Guarda-Costas
1 Neji Hyuuga
Notas iniciais
Achou que a claridade da manhã a havia despertado, mas o gentil toque em sua mão direita a convenceu do contrário. Deu um breve sorriso, imaginando que Hanabi estaria ansiosa para falar-lhe, incapaz de esperar a irmã acordar por conta própria.
— Hana...
Abriu os olhos, deparando-se com um vermelho vivo ao lado de sua cama.
Estranhou. Hanabi não tinha cabelos ou roupas vermelhas.
Sentou-se rapidamente, arrependendo-se no mesmo instante ao sentir uma fisgada no abdômen.
— Acalme-se, menina — a mulher falou docemente, a empurrando de volta na cama para que deitasse. — Você precisa de repouso. Ordens médicas.
— Ma-Majestade...
— Precisa de algo? Água? Banheiro?
— N-Não... obrigada.
— Como se sente?
Os olhos da jovem marejaram com a atitude da bela mulher de cabelos ruivos. Kushina, a rainha do País do Fogo, não a olhava com raiva ou cheia de julgamentos. Parecia que nada tinha mudado... parecia o mesmo carinho que ela direcionava a Neji...
— Está com dor? — perguntou a mais velha, rapidamente preocupada com suas lágrimas. — Quer que eu chame a médica de volta?
— Não! — respondeu rápida, enxugando a lágrima teimosa. — Estou bem... obrigada por se preocupar, Majestade.
— Argh! Voltamos à formalidade? — Kushina revirou os olhos. — Você já estava se acostumando com apenas “senhora”. Por acaso bateu a cabeça, menina?
A brincadeira lhe arrancou um sorriso e outras lágrimas.
— Algumas vezes, sim. — Riu com a mais velha.
Kushina soltou um suspiro e sentou na cama da moça, acariciando os fios escuros.
— Você está bem, não é? — segredou a rainha. — Não vai me dar outro susto desses de novo, não é?
— Não — prometeu. — Vou me cuidar.
— É bom mesmo! — Kushina apertou o nariz da moça, num gesto carinhoso e brincalhão. — As coisas não mudaram, Hinata. Ainda tenho muito apreço por você. Mais ainda depois que salvou o meu filho. Devo minha vida a você, menina. — Ela soltou um suspiro, voltando a acarinhar os cabelos preto-azulados. — Tomei a decisão certa ao permitir que ficasse ao lado de Naruto por todos esses anos. Se pudesse, faria a mesma escolha novamente.
~*~
Naquela extensa fila, Hinata desconfiava que ninguém tremia dos pés à cabeça como ela.
Saber que era a única mulher e, provavelmente, a mais nova candidata, a deixava ainda mais nervosa.
Suas mãos suavam. A roupa de linho, roubada de seu pai horas atrás, parecia grudar em seu corpo por baixo daquela armadura antiga. A espada parecia pesar o dobro na bainha, presa do lado esquerdo do corpo.
Respirou fundo, tentando se acalmar. Precisava manter o controle e mostrar tudo o que sabia sobre defesa e ataque. Se tudo desse certo, até o final do dia ela seria a guarda-costas do príncipe-herdeiro, ganhando um salário decente por semana, impedindo que seu pai ficasse irado com sua desobediência.
Se ela não conseguisse o emprego... balançou a cabeça, em negação. Não queria nem pensar na possibilidade!
Quando soube do anúncio real, há menos de uma semana, em que seria escolhido o novo guarda-costas do príncipe Naruto Namikaze através de provas de um dia inteiro, cada uma com caráter eliminatório, a jovem Hyuuga não pensou duas vezes antes de pedir permissão ao pai. Hiashi arregalou os olhos com o pedido da filha, não hesitando em negar-lhe.
Veementemente.
— Não foi para isso que eu criei você e sua irmã — ele brigara. — Tudo o que lhes ensinei foi para que soubessem se defender, e não para que defendessem homens maiores que vocês! Eu as criei para serem boas esposas no futuro! Deixe que da segurança cuide seu futuro marido!
Ela tentara apelar para o salário, que seria muito bem-vindo naquele momento de aperto, mas também não adiantou.
— Deixe que do dinheiro da casa cuido eu! Se quiser ajudar, comece limpando a casa e preparando o almoço para mim e Hanabi.
