Notas iniciais
;) Olá fantasminhas ♥

— Lisa!

Mãos fortes seguram meus ombros, me fazendo olhar pra cima. Eu encontro um par de olhos aliviados e cheios de amor. Cris. Como ele veio parar aqui?, penso.

— Estão todos procurando por você... eu fiquei tão preocupado.

Ele engole em seco e me abraça com força. Não retribuo, ainda meio desnorteada. Olho a minha volta e vejo que ainda estou na praça, embaixo da mesma árvore, contudo o sol do meio dia já se foi e uma enorme lua cheia brilha no céu.

Franzo as sobrancelhas. Há quanto tempo estou aqui?

— Que horas são? – pergunto, mas minha voz parece mais um ruído rouco.

— Nove e alguma coisa. – Já?! Eu arquejo de surpresa – Venha, eu vou leva-la pra casa. Seus pais estão loucos atrás de você.

— Não quero ir pra casa. – digo com veemência e Cris faz uma cara, como se fosse contradizer, mas depois desiste, assentindo pra mim.

— Fale com Olavo, pelo menos.

Ele tira o celular do bolso e em menos de um segundo a pessoa do outro lado da linha fala.

— Você a achou? – Ouço a voz grave e desesperada de meu pai. Meu peito se comprime um pouco.

— Sim. – Cris olha no fundo dos meus olhos e aperta minha mão – Ela está ao meu lado.

— Graças a Deus! – Ouço seu suspiro profundo – Deixe-me falar com ela.

Eu aceno que não, mas Cris não me dá opção e encosta o aparelho em minha orelha.

— Pai.

— Ah, Lisa! É tão bom ouvir sua voz, eu...

— Quero ficar com Cris. – Respondo com firmeza. Não vou voltar pra casa e nem posso ouvir os lamentos de papai. Depois de tudo que ele me disse hoje, não quero vê-lo. Não com toda a mágoa ardendo em mim.

— Como assim?! – Ouço a indignação em sua voz- Onde você está? Eu vou aí lhe buscar.

— Não faça isso. Me dê um tempo, pai.

Ouço um profundo silêncio, seguido por mais um suspiro.

— Ok. – Ele fala como se lhe doesse e eu sinto meu coração apertar. – Passe para Cristopher.

Mordo o lábio, ansiosa, mas faço conforme ele pede. Cris segura o telefone e se levanta, afastando-se um pouco de mim. Fixo minha atenção em seu rosto e vejo quão sério ele está. Sua barba cresceu um pouco e o cabelo também, fazendo com que alguns fios caiam sobre seus olhos. Ele põe uma das mãos no bolso da calça amarrotada e eu noto os músculos sob sua blusa de botões.

Cris nota meu olhar e me encara. Seus olhos brilham de uma maneira que não consigo explicar e eu me pergunto como isso pode acontecer se eu não passo de uma garota quebrada e assustada.

— Pronto, amor. – Ele guarda o celular e me ajuda a levantar – Quer que eu a carregue?

Aperto sua mão, emocionada ao perceber que pra ele nada mudou. Ele ainda me ama e cuida de mim.

— Não, obrigada. – Respondo, mais tímida que o normal ao notar que a praça não está mais vazia, algumas famílias caminham juntas e um carrinho de sorvete está parado na esquina. Me assusta um pouco perceber o quão alheia estou ao mundo a minha volta, por não ter notado nada disso antes.

Cris abre a porta do jipe pra mim e eu entro, me assustando ao ver meu reflexo no retrovisor.

Rapidamente, tento ajeitar meu cabelo, passando os dedos pelos fios, mas desisto e acabo fazendo um coque frouxo.

— Você deve estar com fome. – Cris me olha por um segundo antes de voltar a atenção para o trânsito – Vou parar no Burguer’s e pegar alguma coisa. A dispensa de casa está vazia.

— Não precisa. – respondo prontamente, sem nem um pouco de vontade de ser vista por mais pessoas nesse estado – Eu estou bem.

Cris sabe que é mentira, mas não discute. Noto os esforços dele para não brigarmos e ponho a mão em seu joelho.

Demora para chegarmos em seu apartamento e eu sinto minhas pálpebras pesarem cada vez mais até se tornar um esforço mantê-las abertas. Desço um pouco o banco e sinto o perfume de Cris em minhas narinas. O cheiro me acalma de uma maneira inexplicável e pela primeira vez em semanas, eu não preciso de álcool para conseguir dormir.

Só ele.

*****

Abro os olhos lentamente e me mexo no colchão macio. Cris deve ter me trazido pra cá quando eu dormi no banco do carro. Os lençóis brancos tem um cheiro gostoso de amaciante, alguma fragrância floral. Apalpo o vazio a meu lado, procurando por Cris. Sento meio zonza e reconheço o lugar, seu quarto.

O ambiente me traz lembranças quentes, felizes e despreocupadas.

Noto que nada mudou. O criado mudo continua com um porta retrato mostrando nós dois na entrada do cinema, sorridentes e animados. Meus olhos se enchem de lágrimas e eu vejo que por mais que eu tenha perdido um pedaço gigante de mim, não perdi Cris.

Coloco o objeto no lugar e dobro os lençóis, entrando no banheiro em seguida. Encontro um roupão dobrado, uma escova de dentes nova e um shampoo sobre a pia. Sorrio inconscientemente, grata pelo cuidado de Cristopher.

Ligo o chuveiro e tomo um banho gelado, revigorante. Saio do box e visto o roupão fofinho, escovando os dentes em seguida.

Olho pra o espelho e ajeito meu cabelo, querendo espantar a aparência fantasmagórica que parece ter se apossado de mim.

Saio do banheiro e travo no corredor, ao ver uma pequena mala rosa ao lado da porta de entrada.

— Bom dia. – Cris aparece da cozinha e me olha com hesitação. Espero que ele me beije, mas percebo que ele está me dando espaço, deixando-me a vontade.

— De quem é a mala? – pergunto diretamente, nervosa com a familiaridade que sinto pelo objeto.

— Seu pai veio aqui mais cedo ver como você estava e deixou isso. – Cris cruza os braços – Ele foi até o quarto e beijou sua testa. Parecia bem cansado.

— Ah.

Não sei o que dizer.

— Foi ele que me ligou ontem quando não encontrou você. Eu fiquei desesperado quando soube. – Noto a agonia em seus olhos, seguida pela raiva – Nunca mais faça isso, Elisa. Nunca mais suma assim.

Eu aceno positivamente, arrependida.

— Me desculpe, e-eu só... precisava de um tempo pra pensar.

Ele cruza os braços com mais força, mas seus olhos se abrandam.

— Eu senti sua falta. – As palavras saem do fundo sua alma e eu sinto o poder delas. Noto o quanto ele tenta reprimir as emoções, mas é impossível não ver que é só fachada. Dou um passo pra frente, cada célula de meu corpo clamando por unir-se a ele.

Seu cheiro me inunda e eu afundo o rosto na curva de seu pescoço, relaxando na segurança de seu peito. Ouço-o suspirar e então apertar minha cintura, trazendo-me para mais perto de si.

— Meu amor- Ele sussurra lentamente e toca meu rosto como se eu fosse de porcelana, traçando os dedos por minha pele até parar em minha boca. Meus lábios formigam e eu os pressiono contra os seus, sentindo seu gosto inebriante. Meus sentidos nublam e pela primeira vez em semanas eu me sinto confortada e amada.

Cris me toca com afeição e eu ignoro o sussurro da mente dizendo “Guarde o seu coração”.