Notas iniciais
Segundo capítulo do dia. Se eu conseguir escrever, sai mais um hoje, mas sem promessas.

POV Hannah

Andava com passos duros na direção da arena. Minha manhã tinha sido horrível. Maia e Jacob já tinham saído em suas respectivas missões enquanto eu ficava presa aqui dentro. A mesa do café estava vazia e eu fiz tudo que podia para clarear a cabeça. Por que a Ayla tinha me prendido aqui? Eu precisava ajudar!

Mas não ia ter discussão. Não podia fazer nada. Ela achava que me prendendo aqui estava me fazendo um favor me “salvando” de mim mesma. Mas ela não entendia que eu não podia ficar sozinha na central por tanto tempo sem distrações. Ia me deixar louca. Não ia demorar muito até que eu começasse a ver fantasmas.

Então, eu me ocupava como podia, mas não era como se as opções fossem infinitas. Por isso eu focava em tentar bater o recorde da corrida de obstáculos, zerar o simulador e lutar contra qualquer pessoa louca o suficiente para me desafiar. Mas ainda assim não era o bastante.

Destrocei alguns bonecos de treino que estavam lá para as crianças antes de sair e deixar arrumarem a arena. Podia sentir os olhares em mim enquanto atravessava o pátio, mas não era nada com que eu já não tivesse me acostumado. Era de se esperar que depois de alguns anos se acostumassem comigo, mas pelo visto não era o caso.

Quando fui passar pelo começo da corrida de obstáculos, pronta para me trancar no quarto de novo, senti alguém segurando meu braço. Me virei e vi Mateo olhando pra mim, seu irmão não muito atrás.

— Hannah. Oi.- Ele sorriu pra mim. Carlos só acenou.- Ficamos sabendo que você vai ficar na central por um tempo. E bom, como seus amigos estão ocupados, você pode ficar com a gente se quiser.

Sorri em resposta. Devia saber que o não ia demorar até o Mateo vir me procurar. Ele sempre sabia quando eu precisava de ajuda.

— Claro.

Mesmo com a proposta dele, voltei a me trancar no quarto ficando lá até o dia seguinte enquanto brincava com a minha magia. Adormeci sem perceber, e acordei com alguém batendo na minha porta.

Os irmãos Diaz me levaram pessoalmente até o café da manhã, não me deixando ficar trancada sozinha mais um dia. Eu entendia porque o Mateo fazia tudo isso, porque ele tinha tanto medo de me deixar trancada e isolada do resto. Eu já tinha feito isso antes e ele tinha me dado espaço. Não tinha dado muito certo e dava pra ver que ele não queria repetir o erro. Mateo saiu rápido para fazer suas obrigações de monitor e me deixou com o Carlos. Não demorou pra ele começar a falar.

— Olha, Winters então… Não sei o que rola entre você e o meu irmão, mas ele parece gostar de você e por causa disso vamos ter que ficar um tempo juntos. Então eu tava pensando… A gente devia tentar se conhecer melhor, não acha?

— Pode ser.- respondi dando ombros. Era verdade que eu e o Mateo éramos próximos, mas com o Carlos eu quase não falava. Mas bem, ele estava certo, enquanto eu estivesse de castigo na central íamos ficar muito juntos, então era melhor a gente se conhecer logo de uma vez.

Surpreendentemente, eu me dei bem com o garoto de Dionísio. Nós ficamos andando por um tempo antes de sentarmos em uma escada em algum lugar. A conversa fluia muito fácil, e em pouco tempo ele já tinha virado meu amigo.

Conversamos sobre tudo e nada, só nos conhecendo melhor com as coisas mais simples, como cores favoritas, gostos, medos e histórias engraçadas. Já estávamos tão confortáveis um com o outro que parecia que nos conhecíamos há anos. O que em parte era verdade.

— É sério que você fez isso mesmo?- Ele assentiu enquanto eu ria ainda mais.- Carlos!

— Eu sou filho de Hermes, o que você esperava?- Quando paramos de rir ele fez mais uma pergunta.- Então, o que você tem com o meu irmão?

— O Mateo, como assim?

— Não é dele que eu to falando e você sabe disso.