Por mais três dias Hinata insistiu no assunto, mas Hiashi fora irredutível. A morena não desistiu, no entanto. Sabendo que o tempo estava curto para mandar forjar uma nova armadura, a moça invadiu os aposentos do pai na madrugada do dia da prova, roubou a velha armadura que o Hyuuga usara em antigas batalhas, e fugiu de casa antes que amanhecesse, sem deixar recados ou pistas. Claro que o homem desconfiaria, mas então seria tarde – Hinata já estaria em prova ou, se os deuses estivessem do seu lado, aprovada para proteger o príncipe-herdeiro.
Os portões foram abertos assim que ela terminou de fazer uma pequena prece por sua família e pelo príncipe.
~*~
— E Naruto? — Fez a pergunta que tanto lhe queimava a garganta. — Como ele está?
— Foi você quem passou dois dias desacordada, querida. — Kushina sorriu, aliviada por vê-la melhor e já ansiosa por notícias do príncipe. — Deve se preocupar com sua recuperação agora. Naruto ficará bem.
— Mas ele... ele ficou horas com aqueles homens! — Insistiu, ficando sentada novamente. — Ele está machucado?
— Levou apenas alguns arranhões — disse finalmente, acalmando a jovem. — Ele está bem... graças a você.
A rainha segurou suas mãos com carinho, mas Hinata percebeu a ansiedade ali.
— Minha Senhora... quando será meu julgamento?
Kushina desviou o olhar por um instante, entrelaçando ainda mais suas mãos.
— Assim que você se recuperar. — Lamentava. — Minato e Naruto não querem perder tempo.
Engoliu em seco. Naruto ainda estava furioso...
— Pois diga a eles que já estou melhor, Majestade. — Tomou sua decisão. — Não vamos mais prolongar isso.
Os lábios da ruiva tremeram. Os olhos brancos da moça marejaram ao ver o sofrimento nos olhos violeta.
— Perdoe-me, Hinata... não pude convencê-los a mudar de ideia e desistir do julgamento. Apenas consegui que a deixassem falar antes de anunciarem a sentença. Seu pai poderá falar a seu favor, assim como Sasuke e Shikamaru. Mas não sei se...
— Está tudo bem — interrompeu. Kushina a olhou, surpresa ao ver um pequeno sorriso em Hinata. — A senhora me ajudou bastante. Não tenho como agradecê-la...
— É claro que tem! — falou rapidamente, mudando o tom melancólico para um quase autoritário. — Defenda-se! Chame quem puder para ajudá-la! Chame a mim se for preciso! Mas não ouse desistir de você!
A mulher levantou da cama e a abraçou forte.
— Você é uma menina especial, Hinata. — Beijou o topo da cabeça da morena. — Não vou desistir de você. E nem vou deixar que faça isso. Você será julgada inocente ou eu não me chamo Kushina Uzumaki Namikaze!
Deu um último beijo estalado na bochecha da garota e limpou o rosto antes de caminhar até a saída da enfermaria, falando baixinho:
— Não permitirei que a levem para a forca só porque é uma mulher. Há anos planejo casá-la com meu filho e não será agora que meus planos irão falhar!
E fechou a porta, deixando uma boquiaberta Hinata para trás.
~*~
Estava ofegante e suada, mas não deixaria que vissem suas pernas e mão trêmulas. Segurava a espada com força para evitar que um dos Capitães do Exército Real não percebesse sua insegurança.
No fim, restou apenas ela e um rapaz um pouco mais velho, cujo nome descobriu mais tarde como sendo Itachi Uchiha.
O Capitão parecia conhecê-lo e, às vezes, deixava escapar um sorriso orgulhoso a cada nova etapa vencida pelo mais novo. Hinata olhou bem para os dois e deduziu que poderiam ser parentes.
— Parabéns aos dois finalistas. Saibam que é uma honra chegar tão longe no teste para proteger o príncipe-herdeiro. E não há honra maior do que ser escolhido para proteger a família real para o resto de sua vida!
Hinata abaixou o rosto um instante, para que não notassem seu espanto.
Para o resto da vida? Isso não estava em seus planos!
— Aquele que for escolhido hoje será não apenas o guarda-costas do príncipe Naruto, mas também seu conselheiro, informante e espião. E, quem sabe, com o passar dos anos, um grande amigo, que lutará ao lado de nosso futuro rei. Eu repito: não há honra maior!
O homem se aproximou do rapaz ao lado de Hinata.
— Senhor Uchiha... por que devo escolhê-lo ao invés do senhor...?
— Hyuuga, senhor — respondeu Hinata, engrossando a voz.
