Gris

8 Capítulo 7: Treasured Memories


Notas iniciais
Hell yeah, após uma temporada no inferno (XD), cá estou eu de novo, com "Gris". Espero que gostem do capítulo, pessoinhas!~ /

GRIS
Petit Ange

Todas as famílias felizes são iguais. As infelizes o são cada uma à sua maneira.
~ Anna Karenina (Tolstói).

Capítulo 7: Treasured Memories. [24]

- Por favor, diga-me que o nome do seu outro perseguidor não é “Xaldin”...

Demyx, talvez por entender bem mais a gravidade da situação, conseguiu empalidecer mais que Zexion. Por um ínfimo momento, teve medo de ter uma parada respiratória, tamanho o susto (e, até onde se lembrava, a respiração, quando se está sob efeito de morfina, ficava debilitada mesmo).

Não. Precisava ser uma brincadeira de muito mal-gosto. Talvez, para sua infelicidade, aquele fosse um pesadelo. Será que quando acordasse Zexion também estaria ao seu lado como aquele ali, ou seria... Sua mãe?

- Tá brincando, né? – engoliu em seco.

- Eu lá tenho cara de quem está brincando?! – impaciente, o outro praticamente rosnou aquela resposta.

Maldição. Demyx suspirou, igualmente impaciente.

Devia ter previsto que, muito provavelmente, se desmaiasse e passasse algumas horas imóvel, ainda mais ali, num hospital, aqueles dois certamente o achariam.

- Onde eles estão...?

Passando a mão pelos cabelos, Zexion tentou retomar a calma perdida.

- Ameaçando a recepcionista, possivelmente buscando seu quarto. – encarou-o, logo em seguida virando-se para a porta de novo.

- Hum...

Zexion ergueu a sobrancelha. Impressão sua ou o imbecil estava se divertindo?

- Era o Xaldin, né? – sorriu. – Digo, que estava ameaçando-a.

- ...Era sim. No que isso é importante? – ok, aí estava uma pergunta que ele, normalmente, jamais faria, mas naquele momento saiu automaticamente.

- Nada, não. Mas é a cara dele fazer isso... – sorriu ainda mais.

Controlando-se para não pular em cima do idiota que acordara há pouco tempo, Zexion quase viu-se abandonando sua posição. Encostou as costas na porta outra vez.

- ...Demyx, você por acaso sabe quem é “Xaldin”? O “Xaldin” que eu vi?

- Bem... – pensativo. – É um homem alto e forte pra caramba, com cara de quem come criancinhas no café, cabelos pretos com dreadlocks... É isso, né?

- Exato.

- Certo... E o que tem ele? – sem entender.

- ...Repense em sua própria descrição do indivíduo e só então venha me dizer o que tem de errado nisso.

Não, pensando bem, ele tinha razão.

Demyx lembrava da personalidade de seus perseguidores. Na verdade, lembrava-se bem demais delas. Melhor do que pretendia fazê-lo, é verdade. E isso o deixava, assim como Zexion, um pouco preocupado.

Um era relaxado demais e o outro carrancudo demais.

Onde é que eu já vi isso antes...?”, pensou, num misto de ironia e humor.

(Bem, é claro que, ao contrário de Xaldin, Zexion não tinha nenhum traço de sadismo inerente. Ou será que tinha? Precisava admitir que o acontecimento envolvendo as algemas o deixou com um trauma irreparável...).

Se ambos estavam ali naquele hospital, ali naquela cidade, procurando por alguém e ameaçando uma recepcionista para tal, só significava uma coisa: encurralado. Súbita e totalmente encurralado.

A amargura daquela verdade desceu-lhe com dificuldades pela garganta.

- Precisamos sair daqui. – e Demyx só pôde concluir aquilo.

Zexion, por sua vez, o encarou como se fosse um doente mental.

Muito além do óbvio que era “realmente precisamos”, vinha-lhe uma segunda conclusão. Uma ainda mais na cara. Mais frustrante.

- Você está num hospital. – obrigou-se a dizer, como se fosse uma vergonha, tamanha a obviedade do fato.