Fiquei quieta por um tempo. O Bryan. Um assunto que eu tentava evitar desde que tinha voltado. Podia só dar uma resposta vaga e mudar de assunto que o Carlos ia deixar. Mas não era o que eu queria fazer. Ele tinha sido uma das amizades mais fáceis que eu já tinha feito. A gente simplesmente se entendia. E eu queria contar pra ele.

— Com o Bryan tá… complicado.- comecei. Ele assentiu me encorajando. Mordi o lábio antes de continuar.- A gente acabou se aproximando bastante nos túneis, com tudo que a gente passou era impossível acontecer qualquer outra coisa mas…

— Hannah, você parece realmente gostar da companhia dele. Porque você se afastou?

— Eu só não acho que consigo Carlos. Eu quero ficar perto dele, mas eu não sei se consigo perder de novo. Eu tenho medo de que vá dar errado.- desabafei. Os medos ficaram junto comigo desde que tínhamos saído da antiga base. As memórias despertas lá não iam embora tão cedo.

— E quem disse que ele vai embora? Hannah eu conheço o meu irmão, não acho que ele seria capaz disso. Mas toma o seu tempo. Faz só o que quiser fazer.

Guardei as palavras dele e prometi pensar antes de mudar de assunto. Mudamos para outro tipo de conversa enquanto eu pensava no que tinha acabado de acontecer. Nunca ia imaginar que a pessoa que me ajudaria com os meus dramas amorosos seria o Carlos.

...

Depois do almoço eu fui sair para o campo da central. Só tinha uma pessoa lá, que brincava com uma bola sozinha no meio do campo. Erik andava de um lado para o outro matando tempo enquanto a irmã estava ocupada. Acenei pra ele e ele correu na minha direção.

— Oi Erik! Como vai?- perguntei enquanto abaixava para lhe dar um abraço.

— Hannah! Que bom que você chegou. Já tava ficando chato. O que a gente pode fazer?

— Bom, eu fiquei sabendo que alguém começou a ter aulas de magia. Quer me mostrar alguma coisa?

Ele assentiu animado enquanto se preparava. Ele fechou os olhos e franziu a testa em concentração e murmurou algumas palavras. Sua bola começou a flutuar. Quando ele abriu os olhos e viu o que tinha feito, começou a pular de animação e o feitiço se desfez.

— Viu Hannah, você viu?

— Sim, Erik você foi muito bem. Agora quer ver o que eu consigo fazer?

Ele concordou animado. Fechei os olhos e estendi minha mão esquerda. Depois de um tempo um fio de água chegou, não muito grande mas o suficiente. Comecei a brincar com ele, mudando sua forma, a expressão de espanto do garoto fazendo tudo valer a pena. Deixei a água descansar em uma esfera flutuando sobre minha mão enquanto agachava.

Coloquei a minha mão livre sobre a terra e esperei, sentindo tudo perto da área onde minha mão estava. Pouco a pouco, começou a crescer uma flor lá. Um lírio que irradiava um brilho meio mágico enquanto a magia fazia efeito. Fiz com que a água fizesse um aro em volta da flor antes de soltá-la. Erik olhava maravilhado com o que tinha feito. Dei um sorriso de lado.

Ele continuou mexendo na flor antes de se cansar e voltar a correr pelo gramado. Ele era tão feliz, como se não tivesse nenhuma preocupação nesse mundo. E ele não tinha mesmo, o garoto de olhos claros vivia rodeado de pessoas para protegê-lo e confiava nelas com a vida. Parecido com… comigo. Eu era, ou devia ter sido pelo menos, exatamente como ele quando mais nova. Mas tinha sido forçada a crescer cedo demais.

Olhando ele lá, prometi que ia cuidar para que não acontecesse com ele o que aconteceu comigo. Mesmo se a Giulia não estivesse lá para cuidar do irmão, eu não o deixaria ficar sozinho. Não como eu fiquei.

Brinquei com ele mais um tempo antes de voltar para a central. O sol lentamente se aproximava do horizonte, ainda não o bastante pra mudar a cor do céu. Encontrei com Mateo no pátio central.

— Hannah, oi. Acabei de acabar tudo que tinha pra fazer, quer dar uma volta?