— Por que devo escolhê-lo ao invés do senhor Hyuuga, Uchiha? Ele nos mostrou uma incrível velocidade e agilidade para alguém de seu tamanho. Poderia passar despercebido em uma missão importante para o príncipe...
— Sou melhor com a espada, então posso lutar ao lado do príncipe com mais eficiência — falou Itachi sem hesitar. — Também tenho bons olhos e bons ouvidos, senhor. Sou um bom observador e poderia passar as melhores informações.
“Um fofoqueiro” pensou Hinata.
O capitão estreitou os olhos para a resposta, ponderando se as aceitava ou não. Ao fim, deu de ombros e caminhou até a moça, parando a sua frente e a olhando de cima com um rápido sorriso de deboche.
— Senhor Hyuuga... por que devo escolher um desconhecido como você para tomar conta do príncipe, e não o meu filho Itachi, que é um bom soldado há anos e treina todos os dias?
— Para não pensarem que está abusando de sua posição e favorecendo seu filho, senhor.
Nem pensou duas vezes antes de falar, o que lhe causou um enorme arrependimento. Ouviu risadinhas baixas, mas não teve coragem de desviar o olhar do rosto chocado do capitão.
— Você tem bons olhos e bons ouvidos como Itachi disse que tem? — perguntou o homem, ignorando a resposta que recebera.
— Tenho sim, senhor.
— Prove.
— Há duas pessoas escondidas à minha direita, senhor, atrás de uma parede falsa, vendo e ouvindo tudo o que fazemos nesse pátio. Não consegui identificar ninguém, mas consegui ver dois pares de olhos azuis. — Os olhos negros do capitão se arregalaram novamente. — Ah, e Itachi tem uma adaga escondida na bota esquerda. Ainda não entendi o motivo...
Dessa vez não conseguiu segurar a curiosidade. Itachi gargalhava ao seu lado.
— Ele é muito bom, meu pai — elogiou o rapaz.
— Eu concordo — falou uma das pessoas misteriosas, enfim saindo do esconderijo que Hinata mencionara. A moça deixou cair o queixo ao ver que a dona da voz era ninguém menos que a rainha, Kushina Namikaze. E atrás dela, com um olhar indecifrável, o rei Minato a acompanhava. — Acho que não precisamos mais de testes, Fugaku. O senhor Hyuuga aqui mostrou seu valor.
O sorriso dela animou Hinata.
— Kushina está certa — falou calmamente o rei. — Ele é tão bom quanto Itachi, Fugaku. Ficaremos com ele. — O loiro olhou para o que pensava ser um rapaz e permitiu-se abrir um pequeno sorriso. — Minha esposa costuma ter as melhores decisões, senhor Hyuuga. Não a faça mudar de ideia, para o seu próprio bem.
Hinata sorriu abertamente, confirmando com a cabeça.
Não iria desapontá-los: esconderia sua verdadeira identidade para sempre.
E a partir daquele dia, Hinata Hyuuga morreu para dar lugar a Neji Hyuuga.
~*~
O comunicado real chegou poucas horas após Kushina sair da enfermaria. Dois guardas entraram no aposento e lhe entregaram o pergaminho assinado pelo rei, intimando-a a comparecer no salão principal do castelo para seu julgamento, às três horas da tarde do dia seguinte. Acusações como “traição” e “desonra” saltaram aos seus olhos, mas Hinata não quis ler tudo. Apenas assinou o documento e o devolveu.
— Sasuke, como ele está?
Sua voz saiu baixa, mas tinha certeza que o guarda com o pergaminho a ouviu bem.
— Não estou autorizado a dizer — respondeu de forma clara, mas Hinata já o conhecia. Havia um quê de lamentação em seu tom.
A situação era incômoda para ele também.
— Compreendo...
Os dois guardas fizeram uma rápida continência antes de se virar e saírem. Porém, antes de fecharem as portas, Sasuke se voltou para a moça acamada, claramente em dúvida se deveria fazer o que lhe passava pela mente.
— Senhorita Hyuuga, eu posso visitá-la mais tarde, depois de meu turno?
Hinata nunca ficou tão feliz ao vê-lo quebrar uma regra (sem conversas com prisioneiros). E, aparentemente, o Uchiha também não, devido ao sorriso ansioso que tentava conter.
A moça confirmou com a cabeça, sorrindo também. E ainda teve que fazer um esforço para não sucumbir às lágrimas emocionadas.
Sasuke estava do seu lado.
