Paramos para dar água aos cavalos na margem de um rio. Enquanto amarrava Alice a um tronco de uma árvore, Iana se aproximou. Ela sorriu e perguntou:
-Como ela se chama?
-Alice. –respondi- Mas não deve ficar muito perto dela. Ela não gosta de ser tocada.
-Como voce? –ela me encarou docemente-
-O que quer dizer? –franzi a testa-
-Ela também não confia em ninguém. Mas ela gosta de você... –ela sorriu- Conhece seu coração!
Iana aproximou sua pequena mão de uma das patas de Alice, temi que a indomável égua se revoltasse com o toque e ferisse a menina, mas Alice apenas piscou olhando na direção de Iana e ficou exatamente como estava se deixando ser tocada pela primeira vez por outra pessoa que não fosse eu. Fiquei pasma observando a cena, mas não disse nada, até que Iana se afastou, sorriu me olhando e disse:
-Ela vai tirar voce de uma encrenca!
Ela se virou, tocou minha mão, e saiu saltitando enquanto cantarolava uma cantiga de roda. Virei-me e observei Iana feliz como uma menina deveria ser. Depois olhei para Alice e disse:
-O que ouve com voce?
...
Novamente tomamos nosso rumo na estrada, que durou quatro longos dias. Paramos em um bosque para acampar naquela noite. Iana já se sentia em casa entre aqueles homens rudes, e sem educação. Pelas roupas que ela vestia, era obvio que pertencia a uma família rica, mas se portava como uma menina simples e dócil. Tentei não me apegar ao seu jeito meigo, e inocente, pois ela nutria uma esperança nos olhos, que às vezes me incomodava,
Justo eu que havia deixado de acreditar em coisas como uma força maior regendo o universo, ou em sentimentos melosos como o amor. Tive uma infância difícil, e aprendi as coisas na força. Não tinha espaço em meu coração para sentimentalismos baratos.
Isso apenas acalmava corações como o de Iana. Uma menina pura, e sem maldade, que nada sabia da vida como ela realmente era. A mim restava apenas a razão, e os pés bem firmes no chão.
...
Durante a tarde, do dia seguinte. Deixei Iana no acampamento junto com Leonard e os outros, enquanto Pietro, Joseph e eu saíamos para caçar servos para o jantar. Afastei-me dos dois, para conseguir chegar mais perto da área onde os servos costumavam ficar sem chamar atenção, e espantá-los.
Segui por uma pequena colina que me levaria ao outro lado do bosque. Acabei perdendo a noção da distancia que caminhei. Foi quando ouvi relinchos de um cavalo vindos do outro lado. Aproximei-me pelo alto da colina devagar, e avistei um pequeno grupo de saqueadores que aprisionavam um rapaz de cabelos negros e longos. Eles seguravam seu cavalo, enquanto batiam no animal com um relho com pontas de aço.
Aproximei-me devagar cuidando para não chamar atenção para mim, e me escondi atrás de uma arvore. Um dos homens colocou o rapaz de joelhos no chão e apontou sua própria espada contra seu pescoço. Apenas observei, enquanto o outro sujeito insistia em bater no couro do animal. Aquilo fez meu sangue subir para a cabeça, pensei em ir embora e não me meter naquela briga que não era minha, mas aquilo me tirou do sério.
Empunhei meu arco e apontei uma das flechas na mira da mão do homem que judiava do cavalo. Deixei que a corda do arco se soltasse lançando a flecha que atravessou a mão do sujeito certeiramente no meio, o fazendo soltar os relhos. Nos susto o cavalo acabou fugindo.
O homem gritou de dor, enquanto os outros procuravam de onde vinha a flecha. Escondi-me, e aguardei. Quando estavam novamente distraídos, lancei outra flecha atingindo o segundo homem, na perna. O terceiro agarrou o rapaz pelo pescoço, e o usou como escudo humano enquanto me procurava.
-Quem está ai? –gritou ele desnorteado- Vamos apareça...
Apontei o arco na direção dele e desci o pequeno planalto bem devagar dizendo:
-Solte-o...
-Uma garota? –ele franziu a testa rindo-
-Tenho sua cabeça bem na minha mira. E acredite, dessa distancia não tem como errar.
-Isso não é da sua conta. Este magrelo estava roubando nosso cavalo.
-Mentira. –disse o rapaz-
-Cale-se ou corto sua garganta. –gritou o homem-
-Vou te dar três segundos para deixá-lo ir. –continuei me aproximando-
-Não pode me atingir sem acertar no rapaz...
-Vai pagar pra ver? –puxei um pouco mais a corda do arco-
Vendo o belo estrago que causei em seus amigos, o homem decidiu que seria melhor fazer o que eu disse. Ele empurrou o moreno fazendo-o cair de bruços no chão. Ele soltou a espada e correu na direção oposta junto com seus amigos.
Andei até o local onde os ladrões deixaram sua espada, a apanhei e levei ate o rapaz que agora se levantava. Estendi a mesma a ele e disse:
-Deveria cuidar melhor disso...
Assim que ele a segurou em mãos, me virei e voltei a subir a colina. Ele se levantou e me chamou:
-Espere... –me virei- Permita que eu lhe agradeça devidamente...
-Não é necessário! Não fiz isso por voce, fiz pelo cavalo.
-Pelo cavalo? –ele franziu a testa-
Sorri e continuei meu caminho. Ele insistiu e me seguiu.
-Espere pelo menos me diga seu nome.
-Não é da sua conta...
-Sabe quem eu sou? Posso retribuir o favor que me prestou com uma boa quantia...
-Voce sabe quem eu sou? –me virei e olhei pra ele do topo da colina-
-Não. –ele sacudiu a cabeça-
-Então estamos quites! Adeus...
Comecei a seguir meu caminho. Dei alguns passos, quando dei por mim, estava ainda sendo seguida por aquele estranho. Parei, revirei os olhos e então perguntei:
-Por que esta me seguindo?
-Meu cavalo fugiu. Não tenho idéia de onde estou... Pode me conduzir a sua aldeia e me ajudar a encontrar outro cavalo?
-Acabei de salvar sua vida, e já está me pedindo outro favor?
-Me leve até a aldeia mais próxima. Já disse que posso recompensá-la...
-Não estou indo para uma aldeia. Não vai querer me seguir para onde estou indo...
-Por favor... –ele insistiu-
-Não. Não insista... Vá embora... –me virei e segui meu caminho de volta ate o acampamento-
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