- Eu sei. – assentiu. – Por isso, temos de sair dele agora.

Será que viraria um tique irritante, aquele? O rapaz de cabelos azuis só pôde deslizar os dedos pelos fios cor-de-ciano outra vez.

Muito bem, foco!, pensou. Mas não havia como ter foco diante daquilo. Uma verdade dolorosa e assustadora, mas Zexion estava desprotegido, na falta de palavra melhor; assim como Demyx, cuja compreensão foi muito mais rápida devido seus maiores conhecimentos, ele percebera agora o quanto estavam infinitamente encurralados. Era quase impossível.

- ...Como diabos pretende sair de uma toca de lobos?

Por sua vez, não querendo perder tanto tempo com os “porém”, Demyx tirou de si aquela agulha incômoda que transportava-lhe soro, morfina, qualquer coisa que fosse, e levantou-se.

Suspirou, desgostoso, ao ver-se com aquela infame camisola branca de hospital, digna de filmes (e imaginou se não iria sentir aquele ‘ventinho’ estranho de que todos nestes mesmos filmes falavam).

- Vo-você! O que está fazendo...?! – engasgou o outro, até excepcionalmente gaguejando no início da frase.

- ...Você não trouxe nenhuma roupa, né Zexy? – suspirou de novo.

Não, ele definitivamente não tinha nada consigo.

É claro, entendia um pouco a razão. Ninguém espera que alguém que receba morfina tenha condições de levantar-se poucas horas depois. E, mais ainda, ninguém espera ter de fugir às pressas de um estabelecimento assim.

Mas eles não tinham tempo. Aquela era uma situação especial.

- É claro que não. – respondeu, rapidamente.

Ao vê-lo negar, como previa, Demyx tentou concentrar-se em algum genial plano de fuga. Mas tudo que tinha era a tontura da droga ainda correndo pelo sangue.
Mas obrigou-se a parar depois de alguns segundos, surpreso.

- ...Ué, Zexy? Não vai tentar me impedir? – não. Mais do que isso, abismado.

- Eu já sei o que está tentando fazer, Demyx. – suspirou ele, ignorando solenemente o maldito apelido. – Estou mais interessado em procurar algum argumento irrefutável ou alguma rota segura de fuga, não em alimentar uma discussão inútil e sem nenhuma aplicação prática.

Subitamente, o moreno riu.

- Não sei como, mas você consegue transformar uma simples frase em uma dissertação digna de coma! – ironizou.

- Mais tarde pensaremos em expandir essas pseudo-relações interpessoais. No momento, a prioridade é uma fuga bem-sucedida. – “e com o mínimo de dor possível”, completou mentalmente. Mas julgando pela aparência dos dois ocupantes do tão temido Audi negro, aquilo era quase uma utopia.

- Ok... – assentiu Demyx. – Pulando a parte do “preciso de um dicionário de Zexiês para Português”, tem algum plano brilhante?

- Na verdade...

Notando a hesitação na fala do outro, o moreno suspirou.

- Pode falar. Na atual situação, qualquer coisa é uma ajuda.

Não podia tirar-lhe a razão. Zexion sabia que, desesperados como estavam, a um passo de um processo, uma pena esmagadora e, quem sabe, até mesmo com direito a uma sessão de espancamento injustificado e gratuito (e é claro que, cretino como era, Demyx até mesmo livrar-se-ia dessas partes!), graças a um mal-entendido de proporções astronômicas, ele só podia sugerir algo louco. Algo fora de suas faculdades mentais.

Quem sabe, o desespero fosse assim mesmo. Como um êxtase, como a dor: tudo isso tira um cérebro de seu curso habitual de pensamento. Uma linha que subitamente tem um desvio.

Era assim que se via. Porque sua idéia era tão absurda que...

- Quão sóbrio você está? – e, com surpresa inegável, o rapaz viu-se realmente ponderando aquela insânia.

- Sóbrio para...?

- Consegue ficar de pé sem vacilar ou enxergar à sua frente sem borrões?

O moreno assentiu de imediato.