Como prometido, o Uchiha apareceu na enfermaria ao fim da noite, ainda usando seus trajes de defensor do castelo. Parecia ofegante, como se tivesse corrido para chegar ali, e pediu alguns segundos para respirar antes de soltar:
— Ele falou de você hoje. Disse ter lembrado de quando foram apresentados.
Hinata arregalou os olhos.
— E o que mais?
— Nada. — O moreno soltou um suspiro. — Eu perguntei o motivo dele estar tão calado. Naruto apenas me respondeu isso antes de se silenciar novamente.
A animação foi embora tão rápido quanto veio. Ela deu um pequeno sorriso antes de lembrar-se daquela época também.
— Ele me odiou nos primeiros dias, você lembra? — Sasuke concordou, rindo baixo. — Naruto me confessou, semanas mais tarde, que pensou em fazer ele mesmo um novo teste de seleção assim que me conheceu... tudo para não ficar com alguém mais baixo do que ele.
— Um idiota.
~*~
Já ouvira rumores de que o herdeiro do trono infernizava a vida de seus tutores e guarda-costas, e que todos pediram demissão após poucas semanas com o jovem. Mas não imaginava que a relutância do príncipe por um escudo humano fosse tanta ao ponto dele se atrasar propositalmente para o encontro com seu novo guardião.
Naruto apareceu meia hora depois, de pijamas e claramente insatisfeito de estar ali.
— Isso são trajes, Naruto?! — brigou Kushina, a um degrau da ira.
— Eu estava me preparando para dormir — respondeu displicentemente.
— Às seis da noite, Naruto? — Minato o olhou seriamente, enfim desfazendo a postura desinteressada do filho. — Que desculpa infantil para um futuro rei!
— O futuro rei não está interessado em um novo guarda, apenas isso — rebateu, cruzando os braços, irritado.
— Não perguntei se está interessado. Mandei que viesse aqui ao fim da tarde para conhecê-lo. Limpe os ouvidos.
Naruto soltou os braços ao lado do corpo, enfim prestando atenção em Neji, ainda com a armadura grande demais e suado da cabeça aos pés. Porém, ao contrário do que todos esperavam – algo entre o nojo e o desprezo –, o príncipe pareceu surpreso ao vê-lo.
— Eu o conheço de algum lugar?
Hinata engoliu em seco, negando com a cabeça.
— Não, Alteza. — Abaixou a cabeça de leve, em respeito.
— O que há de errado com sua voz? — Fez uma careta com a resposta que recebeu.
Ela limpou a garganta, encenando:
— Estou me recuperando de um resfriado, Alteza.
Ele notara que sua voz verdadeira não era aquela que vinha usando o dia inteiro para enganar os guardas e o rei! Hinata fez um lembrete mental de providenciar ajuda com isso assim que fosse dispensada.
— Qual é o seu nome?
— Neji Hyuuga, Alteza.
Hinata ousou mirar os olhos azuis por alguns segundos, reconhecendo um incômodo ali do qual não soube identificar.
Será que ele lembrava?
— Não preciso dizer que não gosto da ideia de ter uma sombra, certo, Neji?
— Naruto! — ralhou a mãe novamente.
— Certo, Alteza. — Para Hinata, era melhor não o contrariar. Isso garantiria seu emprego. O rei e a rainha a olharam surpresos, enquanto Naruto quase não escondeu o sorriso vitorioso. — Não notará minha presença, pode ficar tranquilo. Não irei atrapalhar. Estou aqui apenas para servi-lo e cuidar de sua segurança.
— Como um ninja — ele salientou.
— Como um ninja.
Naruto a encarou por mais um tempo, curioso com sua obediência.
— Quantos anos você tem, Neji?
— Dezesseis, Alteza.
— Você é muito baixo para alguém da sua idade. — Ele se voltou para os pais, quase se divertindo com a situação. — Têm certeza que escolher um guarda-costas com minha idade é uma boa ideia? Como supostamente ele vai me proteger sendo um palmo mais baixo que minha visão?
— Altura e agilidade são coisas diferentes, Naruto — Minato respondeu seriamente. — Você devia lembrar disso. Sua altura o salvou de várias encrencas na infância.
Hinata fez força para esconder o sorriso. Naruto, no entanto, ficou com o cenho franzido, olhando novamente para Neji.
— Espero que meus pais estejam errados sobre você.
E virou as costas, não se dando ao trabalho de dar boa-noite nem aos reis. Kushina fechou os punhos, uma veia saltando em sua testa.
