Guarde seu coração
10 Luzes e drinks
Notas iniciais

Desço do ônibus e caminho até minha casa arrastando os pés. Tudo parece ser cinza e eu me esforço ao máximo para não dar meia volta correndo atrás de Cris. Preciso ser forte. Preciso ficar sozinha. Preciso protege-lo de mim.
Surpresa é pouco comparado ao que sinto ao ver minha mãe de óculos escuros na porta de casa, conversando com duas empregadas que carregam malas e mais malas. Cruzo o jardim e Pietro corre até mim. Pego seu corpo pequeno no colo e beijo sua bochecha. Ele não diz nada, mas seus olhos dizem tudo. Algo está errado.
— O que está acontecendo?
— Vamos viajar. – Minha mãe responde, remexendo sua bolsa. Um suspiro escapole de seus lábios ao finalmente encontrar a chave do carro.
— Como assim? Você nem avisou nada, eu não arrumei minhas coisas e...
— Eu e Pietro vamos passar alguns dias no sítio. – Ser ignorada por ela ainda dói, percebo. Genevive puxa meu irmão pelo braço e o enfia na cadeirinha. Sinto-me desnorteada ao pensar em todas as horas de solidão que me aguardam nesta casa imensa.
— Mãe... – Não consigo conter o choramingo infantil que entoa minha voz – Eu quero ir também. Posso ir assim mesmo, tenho roupas no sítio e ...
— Você não vai. Tem aula no colégio e se pensa que os últimos acontecimentos são desculpa para que seu rendimento escolar caia, está muito enganada. – Genevive me encara de cima, seus saltos altos lhe conferem um ar imponente. Pergunto-me qual razão dela ser sempre tão dura comigo. Como que para contradizer-me, ela aperta meu cotovelo por alguns segundos, num gesto ínfimo de afeição.
— Tenho que ir. – Noto o desespero em sua voz. Eu a entendo por querer distância, mas por que não levar-me também?
— Mãe, por favor... – Ela fecha a porta do carro na minha cara e dá uma ré brusca. Ouço Pietro arfar antes do automóvel romper em direção a rodovia principal.
Um instinto primitivo me impele a correr atrás deles, a não deixar que os únicos que me restaram se vão. Meu pai voltou a capital a negócios e Charles viajou com sua banda de rock alternativo. E Estevão... Bem...
Noto o olhar de pena dos empregados e isto é o suficiente para me deixar com raiva. Meu orgulho é a única coisa que me resta. Subo para meu quarto com pressa e tranco a porta. Xingo minha mãe pela primeira vez na vida e jogo uma cadeira contra a parede. Como ela pôde fechar a porta e me deixar do lado de fora implorando que me compreendesse?
— Eu te odeio, Genevive Colden! – Arranco os cobertores da cama e os jogo no chão, pisando em seguida. – Eu odeio o nome dessa família maldita!
Encaro as paredes rosas do meu quarto. Eu odeio esta cor, mas minha mãe gostava e por isto o deixei assim. Para agradá-la. Para tentar fazê-la gostar de mim ao menos um por cento do quanto gostava de Estevão. Agora quero mais que se foda.
Saio do meu quarto idiota e abro o armário de bebidas que enfeita o final do corredor. Pego a chave que fica escondida dentro da luminária em cima do móvel e abro o armário antiquado. Tiro um dos vasos de vidro lá de dentro. Será vodca? Não sei. Não entendo nada sobre bebidas. Bebo um gole e tudo queima dentro de mim, parecendo turvar minha mente. A sensação do líquido descendo por minha garganta não é nada prazerosa, mas em compensação, sinto poder e decisão. Não vou deixar me pisarem. Não mais.
Tomo um banho longo, esfrego todo meu corpo, tentando arrancar todas as partículas invisíveis de sujeira. Enrolo-me numa toalha e abro meu guarda-roupa, desejando encontrar algo apropriado lá dentro. Meu celular vibra. Júlia. Por favooorrr, que ela não pergunte nada sobre Cristopher.
Jujuba: Vamos ao cinema?
Encaro a tela do celular por alguns segundos. Desde que Júlia e Rick começaram a namorar, nossa amizade tem enfraquecido um pouco. Talvez se passarmos um tempo juntas minha alma agitada se acalme e eu me lembre de não fazer nenhuma imprudência. Porque pra ser sincera, a vontade que eu tenho é de jogar tudo pro alto e gritar Chega!
Eu: Sim :D
Jujuba: Te vejo às sete. Bj
Escolho vestir uma calça jeans normal e uma blusa cropped que estava enfiada no fundo de minhas gavetas. Escovo os dentes com movimentos esporádicos e seco meu cabelo comprido. Passo maquiagem para me livrar da cara de fantasma. Ninguém vai ver minhas dores. Eu cometi um erro hoje ao implorar minha mãe e o que ganhei em troca? Mais dor. É disso que Estevão sempre quis me proteger. Mágoas, mentiras, decepções. Dor, dor, dor.
Guardo a bebida tentadora de volta ao seu lugar e sento no sofá da sala. Fico zarpando os canais de TV, entediada.
— Tadinha... Como a mãe pode deixar a bichinha sozinha num momento desse? – Ouço Mirian, a cozinheira, sussurrar pra outra empregada. Cerro os punhos. A pena me enoja.
— Vocês já estariam em casa se parassem de fofocar tanto! – Grito por sobre o ombro e as moças se agitam freneticamente, constrangidas. Ninguém vai ver meu coração. Ninguém.
Pego as chaves de casa e vou até o único cinema da cidade. Compro tickets para duas sessões e me sento fundo. Júlia só chegará daqui a algumas horas. Assisto a animação da Disney com tédio, mas ao menos é melhor do que ficar em casa com todos aqueles sussurros e lembranças de tempos que não voltarão jamais.
