Guardiões: O Retorno Das Trevas
27 Os Quatro Grandes
Notas iniciais
Caos. Essa palavra descrevia bem as ruas da cidade que, porém, estavam vazias.
É difícil para Merida, explicar. Ela via vários vultos negros, como sombras agitadas, correndo pelas ruas e causando um som de gritaria e agitação. Como se a rua estivesse cheia de pessoas. Mas estava tão sombria e vazia que assustava.
Ela não se intimidou. Depois do que Breu a fez passar poucas coisas a assustavam agora. Se ela tinha medo? Óbvio. Mas coragem não é a ausência dele, é reconhece-lo e saber controla-lo.
É por isso que ela acreditava que podia deter Breu, e Jack e Soluço afirmaram isso a ela com toda a certeza que tinham. Mesmo assim a ideia era um tanto... aterrorizante.
A cidade era estranha para Merida, mesmo tendo passado tanto tempo naquele mundo novo. Era estranho ver aqueles compridos objetos de metal pela calçada que iluminavam as ruas ao invés de tochas, era estranho ver aquela estranha pavimentação que substituía o chão de paralelepípedo que Merida caminhava pelo reino dos pais. Porém o mais estranho certamente que era o vento gélido e a escuridão daquele lugar. Que era anormal até para a época.
Os Quatro Guardiões se alinharam no meio da rua. Esperando o medo e o perigo certo que se aproximava. Esperando a escuridão crescer e encurrala-los, até que os sacrifícios tornem-se a única esperança. O vento sombrio passa novamente.
Angus ficou inquieto, Merida o acalmou.
- Calma Angus...
Ela escuta Banguela fazer um som amedrontado. Pelo canto do olho, ela enxerga Soluço fazer carinho em sua cabeça.
- Relaxa aí, amigão. A gente tá junto nessa, tá bem?
Banguela faz que sim com a cabeça.
Então Soluço vira o rosto para ela.
- Você está bem?
- Sim — ela mente.
- Vai ficar tudo bem. — ele diz de forma tão gentil e esperançosa que Merida queria acreditar nele — Vamos vencê-lo!
Ela, então, tenta se prender a estas palavras.
A espada dela estava com Angus, presa à uma cela improvisada que ela pôs por alguns minutos. O cavalo parecia-se com ela. Livre. Bravo. Angus odiava celas tanto quanto ela odiava jaulas.
Ela tira a espada da bainha e estende para Soluço.
- Pegue — ela diz.
- Não precisa...
- Precisa sim. Se algo acontecer, você deve ficar protegido!
- Merida, eu tenho Banguela. Esqueceu?
Merida concordava com ele, é claro. Banguela era um incrível arma de fogo e também um amigo protetor. Mas uma parte dela queria proteger Soluço com todas as forças que podia. Mesmo que a outra soubesse que ela sabia se virar...
- Por favor — ela insiste — me deixaria muito mais aliviada!
Soluço aceita a arma relutante. Em uma das conversas dos dois ele havia dito que não era especialista em lutas corpo a corpo, muito menos com espadas. Na hora ela ficou chocada com a notícia, mas agora ela estava preocupada.
- Então... — diz Soluço ficando vermelho — não deveríamos ter um beijo de despedida já que vamos enfrentar o perigo inimaginável?
Ela sente as bochechas queimarem. Mas não demonstraria a vergonha que sentia. Ela ajeitou a postura e olhou para ele com um olhar divertido, mascarando seu rosto corado.
- Volte vivo, Espirro, então veremos. — ela diz.
Soluço dá de ombros e suspira. Era a melhor proposta que teria se depender dela. Merida abaixa a cabeça e dá um risinho divertido.
Jack e Rapunzel tinham uma conversa tensa ao lado dela. e eles não falavam nada. Com o canto do olho Merida pôde vê-los se encarando, como se conversassem por meio de olhares preocupados e significativos. A expressão dos dois era como de alguém que estava prestes e ver a esposa ou marido ser morto num duelo.
Merida se perguntava quando eles iriam admitir que gostavam um do outro.
Então a risada do Breu é escutada. E ecoa pelas ruas vazias e ao mesmo tempo agitadas naquela cidade moderna. Naquele momento só a seca e sinistra voz de Breu era escutada, e as sombras se agitaram quando ele retornou a falar:
- Os Quatro Grandes — ele diz sarcasticamente.
- Quatro Grandes? — pergunta Rapunzel confusa.
- Achei que o título cairia bem para quando vocês forem mortos...
- Agradecemos pelo elogio, Breu — diz Jack no mesmo tom sarcástico, só que com um pouco mais de brincadeira em seu sorriso travesso — até em sua suposta "vitória" você reconhece que somos mesmo melhores.