— Esse moleque...
— Receberá o castigo mais tarde — garantiu o rei. — Por enquanto, vamos nos acertar com o senhor Hyuuga aqui.
E ofereceu um salário mensal dez vezes maior do que Hinata esperava, garantindo lhe pagar a primeira metade no dia seguinte, como adiantamento.
~*~
— Ele cairá em si, Hinata — Sasuke falou, arrancando-lhe de seus pensamentos. — Não vai prendê-la. Muito menos mandá-la para a forca.
— Gostaria de pensar o mesmo.
— Naruto está assustado, não pode culpá-lo. Por anos ele achou que tinha Neji ao seu lado.
— Não o culpo, Sasuke. Ao contrário, não esperava diferente dele. Eu só... — Suspirou. — Achei que teria coragem de contar quem eu era antes que ele descobrisse sozinho.
— Por que não se mostrou desde o início? Você sabe que Naruto teria adorado a ideia de tê-la por perto. Há anos ele procura por Hinata Hyuuga!
— Eu sei, mas... quanto mais ele falava de mim, mais medo eu tinha de contar a verdade! Ele me odiaria por tê-lo enganado por tanto tempo! — Percebeu o erro em sua frase e logo tratou de corrigir. — Ele me odeia por ter mentido por tanto tempo.
— Mas ele não pode esquecer tudo o que passaram juntos, Hinata. Ele pode estar chateado agora, mas se lembrará que você não é uma inimiga... você demonstrou isso desde o início.
~*~
Bateu na porta do quarto do príncipe mais uma vez. Estava começando a ficar preocupada.
Por que ele não respondia?!
Encheu-se de coragem e se preparou para a bronca quando girou a maçaneta e abriu as portas gigantes do aposento real.
O rapaz não estava em parte alguma.
— Por Deus, Naruto, onde você se meteu?
Não fez alarde pelo castelo, no entanto. Procurou nos lugares que ele gostava e até nos possíveis esconderijos usados para fugir de obrigações. Ele também não estava na biblioteca e na cozinha.
Respirou fundo, tentando não entrar em pânico.
Naruto escapara de seus olhos no primeiro dia de trabalho de seu guarda-costas. Como não adivinhou que ele faria algo assim? Para testá-la ou provocá-la?
Encontrou um dos guardas a que fora apresentada mais cedo, Sasuke Uchiha, aliviada ao lembrar que o rapaz era amigo do príncipe.
— Com licença — chamou sua atenção, contente pela erva cedida por uma curandeira fazer bem o serviço de engrossar sua voz. — Sasuke, certo?
Ele apenas confirmou com a cabeça.
— O príncipe Naruto fugiu do castelo.
— Fugiu?
— Sim. Não o encontrei em parte alguma. Eu o deixei no quarto há menos de meia hora, pois ele disse que já iria se recolher. Mas ouvi um barulho em seu quarto, e quando fui perguntar, ele já não estava mais lá.
— E como sabe que ele fugiu e não que foi sequestrado? — Sasuke falou enquanto caminhava ao seu lado, apressado, em direção aos aposentos reais.
— Porque é meu primeiro dia.
A resposta pareceu convencê-lo, fazendo-o abrir um sorriso pequeno.
— Aquele idiota...
Sasuke confirmou que Naruto não estava em seu dormitório, acreditando na fuga principalmente após encontrar a janela aberta.
— É uma boa altura até o jardim — Hinata falou, deduzindo facilmente os pensamentos do moreno. — Não creio que...
— Ele já fez isso antes. Venha comigo. Acho que sei para onde ele foi.
Hinata o seguiu para fora dos aposentos e para fora do castelo. Arregalou os olhos ao encontrar o príncipe numa taberna, divertindo-se com alguns homens que falavam alto e o incentivavam a tomar mais e mais cerveja.
— Alteza! — Ela correu até ele, tomando a caneca de suas mãos. — O que está fazendo? Ainda é menor de idade!
— Neji! — Naruto gritou, animado, recuperando facilmente sua bebida e tomando um gole. — Companheiros! — chamou os outros três da mesa. — Esse é Neji, meu guarda-costas! O que acham do trabalho dele?
— Péssimo, Alteza! — um deles ousou dizer, fazendo a turma inteira cair na gargalhada.
— Péssimo vai ser para aquele que deu álcool para um menor! Para o herdeiro do trono! — rebateu Hinata seriamente, não deixando um rastro de dúvida em suas palavras. — Vou levar o príncipe imediatamente para o castelo, mas amanhã voltarei e mandarei prender aquele que se atreveu a embebedar um Namikaze!