Mal percebo quando o filme acaba e outro ocupa seu lugar na telona. É uma comédia romântica, noto com tristeza. Um casal a minha frente começa a se beijar de forma um tanto... explícita demais. Lembro de vir aqui com Cris. Suas mãos em minha cintura, os beijos roubados enquanto eu olhava pra trás a todo tempo, com medo de meu irmão nos vir. Nós ríamos baixinho, a perspectiva de sermos pegos só tornava tudo ainda mais excitante. Quando lembro de seus beijos em meu pescoço, ergo-me da cadeira com certo desespero. Algumas pessoas me encaram irritadas por eu distraí-las do filme. Entro no banheiro e me olho no espelho. Ajeito o cabelo e tento trazer minha confiança artificial e recém adquirida de volta.
— Lisa?
Júlia se aproxima de mim e me abraça. Suspiro de alívio. Distração, preciso de distração.
Exibo meu melhor sorriso falso.
— Gostou do look?
— Você está uma gata! – Retruca, rindo. – Por que a produção toda? Cristopher vem também?
Sinto minha garganta se fechar.
— Não me arrumei por causa de um homem.
Pra minha surpresa, Ju joga o cabelo do ombro e acena em concordância.
— É isso aí! A gente tem que se dar valor, amiga! Gostou das minhas unhas? Eu escolhi o esmalte e a manicure disse que...
Deixo minha amiga tagarelar a vontade, feliz por ela não notar meu silêncio perturbado. Compro mais um ticket e Júlia e eu vamos para uma sala onde um filme de terror acabou de começar. Gosto da escolha. Sem romances, obrigada.
O filme mal começou, mas Ju já começa a agarrar meu braço, morrendo de medo. Quase dou risada.
— Oi, boneca. – Ricardo surge do nada e senta ao lado da minha amiga. Encaro a cena sem entender. – Ah, oi, Elisa.
— Rick... que surpresa. – Dou outro sorriso falso. Acho que estou ficando boa nisso.
Ele agarra minha amiga e a beija de forma desesperada. Fico meio atônita com a rapidez dos acontecimentos. Encolho-me no meu banco, fazendo o máximo pra não ligar para os sons obscenos produzidos pelos dois. Pego a pipoca esquecida por Ricardo e a como sem vontade, apenas pra passar o tempo. Quando Ju me chamou pra ficarmos juntas eu realmente não imaginei que ficaria segurando vela.
Após eternas duas horas, o filme acaba, mas os pombinhos continuam ao meu lado, se atracando.
— Eu já vou. – Aviso, começando a me retirar quando os dois não dão sinal algum de que vão embora.
Ricardo acena pra mim em despedida, ainda concentrado em Ju.
Vou em direção ao ponto de ônibus e noto uma boate alguns metros após o cinema. Nunca a vi antes, ao menos não aberta. As pessoas fazem fila pra entrar, todas alegres e sorridentes. Olho o relógio. 21 horas. Meu coração acelera. Está tarde, muito tarde. Antes que eu possa correr atrás do meu ônibus, lembro que não tem ninguém em casa. A perspectiva de que ninguém sentirá minha falta parece um tanto tentadora agora. Sem pensar muito, entro na fila da boate Nyx. Uma garota a minha frente começa a se sacudir ao som de Outside, do Calvin Harris. Aperto minha bolsinha pequena. Todos parecem tão... livres. Passo pelo segurança e ele mal olha minha identidade. Suspiro, aliviada e pago pra entrar, ganhando uma pulseirinha em troca.
As paredes da boate tem uma cor metálica. É muito escuro aqui dentro, há apenas alguns feixes de luz colorida emitida por alguns aparelhos no teto. A música é ensurdecedora e eu me vejo intimidada pela maça dançante. Caminho até o bar a passos largos e peço uma água ao barman. Ele me dá um sorriso malicioso.
— É sua primeira noite, não é, loirinha?
— É tão óbvio assim?
Ele não responde, mas continua sorrindo de forma insinuativa. Com um hábil movimento de mãos ele preenche um copo pequenininho com alguma bebida que desconheço.
— Eu lembraria de você se tivesse a visto algum dia. –Peraí... ele está flertando? – Beba isto. Considere como um presente de boas-vindas.
Dispenso o drink com um aceno, desconfiada.
— Qual é... Eu não envenenei ou algo assim. Isso não vai deixar você doidona, é só pra se divertir.
Noto que algumas pessoas observam nosso diálogo e riem da minha insegurança. Elas parecem confiar no cara à minha frente. Pego o drink e o bebo de uma só vez. Sinto uma leve sensação de euforia queimar dentro de mim. Estou pronta pra noite que me aguarda.
O barman ri.
— A loira aqui não brinca em serviço, pessoal.
Dou um sorrisinho convencido pra multidão que me observa e vou em direção ao aglomerado de pessoas no meio da pista. Mal consigo ver seus rostos e isto me conforta. Também estou invisível. Em poucos instantes também estou dançando e pulando. Não faço isto bem, mas ao menos me divirto um pouco. Os problemas parecem ter ficado do lado de fora, me deixando apenas a sensação de euforia. Mexo meus quadris de uma forma que nem eu sabia ser possível. Canto algumas músicas e não bebo mais nada. Não sou burra ao ponto de embebedar-me nesse lugar. Saio às duas da manhã, graças a dor incessante em meus pés.
Ligo para Seu Gilberto e ele vem me buscar, mas não faz nenhum comentário sobre a boate ou minha aparência pós-festa. Desço do táxi com um sorriso idiota causado pelo álcool e me jogo no sofá de casa sem ao menos tirar os sapatos.
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