Não era nenhuma morfina, uma substância com a qual ele já estava plenamente acostumado, se isso era possível, que iria derrubá-lo.

Ainda mais numa situação daquelas!

- Consigo. – mas, ainda sim, não entendia exatamente qual o propósito. – O que pretende fazer, Zexy? Correr pelos corredores?...

- Não.

Mas, apenas por desencargo de consciência, Zexion viu-se desfazendo-se de seu casaco e o entregando para Demyx.

- ...Amarre isso na sua cintura, por precaução.

No momento seguinte, esperando que o idiota o pegasse sem maiores (e constrangedoras) perguntas, entreabriu a porta, espiando a movimentação do corredor. Ele iria mesmo fazer isso?...

Definitivamente, o desespero é algo muito perigoso!

- O que nós...

- Nem queira saber, Demyx. Nem queira saber.

~x~x~x~

Ele não podia acreditar.

Era quase como estar em um pesadelo em cores vivas.

O pé no acelerador, a tensão que o fazia suar frio... Tudo aquilo tinha os tons certos de um sonho estranho.

Por um breve momento, pensou se não fosse despertar na cama que ocupava na casa de sua mãe, em Nagano, aquela cama que foi sua enquanto morou naquele lugar. Só podia acordar lá...

Aquele sonho ruim de que ele nunca chegou à sua casa era mentira, não?

O fato de ele estar correndo a provavelmente mais de 200km/h era uma mentira deslavada, correto?

Precisava ser. Era tudo irreal demais...

Zexion percebeu-se olhando pelo espelho retrovisor.

O Audi negro continuava seguindo-os.

Ah... Será que iria demorar muito para acordar?...

~x~x~x~

- Maebashi... – ele sussurrou, num tom que beirava o espanto.

Uma vez mais, Zexion teve de dividir o quarto com Demyx. Na verdade, por questões econômicas. Afinal, tinha dinheiro, mas não nadava no mesmo; por isso, não podia se dar ao luxo de ficar gastando desnecessariamente. Aliás, se fosse por ele, dormiria no carro mesmo. Ou viveria à base de café e sequer descansaria.

Mas havia um idiota consigo. Aliás, um idiota mimado que não sabia ficar longe de um colchão e reclamava que suas costas doíam se tentasse dormir no banco da frente. Maldito imbecil...

Sim, disse a si mesmo. Maebashi. A capital de Gunma. A província do lado de Nagano. Ah, sim...

Ele, em situações normais, jamais usaria aquele caminho, mas parece que, de um jeito ou de outro, havia conseguido fazer com que sua fuga coincidisse com o rumo de sua casa magicamente.

Inconsciência, quem sabe?...

Suspirou outra vez. Nem mesmo o banho quente havia conseguido relaxar seus músculos tensos. Enquanto se secava, Zexion na verdade pensou que iria acabar se quebrando se continuasse rígido daquele jeito.

Mas era inevitável...

Ele e o imbecil fugiram de um hospital. Ainda não sabia direito como, mas fugiram. Às pressas, voltaram para o hotel apenas para trocarem de roupa e pegarem suas coisas e, escoltados pelo olhar incrédulo de mais uma recepcionista, pagaram e abandonaram a cidade.

É claro, não foi o suficiente. Depois daquilo, foi a hora de uma perseguição ainda mais digna de um filme do que a anterior.

E Zexion percebeu-se vivo.

Tentava explicar o fato com a razão pura, mas era tão milagroso que ele quase se sentia inclinado a aceitar tudo aquilo como um presente de Deus.

Enquanto esperava Demyx, que havia saído há horas (mesmo diante de seus claros avisos de que os tais Xaldin e Xigbar sabiam que estavam em Maebashi e podiam aparecer em qualquer lugar, a qualquer hora) para comprar alguma coisa ou simplesmente passear (o idiota...), o rapaz de cabelos azuis zapeava canais aleatórios na TV do quarto.