— Eu não vou com você — Naruto falou um pouco mais baixo, irritado.
— Eu não perguntei se você quer.
— “Você”? Quem você pensa que é? Eu sou o herdeiro do trono e exijo...
— Então se comporte como tal! Continue agindo como um moleque e eu o tratarei como moleque!
Os olhos azuis se estreitaram em sua direção, mas ela não se intimidou. No entanto, quase demonstrou surpresa quando o loiro relaxou e respirou fundo, dizendo-lhe baixinho palavras que não esperava:
— Você me lembra ela... Eu sabia que teria trabalho com você assim que reconheci seus olhos.
Naruto largou o copo na mesa e tirou do bolso algumas moedas de prata. Colocou-as ao lado do copo vazio e sorriu para os outros três.
— Meus companheiros, é chegada a minha hora. Prometo voltar outro dia para continuarmos nosso tão profundo diálogo.
Os homens gargalharam de chorar, despedindo-se dele com entusiasmo. Naruto andou à frente de Hinata e Sasuke até chegar em seu quarto.
— Aquele que abrir a boca sobre essa noite para os meus pais é um homem morto.
E fechou as portas.
— Onde está Naruto? — perguntou Kushina mais uma vez.
— O príncipe teve dificuldades para dormir, Majestade — respondeu novamente a moça disfarçada. — Ele estava com dores abdominais. Eu o ouvi vomitar algumas vezes ontem a noite e hoje pela manhã.
A última sentença era verdade. Ela ouvira seu péssimo estado por um bom tempo depois que ele foi dormir – pois seu quarto ficava ao lado do dele – e assim que acordou. Hinata levou um chá para o rapaz, para ajudá-lo com o estômago, e rapidamente saiu, temendo uma possível grosseria logo cedo.
— Será se foi algo que ele comeu? — a rainha falou preocupada. — Neji, por favor, leve um chá para meu filho.
— Já levei, Majestade. Mas se preferirem, posso voltar lá para perguntar se ele virá para o café.
— Não será necessário — anunciou um pálido Naruto entrando na sala de jantar, ainda de pijamas. Hinata tentou não demonstrar toda a preocupação que sentia, mas não se conteve:
— Como está do enjoo, Alteza? O chá o ajudou?
Os três Namikazes a olharam levemente surpresos. Ela arregalou os olhos, com medo de ter dito algo errado.
— Ajudou, Neji, obrigado — enfim respondeu o loiro mais novo.
Hinata então tratou de ficar calada, para evitar outra gafe, e deixou que os três tomassem o café-da-manhã sossegados. “Talvez não estejam acostumados com estranhos se preocupando com eles” pensou a jovem.
— Neji disse que você está doente desde ontem a noite. — Kushina passou a mão pelos cabelos rebeldes do filho, ainda preocupada. — Quer que eu chame um médico?
— Mas eu...
— Perdoe-me, Alteza, — Hinata se intrometeu novamente, odiando a própria língua — mas eu disse para seus pais que estava com dores estomacais desde ontem, e que levei um chá para melhorar dos vômitos. Creio que possa ter ingerido algo que lhe fez mal.
Apenas meias-verdades, mas Minato e Kushina não precisavam saber o que acontecera de fato.
Naruto confirmou com a cabeça, levemente pasmo.
— Não precisa, minha mãe. Neji está certo, deve ter sido algo que ingeri. Estarei melhor em algumas horas.
A ruiva acreditou, sorrindo docemente e beijando as bochechas do filho, deixando-o embaraçado.
— Por que mentiu para meus pais? — Ele a encurralou assim que terminou o café-da-manhã e os reis se distanciaram.
— Achei que Vossa Alteza não quisesse que eles soubessem de suas farras — respondeu confusa.
— Mas eles sabem. Sasuke conta tudo para eles!
Ela arregalou os olhos. E então riu baixinho de si mesma.
É claro que Minato e Kushina sabiam! Naruto era o único herdeiro do trono! Os reis deviam ter mais olhos o vigiando, além dos dela.
Teve vontade de bater na própria testa com sua inocência, mas não se arrependia de tê-lo protegido.
— Vossa Alteza me confunde com suas ordens — falou sincera. — Então devo contar a verdade numa próxima vez?
Ele pensou um pouco, avaliando a questão. Era a primeira vez que não levava bronca por estar de ressaca.