Isso faz as sombras ficarem mais agitadas, seus gritos sinistros tornam-se mais altos. Parece que até mesmo elas sabiam que Jack havia falado besteira.
As sombras do chão se materializam na frente dos Guardiões, formando a temerosa imagem do Bicho Papão. Breu sorria maleficamente, mas seu olhar possuía um ódio inimaginável.
- Vocês estão mesmo dispostos a morrer. — ele comenta — Mesmo agora que todas as suas crianças perderam a crença.
- Então que tal mudarmos isso? — pergunta Jack. Breu franze o cenho, sem entender. Então Jack Frost bate com seu cajado no chão sombrio das ruas.
De imediato nada ocorreu. Mas Merida começou a ouvir uma ventania. Como se um vento frio soprasse em seus ouvidos. Mas era um frio agradável, do tipo que lembra dias chuvosos com chocolate quente e um dia de neve divertido.
Depois os flocos começaram a cair, seguidos da geada e do vento. Merida abre um sorriso. Aquilo sim era um progresso.
Mas Breu não deixou-se imaginar, mesmo com suas sombras tendo se afastado um pouco. Suas expressões continuavam duras e sombrias.
- Jura? — ele pergunta — Vai precisar de muito mais para me vencer, Frost.
- Eu sei — Jack joga sua bola de neve para o alto e a pega, repetindo o gesto algumas vezes — mas já é um começo, não é?
Breu rosna.
- Não sairão vivos de meu desafio.
- E que desafio é esse? — Merida pergunta, autoritária.
Breu vira os olhos para ela, numa paciência notável. Ela não se deixa intimidar pelos sinistros olhos dourados e o encara com coragem.
- Vocês vão me enfrentar. Chega de jogos. O assunto é pessoal.
Ele disse aquilo de forma tão amarga que Merida se perguntou se realmente não havia algo entre ele e a feiticeira estranha. Será que eles eram casados como Jack e Soluço disseram? Ou era algum tipo de romance escondido pelo orgulho? Merida jamais saberia.
Merida puxa uma flecha e prepara o arco. Jack segura o cajado com mais força. Rapunzel suspende sua frigideira com uma mão e se segura em seu Dragão Pascal com a outra. Soluço tinha a espada na bainha e se agarrou a Banguela com um olhar determinado.
- Pode mandar seu desafio, Breu — diz Rapunzel num tom valente que Merida nunca a ouviu dizer — estamos prontos.
O sorriso de Breu era tão satisfeito que Merida quis que uma flecha fosse o bastante para derrota-lo. Mas o plano não era esse. Norte foi bem específico: eles deveriam segurar Breu enquanto podiam, para que ele, Mavis e Coelhão restaurassem a fé das crianças. Era ISSO que os salvaria.
Mas o instinto de guerreira de Merida queria fazer muito mais que distraí-lo.
Então Breu começa a crescer. Não fica como um gigante... Mas sua altura chega a 2 metros de altura e isso já era bastante coisa. As sombras começaram a girar em volta dele, fundindo-se. Seus olhos dourados brilharam de uma forma assustadora e a imagem dele começou a tremeluzir e mudar, tornando-se um medo pior que outro.
A primeira forma que Breu tomou foi de um enorme dragão cinza e bruto. Soluço abafou o grito e Banguela fez um som de temor com sua garganta de dragão. Aquilo certamente era do passado deles.
Depois ele tomou a imagem de fogo. Sim, fogo. Tornou-se em um homem feito de chamas vivas e caóticas. Com o canto do olho Merida pôde ver Jack engolir em seco. Sim, claro que o fogo o incomodava. Era instinto. E talvez, quem sabe, o fogo realmente pudesse matar Jack Frost.
Merida desconfiou que ele tomasse a forma de Gothel para assustar Rapunzel, mas Breu não o fez. Ela deduziu que fosse doloroso. Então ele tomou a pior das formas.
Breu tremeluziu pela terceira vez. Transformando-se em um enorme urso marrom-escuro, cujo pelo quase chegava a ser negro. Os olhos não era mais escuros e profundos como Merida se lembrava. Ficaram dourados e assustadores como os de Breu, tornando-o pior do que já era.
Merida quase caiu do cavalo. Pois estava encarranco o pior pesadelo que podia, e pela segunda vez! Aquele urso era Mórdur.
- Esse é meu desafio — diz Breu tremeluzindo em sua forma normal e depois repetindo todos os outros pesadelos que havia se transformado — e vocês, Guardiões? Estão mesmo prontos para encará-lo?
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