Guardiões: O Retorno Das Trevas
8 O Encanto da Cura
Notas iniciais
Perdidos. Palavra que definia perfeitamente o estado dos Guardiões naquele momento! Estavam numa floresta onde o tal Jack Frost disse ser “em algum lugar do Canadá”. Como se Merida soubesse o que era “Canadá”.
Merida não havia gostado muito do passeio de dragão em meio à fumaça e chamas. Aliás, havia MUITO do que ela não havia gostado desde que deixara sua casa.
Todos estavam quietos. Não se conheciam e pelo jeito estavam preocupados e aflitos demais para começar uma apresentação formal.
O único som que se ouvia era do ronco do dragão!
Merida sentia falta dos irmãos e do pai. E principalmente da mãe. Mesmo com os problemas enfrentados no ano passado (bom, no caso atual foi há muitos anos!).
A jovem toca de leve na queimadura que fez no braço durante o incêndio. Doía muito. E o fogo conseguiu arrancar a manga de seu vestido verde.
- O que vamos fazer agora? – pergunta o garoto do dragão, atraindo a atenção de todos.
- Como assim? – pergunta Jack Frost.
- Nós vamos ficar aqui? Sem fazer nada?
Jack não responde de imediato. Ele dá um longo suspiro e diz:
- Olha, Espirro...
- Soluço.
- É! Olha, Soluço, se tiver alguma sugestão do que devemos fazer... Por favor a compartilhe!
Soluço pensa por um momento.
- Vamos atrás da adaga antes do Breu! Que tal?
Merida não deixa de se intrometer no assunto:
- Ir atrás de uma adaga tão poderosa que pode condenar o mundo e tentar evitar que um IMORTAL, muito mais poderoso que nós, a consiga?
Eles olham para Merida, um pouco perplexos. Mas Jack concorda com ela.
A menina loira levanta da pedra em que estava sentada.
- E nós vamos ficar aqui? Quietos e sentados em pedras até que algo aconteça?
Ninguém responde.
- Eu concordo com o Soluço – a loira finaliza.
Soluço exibe um sorriso satisfeito.
- Então como os dois vão atrás da adaga? Não sabemos onde está!
Os dois ficam com expressões pensativas, até que Soluço aparenta ter uma ideia.
- Banguela! – ele diz.
- Quê? – todos perguntam em uníssono.
- Meu dragão. Ele tem um olfato e uma audição incríveis. Ainda mais para catalisar coisas poderosas.
Todos pensam um momento. Então Jack dá de ombros.
- Tudo bem, se vocês querem arriscar a mortalidade de vocês... Mas vamos pela manhã. A viagem com a luz do sol é um pouquinho mais segura e já está escurecendo!
- Um pouquinho mais segura... – murmura Merida para si mesma – por que não acho isso tranquilizador?
- Ei, ruiva! – Jack chama a atenção dela.
- Sim?
- Sabe usar esse troço aí?
Ela nota que ele apontava para o arco-e-flecha.
- Perfeitamente.
- Mostre!
Merida revira os olhos.
- Tem algum alvo? – pergunta.
Jack pensa um momento. Ele pega o cajado e desenha um círculo de gelo numa árvore.
- Serve?
Merida assente.
Ela puxa uma flecha e mira com seu arco. Visualizando o ponto azul na árvore como se estivesse bem na sua frente. Merida posiciona a flecha e solta a corda com convicção.
A flecha se prende perfeitamente no meio do círculo.
- Uau! – a loira sussurra.
- Você tem um talento nato – diz Soluço. O comentário dele faz com que ela enrubesça. Por quê?
- Soluço já nos mostrou o talento com que dirige um dragão cuspidor de fogo – diz Jack – e você Rapunzel? Sabe usar essa frigideira (já vi)... Sabe mais alguma coisa?
Rapunzel olha para Jack, surpresa. Estava um tanto assustada.
- Posso mostrar o que posso fazer... Mas vocês devem JURAR não contar para NINGUÉM o que virem.
Todos concordam.
Então ela faz uma pergunta esquisita:
- Alguém tem algum machucado?
Merida levanta o braço vermelho da queimadura. E dói quando ela o faz.
Rapunzel se aproxima, trazendo uma longa mecha de seus cabelos suspendida. Ela enrola a mecha pelo braço de Merida, enquanto a mesma pensa que diabos ela faria com aquilo. Merida começou a achar que ela era maluca.
Então Rapunzel faz realmente algo maluco. Começa a cantar. Uma música calma e melodiosa. Tão confortante que Merida achou que Rapunzel queria consolar a saudade que ela tinha de casa ou por a ruiva para dormir:
Brilha, linda flor
Teu poder venceu
Trás de volta já
o que uma vez foi meu
Uma vez foi meu
O cabelo de Rapunzel começou a brilhar numa luz dourada e forte, que se espalhava de seu coro cabeludo até o final dos fios. Fazia aquele escuro crepúsculo parecer uma cidade iluminada ou o nascer do sol. Todos ficaram boquiabertos com a visão!