Procurava, na verdade, qualquer notícia sobre dois homens fugindo de um hospital em Nikko, terminando a notícia em um “a Polícia não tem mais informações a respeito do caso”. Não achara nenhuma ainda, mas era questão de tempo. E uma foto sua iria aparecer.

Nesse momento, então, qualquer um poderia reconhecê-los.

Oh, aqueles homens fugidos do hospital!”. Isso por si só seria horrível, mas o que Zexion mais considerava é que ele havia arrastado Demyx consigo, por mais que o moreno quisesse isso.

Em termos legais, isso significa “seqüestro”. Pura e simplesmente. Mesmo que, originalmente, o seqüestrado era ele.

Isso sem contar em “omissão de socorro”, já que o imbecil estava sendo tratado até com morfina, por alguma coisa que o rapaz não fazia idéia.

...Parecia que suas décadas na cadeia só tendiam a aumentar a cada dia.

Suspirando numa exaustão crescente, ele largou-se sobre a cama, fechando os olhos e esperando a morte, o mandato de prisão, o que viesse.

Mas tudo o que apareceu, momentos depois, foi o clique da porta e um idiota entrando.

- Chegueeei!~ – anunciou, tirando seus sapatos e deixando-os no canto.

Demyx estava com aquele sorriso infame e com o casaco que sempre levava para os momentos de frio (grande combinação...), e em sua mão, uma sacola de alguma loja de conveniências.

Erguendo a sobrancelha e o corpo da cama, suspeitoso, o rapaz levantou-se:

- ...O que é isso? – apontou para a mesma.

Sorrindo, o moreno fez um V com os dedos.

- Sake. Eu ia trazer amazake[25], mas achei mais digno bebermos sake e liberarmos com gáudio essa fuga!

Zexion suspirou. – É “libemos”.

- ...Ah, que seja. – resmungou o outro.

Por mais, porém, que estivesse exausto de fugir e se esconder, Zexion ainda não perdera a vontade de raciocinar.

Apenas, pensou consigo mesmo, demorou um pouco mais do que o habitual para se conscientizar daquilo:

- ...Ei, como deixaram você entrar com sacolas de bebida alcoólica aqui?

Como se esperasse que, hora ou outra, ele perguntasse aquilo, Demyx abriu um vitorioso sorriso.

- “Quem tem boca vai à Roma”. – e recitou o ditado como se tivesse esperado toda uma vida para, ao menos uma vez nela, poder se sentir um pouquinho mais superior ao “todo-poderoso e inteligente salve-salve Zexion”.

O rapaz passou a mão, exausto, por seus cabelos.

Sabia que não adiantava nada reclamar. Afinal, se o moreno já estava ali em cima, atravessando calmamente os corredores do hotel com apenas sake, sem ninguém o censurar ou proibir (afinal, geralmente hotéis assim têm suas políticas. Ainda mais no Japão, tão conservador nesse sentido), então o estrago já estava feito.

E, agora que pensava, o ex-trabalhador honesto de vida pacífica percebia, por Deus, que em todo hotel que passavam, deixavam uma péssima idéia às recepcionistas ou aos carregadores.

...Zexion teve o impulso de relembrar das peripécias deles em outros lugares, mas preferiu manter ao menos o pouco de ânimo que ainda não tinha lhe escorregado pelos dedos como se fosse água. Apenas suspirou.

- Me dê. – estendeu a mão, ávido por um pouco de álcool.

De verdade, queria esquecer que aquele dia existiu. Queria beber até esquecer seu próprio nome. Em situações normais, ele nunca, jamais faria aquilo. Era mal-visto, era horrível, era...

Mas, é claro, quando Zexion percebeu que ele amanhecera em Nikko e, agora, estava anoitecendo em Maebashi, em outra prefeitura...

Por Deus, em um dia ele fez o que jamais faria em todos seus anos de vida!

Portanto, precisava muitíssimo de álcool. Talvez, com a dose certa de sake, com a vista certa para o céu sem estrelas daquele lugar, ele aceitasse que estava rodando o país, sem rumo, fugindo literalmente do desconhecido. E pudesse até mesmo ter um presente para si: a sensação de que tudo aquilo é um sonho bêbado.

