Cristopher estaciona na porta da minha casa. As janelas e cortinas estão fechadas. São 17:30. Meus irmãos mais velhos estão trabalhando nesse horário, Pietro deve estar em algum das dezenas de cursos que faz e meus pais estão ocupados ignorando nossas existências.

— Obrigada pela tarde. — Falo isso encarando meus tênis, nervosa. As coisas ficaram quentes entre nós hoje como nunca, mas eu me afastei na hora H. Não sei por quanto tempo mais isso vai durar. Namoramos há sete meses, mas eu não consigo dar esse passo. Fico nervosa e por mais que não queira, o rosto de Estevão aparece em minha mente e eu não consigo seguir em frente porque não quero desagradar meu irmão. Sinto que é errado e que sou mentirosa porque agora mesmo eu devia estar treinando minhas lições de piano. E por mais ridículo que pareça, não consigo tirar da cabeça a ideia de que quando ele olhar pra mim, verá escrito em letras garrafais: NÃO SOU MAIS VIRGEM.

— É melhor eu ir. Tchau. — Toco a maçaneta da porta, mas Cris segura minha mão.

— Espere. Por que está agindo assim?

Evito seus olhos.

— Assim como? — pergunto cinicamente, desejando que ele me solte pra que eu possa correr e me trancar em meu quarto.

— Elisa.

— Hum?

— Olhe para mim.

Eu o obedeço, relutante. Seus olhos refletem paz.

— Eu não estou chateado e não quero que você fique. A nossa tarde foi maravilhosa e não importa o que façamos, eu sempre irei querer estar com você. — Sua mão afasta o cabelo do meu rosto com ternura — Sabe por quê?

Eu aceno que não, incerta se eu realmente quero ouvi-lo. Ele aproxima seu rosto do meu para sussurrar em meu ouvido.

— Porque eu te amo.

Eu mal consigo respirar. Amor é algo sério, sério demais. Uma parte de mim quer acreditar nele, mas outra parte diz que é impossível amar alguém que se conhece há apenas um ano. Mas o que posso dizer? Ele nunca deu razão para dúvidas. Nosso relacionamento sempre foi simples e verdadeiro. Sem joguinhos ou truques. Nos conhecemos num jantar. Um evento para pessoas abastardas. Nossos pais fizeram faculdade juntos e atualmente possuem uma relação diplomática. São donos dos dois maiores escritórios de advocacia do estado. Fomos apresentados formalmente, mas Cris não desgrudou os olhos de mim nem por um instante. Isso foi durante as férias. No início das aulas descobri que estudávamos no mesmo colégio. Ele foi logo puxando conversa comigo, mas eu não podia namorar, meu irmão jamais permitiria. Por isso afastei-me o máximo que pude. Ele era e é lindo, educado, carismático, porte atlético e tudo mais. Ainda assim, conseguia ser completamente diferente do clichês.

Cris é calmo, pacífico, estudioso e centrado. Sem falsidades ou promessas falsas.Com ele é oito ou oitenta. Nervosamente, eu liberto minha mão de seu aperto e saio do carro. Tchau é a única coisa que consigo dizer antes de deixa-lo paralisado, encarando-me com uma expressão triste.

Eu fujo porque sou uma mentirosa e quanto mais perto dele estou, mais meus reais sentimentos se afloram e eu definitivamente não quero ter que lidar com o fato de que eu também o amo, já que essa é a prova de que as coisas entre nós estão bem mais sérias do que eu gostaria.

Entro em casa e as luzes estão apagadas, me deixando no breu. Acho estranho. Fecho a porta e as ascendo, praticamente tendo um enfarto ao ver meu irmão sentado no sofá, me encarando com frieza.

— Onde você esteve?

Não consigo responder, sinto um bolo de lã terrível em minha garganta. Olho ao redor. Estamos sozinhos. Sei que recebi alertas de seu psiquiatra para evitar ficar sozinha com ele, principalmente quando estivesse nervoso, mas ignoro todos seus conselhos. Estevão é meu irmão. Meu amado irmão.

Ele aproxima-se de mim e segura meu braço com força. Tento manter a calma.

— Eu... eu estava com Cristopher. – Opto pela verdade, já que sou uma péssima mentirosa e isso só o irritaria mais.

— Eu mandei você desfazer essa palhaçada o quanto antes, não foi?

Engulo em seco. A forma como ele me olha está começando a me assustar. Encaro meu braço como um aviso silencioso de que está apertando-o demais.

— S-sim, acontece que isso não é uma palhaçada pra mim, eu...

Estevão praticamente corre até a porta, furioso. Ele a escancara e caminha até a calçada. Sei que está procurando Cristopher, mas ele já se foi. Estevão volta pega um martelo numa das gavetas da dispensa.

Estou infinitamente mais assustada agora.

A expressão em seu rosto é sádica e doentia, seu olhos verdes brilhando de forma louca. Ele aproxima-se do piano e acerta as teclas com força. Saio do meu transe.

— Estevão, não! – Ele não me escuta, apunhalando meu instrumento com toda força. Seu ódio é pulsante, posso senti-lo daqui. Foi Estevão que me deu o piano e obrigou-me a aprender a toca-lo. Desde os doze anos sou obrigada a treinar duas horas por dia, no mínimo. Ele não parece importar-se com isso agora. Eu me aproximo, pondo a mão em suas costas tensas, tentando evitar que cause mais danos. Como mágica, ele vira-se na minha direção e por longos segundos tenho certeza de que irá me acertar com aquilo. Meus olhos se fecham, esperando a dor. Ouço então o baque do martelo cair no chão.

— V-você não precisa dele se irá mais tocá-lo. – Sussurra, referindo-se ao piano.

Consigo coragem para abrir meus olhos. Estevão encara um ponto além dos meus ombros, sua face claramente abalada.Estou prestes a dizer algo quando ele afasta-se de mim e sobe correndo as escadas até seu quarto. Fico estática, consciente demais do fato de que meu irmão mais velho quase esmagou meu crânio com um martelo.

Notas finais
Então? O que acharam do Estevão?