Guarde seu coração
1 Prólogo
Notas iniciais
— Hoje vamos à um lugar diferente. — Cris me olha de soslaio. Uma de suas mãos aperta meu joelho com afago enquanto a outra segura firmemente o volante.
— Então pra quê as pranchas? — pergunto, confusa, ouvindo o som das duas pranchas batendo levemente uma na outra no fundo do jipe. Eu e Cris sempre vamos à praia de Lenus. Ele surfa e eu leio livros na areia, desfrutando o vento forte que circula pelo lugar.
— Vamos surfar, ué.
— Eu?! Surfar?! — Pensei nas ondas bruscas de Lenus e na placa de perigo em frente a praia e estremeci.
— Lisa, o que você pensou quando viu as duas pranchas? De acordo com meus cálculos, dá uma pra mim e uma pra você.
Seu sarcasmo me faz revirar os olhos.
— Bem, eu pensei que fosse pra um daqueles seus amigos hippies.
Cristopher sorriu de lado.
— Você os odeia, não é?
— Não, apenas não gosto de alguns de seus ideais. Fora isso, até que são... interessantes.
— Me parece justo.
Ficamos em silêncio. Desfaço o coque e solto o cabelo, o vento balançando-o para todos os lados. Não me incomodo.Recosto no banco, ponho as mãos atrás da cabeça e fecho os olhos. A luz do sol em contato com minha pele me acalma e eu apago ao som de Elvis Presley.
Acordo com Cris beijando meus lábios com ternura. Sorrio e enlaço meus braços em torno do seu pescoço, trazendo-o para mais perto de mim. Ele ri baixinho e aperta minha cintura. Suas mãos acariciam o maiô sob minha blusa.
— Por que está usando duas blusas? Sabe como isso dificulta as coisas pra mim..
Dou um tapa brincalhão em seu peito.
— Não é outra blusa, engraçadinho. É um maiô.
— Ah, então quer dizer que a senhorita pretendia nadar em Lenus sem me contar?
— Não mesmo! Só estava pensado em tomar sol. Vitamina D e tudo mais... — Abaixo o olhar, nervosa. A maior parte das pessoas que vão à Lenus são surfistas dedicados, hippies naturebas e garotas de biquíni loucas para chamar atenção. Todas elas lindas, bronzeadas e seminuas bem na frente do meu namorado enquanto ele não desgrudava os olhos de mim. Eu, de blusa e bermuda, sentada embaixo de um guarda-sol, lendo Poe e ouvindo Vivaldi.
Até experimentei alguns biquínis, mas me senti tão nua que o maiô foi a melhor opção. Quero que Cris me veja de um jeito diferente, como uma mulher, não uma garotinha. Só esse pensamento faz minhas bochechas enrubescerem. Cris ergue meu queixo para olhar-me nos olhos.
— Vitamina D, é?
Aceno positivamente, sem confiar muito em minha voz. Seus olhos sondam-me por mais uns instantes, nós dois em silêncio.
— Eu compre um biquíni pra você usar hoje, já que me disse uma vez que não tinha, mas pelo visto não será necessário. — Ele coloca uma mecha do meu cabelo atrás da orelha e quando seus lábios começam a explorar meu pescoço, eu seguro seu rosto para olhá-lo melhor.
— O que foi, loirinha? Fiz algo errado?
— VOCÊ comprou um biquíni pra MIM? — Pergunto, rindo. A confusão estampada no rosto de Cris faz com que eu ache o momento ainda mais cômico.
— Comprei. E daí?
— Como você acertou minha numeração, espertinho?
— Eu não acertei, não exatamente. — disse sorrindo — A vendedora me perguntou, mas como eu não sabia, disse à ela suas características e que você gosto de azul. Quer vê-lo? Está em uma sacola no fundo do jipe.
— Hum... agora não. — Tive medo de que o biquíni fosse, sei lá, sexy demais e isso me deixasse insegura com o maiô. Remexi-me no banco, desconfortável.
— Então vamos, gatinha, porque eu seria capaz de passar a vida toda com você aqui.
Reviro os olhos antes de descermos do jipe. Cris nota e abre um sorriso.
— Você é uma garota difícil, sabia?
— Eu não. É você que diz frases clichês, mocinho. — Empurro seu ombro com o meu para provoca-lo, mas ele não se move nem um centímetro.