Demyx, estranhando aquela estranha passividade irada do companheiro de fugas, deu-lhe uma das garrafas.

- Você tá bem, Zexy...? – erguendo a sobrancelha, perguntou.

- ...Vou estar. Ou assim espero. – respondeu, lacônico.

Dando de ombros, Demyx pediu para que o rapaz de cabelos azulados esperasse um pouco. Ele queria tomar banho antes de beberem até cair.

Mas, quando o moreno desapareceu pela porta do banheiro daquele quarto,

Zexion mandou-o, mentalmente, para aquele lugar onde não bate a luz e bebeu, avidamente, os primeiros dez goles. O sake desceu como vodca por sua garganta não acostumada à uma dose assim.

O imbecil adormecera chorando há duas noites atrás (EM NIKKO, POR BUDA! EM NIKKO!), desmaiara e passara um dia adormecido, e quando acordava, já lhe causava problemas (indiretamente, mas problemas). Era um imbecil completo, tão completo quanto um conjunto de chá.

E, o que era pior: era um idiota que conseguiu, de uma forma que o próprio rapaz ainda não entendia direito, enfiá-lo em algum problema que era até mesmo exagerado demais para os filmes de ação. Zexion ponderava se Demyx não fosse integrante da máfia, algum espécime de laboratório...

Porque a situação estava tão caótica, tão bizarra e tão inexplicavelmente engraçada que qualquer uma das opções poderia muito bem ser a correta.

O exagero parecia algo inerente à qualquer pensamento acerca o imbecil.

...Aliás, falando em imbecilidade que ele suspeitava ser crônica, como Demyx conseguia ter toda aquela vitalidade depois de uma dose cavalar de morfina nas veias, isso era um mistério.

E foi só então, como quem desperta depois de um longo sono, que Zexion percebera duas coisas: mais de uma hora e meia já havia se passado.

A TV já exibia outro programa diferente daquele de quando Demyx chegou.

A outra coisa era aquilo: justamente a ausência dele.

...Como foi em Nikko. Como fora por duas vezes em Nikko.

Uma vontade indecente de se levantar e bater na porta, perguntar se ele estava tudo bem, se precisava de alguma coisa, abateu-o, pegou-o desprevenido. Mas Zexion soube contornar bem a situação. Controlar-se antes de se entregar.

E bebeu tudo o que podia daquela garrafa, até engasgar com a quantidade anormal de líquido forte descendo por sua boca.

Mesmo assim, a visão de Demyx com um esgar de dor em seu rosto, tanto naquele dia no ryokan como no hospital, depois de tanta morfina, não parava de passar-lhe pela mente.

Mas será que ele não estaria...?

Antes que o rapaz de fato se entregasse àquela vontade de ver como estaria o seu parceiro de fuga (obrigatória), o próprio apresentou-se, saindo enfim do banheiro que deixava entrever o bafo de um banho quente.

- Desculpe, eu demo... – e arregalou os olhos. – ZEXY! Por que não me esperou para bebermos juntos~?! – choramingou em seguida.

Revirando os olhos, o rapaz respondeu àquela questão apenas abrindo outra garrafa na frente do moreno.

- ...Eu tentei, Demyx. – mas, apenas por questão de um golpe de misericórdia, emendou aquilo.

Sentando-se de imediato no chão, ele também pegou o seu sake.

Zexion ponderou se era seguro deixar que alguém que estivera em um sono dopado até aquela tarde (SIM, AQUELA TARDE, EM NIKKO!) bebesse alguma coisa alcoólica. Podia ter uma reação adversa e teriam de parar em mais um hospital, apenas para serem reconhecidos e presos não por dois brutamontes em um Audi, mas pela própria Polícia. Meio caminho andado, meio outro perdido.

Aliás, e isso estava pensando enquanto bebia, a recepcionista ou qualquer funcionário que os tivesse visto podiam muito bem identificar a ambos, caso a notícia já tivesse aparecido em algum lugar.

...Ah. Estava pensando em círculos.

Primeiro efeito da bebida?