— Vamos deixar isso em segredo, por enquanto.
— Como desejar, Alteza.
O sorriso pequeno dele a deixou esperançosa por uma melhor convivência com o futuro rei.
O que realmente aconteceu. Naruto pareceu entender que era muito jovem para se embriagar e ouviu os conselhos de Neji sobre o uso indevido do álcool. As fugas ainda aconteciam de vez em quando, mas nunca envolvendo uma bebedeira.
Pelo menos não até os dezoito anos do rapaz, quando as encrencas passaram não somente a ter bebidas até a madrugada, mas também mulheres desesperadas pela atenção do príncipe.
~*~
Sasuke não conseguiu consolá-la, mas Hinata agradeceu incansavelmente pelo apoio que ele e Shikamaru estavam lhe dando – o Nara pediu para avisá-la, pelo Uchiha, que deporia ao seu favor no julgamento do dia seguinte.
Teve uma péssima noite, dormindo pouco devido à ansiedade e sendo acordada logo cedo por Tsunade, a médica do castelo, para conferir suas feridas antes de liberá-la. Ela revelou que Hinata ainda precisaria de alguns dias de repouso, mas como a moça estava decidida a ser julgada logo, o tratamento teria que esperar até sua sentença.
“Posso nem precisar do tratamento se eu for para a forca” pensou, mas não externou para a médica. Ela parecia preocupada de verdade.
Colocou o vestido que alguma criada deixara a sua disposição e saiu da enfermaria, só então se dando conta de que não sabia para onde ir.
— Para seu quarto, Hinata. — Sasuke apareceu como mágica ao seu lado. — Você não tem permissão para deixar o castelo até o julgamento.
Suspirou.
— Certo.
Ele a acompanhou até o andar superior, encontrando mais dois guardas em sua porta. Não estranhou e os cumprimentou normalmente. Lee e Itachi não a ignoraram como esperava, desejando-lhe uma rápida recuperação. Ela sorriu antes de entrar no quarto, um pouquinho mais aliviada.
Tinha feito bons amigos naquele castelo... sentiria falta de todos.
Ao constatar que todas as suas coisas tinham sido guardadas em duas pequenas malas, e que não havia nada que pudesse fazer até o meio da tarde, Hinata decidiu apenas descansar até lá.
Ou tentar.
A imagem de um bonito homem de olhos azuis e cabelos loiros bagunçados lhe veio à mente sem esforço. As lágrimas que segurara por tantos anos enfim a tomaram ao lembrar-se da risada dele e do jeito brincalhão demais, quase impróprio para um nobre.
Tantos anos depois e ela continuava apaixonada por ele...
Hinata queria estar arrependida de suas mentiras, mas não conseguia. Seu disfarce como Neji que a trouxe para perto daquele que amava, afinal.
~*~
Hinata deu um pulo no lugar quando Naruto bateu a porta do quarto com força. Distraída com a lua, ela não o ouviu entrar até que as pesadas portas de madeira se encontrassem. O príncipe poderia rir do guarda-costas, mas estava furioso demais para tal.
— O que está fazendo no meu quarto?
— Vossa Alteza esqueceu do treinamento com o Capitão Kakashi essa tarde — respondeu sem se abalar com a irritação do loiro. Naruto colocou as mãos sobre o rosto, lembrando tardiamente do compromisso. — Ele pediu-me para informá-lo que o treino foi transferido para amanhã, às cinco horas.
— No final da tarde? Ele não sabe que eu...?
— Cinco da manhã, Alteza.
— Argh, pare de me chamar assim! — Ele se jogou na cama e deu um longo grito de frustração, abafado pelo travesseiro que cobria seu rosto.
Hinata deu poucos passos em direção à cama, em dúvida se falava algo ou se saía do quarto. A curiosidade falou mais alto:
— O que houve, Naruto? — Quando estavam sozinhos, o Namikaze não se importava que Neji o chamasse pelo nome. — Você não costuma faltar aos treinamentos corporais.
— Eu estava em reunião com meu pai — resmungou. — E depois mamãe apareceu falando sobre alianças e casamentos...
— De novo?
— De novo. Ela insiste para que eu me case logo! Será que ela não entende que não quero me casar? Muito menos com uma desconhecida?
Naruto ficou curioso com o silêncio, olhando para Neji e notando que ele simplesmente sorria para seu problema.
— Vejo que pensa diferente de mim.
— Um pouco, sim. — Deu de ombros.
— Gostaria de se casar um dia, Neji?
