Gritos Omitidos
1 Capítulo 1
O céu estava perfurado por milhares e milhares de construções, não haviam estrelas visíveis graças as nuvens de chuva que se preparavam para liberar grossas gotas de água fria na hora em que quisessem, mas, em compensação ao céu negro, os prédios cintilavam vividamente com suas milhares de lâmpadas, lâmpadas de quartos de crianças com medo de escuro, de adultos bebendo até de madrugada, ou, até mesmo de casais em seus momentos mais íntimos. O vento que percorria por entre as construções não podia ser chamado apenas de brisa noturna, ele era gélido e endurecia os ossos daquela garota. Nem um ser vivo, além dela, podia ser visto naquelas ruas, mesmo com os carros que passavam com suas luzes cegantes, eles fingiam não existir e ignoravam aquela pessoa que arrastava a perna, deixando um rastro vermelho-escuro no chão. A garota gemia de dor e sua respiração oscilava, soltando pequenas baforadas que se espalhavam em fumaça, graças ao frio, seu pé queimava por estar arrastando-o descalço no asfalto e ela chamava desesperadamente por ajuda a cada carro vazio que passava. Suas forças estavam quase no fim e o buraco, por onde a bala entrava na sua perna, estava pulsando e vomitando sangue em grande quantidade. Ela se sentou no chão, apoiando as costas numa parede de tijolos, e olhou para a rua, o sinal estava vermelho — vermelho como o sangue dela — e lá estava um carro vazio, uma bolha que impedia que qualquer um ouvisse os gritos de desespero dela.
Aquela mulher sempre havia sido uma trapaceira. No ápice de sua vida e dinheiro, ela desconhecia a solidão e acreditava que seus temores se afastariam dela por sua simples posse de poder. O mundo estava podre, mas era daquele jeito que ela se agradava, ela amava ver as coisas mofando até simplesmente desmoronar na frente dos olhos dela. Desde pequena ela tinha grande pavor diante a ideia de ser esquecida, e, por isso, decidiu que avançaria o máximo que pudesse para marcar a existência dela entre o tempo que fluía sem piedade alguma. Por mais que visse seu nome espalhado por várias vitrines de bancas e seu rosto passando graciosamente na TV, ela não se sentia feliz, não via um porquê de parar de avançar e continuava seu jogo de atenção.
Ela nunca chegou a se casar, mesmo em seus quarenta e tantos anos de ambição. Era uma mulher bela e cheia de pretendentes interessados por seu dinheiro e aparência, aquilo era o que despertava sua insanidade, ela arrancaria seu coração para não deixar que aquele grupo de interesseiros tentasse tomar tudo aquilo dela, e, isso, como consequência, afastou até mesmo os que amavam ela verdadeiramente.
Não havia um porquê de reclamar da vida dela, não importava quanto ela empurrasse as pessoas para longe, elas sempre voltariam em grupos maiores impedindo a solidão dela, o dinheiro transbordava entre as bolsas que ela escondia dentro de armários e ela sentia que nunca seria esquecida, mesmo após sua morte.
E lá estava ela, não havia arrependimentos, certo? Após passar quase cinquenta anos emoldurando sua morte para ser algo inesquecível pela humanidade, ela podia finalmente descansar, certo? Mas, por mais que se sentisse preparada para aquele momento onde todas as suas ações teriam resultado, ela não queria abandonar seu reino. Ela estava com medo de morrer.
A mulher soltou um grito de desespero, enquanto tampava o buraco em sua perna. Por quê? Ela nunca esteve sozinha, então, por quê? Por que estavam ignorando o fato de que ela estava caída num canto qualquer, sangrando aos montes? Não era agradável a ideia de morrer experimentando a solidão.
Uma pequena gota d’água se jogou do céu, anunciando as que viriam em seguida, e logo o som de gotas grossas acertando o chão tomou toda a rua, encobrindo os urros dela. Seu olhar desceu para sua perna que queimava intensamente, o sangue estava se diluindo na água e escorrendo para um bueiro qualquer. Quando algo atrapalhava o caminho dela, o primeiro passo era eliminar aquilo, então, por qual motivo ela não arrancava aquela perna fora? Entrando lentamente em um estado de insanidade, a mulher riu diante o pensamento e inclinou a cabeça sobre o ombro. Seus olhos estavam borrados de lágrimas que ela evitava soltar e, mesmo com o som da chuva que chicoteava os prédios, sua cabeça estava cheia com o som dos passos que se aproximavam. O som era de salto alto, provavelmente fino, a pessoa vinha lentamente, acariciando o chão sob seus pés, enquanto cantarolava uma canção qualquer. Em sua mão havia uma pistola decorada com o sangue que tinha espirrado da perna da mulher, e a assassina parecia não se importar em limpar aquilo.
Logo as duas estavam frente a frente, eram reflexos, duas mulheres idênticas, a única diferença é que uma chorava e gritava com um pequeno bebê, e a outra segurava uma pistola, com um sorriso de desespero no rosto. Não ouve uma troca de palavras ou até mesmo de olhares, apenas o som de um tiro que foi encoberto por um trovão e então mais sangue arremessado por todos os lados.
No dia seguinte o corpo da empresária foi encontrado em uma poça de água e sangue misturados. A expressão de horror em seu rosto foi fotografada centenas de vezes, mas, não foi publicada uma vez sequer. Temendo o caos que poderia ser resultado daquilo, o suicídio dela foi mantida em segredo.
O mundo não parou, seu nome foi esquecido e nada mudou. Malditos sejam.
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