— Sabe como é... tenho que manter os esteriótipos de surfista garanhão.
Tenho manter a pose séria, mas acabado gargalhando feito uma doida. Cris cruza os braços e finge estar ofendido.
— Garanhão, Cristopher?! — Digo, rindo ainda mais — Ninguém usa essa palavra no século XXI.
— Ah, Lisa... — Ele faz uma expressão sedutora, os lábios puxados pra o lado de uma forma quase artística. Suas mãos tocam meus quadris e me trazem pra perto, tornando-me cativa de seus olhos. — Acho que eu posso me intitular como garanhão.
Seus dedos acariciam meu pescoço e eu envolvo o seu com meus braços.
— Tudo bem. Mas só se for o meu garanhão. — Ele sorri antes de beijar meus lábios de forma doce e segura.
Lentamente, suas mãos descem do meu cabelo para minhas costas e eu me afasto, ofegante, antes que elas cheguem mais baixo ainda.
Cris entende o sinal e me dá um beijo na testa antes de pegar nossas coisas no carro.
"Relaxa, Lisa." — Digo pra mim mesma, tentando espantar meus medos.
— Vamos? — Ele pergunta, segurando uma prancha em cada braço.
Aceno positivamente e nós caminhamos juntos por uma trilha em meio a alguns coqueiros, até avistar as águas tranquilas de uma praia vazia. A visão faz com que eu esqueça o cansaço, as dúvidas, as inseguranças...
— Cris... é maravilhoso.
Ele sorri pra mim, mas continua andando pela areia. Fico confusa, pois achei que iríamos mergulhar ali mesmo. Sigo-o em silêncio, desejando ser surpreendida, segurando-me para não me jogar naquelas águas azul celeste. Caminhamos por mais uns vinte minutos até a entrada de uma gruta.
— Vamos deixar nossas roupas aqui, ou ficarão encharcadas lá dentro.
Olho ao redor, pensando em meu irmãozinho Pietro, no quanto ele adoraria esse lugar.Suas mãos certamente criariam castelos de areia impressionantes para alguém com cinco anos de idade, disso tenho certeza. Tirei a camisa, a bermuda e minha sandália, entregando minhas coisas à Cris.
— No que está pensando?
Sorrio melancolicamente.
— Em Pietro. Ele se divertiria tanto aqui... Genevive nunca permitiria, é claro. Ela considera até um pássaro perigoso pra ele. — Mas e você? — Pergunto ao encarar seus olhos profundos — O que você está pensando?
— Em como você está de tirar o fôlego. Acho que deve usar maiô todos os dias, de verdade.
Sorri, constrangida. Cris pega nossas roupas e sapatos e as esconde atrás de um coqueiro mais distante. Entramos na gruta e me surpreendo o quão claro é aqui dentro. Fiquei encantada. As paredes naturais dão o toque de privacidade que eu tanto almejei. Lenus é muito cheia e as ondas do mar são violentas demais para mim.
— Como vamos surfar aqui?
— Não vamos. Ainda. Pensei em como tudo isso é novo pra você e decidi trazê-la para cá pra ter o primeiro contato com a prancha. Nada de ondas por enquanto.
— Ótimo. Sou jovem demais pra morrer. — Falo brincando, mas Cris toca meu ombro, fazendo-me encarar seus olhos cor de mel.
— Você sabe que eu jamais faria isso, não é? Colocá-la em risco dessa forma.
— Claro que sei. Eu confio em você.
Ele suspira aliviado e eu realmente não entendo porque ele levou o que eu disse tão a sério. Cris é três anos mais velho que eu, bem mais responsável e tal. Infinitamente mais sério que os caras do meu colégio. Ele começa a instruir-me sobre ter confiança e mais algumas coisas que não presto tanta atenção. Sou um pouco impaciente, digamos. Eu enfim subo na prancha e após algumas quedas, consigo manter-me de pé. Bato palmas, empolgada, e noto que Cristopher está encarando-me com tanto desejo em seus olhos que eu mergulho e ao emergir aperto sua cintura. Ele sorri.
— Elisa, você é oficialmente a pior aluna que eu já tive.
— Tenho certeza que sua opinião mudará até o final dessa aula, professor — Eu o provoco e isso é o estopim. Faminto, ele aproxima- me mais ainda de si e me beija com fervor.
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