Notas iniciais
Capítulo dedicado à minha amiga Bia, razão de eu postar esse capítulo. Espero que goste, Bi. de coração.

Olho para trás, assustada, e me deparo com Júlia me encarando com um sorrisinho malicioso. Fico me perguntando a razão de ela gritar meu nome composto toda vez que me vê.

— Você sabe onde estive. Te mandei uma mensagem mais cedo.

Ajeito a mochila em minhas costas e começamos a andar juntas.

— Eu sei... mas é bem mais interessante te ouvir falar.

Reviro os olhos e sento em uma das cadeiras no fundo da sala. Algumas pessoas me encaram com curiosidade, provavelmente por eu ter faltado de manhã. Ou talvez seja pelo sorriso teimando em irromper meus lábios.

— Você e Cris no apartamento dele, hein? Como foi?

— O que você quer? Que eu te dê detalhes?

— Seria bem interessante. — Ela comenta, rindo, mas sei que não fará mais perguntas. Não interprete mal, Ju é uma amiga maravilhosa, mas ao mesmo tempo é curiosa demais. Ou quem sabe seja pelo fato de eu ser fechada demais. Suspiro e tento recomeçar, ela merece ao menos um comentariozinho, afinal, foi ela quem mais torceu por Cris e eu.

— Foi bom. Bom, bom. — Respondo, meio sem jeito.

— Tenho certeza que foi. Está estampado na sua cara.

Passo a mão no cabelo, apreensiva.

— Está tão óbvio assim? -Começo a procurar um espelho na minha mochila. Será que existe mesmo essa coisa de cara pós-sexo? Antes que eu realmente possa pensar no assunto, Ju segura minha mão, me impedindo de vasculhar mais minhas coisas.

— Estou brincando, bobinha. Você está mais feliz, só isso.

Suspiro, aliviada. Começo a pôr meus materias em cima da carteira enquanto Ju tagarela sobre o quanto odeia matemática. Ela diz que o professor parece um peru e eu rio de sua analogia, concordando plenamente. Estou prestes a acrescentar mais alguns adjetivos a Jânio quando vejo Ricardo aproximar-se de nós. Já deve fazer uns seis meses que ele tenta ficar com ela e não dá em nada. Ju está decidida a fazê-lo apaixonar-se primeiro por sua personalidade e dessa forma, conseguir converter o maior pegador do colégio em um dócil e monogâmico namorado. Boa sorte pra ela.

— Oi, boneca. Como vai? — Me seguro para não revirar os olhos. Boneca? Sério isso?

— Bem e você? — Já comentei que Júlia é um fracasso ao fingir indiferença?

— Melhor agora. Vim te desejar boa sorte no jogo de hoje. Estou torcendo por você.

— É muita gentileza sua. Espero que possamos ir a algum lugar maneiro depois... para comemorar a vitória do meu time.

O sorriso de Ricardo se alarga ainda mais.

— Convencida você, hein, boneca?

— Realista, apenas. Eu e as meninas temos treinado bastante. Não é, Lisa?

Aceno positivamente, com tédio.

— Nos vemos depois do jogo, meninas. — Ele tenta beijar Ju, mas ela se afasta na hora H.

— Até lá. — Responde-o com um sorriso desafiador.

Ricardo volta pra sua carteira todo murcho ao mesmo tempo que o professor entra na sala reclamando.

— Por que você chamou ele pra nossa comemoração? — Sussurro de forma acusatória.

— Relaxa, Lisa. Outras pessoas também vão.

— Achava que fosse só o time.

— E que graça tem uma comemoração que só tem meninas? — Ju rebate com um sorriso malicioso e eu não entendo por que ela age como se fosse super baladeira/pegadora/entendedora do sexo oposto. As pessoas a olham e criam uma imagem totalmente distorcida de sua personalidade. Depois das férias de verão, ela decidiu ficar mais descolada e pegar "uns gatinhos", mas até agora não a vi com ninguém. Pra ser bem sincera, acho que desde o início seu plano era de chamar atenção de Ricardo e agora que ela conseguiu isso, não quer mais parar. Boa sorte pra ela.

***

Saio da quadra de vôlei suada e exausta. Ganhamos um troféu escolar por ter ganho das outras salas. Vou para o vestiário dando pulinhos de alegria e tomo um maravilhoso banho gelado. Ju me emprestou um vestido seu pra irmos a um barzinho. É curto e floral e definitivamente não faz meu estilo, mas fazer o quê? Mando uma mensagem pra o meu pai e outra pra Estevão, avisando que chegarei em casa mais tarde. Espero que nenhum dos dois encrenque com isso.

Eu e Júlia pegamos carona no carro de Ricardo e os dois ficam conversando durante todo o percurso. Paramos num barzinho meio rústico e encontramos as outras meninas do time e mais um pessoal conhecido. Fico conversando com Dani que parece bem tímida por não beber nada alcoólico. Peço um suco de laranja pra nós duas e ela parece ficar visivelmente aliviada.

André começa a falar um monte de merda sobre peitos e noto que ele já está ficando bêbado. Peço a Cadu e a JB que o levem pra casa e os dois praticamente tem que carregá-lo pelo estacionamento. Participo de algumas resenhas e dou muitas risadas. Caramba, como sentia falta disso. Uma música mais tranquila começa a tocar e eu observo Ju e Ricardo dançarem juntos. Talvez eu o tenha julgado mal. Ele parece muito apaixonado por minha amiga. Checo o relógio e já são 23:15. Peço a Dani que avise a Júlia que eu já fui. Não quero interromper sua dança. Deixo o dinheiro em cima da mesa e ligo para um táxi conhecido. Seu Gilberto aparece rapidamente e eu checo minhas mensagens no banco traseiro do carro. Nenhuma de Estevão, Charles ou meu pai. Estranho, muito estranho. Fico me perguntando se aconteceu alguma coisa.

Pago pela viagem e vejo uma viatura da polícia parada em frente à minha casa. Corro para dentro, largando minha mochila no jardim. Meus dedos tremem enquanto eu procuro a chave. Um policial está atrás de mim falando alguma coisa, mas não presto atenção. Preciso ver Estevão.

Entro rapidamente e vejo minha mãe gritando de forma descontrolada na sala. Meu pai tenta segurá-la, mas ela se debate em seus braços. O rímel borrou a extensão de seu rosto e é a primeira vez que vejo seu coque rígido, imperfeito. Charles abraça Pietro em seu colo e eu posso ver a vermelhidão em seus olhos. Charles nunca chora. O desespero e a urgência me sacodem e eu subo a escada do segundo andar, correndo. Alguém grita meu nome, mas eu não ligo. Abro a porta do quarto de Estevão. Vazio. Sinto falta de ar. Braços me seguram por trás e eu tento repirar, mas o ar está entrando rápido demais e eu fico zonza. Não, não, não,não. Um policial jovem me deita no chão e começa a falar, falar, falar. " Sinto muito... overdose de medicamentos... apartamento... ficar calma... respire..." Suas palavras desconexas fazem com que todo sangue do meu rosto se dissipe.

Não, não, não.

Não pode ser.