Cura o que se feriu
Salva o que se perdeu
Trás de volta já
o que uma vez foi meu
Uma vez foi meu
Merida sentiu a dor se esvair. Tornando-se em pouco tempo apenas uma lembrança ruim. O cabelo longo e brilhante de Rapunzel voltou ao loiro habitual.
A jovem começou a tirar o cabelo do braço de Merida. E ao fazê-lo a vermelhidão da queimadura havia desaparecido assim como a dor. Estava perfeitamente normal!
Todos estavam de queixo caído e ninguém conseguiu emitir um som sequer.
— Minha... Queimadura... – gaguejou Merida.
Rapunzel deu um sorriso tímido.
— Posso curar qualquer coisa! Um arranhão e até mesmo garantir a juventude...
— Curar velhice? – pergunta Jack – mas isso não garante...
— Imortalidade – responde Rapunzel – por isso que eu nunca saí da torre. Mamãe dizia que podem querer cortar meu cabelo, mas se cortarem o poder acaba!
— Quer dizer que você é meio que imortal – diz Jack, um pouco animado – como eu.
Rapunzel sorri, também animada. Merida cheirava um clima estranho no ar.
— Espera – diz Soluço – você pode curar sua juventude também?
— Sim. É meio que automático! Eu demoro um pouco a envelhecer...
— Isso é bem legal!
— Bom, por falar em mortalidade – diz Merida – precisamos comer! Ao contrário de você, Jack, nós podemos morrer se não o fizermos.
— Ah – Jack fica um pouco sem graça – não tenho comida aqui.
— Eu cuido disso. Vou caçar, e vocês podem ficar aí...
— Eu vou com você! – diz Soluço.
— E o dragão? – comenta Rapunzel.
— Acredite, ele só vai acordar amanhã de manhã.
Merida pega a flecha que havia acertado na árvore e põe na aljava. Ela e Soluço se afastam, adentrando na floresta.
Estavam em silêncio, em busca de algum cervo ou animal que estivesse “dando sopa” por aí. Merida estava atenta e concentrada.
Ela, particularmente, gostava de usar o arco-e-flecha somente para diversão. Era como se aquele objeto definisse sua liberdade. Mas no caso atual, era necessário que a jovem usasse isso para sua sobrevivência.
— Então... você veio da Escócia? – Soluço pergunta.
Merida revira os olhos.
— Sim.
— Eu moro lá perto... Morava. Moraria... Porque, eu venho de uns séculos antes e tudo o mais.
Aquele garoto era definitivamente estranho. Bom, a queimadura gigante do braço de Merida foi curada por cabelos. Estranhice era o que não faltava.
Merida continuou concentrada.
- Você é muito bonita sabia?
Isso tira a concentração dela. Merida vira de costas para observar o garoto, perplexa.
- Olha... – ela começou a falar. Mas ouviu um movimento por entre as folhas. Merida mira a flecha de onde o som vinha.
O movimento retorna. Merida abaixou-se e apertou os olhos para que visse melhor. Assim que as folhas voltam a se mover, ela dispara a flecha.
Um cervo adulto cai morto, atravessando os arbustos. Uma flecha estava atravessada em seu pescoço.
- Uau! – Soluço exclamou, observando o cervo.
Merida tira a flecha do animal e a guarda na aljava.
- É bem simples – ela comenta – simples como lançar facas ou lutar com uma espada, quem sabe.
- Eu não sei lutar – Soluço admite.
- Não sabe lutar?
O viking nega com a cabeça.
- Não.
- Não sabe usar nenhuma arma?
- Você pode contar um dragão como uma. Mas eu o considero meu melhor amigo... Não uma arma.
Merida franze o cenho. Era de se esperar que vikings, seus “ancestrais vizinhos”, fossem bravos guerreiros e corajosos! Nunca ouviu falar num viking que não soubesse lutar.
- Se quer enfrentar aquele sujeito – ela diz referindo-se a Breu – terá que aprender bastante.
— Você me ensinaria? – ele pergunta, sorrindo.
Merida já responderia um NÃO de imediato. Mas algo no garoto a fez pensar duas vezes. Ela sorri e depois dá de ombros.
— Acho que posso lhe ensinar uns truques.
O sorriso de Soluço é imenso e a faz ficar animada. Mas... Por que a fez ficar animada?
— Vamos – ela diz mudando o assunto – temos que levar esse cervo para o “acampamento”.
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