Deixando aquilo de lado, o rapaz de cabelos azuis preferiu ocupar-se em apenas aproveitar o silêncio e o álcool.

E, lentamente, assim como a água pingando demora a encher uma pia, ele começou a sentir a moleza do corpo. Mau sinal, pensaria em situações normais; estava ficando realmente bêbado. Nunca foi lá um ás da bebida, mas podia suportar o usual. Mas, depois de três (ou já eram quatro?) garrafas inteiras (por Deus, quantas Demyx trouxe?), até mesmo o melhor dos auto-controles começa a oscilar.

Falando no mesmo, Demyx, no chão, também estava enchendo a cara tanto quanto ele. Mas aquele silêncio... Aquele silêncio não era normal.

Isso porque Zexion podia admitir, mesmo que com hesitação, que conhecia aquele rapazinho o suficiente para dizer que, como um imbecil naturalmente sóbrio, ele devia ser ainda pior quando bêbado, não é?

Ou, quem sabe, como havia pensado naquela noite no ryokan... Tudo aquilo em Demyx não passava de uma fachada...

Não, já estava pensando em círculos e, para completar, demais!

Desviando os olhos azuis do rapaz, da TV, de qualquer coisa, eles acabaram por se fixarem na sitar. Aquele instrumento azul-berrante que mais se parecia com uma cítara enorme.

Demyx carregava-a pra cima e pra baixo, o tempo todo consigo, mas Zexion percebeu que ele nunca vira o outro tocar nada. Nem sequer dedilhá-la. Mais parecia uma espécie de amuleto, apenas; aqueles que se leva no bolso e nem se toca, mas que invariavelmente se acredita trazer alguma sorte.

Respirou profundamente, entornando mais um pouco de seu sake.

- Ei...

E percebeu, com surpresa inocultável, que os dois falaram juntos.

- Fale primeiro. – cedeu.

- Ah, não... – bem, não podia dizer que não imaginou que Demyx diria aquilo. Geralmente, 98% das pessoas passavam a vez. – Fale você primeiro, Zexy...

A voz dele estava meio pastosa, grogue. É, os dois já estavam bêbados.

- Se você não quiser responder por ser muito pessoal, eu vou entender... – ok, estava começando a hesitar.

- Tudo bem. – o tom era indecifrável. – Pode perguntar.

- ...Por que traz consigo uma sitar que nunca tocou?

Virando-se para o outro e apoiando o cotovelo na cama, onde Zexion estava sentado, Demyx ergueu a sobrancelha.

- Quem disse que eu não toco essa sitar?

Meneando a cabeça, o rapaz viu a necessidade de se explicar:

- É claro que você tocou. Isso é lógico. Dá para ver que já foi usada. Mas... – suspirou. – Você não toca. Esse instrumento não tem nenhuma utilidade. Você dedilha, como qualquer néscio em música, sem nenhuma melodia definida. Mas não toca. Não sei como explicar, mas é possível ver quando alguém tem amor pelo instrumento, quando um músico realmente é um músico. E... Eu não sinto isso em você, Demyx. Você não tem essa sitar porque gosta de tocá-la.

- Tudo bem... – resmungou. – A pergunta é, então, “por que você traz isso com você se não toca de fato”, né?

- Precisamente. – concordou.

- E... No que você pensou, Zexy?

O mesmo ergueu a sobrancelha. – Você vai usar minha possível resposta como desculpa, Demyx.

- Não, não. – prometeu, com um sorriso. – Só quero saber o que você pensou. Porque eu sei que você, antes de perguntar, já havia pensado em algo. Afinal... Zexy está sempre pensando.

Antes de falar, Zexion preferiu terminar sua parte do sake.

Com um suspiro, enfim, confessou:

- Achei que podia ser um “símbolo”. Não faço idéia do porquê.

- ...Um símbolo?

Baixando os olhos, ao virar o rosto, Zexion não pôde mais ver o rosto de Demyx. Mas, mesmo sem fazê-lo, soube que foi de extrema melancolia aquela sua expressão. Seu corpo todo cheirava a álcool e tristeza.