A morena ficou rubra, mas acenou em afirmação.
— Há alguém no seu radar? — Naruto abriu o primeiro sorriso da noite.
— N-Naruto! — ela brigou, envergonhada. — Sim! — respondeu de uma vez, depois de tanta insistência. — Sim, há alguém que eu amo, mas...
— Mas...
— Mas é impossível. Não sou... digno de tal pessoa.
— Você é o guarda-costas do príncipe! — exclamou o loiro. — Por que não usa isso ao seu favor? Que donzela não se encantaria com um homem forte, corajoso e que poderá protegê-la?
— Não a pessoa que amo, Naruto. Isso nunca seria o suficiente.
Naruto mirou os olhos perolados e engoliu em seco ao ver que Neji falava sério, que ele realmente tinha o coração partido por achar que nunca seria merecedor do amor de tal “donzela”.
Aquela vez fora o mais perto que conseguiu de se declarar para o príncipe.
~*~
Tinha adormecido e não se dera conta. Foi despertada pelas batidas na porta e se esforçou para levantar e falar para que entrassem.
— Está na hora, Hinata.
Itachi era sempre muito profissional e raramente deixava transparecer o que sentia quando estava trabalhando. Mas naquele momento não havia como conter a aflição. Lee, ao seu lado, já tinha os olhos marejados.
Ela assentiu, pondo-se de pé e caminhando para o lado deles.
— Livrem-se das minhas coisas, por favor — pediu quase calmamente enquanto andava entre os dois. Lee a olhou chocado. — Doem para os mais necessitados. Independentemente do que acontecer, não precisarei mais dos pertences de Neji.
Os lábios de Lee tremeram, mas ele prometeu que cumpriria o serviço. Poucos passos depois, eles pararam em frente às portas do salão principal do castelo. Já era possível ouvir o barulho vindo do cômodo mesmo com as portas fechadas.
— Boa sorte, Hinata — falaram os guardas ao mesmo tempo.
— Estaremos aqui fora se precisar de nós — continuou Itachi. — Estamos do seu lado.
— Obrigada...
Fez força para segurar as lágrimas de emoção. Respirou fundo e deixou que os guardas abrissem os grandes portões, chamando a atenção para si imediatamente. Todas as conversas cessaram no instante em que ela deu o primeiro passo para dentro.
O lugar estava diferente, perfeitamente arrumado para a ocasião. Cadeiras se espalhavam nas laterais do salão, todas ocupadas por nobres e outros tantos conhecidos – avistou seu pai e Hanabi nas cadeiras da frente, muito próximos aos tronos da realeza. Havia apenas duas cadeiras no centro, uma para ela e outra para uma testemunha, bem de frente para as três pessoas mais importantes do país, com somente cinco metros de distância os separando.
Minato a olhava indiferente enquanto ela caminhava até seu lugar. Kushina estava mais inquieta do que nunca, olhando da moça para o marido e cochichando algo para o filho quando a morena enfim se sentou.
Naruto não levantou o rosto para encarar a ré.
Hinata, no entanto, tinha bons olhos. Ela conseguiu reparar em suas vestes ligeiramente amarrotadas e nas olheiras que cercavam os olhos azuis. Teve vontade de correr até ele, pedir-lhe perdão e prometer que nunca mais mentiria novamente...
Era difícil conter tal desejo quando ele não tirava os olhos do pingente de raposa que ela lhe presenteara há tantos anos!
Os burburinhos voltaram a preencher o salão, mas não por muito tempo. Um juiz oficial do reino, escolhido a dedo por Minato, entrou no salão poucos minutos depois de Hinata. Ele reverenciou o rei, a rainha e o príncipe, perguntando se poderia começar. Autorizado pelos três – o murmúrio de Naruto foi interpretado como um sim –, o homem pigarreou, silenciando novamente o salão e começando a ler o pergaminho retirado do bolso:
— Vilarejo da Folha, País do Fogo, oito de setembro do ano oitocentos e setenta e seis, o vigésimo terceiro do reinado de Vossas Majestades, o rei Minato Namikaze e rainha Kushina Namikaze. Estamos aqui reunidos para o julgamento de Hinata Hyuuga, acusada de traição, desonra e desacato às autoridades reais. Se considerada culpada, será condenada à morte por decapitação ou na forca.
A Hyuuga engoliu em seco, fechando as mãos trêmulas.
— Senhorita Hinata Hyuuga... a senhorita se declara culpada ou inocente?
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