Assenti e ele começou a me levar a algum lugar. Fez perguntas sobre o meu dia que eu respondi com respostas simples. Ficamos a maior parte do tempo em silêncio, mas era confortável. Estar na presença um do outro valia mais que qualquer palavra.

Logo percebi para onde ele me levava. Passamos pelo arco que levava a villa e cruzamos as ruas que eu geralmente andava com meus amigos, mas não paramos lá. Invés disso, continuamos seguindo na direção mais a oeste, perto da faculdade onde todos os guardiões recém-saídos da central ficavam. Vários deles estavam nas ruas conversando aproveitando o fim de tarde, e nos cumprimentavam enquanto a gente passava.

Diferentemente da central atualmente, onde eu evitava ou preferia ficar distante da maior parte das pessoas, aqui todo mundo me conhecia, desde o começo. A maior parte deles tinha minha idade quando eu tinha chegado e lembravam da criança que eu era lá.

Sendo muito nova, eu corria pelos corredores e fazia o que queria o dia inteiro, e muitos deles tinham me ensinado grande parte do que eu sabia hoje. Eles tinham sido minha primeira família.

— Ei! Hannah, Mateo!- uma voz nos chamou de uma casa próxima. Sorri quando vi quem era.- Não tem tempo pra cumprimentar uma velha amiga?

— Oi Sarai. Tudo bem?- fui perto dela. Ela continuava com o mesmo estilo de antes, o que quando era mais nova disse que era um estilo “de pirata”. Ainda era uma categoria infantil, mas descrevia bem ela. Ela devia ter sido um pouco mais velha que eu hoje quando eu tinha chegado na central tantos anos atrás.

— Na boa. Ainda sabe lutar?

— Sabe que sim. Você, por outro lado, aposto que está enferrujada.- provoquei.

— Respeito pirralha. Algum dia desses eu apareço lá e a gente vê.

— Pode vir.- Sorri para minha antiga professora de esgrima. Ela tinha me ensinado tudo que eu sabia, e mesmo estando sem prática sabia que ela podia acabar comigo fácil. Não que eu fosse admitir.

Nos despedimos e voltamos a andar, parando em um banco na pracinha que ficava no meio da área de casas, olhando o sol pintar o céu de vermelho. Finalmente pude pôr em palavras a dúvida que tinha surgido com o começo da nossa visita.

— Mateo, porque você não saiu da central? Você podia estar morando aqui com eles.

— Pelo mesmo motivo que você levanta e luta todo dia Hannah. Eu fiz uma promessa a ela de que cuidaria de você. E vou cumpri-la antes de qualquer outra coisa.

Meus olhos marejaram enquanto as memórias inevitavelmente tomavam minha mente. Perguntei com uma voz trêmula:

— Você sente falta dela?

— Todos os dias.- Ele me abraçou enquanto eu chorava, e mesmo com a voz tranquila sabia que ele chorava também.

— Como vocẽ consegue? Como lida com isso todos os dias com um sorriso no rosto?- Eu tinha que saber a resposta. Mesmo depois de tanto tempo eu ainda sofria e preferia fugir de tudo do que encarar. E toda vez que encarava eu acabava quebrada. Ele, no entanto, sempre parecia no controle. Precisava saber como ele fazia isso, se sentia a mesma coisa que eu.

— Hannah, eu só faço o que eu já tinha que fazer. Eu continuo seguindo em frente, fazendo meu trabalho, esperando. Por que eu sei que um dia, vou encontrar com ela nas portas do Elísio, mas por enquanto eu tenho que continuar, cumprir a minha promessa. Eu a amava, ainda a amo, mas eu sei que ela quer que nós sejamos felizes.

— É difícil.- sussurrei, porque não conseguia achar mais voz que isso.

— Eu sei. Sempre vai ser difícil. Mas talvez menos do que é agora. E nós temos uns aos outros, e todos que a conheciam para nos apoiar. Vai dar tudo certo.

Essa foi a primeira vez em muito tempo que eu acreditava realmente naquelas últimas palavras.

Notas finais
Bom, é isso. Como vocês estão? Prometo não atrasar mais tanto ok?
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.