- É... – suspirou de novo. – Juro que não estou abusando da sua resposta, mas...

Talvez, seja mesmo um “símbolo” da minha incapacidade. Ou, quem sabe, uma “personificação” da minha ilusão. Como um pássaro que acha que vai ser livre, mas acorda e percebe que ainda está dentro da gaiola, mesmo estando fora dela... É, deve ser isso mesmo...

Era estranho. Não sabia se era por causa do sake ou se fosse por causa do tom da revelação, mas o rapaz de cabelos azul-acinzentados sentiu como se estivesse realmente próximo do outro.

Uma sensação muito estranha. E muito saudosa; porque a última vez que a teve, e disso bem lembrava, foi com Ienzo.

Improvável. Impossível. Alguém que ele conhecia a quase uma semana significando assim tanto, para seus padrões...

...Mas havia uma outra pergunta que Zexion quis ter feito.

Era um verme mordiscando-o. Um incômodo indescritível.

Por que você se trancou no banheiro por quase duas horas, há pouco, e sofreu em silêncio de novo, como fez o tempo todo em Nikko?

Mas era demais. Ou seria demais... Demyx não merecia aquilo.

- Ei. – chamou-o o mesmo, de repente. – Agora, é a minha vez, não é?

- Hum?... – ah, a maldita lentidão de pensamento.

- Já que você fez uma pergunta pessoal e eu respondi, nada mais justo que eu também faça uma, não? – sorriu. – Como um jogo da garrafa sem garrafa nenhuma.

A comparação era cretina, porém, válida...

- Tudo bem... Tem razão. – sentia que, mais tarde, viria a enxaqueca.

- Zexy... – ele também pareceu hesitar.

- Pois não?

- ...Por que você se sente tão culpado?

Zexion sentiu-se gelar. Como se pisasse diretamente na neve da madrugada de Nagano, naqueles verões insones. Era como gelar de dentro para fora, aos poucos.

Não soube o que fazer. Não soube como agir. Nem sequer o que falar.

Mas soube, e disso sem sombra de dúvidas, de que alguma coisa dentro de si reagiu àquela pergunta. Não tinha idéia do quê, ou se simplesmente era algum efeito colateral do fato de estar alterado (para não dizer completamente bêbado, verdade seja dita), mas... Seu peito comprimiu-se.

E veio aos seus olhos, mais uma vez, a culpa. Aquela parede inquebrável, do tamanho de um mundo, tão opaca e tão forte. Ela esteve ali o tempo todo quando Ienzo morreu, parecendo mais um filtro que o fazia ver o mundo sob uma nova ótica.

Era um mundo sem Ienzo, aquele. Um mundo sem nenhuma paz de espírito; porque Zexion sabia o que aquela morte significava.

Ela era seu maior, seu pior, seu mais indizível pecado.

E ele achou tê-la mantido assim, em segredo, à sete chaves, muito seguramente dentro de seu coração. Se ele tivesse um, é claro... Porque, se tivesse um, tinha certeza de que não teria feito aquilo com seu único e adorado irmão.

...Será que, assim como ele conseguia ver, Demyx também podia enxergar aqueles seus segredos, como quem espia de uma porta entreaberta?

- Não me sinto culpado. – negou, inconscientemente.

- ...Eu não menti para você. – lembrou-lhe o moreno.

Verdade. Aquele “pássaro dentro da gaiola” não havia mentido. A pura verdade escapou daquela boca. Era possível identificar isso de longe.

Por isso, não fazia sentido mentir também, não é?

Afinal, Demyx entrevira por sua “porta”. Ele enxergou dentro de sua “gaiola”.

- ...Não, Demyx. Eu não me sinto culpado. Eu sou o culpado. – corrigiu-o, então. – Eu matei meu irmão... Eu matei Ienzo.

Notas finais
[24] Faixa 8 da OST 1 de Kingdom Hearts I.

[25] Bebida doce de arroz fermentado, semelhante ao sake, mas com menos álcool. Crianças o bebem normalmente, mas é bom não exagerar.